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A história repete-se ano após ano, quase sempre com as regiões do norte e centro do país como palco principal. Os incêndios continuam a afetar várias regiões em Portugal continental, zona que coincide também com vários estabelecimentos de empreendimento turístico. Que influência é que os fogos têm para estes negócios e como atrair turistas para as zonas em perigo de incêndio? É para responder a estas perguntas que vamos falar com Francisco Cruz, director do Aqua Village Hotel em Oliveira do Hospital. É o convidado deste último explicador desta terça-feira política, nesta tarde, entrevista que vai ser conduzida pela Raquel Abecasis e pelo Vasco Maldonado Correia.
Bem-vindo, Francisco Cruz, director de um dos principais hotéis em Oliveira do Hospital. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Muito obrigado eu por me darem esta oportunidade de também poder contribuir de alguma forma para o que se está a passar nesta região.
E vamos a isso. O combate aos incêndios ainda está a acontecer. Não sabemos quando é que vamos conseguir passar a uma próxima fase, mas já é possível fazer um balanço preliminar do prejuízo para o hotel, para o Aqua Village, talvez até relativamente a outros anos, Francisco Cruz.
Sim, nós fizemos uma pequena análise comparativa em 2017, quando foram os incêndios de Pedrógão Grande em junho e depois em outubro de Oliveira do Hospital. Estamos a falar de dois meses fora da época alta. Este ano, estes incêndios, embora em termos patrimoniais não tenham sido tão gravosos como foram os de 2017, quando o centro de Oliveira do Hospital ardeu praticamente todo, este ano ardeu 30, 40%, se calhar, não chegou sequer ao hotel Aqua Village, ficou perto, mas não chegou e toda a envolvente ainda está boa. De qualquer das formas, o dano acaba por ser muito superior a 2017, pelo facto de estarmos no meio do mês de agosto.
Isso significa que teve cancelamentos de viagens e de reservas?
Nós, no interior de Portugal, tivemos muito de mercado nacional também, ou seja, é um mercado muito forte. E o mercado nacional, ao longo dos últimos anos, cada vez mais faz as suas reservas mais em cima da hora. Estando nós no meio do mês de agosto, com esta insegurança que as pessoas provavelmente sentem em vir para o interior, porque aquilo que se vê nas notícias é realmente algo bastante complicado, acaba por ser muito complicado, porque as pessoas tendem a cancelar as suas reservas ou mudar os seus destinos e, quer aquelas que já tinham a sua reserva feita, fazem o cancelamento dela, quer aquelas pessoas que iriam fazer reservas agora nos próximos dias, sentem algum receio e, portanto, pensam que o centro de Portugal poderá não ser um destino para as suas férias.
E isso é impossível de quantificar?
Para nós, essencialmente no caso do Aqua Village, estamos a falar de um mês que passávamos basicamente 95, 100% de taxa de ocupação. Esta semana ainda estamos mais ou menos a meio gás, na casa dos 50%, porque havia alguns hóspedes que já estavam no hotel, outros estavam a chegar nestes dias e uma vez que já tinham as suas reservas feitas e pagas, acabaram por vir sem qualquer problema e os serviços são totalmente operacionais, o ar tem toda a qualidade, acaba por ter toda a normalidade cá, sem qualquer problema, mas as futuras reservas, ou seja, desta segunda quinzena do mês de agosto, são totalmente afetadas. Ou seja, a próxima semana já está com taxa de ocupação muito mais baixa, início de setembro a mesma coisa. Por quê? Porque as pessoas, neste momento, para as novas reservas, não sentem confiança ainda a fazer a escolha deste destino como o seu destino de férias.
E nesse cenário, como é que está a funcionar o hotel ao longo destas semanas e sempre que há incêndios, conseguem continuar a trabalhar de forma condicionada?
