Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
As autoridades preveem um aumento da mortalidade nos próximos dias devido à nova onda de calor, com temperaturas nos 40 e, em alguns casos, acima dos 40 °C. É nosso convidado, nesta hora, Pedro Ferreira, coordenador de Saúde sazonal da Direção-Geral da Saúde. Bem-vindo, Pedro Ferreira. O que podemos enfrentar? Hoje já está muito calor, amanhã estará pior, sexta-feira ainda pior. O que poderemos enfrentar nos próximos dias?
Boa tarde. Nos próximos dias, como referiu, vamos ter um aumento das temperaturas máximas por todo o território e, principalmente, um aumento das temperaturas mínimas, com temperaturas acima dos 20 °C, que nós normalmente chamamos de noites tropicais, também na generalidade do território. Este episódio tem a particularidade de, para além das temperaturas altas que vamos atingir, a sua duração. É um episódio que é prolongado no tempo e que, para além disso, e por comparação com aquilo que vivemos há cerca de duas semanas, vai afetar a quase totalidade do território, ao contrário de há duas semanas, quando tivemos principalmente a zona do interior e do sul, poupando toda a faixa litoral. Isto acarreta outra condicionante, que é no litoral, que se concentra a maioria da população, portanto vamos ter uma população exposta muito superior àquela que esteve, por exemplo, há duas semanas.
Essa nota que dava sobre as mínimas é importante porque a temperatura, por exemplo, amanhã à noite, aqui na região de Lisboa, será alta. Será ainda mais difícil termos algum arrefecimento à noite, nomeadamente dos edifícios, das casas, e todos sabemos que a qualidade da construção em Portugal é o que é, e as casas são muito frias no inverno e muito quentes no verão. Haverá dificuldade de arrefecer as casas, por exemplo, durante a noite. É isso?
Sim, parte da explicação é essa. As temperaturas mínimas preocupam-nos porque normalmente quando nós temos amplitudes térmicas maiores e as temperaturas mínimas estão abaixo dos 20 °C, quase que nos garantem que pelo menos durante o período noturno, as pessoas estão expostas a temperaturas mais baixas e que lhes permitem alguma recuperação fisiológica dos efeitos do calor durante o período diurno. Outro aspeto que referiu também importante é a questão da temperatura das habitações. Normalmente, as casas aquecem durante o dia e durante o período noturno, através do arejamento, a ventilação, nós conseguimos reduzir a temperatura no interior das habitações. Se as temperaturas mínimas sobem e ultrapassam os 20 °C, esse processo de arrefecimento torna-se mais difícil. Daí nós recomendarmos às pessoas que durante os períodos de maior calor, optem por fechar os estores, persianas, de forma a tentar impedir o aumento da temperatura durante o dia e ao início da manhã e no final do dia, quando a temperatura exterior é mais baixa que a temperatura do interior da habitação, que promovam a ventilação de forma a baixar a temperatura.
E os serviços de saúde estão preparados nessa altura para registar uma maior procura?
Sim, os serviços de saúde estão preparados, têm planos locais de preparação e resposta sazonal em saúde. Normalmente, os períodos de verão não se traduzem tanto na procura ativa de cuidados, como, por exemplo, no inverno, com a epidemia de gripe e outras infecções respiratórias. De qualquer das formas, os serviços estão preparados.
Nestas alturas, os idosos, as crianças e os doentes crónicos são os mais vulneráveis a estas situações de calor. Obviamente que as pessoas devem procurar locais frescos, não estou a errar se disser que uma larga maioria das casas não tem ar-condicionado, tem algumas ventoinhas. O que aconselha à população que faça para tentar, sobretudo os mais vulneráveis, para tentar refrescarem-se um pouco?
