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Explicador das manhãs 360 esta segunda-feira sobre o uso de telemóveis nos recreios das escolas: deve ser proibido? É convidada do Explicador a psicóloga Rosário Carmona e Costa, autora de vários livros, entre eles: "E agora? Liberte os seus filhos da dependência dos ecrãs". Explicador com Paulo Ferreira. O debate está então lançado. Mais de 17 mil pessoas já assinaram a petição pública "Viver o recreio escolar sem ecrãs de smartphones". O assunto está também a chegar ao Parlamento. Na semana passada, o Bloco de Esquerda entregou uma iniciativa legislativa para a proibição do uso de smartphones no recinto escolar para crianças do primeiro ao sexto anos. Rosário Carmona e Costa, bom dia, bem-vinda a este Explicador.

Bom dia, Paulo.

Conhece bem estes assuntos. Onde é que está o equilíbrio sobre o uso de smartphones, neste caso, por crianças?

Bom dia, obrigada por este convite e por esta oportunidade. Realmente, como disse, tenho andado a dedicar-me a estas temáticas que muito me preocupam. Agora, a sua questão era quase a questão dos milhões. Onde é que está o equilíbrio? E quando estes tempos são assim tão limitados, se calhar, resumindo o melhor que eu pudesse, eu diria que o equilíbrio está em quando aquilo que eu quero manifestar nos telemóveis, eu consigo manifestar também fora dos telemóveis. E, portanto, se eu conseguir fazer amigos na vida real, então eu posso utilizar o meu telefone. Se eu já consigo gerir as minhas birras porque tenho quatro anos, eu já posso ver vídeos dos bonequinhos no telemóvel. Agora, o desequilíbrio está em quando há coisas que eu só consigo fazer na presença de um ecrã.

Isso parte muito dos hábitos que vão sendo colocados às crianças em casa, antes de mais pelos pais?

Sim, sem dúvida. Não sei se a palavra será só hábitos, porque o ponto de partida nunca é o hábito, o hábito será então a consequência. Talvez a palavra seja aquela que os pais gostam menos de ouvir, que tem a ver com as regras. Tem a ver em que momentos do dia, em que momentos da relação e em que momentos do meu comportamento é que os ecrãs entram na minha vida. E, portanto, quando está claro o que eu tenho que conseguir manifestar para conseguir ter acesso às novas tecnologias, vai necessariamente, e como disse e muito bem, desenvolver-se aqui um hábito saudável da minha utilização com elas.

E Rosário Carmona e Costa, esta questão agora concreta sobre a utilização de smartphones no recreio da escola. Na sala de aula, penso que nem se discute já, obviamente, que o telemóvel não deve ser utilizado.

Tentamos, tentamos, inclusive não estamos a chegar ao fim.

Obviamente. Mas esta questão concreta: deve ou não ser proibido, que é esse o termo, a utilização de smartphones no recreio da escola, no fundo, ou em todo o espaço escolar?

Sim. Quem me acompanha e tem vindo a acompanhar o meu trabalho nos últimos 15 anos, sabe que eu sou muito pouco fundamentalista e trago muito pouco os títulos para o meu lado. Mas na verdade, se eu tivesse que puxar do galardão de especialista, era neste momento que eu o puxava e diria que é a única coisa que eu acho que defendo sem hesitação, é que realmente os smartphones fazem muito pouco sentido em contexto escolar. Não estou a dizer que eles façam pouco sentido nalgumas idades, para alguns quadros fora do contexto escolar, porque às vezes são até facilitadores daquilo que depois vai acontecer na escola, mas de facto há muito pouca evidência de que os smartphones acrescentem o que quer que seja em contexto escolar. Portanto, se nós pensarmos na escola como um contexto de socialização por excelência, como um contexto de aprendizagem formal, com certeza, mas informal por excelência, nós perdemos muita oportunidade de aprendizagem se os nossos olhos não se levantarem do ecrã. E, portanto, é no contexto escolar que eu espero que as crianças estejam a negociar as regras dos jogos. "Primeiro sou eu, depois és tu." É no contexto escolar que eu gostava que eles dissessem: "Não, mas eu já estou farto de brincar a isto. Ontem já brincámos, hoje é a minha vez. E por que é que és sempre tu a mandar?" É no contexto escolar que eu preciso que o jovem diga: "Tu hoje não estás bem", olhando só pra cara, pra o não verbal, pra o sentir. E tudo isto se perde se for mediado por um ecrã. E, portanto, não faz, de facto, qualquer sentido, até porque, e deixe-me só acrescentar, passando-lhe já a palavra, das grandes evidências dos estudos do cyberbullying é que a maior parte, aliás, 90% do conteúdo utilizado em fenómenos de cyberbullying em contexto escolar são recolhidos durante o período letivo. E, portanto, até a inexistência de smartphones em contexto escolar seria um importante primeiro passo para a diminuição de casos de cyberbullying, que, não sei se é do seu conhecimento, tem aqui uma incidência de taxas de suicídio três vezes superior ao bullying dito analógico. E, portanto, de facto, não só tem a ver com aquilo que nós deixamos de fazer se estivermos com os olhos no ecrã, como também aquilo que de nocivo podemos fazer através dos ecrãs, sendo que a escola, que é onde os jovens passam a grande maioria do seu tempo, devia ser um contexto em que estamos a treinar outras competências.