Sim, nós trabalhamos de forma normal digamos assim, todos estes dias. Obviamente, no dia 15, foi o dia que ele esteve aqui mais próximo, foi o dia que mais nos afetou, embora tenhamos mantido em segurança todos os hóspedes, dentro de uma certa normalidade. Obviamente, toda gente estava preocupada com o que se estava a passar à volta, mas conseguiram ir desfrutando minimamente da operação. Do dia 16 para frente, toda a normalidade foi restabelecida. Quem cá está, está a aproveitar ao máximo o hotel e mesmo a região, porque felizmente Oliveira do Hospital, neste momento, não tem incêndios, não tem frentes ativas. Os concelhos vizinhos têm, Seia e Aguanil, mas Oliveira do Hospital não tem, os trajetos para cá estão totalmente abertos e consegue circular com facilidade, mas efetivamente acaba por ser as pessoas sentirem essa insegurança em deslocar-se para o interior, é um facto.
Houve algum tipo de prejuízo, quantos empregados é que tem o hotel neste momento? Imagino que não residam todos nas proximidades do hotel. Tem havido esse tipo de perturbações de pessoas que não conseguem deslocar-se para o local de trabalho, neste caso, o hotel?
Não, isso não aconteceu. Ou seja, todos os colaboradores conseguiram deslocar-se com facilidade, que são todos, felizmente, aqui das aldeias vizinhas e da própria cidade de Oliveira do Hospital, onde todos acabam por residir. E nesse sentido, não tem havido complicações.
Diga-me uma coisa: a região Centro, que é um destino até muito promovido ao longo do ano para que as pessoas vão conhecer a região Centro com toda a sua variedade de ofertas, este tipo de situações acaba por quase deitar abaixo todas essas campanhas de publicidade?
Sim, eu acho que isto poderá ser algo pontual. Ou seja, acredito que a partir do momento em que haja, no fundo, uma mensagem, digamos assim, para o exterior, de que os incêndios estão dominados, as coisas estão controladas, que, entre aspas, tudo voltará à devida normalidade, que as pessoas sintam novamente confiança em se deslocar para os destinos e que não sejam afetadas nesse sentido. Ou seja, que seja algo pontual e que não destrua toda uma estratégia do próprio Turismo de Centro de Portugal, na sua estratégia para o centro, neste caso, o interior de Portugal. Portanto, penso que poderá ser mesmo algo pontual e que em breve tudo se possa resolver. É preciso é, neste momento, conseguir-se dominar ou extinguir os próprios incêndios para que as pessoas sintam essa confiança em se deslocar para o interior. Acho que isso é o principal.
E Francisco Cruz, a nível dos fornecedores, havendo menos turistas, e falava há pouco disso, dessa taxa de ocupação que deve baixar ao longo dos próximos dias, havendo menos turistas, vão ser também precisos menos recursos. Essa situação, tendo em conta que os incêndios se vão repetindo, está prevista nos contratos com os fornecedores, tem de ser ajustada nesta altura ou acaba por haver inevitavelmente desperdício de comida?
Não, conosco não há desperdício de comida. Temos as coisas muito controladas nesse sentido. O hotel é um hotel pequeno, de pequena dimensão, e quer em termos de recursos humanos, que trabalhamos com os mesmos recursos humanos todo o ano. Felizmente, temos uma taxa de ocupação interessante durante todo o ano, não é um hotel sazonal. E nesse sentido, os recursos humanos com que trabalhamos em janeiro são os mesmos de agosto, sem qualquer variação, e não vamos despedir alguém ou reduzir contratos, ou o que quer que seja, por causa disso. Mantemos o mesmo compromisso com os colaboradores, não é isso que irá afetar. No que diz respeito aos fornecedores, nós trabalhamos muito com fornecedores daqui da região, ou seja, muito com o produto local, digamos assim, o produto de qualidade local. E nesse aspecto também não é todo afetado. Em termos de desperdícios de comidas, não há. Ou seja, podemos reduzir as encomendas, fazemos encomendas duas, três vezes por semana e portanto vamos ajustando as encomendas à ocupação que está prevista para os dias seguintes, mas em termos de desperdício alimentar, isso não existe.
