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Muito bom dia e muito obrigada por estar com as manhãs 360 do Observador. Hoje, numa prima edição do Explicador, é nosso convidado o diretor do departamento de Pediatria do Hospital da Luz Lisboa, infectiologista pediatra João Farella Neves. Bom dia, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado.

Ontem Portugal registou os primeiros casos de coronavírus. Considera que o país está preparado para conter este surto?

Eu penso que sim. Acho que a nossa experiência dos últimos anos relativamente ao controle de epidemias e de doenças potencialmente mais graves tem demonstrado isso mesmo. E acho que todos nós temos uma responsabilidade social relativamente ao que está a acontecer. E acho que, de facto, é mesmo muito importante passar essa mensagem de tranquilidade, que eu acho que é o que tem que ser feita. Eu não tenho qualquer dúvida que o país está preparado, estará preparado quando o número de casos começar a aumentar, que vai aumentar seguramente. E, portanto, sim, não tenho dúvidas relativamente a isso.

Portanto, a mensagem é tranquilidade, mesmo perante o previsível aumento do número de casos.

Eu acho que o aumento do número de casos é absolutamente inevitável. Como seria inevitável termos os primeiros casos em Portugal. A que propósito é que este país aqui no sul da Europa não ia ter casos? Nós íamos obrigatoriamente ter casos, vamos ter muitos casos, como seria de esperar, e tranquilidade absoluta. Acho que isto é a mensagem que nós temos que passar, é a nossa obrigação.

No caso das crianças, a informação que temos é que elas têm sido mais resistentes a este novo coronavírus. É essa a ideia?

É, e eu acho que isso também é uma mensagem importante. Ou seja, a criança até agora tem sido muito poupada. Nós estamos no início de um surto, honestamente, de uma epidemia, de uma pandemia em início e, portanto, nós não sabemos exatamente, há menos de 100 mil casos no mundo, e, portanto, não sabemos exatamente o que é que vai acontecer. O que parece é que o vírus veio para ficar, e o que parece até agora é que, de facto, a criança é absolutamente poupada e, portanto, há muito poucos casos graves na criança. E isso não é uma novidade. Há muitos vírus que se comportam desta forma, onde de facto a criança contém um sistema imunitário que é ainda menos desenvolvido que o adulto, não responde tão agressivamente e, portanto, não inflama tanto como o adulto e, portanto, tem uma resposta menos exuberante e, portanto, causa-se menos danos a si própria. E, portanto, isso acontece com várias doenças e esta não é uma exceção, aparentemente, pelo que se parece.

Não há mesmo registro de qualquer morte de crianças até aos nove anos em todo o mundo, não é?

Isso mesmo.

Será que também pode estar relacionado de alguma maneira com o facto das crianças viajarem menos e portanto estarem menos expostas ao contágio?

Há menos casos neste momento de crianças, mas aqui também nós não sabemos até que ponto é que, como as crianças são menos infectadas, têm menos sintomas, ainda há poucos casos detectados em crianças por causa disso. Porque que a criança vai ter doença e que provavelmente tem doença menos grave, isso parece ser evidente.

Mas há a possibilidade de transportar o vírus, ou ser portador do vírus, mas não se manifestar a doença?

Com certeza, isso acontece, isso está demonstrado para imensas doenças, e não seria exceção para esta também. É bastante possível. Também acontece com o adulto. Muitos adultos que isso acontece, com a criança, mais lógico será que assim possa acontecer.

Mas o que está a explicar é que é o sistema imunológico da criança que reage menos. Portanto, aqueles sintomas que temos da febre, da tosse e até do desconforto, são menos.

Isso não está provado para este vírus. Ou seja, isso está provado para outras doenças. Para este vírus, isso não está provado, mas é bem provável que assim seja. Ou seja, muitos dos danos que acontecem no adulto, acontecem de uma resposta inflamatória exagerada que causa danos secundários no próprio organismo. E, portanto, na criança isso está menos desenvolvido e, portanto, é uma boa teoria na minha opinião.

E esse contexto, na ótica dos profissionais de saúde e na organização agora dos meios para lidar com esta crise, faz alguma diferença estar numa unidade de pediatria ou numa unidade para crescidos, digamos assim?

Penso que não. Nós tratamos todos os doentes por igual, sejam crianças ou adultos.

Mas os cuidados são os mesmos também.

São absolutamente os mesmos. Quer dizer, nós temos circuitos mais do que definidos, seja para a pediatria, seja para os adultos, com o circuito que é previsto por todas as comissões de controle de infecção hospitalar e que é exatamente o mesmo para a pediatria ou para o adulto.

Tem encontrado muitos pais, muitos responsáveis preocupados com o coronavírus?

Muitos.

Quais são as preocupações?

