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Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador esta manhã sobre o arranque das obras do TGV e para isso é nosso convidado Luís Filipe Menezes, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

O governo está para fechar o trajeto traçado do TGV, que prevê que a estação em Vila Nova de Gaia fique situada em Santo Ovídio. Luís Filipe Menezes, bom dia. Bem-vindo a este Explicador. Obrigado pela disponibilidade. A Câmara Municipal tem uma opinião diferente. Vai continuar a insistir numa mudança da futura estação para Vilar do Paraíso?

Muito bom dia e muito obrigado pela vossa chamada. A nossa posição não é de agora. Eu tomei posse a 5 de novembro de 2025 e logo a 10 de novembro fizemos um documento que enviámos às entidades competentes, às Infraestruturas de Portugal, ao governo e posteriormente, quando foi a primeira análise, o primeiro recap, que foi logo poucas semanas depois, mandámos para a APA o mesmo documento. E convém dizer que este documento faz a unanimidade da Câmara de Gaia com a Câmara do Porto, que também é afetada com esta decisão, nomeadamente com o número de automóveis que vão ser lançados transitoriamente durante cinco a sete anos para a ponte da Rábida, por todas as forças políticas em Gaia. Muitas vezes há muitas divergências com a oposição em Gaia, neste caso, há uma convergência. É uma daquelas muitas situações no nosso país que não se compreende, porque a APA, que é um organismo ligado ao ambiente, quando fez a análise destas duas opções, fez uma análise meramente jurídica dos contratos. Esqueceu-se que esta decisão, por exemplo, entre muito que nós escrevemos, que faz um desaterro no seio da cidade, que demora cinco a sete anos a terminar. Imagine o que era, por exemplo, no centro de Lisboa, no Marquês de Pombal, durante cinco a sete anos, tirar 200 camionetas de terra todos os dias a circular pelo centro da cidade e depois paralisar o Marquês de Pombal, não se poder andar na Avenida da Liberdade, não poder andar em Fontes Pereira de Melo.

Luís Filipe Menezes, na sua opinião, o que explica que tenha sido esta a opção para avançar para o traçado do TGV?

A meu entender, é Portugal no seu melhor. Não é a primeira vez em Portugal que se fazem opções do ponto de vista de grandes obras públicas, quer no aspecto da localização, quer no aspecto dos seus custos, que se revelam serem completamente erradas. Mais ainda, eu tenho a certeza absoluta, há gente no governo que também tem bom senso. Eu tenho a certeza absoluta que o senhor ministro Pinto Luz, que tem a mesma opinião que eu. Mas depois as coisas ganham uma dinâmica.

Mas foi Miguel Pinto Luz que disse que a decisão estava tomada.

Sim, disse que estava tomada, não disse é que concordava com ela. São duas coisas distintas. E não é só o senhor ministro Pinto Luz. Certamente viu, por exemplo, as declarações de um urbanista, que é um prémio Pritzker, o arquiteto Siza Vieira sobre o assunto. Quem somos nós para discutir planeamento urbanístico com o arquiteto Siza Vieira? Mas permita-me acrescentar, por exemplo, o Hospital de Gaia vai ficar com enormes dificuldades de acesso. Vamos ter mais grávidas a nascer em ambulâncias, vamos ter problemas de circulação em toda a cidade, que vai levar determinadas ruas da cidade a que os seus comerciantes possam chegar perto da ruína. E já não entro num outro detalhe que no meu documento não existia, que é que eventualmente num país com as nossas condições, esta estação devia ser a estação Porto Sul, porque ela vai servir dois terços dos habitantes da cidade do Porto que moram mais perto de Gaia do que de Campanhã. Vai servir os habitantes de Matosinhos Sul, que vivem muito mais perto de Gaia do que de Campanhã. Vai servir os 300 mil habitantes de Gaia. Portanto, só um país rico é que se dá ao luxo de ter duas estações a três quilómetros uma da outra.

Que próximos passos é que vai dar, Luís Filipe Menezes, nomeadamente com o ministro Miguel Pinto Luz, sobre esta questão? Ou dá o caso como fechado, sendo que a posição da Câmara de Gaia sai derrotada neste caso?