Falou há pouco do número de empregados, mas creio que não chegou a dizer há pouco, mesmo que não haja despedimentos, consegue dizer-nos quantas pessoas trabalham no hotel?
Sim, temos 44 pessoas a tempo inteiro no hotel. Não trabalhamos com extras nem com pessoas part-time, digamos assim, ou seja, todas as pessoas têm contrato. Noventa e sete, 98%, números redondos, são pessoas que estão com contrato sem termo, efetivamente, e independentemente dessa situação, é para continuar. Como dizia há pouco, achamos que isto poderá ser algo pontual e que não vá afetar de forma alguma os próprios recursos humanos.
Mas afeta sempre de alguma maneira, o turismo é o principal motor da região, por isso há de ter algum efeito. Ou seja, não é a mesma coisa trabalhar com 100% de ocupação ou 50%, não é?
Sim, é um facto. Ou seja, trabalhando com menos ocupação, temos uma necessidade inferior de recursos humanos. Aquilo que provavelmente poderá acontecer é os colaboradores poderem ter mais folgas, mas de forma alguma eles irão ser afetados no sentido de haver algum layoff, um despedimento ou algo do gênero associado a isso. Não é todo um objetivo, acho que nenhuma das partes.
Francisco Cruz, diga-me uma coisa. Esta situação, já o disse várias vezes, espera que seja pontual, mas a verdade é que nos últimos anos, esta é uma situação que se tem vindo a repetir, embora dependa muito das áreas já ardidas ou do clima propriamente dito, de verões mais quentes ou verões não tão quentes assim. Tem-se falado muito em prevenção. Aquilo que eu lhe pergunto é se entre os agentes turísticos da região Centro, há alguma ideia ou alguma estratégia de como é que podem contribuir para que esta prevenção ocorra e isso diminua o risco de incêndios, sobretudo nesta altura do ano.
Sim, o ordenamento do território no centro norte do país é muito diferente do Alentejo e do sul do país, em que aí as parcelas de terrenos são de grandes dimensões, enquanto que aqui nesta zona há parcelas pequeníssimas e muitas pessoas nem sequer sabem as parcelas que têm, porque já são muitas heranças. E portanto, isso complica, obviamente, toda essa questão. No que diz respeito aos próprios hotéis, eu acho que se cada um fizer a sua parte, digamos assim, de ter os seus terrenos limpos, tal como tem, por exemplo, o Aquavillas, e ter toda a parte das árvores, digamos assim, do próprio hotel através de árvores folhosas e não resinosas, só aí acaba por já ajudar bastante. Temos visto todos imagens nas televisões e nas próprias redes sociais de que grande parte das aldeias e dos terrenos que ficaram a salvo estavam efetivamente protegidos por carvalhos, por amieiros, por chopos, por plátanos, por aí adiante. Grande parte das árvores são muito mais resistentes O incêndio e conseguem abrandá-lo. Nesse sentido, isso foi algo que aconteceu aqui também na região. Há casas no meio das encostas, muitas delas rodeadas de grandes carvalhos, e isso ajudou muitas das casas a salvarem-se. Se cada um dos hotéis, dos empreendimentos turísticos, tiver uma política de prevenção, ter os terrenos limpos, para começar, e segundo, para ter muita plantação de folhosas, certamente irá ajudar bastante, quando há esse tipo de catástrofes. Não quer dizer que se extinga ali, mas ajuda bastante a controlar as coisas.
Mas é importante também ir fazendo alguma pedagogia junto das populações e esses exemplos são úteis para isso mesmo.