Uma opinião claríssima essa sua então, não faz sentido o smartphone em contexto escolar. E Rosário Carmona e Costa, e depois outra questão: até que idade isso devia ser abolido? Discute-se aqui até o sexto ano de escolaridade, portanto, estamos a falar de crianças até aos 11, 12, talvez, não?

Sim, é muito difícil sempre quando perguntam a um clínico para tentar espartilhar por idades. Porque aquilo que nós sabemos também é que a idade diz muito pouco sobre nós. Imagine, eu sou mãe e tenho filhos com diferente idade e o mais velho, por exemplo, não pode atravessar a rua sem eu estar por perto e já tem mais do que idade para atravessar a rua. Já o mais novo, por exemplo, pode perfeitamente atravessar a rua sem eu estar por perto, eu confio plenamente nas suas capacidades de concentração, de gestão dos impulsos, de controle dos impulsos e, portanto, às vezes diz-nos muito pouco a idade. Tentando só aqui compartimentar para não dar ideia que fugi à sua questão. Se eu mandasse alguma coisa neste universo e se tivesse que escolher, no mínimo, até ao sexto ano, sim, eu erradicava. Embora, se me perguntar daquilo que é a minha experiência clínica e daquilo que é a minha experiência científica ao estudar este assunto, se a malta até ao nono ainda precisa deles, não precisa nada. Até porque aquilo que nós observamos com os adolescentes é que há uma grande resistência que eles nos fazem, obviamente, a fazer uma contenção na sua utilização das novas tecnologias. Mas também quando experimentam e quando passam algum tempo desligados, desde que a interação social se mantenha, como é óbvio, porque é uma fase super importante do seu desenvolvimento, o resultado final, veja-se os campos de férias, veja-se algumas atividades de team buildings, no final, são eles que escolhem: "Realmente o telefone não fez falta nenhuma aqui". E portanto, se me perguntasse, se eu fizesse aqui quase uma bolinha de cristal e adivinhasse qual é que seria o impacto de crianças até ao sexto ano não utilizarem telemóveis nos recreios, era que a partir daí nós dizemos: "Bem, agora já podes usar". E era provavelmente eles que não iriam querer. Não estou a dizer que não queriam ficar sem o seu telefone. O telefone veio para ficar, as redes sociais vieram para ficar, são partes muito importantes da vida dos nossos jovens, são novas plataformas onde eles podem ensaiar as competências de vida real. O que eu estou a dizer é que quando o ser humano se conecta com as características que lhe são mais inerentes, aquilo que nos define como humanos, a interação social, a expressão emocional, a conexão, o sentimento de pertença, quando tudo isto está bem equilibrado, as novas tecnologias não são nenhuma ameaça.

Rosário de Carlos Montez e Costa, sabemos que a utilização desta tecnologia é cada vez mais comum e cada vez mais frequente e acontece cada vez mais cedo na vida das crianças. A pergunta é: vamos imaginar então que agora no recinto escolar, até ao sexto ano, não era permitida a utilização de smartphones, até que ponto essa ausência provocaria ansiedade nas crianças? Ansiedade no sentido de, isto provavelmente implica que já haja uma dependência, não sei se clinicamente o termo é adequado.