São as de sempre. Se podem viajar, se não podem viajar, se devem ir à escola, se não devem ir à escola, se devem ir à festa dos amigos ou se não devem ir à festa dos amigos. Quer dizer, eu acho que nós temos que ter uma noção que há recomendações e há degraus de preocupação. E acho que da mesma forma que eu vos digo agora, que acho que nós temos que estar tranquilos, fazer vida o mais normal possível, evitando deslocações desnecessárias e contactos com aglomerados de pessoas desnecessários. De resto, temos uma vida absolutamente normal. Da mesma forma que eu vos digo isto, acho que nós temos que estar preparados para se houver um número exponencial de casos, haver recomendações que possam ser diferentes e nessa altura temos que estar preparados para ela e viver normalmente com elas.

Portanto a mensagem para estes pais também é uma mensagem de tranquilidade, de levar a vida normalmente, mas com algumas preocupações.

Eu não diria preocupações, eu diria responsabilidade social.

Preocupações, não, precauções.

Eu diria mais responsabilidade social do que propriamente precauções. Eu confesso que como pediatra a minha vida é fácil, porque quando me perguntam: "Eu tenho uma viagem para França e devo ir ou não devo ir?" A minha resposta é sempre a mesma: se está preocupado com a sua criança, eu acho que isso é uma falsa preocupação. Se tem uma preocupação social e uma preocupação com os seus pais, aí é um bocadinho diferente. Eu acho que deve partir muito, até haver recomendações oficiais nesse sentido, eu acho que nós temos que ter responsabilidade social, que é essa.

E, portanto, as crianças podem ir às festas de aniversário.

Eu não lhe posso estar a dizer, podem ou não podem. Eu acho que devem. Nesta altura, eu acho que as pessoas devem continuar, no estado atual, a fazer uma vida o mais normal possível No estado atual da informação que temos.

E devem ir aos centros comerciais. Como pediatra imagino que vá dizer que não devem ir muitas vezes.

A minha resposta seria: claramente não faz qualquer sentido ir a centros comerciais.

Mas com ou sem coronavírus, se calhar.

Com ou sem coronavírus, mas especialmente com o possível coronavírus.

De resto, as regras. Por vezes, temos assistido a algumas notícias de crianças em escolas, em ambiente escolar, que há uma reação da comunidade escolar quando sabem de crianças que estiveram em zonas de risco, norte de Itália, por exemplo. Isto faz sentido ou não?

Acho que não faz qualquer sentido. É para isso que existem autoridades de saúde, e temos autoridades de saúde que estão atentas e que emitem recomendações relativamente a isso. Nós, enquanto cidadãos, temos que ter noção que há entidades que dão recomendações e nós as cumprimos. Portanto, neste momento não há qualquer tipo de recomendação relativamente a isso e acho que devem ser seguidas as recomendações vigentes.

O João Farelo Neves contacta também com crianças que já ouvem notícias e que têm alguma informação sobre este novo coronavírus. Elas também estão preocupadas, também sente isso?

Estão, sem dúvida. As crianças estão preocupadas, demonstram muita preocupação, muita necessidade de informação relativamente a este assunto. E eu acho que um dos trabalhos dos pais é informá-las. Acho que tem que ser passada a mensagem que eu estou a passar, que é: há, não um novo vírus, mas um novo tipo de vírus em circulação. É o primeiro contacto que tem com a espécie humana, portanto, estamos a averiguar o que se passa. Parece ter uma mortalidade que ronda os 2% e que atinge essencialmente pessoas debilitadas. Acho que, acima de tudo, as crianças bebem aquilo que os pais lhes transmitem. E se tivermos pais tranquilos, as crianças estão tranquilas, porque as crianças, acima de tudo, são reflexo dos pais. Portanto, se os pais demonstrarem conhecimento e tranquilidade, as crianças estão tranquilas.

E deve-se ensinar-lhes também as regras básicas, lavar mais as mãos.

Obrigado pelo recordatório. Acho que isso é uma mensagem muito importante. Ou seja, nós devemos aproveitar todas as situações, em particular estas, para lembrar a etiqueta respiratória e os cuidados de higiene básicos, de prevenção de doenças às nossas crianças e aos adultos.

E é muito curioso, porque estes métodos de transmissão que nós conhecemos são aqueles onde as crianças, eventualmente, mais falham, mais do que os adultos, e ainda assim, elas são mais resistentes, aparentemente.

Eu não diria resistentes. Sim, resistentes, acho que têm uma doença menos grave. Sim, aparentemente.

Mas são as mais indisciplinadas, por exemplo, para lavar as mãos.

Com certeza.

É sempre uma briga em casa, vai lavar as mãos.

E os infantários, imaginemos, pobres brinquedos.

Mas temos também sempre o outro lado, que é a necessidade delas também não viverem num ambiente demasiado clínico, demasiado limpo. Há aqui um ponto de equilíbrio, e os infantários são um bom exemplo, onde elas estão muito expostas.

Isso leva-nos à teoria da higiene. E o que a teoria da higiene nos fez criar no mundo atual, com o aumento das doenças autoimunes, com as doenças inflamatórias do adulto, que tem muito a ver com a diminuição da exposição das crianças a tudo o que são os bons patogênios da infância.

O diretor do departamento de Pediatria do Hospital da Luz Lisboa, João Farelo Neves, no Explicador das manhãs 360. Muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador.

Eu é que agradeço. Obrigado.

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