Sim, é certo. As próprias câmaras e juntas de freguesia poderão ter muito mais intervenção nesse sentido do que os próprios hotéis ou os próprios empreendimentos turísticos. Mas o que é facto é que também, como dizia há pouco, uma vez que o ordenamento do território está de tal forma repartido em parcelas muito pequenas e grande parte das pessoas não conhecendo as mesmas, e sabendo toda a gente que o interior de Portugal está cada vez mais envelhecido e não tendo um poder de compra muito elevado, nomeadamente essas pessoas com idades mais avançadas, complica certamente as coisas e acabamos por ter uma floresta, muitas das vezes, num estado mais abandonado, recheada de árvores que não são propriamente as melhores e mais adequadas, quando vêm estas situações de catástrofe.
E sendo esta já uma situação recorrente, os turistas que vão chegando ao hotel e a Oliveira do Hospital perguntam por estas situações, demonstram preocupação com os incêndios ou já vêm alertados, dependendo, claro, se são turistas nacionais ou estrangeiros. Mas vai notando essas perguntas, essa preocupação, há alguma resposta que esteja já prevista a dar pelo hotel?
Sim, aquilo que nós tentamos passar o máximo para os nossos clientes, principalmente através da recepção, que é o primeiro contacto com o cliente, mas depois também através dos restantes serviços, é passar confiança a quem nos visita. Há uma segurança tremenda no hotel, o terreno está totalmente limpo, mesmo que o incêndio chegasse à propriedade, não haveria risco de haver algum tipo de problema lá dentro. E portanto, quem nos visita sente essa segurança. Sente essa segurança através do terreno limpo, através das três piscinas, do rio, de toda a proteção que temos, de muitos amieiros, carvalhos, choupos, plátanos, espalhados por toda a propriedade. Estamos a falar de um terreno grande e, portanto, se confere essa segurança. E as próprias equipas foram sendo formatadas ao longo do tempo para transmitir essa segurança aos próprios clientes. Muitos dos portugueses vão vendo nas redes sociais o que se está a passar, nas próprias televisões, e vêm questionar muitas vezes à recepção o que é que se passou na região, o que é que se tem estado a passar, essa informação mais próxima de nós, mas o nosso papel é sempre o mesmo, transmitir confiança e segurança a quem nos visita. Neste momento é seguro, as pessoas podem vir e nós estamos cá com todos os serviços totalmente operacionais para os receber, com toda a segurança possível.
Já nos disse que aí nas imediações do seu hotel, ou do hotel que dirige, a situação está, apesar de tudo, ainda calma, mas sente preocupação nas pessoas, acha que está completamente eliminado o risco de que o fogo se possa aproximar daí? O que é que tem presenciado da população, de preocupação com esta situação?
O incêndio chegou aqui a esta zona do hotel, ou mais próximo do hotel, no dia 15. A partir do dia 16, deixou de haver algum problema. Houve um ou outro reacendimento, coisa que os bombeiros daqui de Oliveira do Hospital e de Pegas da Beira conseguiram logo controlar aquilo relativamente rápido. O que aconteceu efetivamente é que no dia 15 e no dia 16, fruto de tudo aquilo que se via nas notícias, incêndio em Oliveira do Hospital, nós cancelamos preventivamente as reservas com check-in no dia 15. No dia 16 já estávamos totalmente operacionais, mas desde dia 15, para evitar que as pessoas tivessem a deslocar-se para cá e pudesse haver estradas cortadas ou houvesse algum problema, nós dessas reservas fizemos o cancelamento imediato. Estamos a falar do maior fim de semana do mês a seguir à passagem de ano.
Para fechar, Francisco, por favor.
Como?
Para fechar a ideia, por favor. Estamos sem tempo.
E, portanto, nós fizemos esse cancelamento preventivo, mas neste momento está tudo tranquilo e as pessoas podem deslocar-se com toda a segurança possível para a região.
E é com a esperança de que assim continue, que fechamos este espalhador. Muito obrigado, Francisco Cruz, por ter estado connosco na Rádio Observador.
Obrigado.