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Está no ar o Explicador da Rádio Observador, esta quinta-feira sobre o Chega e as presidenciais e para isso convidamos para estar conosco nas manhãs 360, Ricardo Marques, especialista em direita radical. O Explicador é conduzido pelo Paulo Ferreira e pelo Bruno Vieira Amaral.

As eleições presidenciais ainda vêm longe, mas começam a perfilar-se alguns possíveis candidatos e a desenhar-se também eventuais apoios partidários. O Chega estaria, em princípio, disponível para apoiar uma candidatura do almirante Gouveia e Melo, mas parece que não é uma ideia consensual dentro do partido. Ricardo Marques, muito bem-vindo a este Explicador. Em primeiro lugar, deixe-me perguntar se estas eleições presidenciais são muito importantes para o Chega ou qual a importância que têm para o projeto político do Chega.

Bom dia, obrigado pelo convite. Sim, sem dúvida, as eleições presidenciais são fundamentais para o Chega, para o projeto político em particular de André Ventura, porque são mais um momento no qual o Chega pode tentar fortalecer ainda mais a sua institucionalização. Não esquecemos que este é o projeto desde 2019. O Chega ainda está longe do arco da governação, apesar de todos os esforços que fez nesses últimos anos. E, portanto, as eleições presidenciais são o momento em que o terceiro partido, por importância atual no Parlamento, pode ganhar posições, conquistar pontos para entrar também no arco da governação. Daí a necessidade de jogar muito bem todas as oportunidades daqui ao momento da eleição e confrontar-se com os candidatos do centro-direita às presidenciais, exatamente para poder maximizar o peso eleitoral que o Chega pode pôr na mesa neste momento.

E Ricardo Marques, esse reforço de posição do Chega, nessa lógica que está a definir, também se consegue se o Chega apoiar um candidato que não é um militante do partido, não é André Ventura, ou sobretudo deverá inclinar o Chega para uma candidatura, eventualmente uma nova candidatura de André Ventura?

Não, eu creio, francamente, que assim como vimos no diálogo com o presidente do Conselho, com o primeiro-ministro, aliás, o Chega decidirá a sua posição independentemente daquela que é a resposta dos candidatos presidenciais. Ou seja, se há candidatos presidenciais disponíveis a tomar o Chega como uma contraparte, como um parceiro de coligação para as eleições presidenciais, o Chega será aberto a isso. Se, pelo contrário, os candidatos presidenciais pararem todos para não serem encostados ao Chega, de certeza o Chega não irá dar o seu voto a um candidato presidencial que não reconheça como parceiro legítimo de coligação. E aí, aliás, creio que o Chega terá todo o interesse novamente a por André Ventura na corrida, porque André Ventura neste momento é a única mais-valia para uma corrida presidencial por parte do Chega. Desculpe interromper, não estou a ver que um outro candidato, no momento em que o Chega mantém o isolamento no panorama político, um outro candidato aceite de ser o candidato de bandeira do Chega, queimando-se possivelmente na sua carreira pessoal.

Já vamos falar dessa possibilidade de André Ventura se candidatar novamente às presidenciais, mas quais seriam as vantagens e desvantagens de um apoio do Chega a uma figura como o almirante Gouveia e Melo? O partido parece estar dividido. Por um lado, é uma figura apelativa a uma parte do eleitorado do Chega, por outro, também algumas declarações e a postura do almirante afastaram ou têm afastado alguns dos militantes do Chega de um possível apoio.

Sim, eu diria em primeiro lugar que, que eu saiba, a direção nacional do partido ainda não se exprimiu em relação à hipótese Gouveia e Melo, nem sequer houve um debate oficial dentro dos órgãos oficiais do partido. Portanto, é natural que haja pessoas que vejam com mais favor e outras com desfavor esta ideia do almirante Gouveia e Melo. Mas em qualquer dos casos, independentemente da figura específica do Gouveia e Melo, o interessante para o Chega é que haja um candidato presidencial fora da área do Chega que considere o Chega um parceiro de coligação, portanto, um potencial apoio para as eleições presidenciais. Mas isto a luz do solo, ou seja, no momento em que um desses candidatos com possibilidade de ser eleito se dirige diretamente ao partido Chega, como fazem os outros partidos, e ao eleitorado do Chega reconhecendo a sua importância, aí não tenho dúvida que mesmo as resistências que possam existir junto de uma parte da base eleitoral ou de alguns dirigentes do Chega irão ser ultrapassadas. Por quê? Porque seria uma oportunidade muito preciosa para o Chega, exatamente neste projeto de plena institucionalização e de plena normalização do Chega como parceiro para eventuais governos. Aliás, entre as várias declarações polêmicas de Gouveia e Melo, há também uma declaração na qual ele diz que neste momento não há partidos que ele considere antidemocráticos no Parlamento português. Isto já é um passo à frente em relação ao Chega, considerando as declarações de outros dirigentes políticos. Mas não há dúvida que neste momento são mais as declarações que podem afastar o Gouveia e Melo da dirigência do Chega e do eleitorado do Chega, que não o contrário.

Ricardo Marques, deixa pegar precisamente nisso, nessa avaliação daquilo que tem sido declarações públicas e de alguma forma o pensamento público de Govinda e Mello. Pegando nessas várias peças, que não são muitas, nós conseguimos já traçar um perfil, se quiser, de posicionamento ideológico de Govinda e Mello.