Eu acho que falou aqui de várias coisas e vou começar pelo fim só para também os nossos ouvintes poderem ficar descansados sobre a questão da dependência. A dependência das novas tecnologias já está contemplada, tem vindo a ser muito olhada pela comunidade científica nos últimos anos, mas é muito importante termos consciência de que estamos a falar de um quadro patológico sério e da mesma maneira que do ponto de vista neuronal e cerebral, a dependência dos ecrãs ou aquilo que é ativado quando estamos perante este estímulo e o usamos de forma dependente, são exatamente os mesmos circuitos que as dependências de substâncias. E isto é muito importante que todos tenhamos consciência. Portanto, se viermos a desenvolver uma adição à internet, ao videojogo, à pornografia online, ao gambling online, as apostas, os casinos online. Portanto, se houver quadro de dependência, aquilo que nos acontece no cérebro é exatamente o mesmo que se tivéssemos dependentes de algumas drogas, de substâncias, de álcool, etc. Porque aquilo que está implicado são os circuitos da recompensa. E, portanto, eu vou na busca de um estímulo e obtenho a minha recompensa, nestes casos imediata, e então no caso da internet, mais imediato e protegido, é impensável. Portanto, eu já não tenho que sair para ir ao café beber o meu uísque, já não tenho que ir ao casino, tenho tudo à distância de um clique. No entanto, para isto ser um diagnóstico, tem que ter várias características. Há vários critérios de diagnóstico que são contemplados e que têm que seriamente ser olhados para poder haver um diagnóstico. Mas aquilo que eu posso deixar bastante claro, que eu acho que é fácil para todos que nos ouvem conseguir entender, é que tem que estar dois sintomas essenciais: o da tolerância, eu precisar cada vez mais para obter o mesmo nível de prazer, e tem que estar presente os fatores da abstinência. O que é que me acontece fisiologicamente e emocionalmente na ausência do estímulo? E estes casos são, de facto, mais raros. E, portanto, nós podemos estar a pensar enquanto vamos a ouvir esta entrevista, se calhar o meu filho tem uma dependência das novas tecnologias, eu própria posso ter uma dependência das novas tecnologias, mas eventualmente não cumpre critérios para uma dependência, pode cumprir critérios para uma utilização excessiva ou uma utilização inadequada e eventualmente impacto na minha funcionalidade. Agora, para se chegar a um quadro de dependência, já estamos a falar aqui de coisas como os meus jovens que jogam 17, 18 horas por dia, como adultos que são despedidos, que deixam de pagar contas, divórcios, etc. Tem que haver aqui um nível de escalada da utilização e da sintomatologia para haver este título, este quadro, este rótulo de dependência. No entanto, temos uma franja muito grande da população a fazer uma utilização desadequada e uma utilização excessiva. E isto tem que ser olhado.

E neste segundo e último grupo de pessoas, a tal utilização excessiva, sem entrarmos então no campo clínico, se quiser, da dependência, essa ausência em espaço escolar, se esta decisão vier a ser tomada para estas crianças até ao sexto ano, pode provocar algum tipo de ansiedade nas crianças? O medo de não estar presente, o FOMO e vários tipos de fenómenos que toda a gente desenvolve e as crianças também, como é evidente.

Entendo muito bem a sua pergunta e, sendo provocatória para quem nos ouve, eu diria que o primeiro passo seria a geração de ansiedade para os pais, mais do que para os miúdos.

Por estarem sem ligação direta aos seus filhos.