Em primeiro lugar, evitar a exposição direta a altas temperaturas dentro do possível. Depois, tentar garantir, pelo menos, um período de duas a três horas diárias num espaço climatizado. Pode ser uma instituição pública, uma biblioteca, pode ser, por exemplo, um centro comercial, pode ser uma igreja, que são espaços que naturalmente são mais frescos, e tentar que esse período de curta permanência num desses espaços lhes permita recuperar da exposição ao calor. Outra medida igualmente importante é a questão da hidratação. Garantir que as pessoas bebem água, pelo menos um litro e meio de água por dia, tendo particular atenção às crianças e aos idosos, que podem ter o reflexo da sede deprimido e, nós costumamos dizer, têm que beber água mesmo quando não têm sede.
Agora não estamos a ouvir nas melhores condições, mas vamos esperar que a ligação fique um pouco melhor. Perguntava-lhe também, e nesta altura há sempre um coro de críticas no sentido de falar em alarmismo. Sempre houve calor, sempre tivemos temperaturas de 40 graus, estamos no verão. Até que ponto é que devemos estar realmente e verdadeiramente preocupados com estas temperaturas e com os efeitos, por exemplo, na mortalidade?
Em termos de temperaturas, estão previstas temperaturas numa intensidade e numa duração que não é nada usual. Só aí temos uma situação de exceção. Por outro lado, temos mecanismos de predição e previsão que nos permitem inferir do impacto destas temperaturas e prever o impacto destas temperaturas mais elevadas na mortalidade. E é nesse sentido que nós temos essa expectativa deste impacto na mortalidade.
E tem algum cálculo feito? Tem alguma estimativa?
As estimativas dependem muito daquilo que vão ser os valores da temperatura que se vão registar. Nós neste momento ainda temos previsões, depois os valores de temperatura que são atingidos em cada dia poderão não corresponder às previsões. De qualquer das formas, nós tentamos, através da nossa ação e dos planos de preparação e resposta ao mal em saúde, minimizar este impacto e tentar que o efeito na mortalidade seja inferior àquilo que os modelos preveem.
Mas consegue dar-nos uma ordem de grandeza, só para percebermos de que risco é que estamos a falar nesta altura?
O risco, neste momento, em termos do nosso plano, nós temos ativado o nível um, que é o nível amarelo, em que temos um conjunto de medidas já implementadas no sentido de dar esta resposta.
E houve algum tipo de articulação com as autarquias? Sei que há um pedido para que as autarquias deem acesso a zonas frescas. Houve algum tipo de articulação que passasse pela Direção-Geral da Saúde ou não?
Sim. A Direção-Geral da Saúde, por norma, articula com um conjunto de parceiros, que vão desde as autarquias, as Juntas de Freguesia, à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, aos seus diferentes níveis, incluindo os serviços municipais de proteção civil, o Instituto da Segurança Social. São um conjunto alargado de parceiros que são ativados para auxiliar neste tipo de resposta.
Pedro Ferreira, muito obrigado pela sua disponibilidade e pelas suas explicações aqui na tarde política da Rádio Observador, neste Explicador. Pedro Ferreira é coordenador de Saúde Sazonal da Direção-Geral da Saúde. O tempo quente vai continuar. Por exemplo, amanhã, os distritos de Lisboa e Setúbal vão estar sob aviso vermelho por causa do calor e este aviso vermelho, na sexta-feira, estende-se a Coimbra e Leiria. De resto, todo o território continental vai estar entre o vermelho, o amarelo e o laranja nos próximos dias, com temperaturas muito altas. Vamos olhar para as máximas previstas: Porto 36, isto amanhã, Braga 38, Viseu 35, Aveiro 30, Coimbra 38, Leiria 38, Santarém deverá chegar aos 42, Lisboa 40, Setúbal 41, Faro 34 e para Évora e Beja 43 de máxima amanhã, 39 para Portalegre e Castelo Branco. Isto amanhã, quinta-feira. Na sexta-feira, a situação vai piorar no que toca ao calor, com todo o país sob aviso laranja, com temperaturas na casa dos 40 e vermelho para Coimbra, Leiria, Lisboa e Setúbal.