O Govinda e Mello é exatamente como António José Seguro estava a jogar ao centro. A estratégia em Portugal parece aquela de jogar o centro, principalmente quando se trata de eleições presidenciais. Aliás, há várias declarações do Govinda e Mello exatamente de alerta contra a polarização do sistema político, contra os populismos, tanto de direita como de esquerda, contra aqueles partidos que apresentam só soluções fáceis para problemas complicados. É o clássico discurso de confrontação com os partidos radicais.

Mas isso não vai ao encontro das expectativas nem dos militantes, nem de uma parte do eleitorado do Chega.

Exatamente. Desse ponto de vista, o Chega não teria interesse nenhum em apoiar uma identidade política desse gênero, porque aquilo que é o interesse do Chega é objetivamente manter, do ponto de vista parlamentar, a sua posição de polarização do sistema político. Agora, nas eleições presidenciais, o próprio Chega, que sempre foi um partido extremamente realista, sabe que o presidente da República não pode ser uma figura de polarização, não pode ser uma figura de ruptura. Deve ser uma figura de convergência, uma figura de representação de toda a nação portuguesa. Por esta razão, o objetivo do Chega será sempre aquilo de convencer o presidente da República a considerar o Chega como ator legítimo, apesar da sua identidade radical, ou seja, reconhecer que também os partidos radicais têm uma sua função dentro do Parlamento, não só dentro do Parlamento, mas também dentro do arco da governação. Esta é a parte mais importante para o Chega.

E dentro dos nomes que se têm falado, haverá algum inclinado para ter essa perspectiva, essa visão sobre o papel do Chega na política portuguesa?

Não, neste momento o único nome que podia ter algum interesse real para o Chega é o Pedro Passos Coelho, mas o Pedro Passos Coelho já fez saber, pelo menos pelos seus colaboradores mais próximos, penso por exemplo na entrevista que fez aí na Rádio Observador o Miguel Morgado, não está interessado na corrida presidencial e portanto possivelmente daqueles que conhecemos é o único que faria cair claramente estas linhas vermelhas sobre a participação do Chega em eventuais cenários de governação. Todos os outros não, todos os outros mantêm-se muito frios em relação ao Chega. Por quê? Porque sabem que abrir uma porta ao Chega os torna extremamente vulneráveis aos concorrentes do centro ou do centro-esquerda na corrida presidencial. Portanto vão ser meses de grande tática por parte de todos os candidatos do centro-direita. Alguns tentarão de não hostilizar diretamente o Chega, outros pelo contrário irão hostilizar diretamente o Chega. Penso, por exemplo, se avançar a candidatura do Marques Mendes, não estou a ver, depois de anos de comentários a estigmatizar o Chega, que esteja disponível a abraçar também um apoio externo do Chega. Portanto será uma corrida bastante tática desse ponto de vista perante o partido Chega.

Ricardo Marques, já há pouco disse que há uma elevada probabilidade então de André Ventura avançar novamente ele próprio com uma candidatura à presidência, precisamente para ocupar o espaço do Chega. Se isso vier a acontecer, não reforça aquela ideia do Chega ser um partido de uma pessoa só, de alguma maneira, e até que ponto é que isso não poderá desgastar a imagem do próprio André Ventura?

Sim, vamos ver. O objetivo principal do André Ventura é aquilo de tornar-se primeiro-ministro. Não está particularmente interessado em tornar-se presidente da República, apesar de termos um sistema semipresidencial. Mas a verdade é que é o único neste momento, tanto dentro do partido como à volta do partido, que pode ter uma chance, uma hipótese de fazer uma boa figura em eleições presidenciais. Nós já vimos isso nas últimas eleições presidenciais. Aliás, naquela altura, foi interessante ver como a ideia de participar nas eleições foi exatamente do André Ventura. Havia muitas pessoas, até dirigentes do Chega, que não apoiavam essa solução, achavam que era perigoso para o André Ventura concorrer perante candidatos fortes como Ana Gomes e o atual presidente da República naquela altura. Ele com o seu faro político decidiu concorrer e correu bastante bem. Não chegou ao segundo lugar como estava à espera, mas a um terceiro lugar de honra até visto a pouca distância com Ana Gomes. Na cena política atual creio que as coisas não se modificaram muito, ou seja, não há tanto dentro do partido Chega como à volta do partido Chega nenhum candidato que tenha o capital político e social que tem André Ventura.

Mas uma candidatura de André Ventura seria novamente para marcar terreno ou haveria a legítima expectativa de André Ventura, eventualmente se fosse eleito presidente da República, de mudar o sistema a partir da presidência da República?

Não. Repito, o Chega é um partido extremamente realista, portanto imagino que não acredita na possibilidade de eleger o presidente da República. O objetivo é aquilo absolutamente de marcar posição. E ainda mais, nós estamos numa eleição presidencial que possivelmente obrigará a uma segunda volta. Portanto, a ideia do Chega poder ter um peso decisivo depois na segunda volta das eleições é uma mais-valia que o Chega não pode renunciar, não pode teimar dessa forma. Portanto, é indispensável, neste caso específico, desta eleição presidencial específica, poder apresentar-se como candidato que reúna o maior número de votos para uma segunda volta depois por o seu peso na mesa e aí sim desarticular a relação de força habitual que há entre as forças políticas portuguesas.

Ricardo Marques, especialista em direita radical, muito obrigado pela sua participação neste Explicador. Um bom dia.

Muito obrigado. Bom dia.