Exato. Mas deixe-me que lhe diga: se eu puder antecipar que realmente, numa fase transitória, estes miúdos poderiam ficar ligeiramente ansiosos, e até tenho alguma dificuldade em acreditar que sim, porque se o contexto escolar, se eles tiverem a possibilidade de brincar uns com os outros, de estimular a sua criatividade, de correr, de jogar à bola, de ter conversas, não consigo imaginar, e desculpe se isto lhe parece demasiado otimista ou se calhar até muito retrógrado, imaginando a minha própria experiência escolar, eu não acho que vá gerar grandes sintomas de ansiedade, porque os miúdos, na verdade, eles querem é ser amigos uns dos outros, eles querem é ser aceites, eles querem é pertencer ao grupo, eles querem é brincar, brincar, brincar, brincar, atrasar a ida para as aulas e, portanto, a ausência dos ecrãs iria permitir tudo isto. Mas vamos assumir o pior dos cenários. Vamos assumir que realmente, a partir da nova medida e a partir de agora não são usados os telefones nos recreios, vamos imaginar que isto gerava aqui um ligeiro pico de ansiedade. A minha crença é que seria um pico de ansiedade muito transitório, porque aquilo que seria permitido que desenvolvessem do ponto de vista das competências, exatamente por estarem desligados, supera as perdas. Portanto, o ganho de eu poder desenvolver uma série de competências que não estou a desenvolver porque estou de olhos postos no ecrã, esse ganho supera a perda de eu transitoriamente achar que não sei o que fazer. E também vou só acrescentar uma última reflexão antes de me calar, que é: se gerar um pico de ansiedade, é provavelmente nas crianças que mais precisam exatamente de ficar desligadas. Porque se gerar um pico de ansiedade, é porque a criança fica aflita de: "E agora, como é que eu me relaciono? Agora como é que eu falo? Agora como é que eu digo que quero brincar? Agora como é que eu giro as minhas emoções? Agora como é que eu me escondo? Agora como é que eu giro a minha timidez?" E, portanto, se as crianças manifestarem alguma aflição perante todos estes "se" e estes "e agoras", é sinal de que foi tirado em boa hora. É sinal de que então ótimo, boa, boa oportunidade então para treinares tudo isso que te estava a deixar tão aflito, porque na verdade vais precisar muito disso vida fora.

Está a produzir os efeitos desejados. Rosário Carmona e Costa, mesmo para terminar, e já estamos a chegar ao fim do nosso tempo, deixe-me colocar aqui, já há pouco falámos dos pais, que provavelmente ficaram mais ansiosos por terem os seus filhos sem o telemóvel desligado do outro lado. Deixe-me só colocar esta questão: será que ao discutir este tema em espaço escolar e eventualmente uma proibição, não estamos aqui a colocar na escola o ônus de uma decisão em que os pais também deviam participar ou deviam ser eles próprios a colocar algumas regras aos seus filhos?

Sim, sem dúvida. Este será sempre um problema sistémico. Portanto, será sempre um problema que embarca todos aqueles que estão à volta das nossas crianças. Ainda assim, tendo em conta que a intervenção parental nós não podemos impor, não podemos impor aos pais que vão ouvir o especialista a falar disto, não podemos impor aos pais que vão fazer uma formação em certo tema. Podemos nós, enquanto instituições mais governamentais, e temos essa responsabilidade, a escola também enquanto local privilegiado para pensar o desenvolvimento, pensarmos e sermos coerentes. Se eu tenho informação neste momento, tenho pastas e pastas, livros e livros que comprovam que esta utilização é danosa para o desenvolvimento das crianças e dos jovens, eu, escola, enquanto instituição promotora do bom desenvolvimento das crianças, vou ter também que agir em conformidade e com coerência. O que eu sinto é que acontece ao contrário. Às vezes as escolas não dão esse passo exatamente para não ter chatices com os pais. Mas veja, da mesma maneira que há escolas que dão o pequeno-almoço às crianças. As escolas não vão deixar de dar o pequeno-almoço às crianças só porque isso seria responsabilidade dos pais. Portanto, da mesma maneira que nós às vezes pensamos: eu estou a gerir esta escola, no caso vamos imaginar o governo, eu estou responsável pelo desenvolvimento das 9:00 às 16:00 por estas crianças, imaginemos este cenário, e, portanto, eu, seja eu quem for, poder decisor, se eu tenho esta informação sobre aquilo que promove ou aquilo que impede o desenvolvimento das crianças de quem eu estou responsável neste período de tempo, devo agir em conformidade com a informação que eu já tenho. E, portanto, o ideal seria, tem que ser um espaço, idealmente, promotor de competências socioemocionais que vão preparar estes jovens para o futuro. Agora, com certeza que os pais não se podem demitir disto e, portanto, estou 100% de acordo consigo, que temos também de pensar como é que os pais podem ser trazidos para a discussão, como é que os pais podem estar melhor informados, sabendo que as escolhas que fazem às vezes para seu conforto, toma lá este telefone, vê lá este vídeo, fica aqui nas redes sociais, que impacto real é que isto está a ter no desenvolvimento dos seus filhos.

Rosário Carmona e Costa, muito obrigado por ter estado neste Explicador e pela clareza das suas posições sobre este assunto. É um debate que seguramente vai continuar nos próximos tempos. Bom dia, boa semana.