Nós temos uma excelente relação com o ministro Miguel Pinto Luz. Aliás, deixe-me dizer que se os ministros deste governo fossem todos igual ao Miguel Pinto Luz, o PSD não estava a 10 pontos das sondagens do Chega. É um excelente ministro, é um grande fazedor, é alguém que eu prezo muito. Só que ele também herdou esta situação a meio. E depois não é fácil alterar estas decisões. O que eu vou fazer? Eu não sou um revolucionário, não sou Fidel Castro, nem Che Guevara. Não vou fazer nenhuma revolução e muito menos sou o senhor Mélenchon das coligações islamistas e esquerdistas da Europa. Vou lutar para minimizar, dentro do possível, as consequências desta decisão e vou tentar que existam compensações.

Mas já não acredita que possa haver um recuo nesta decisão de avançar com a estação em Santo Ovídio?

Vou lhe ser sincero, eu acho que não e também seria hipócrita se dissesse que acreditava muito nisso quando fizemos esta última tentativa. Agora, há momentos que pomos a fasquia alta para avisar, para lá adiante vermos quem teve razão e para ganharmos um justo e legítimo espaço para exigir um conjunto de vias alternativas desde já construídas em simultâneo nos primeiros dois anos da obra, que evitem que o caos se instale.

Muito bem, vamos mudar de tema, Luís Filipe Menezes. Pedro Passos Coelho fez uma intervenção pública em entrevista no domingo à noite. Certamente ouviu. Acha que Passos Coelho tem razão quando critica a falta de vontade reformista deste governo?

Eu acho que não têm razão aqueles que criticam Passos Coelho por falar, porque é uma tradição democrática e sempre foi a força do PSD. Lembra-se bem quando Cavaco Silva foi uma peça fundamental da queda de Pedro Santana Lopes, quando escreve aquele famoso artigo das duas moedas.

Boa moeda, má moeda.

Lembra-se, por exemplo, quando o próprio Santana Lopes abandona o PSD, embora agora seja muito crítico de Pedro Passos Coelho, mas quando abandona o PSD discordando da liderança do Rui Rio, ou quando eu próprio discordei da liderança de Manuela Ferreira Leite. Portanto, é preciso que os líderes do PSD leiam a história do partido e convivam com a crítica. Pedro Passos Coelho não é uma pessoa qualquer. É um homem que foi um primeiro-ministro que salvou Portugal numa altura muito complexa e muito difícil. Ele próprio diz que não tem intenções malevas para além daquelas que decorrem da sua consciência de transmitir as suas preocupações. E como lhe digo, ainda ontem vi a declaração, o senhor também ouviu, de Miguel Pinto Luz, a diferença da intervenção de Miguel Pinto Luz com a intervenção de outros, em que o Miguel Pinto Luz demonstrou compreensão, pedagogicamente disse que tínhamos que aceitar essas críticas e conviver com elas. Quando discordamos, vamos em frente, mas relativamente a algumas críticas, há uma parte substancial do PSD e do país que concorda com elas, portanto, só temos que as agradecer e tentar aproveitá-las para mudar algum rumo da governação.

Mas ao fazer estas críticas neste momento, Pedro Passos Coelho não está a fragilizar a posição do governo e até a reforçar a posição negocial do CHEGA?

Repare, quando o professor Cavaco Silva escreveu aquele artigo, hoje parece que foi decisivo pra queda de Pedro Santana Lopes. Portanto, acho que não devemos ter que fazer esse tipo de julgamentos. É evidente que circunstancialmente pode-se ter essa leitura que fez agora, é legítima. Mas também é verdade que podemos ter outra, que é aproveitar algumas das críticas de Passos Coelho para mudar o rumo de algumas decisões. Nós temos que fazer reformas, temos que reformar. É evidente que não tendo uma maioria no Parlamento, isso não é fácil, mas aqui e acolá há coisas que se podem fazer. Há poucas semanas vi o ministro da Reforma Administrativa ir numa televisão queixar-se que não conseguia contratar quiosques para publicitar as suas políticas. Recordou-me aquele ministro da Agricultura que fez uma manifestação contra ele próprio quando foi das vacas loucas. Ou seja, se o ministro da Reforma Administrativa tem que fazer reformas e algumas delas certamente passariam com grande facilidade no Parlamento.

A reforma laboral não passou.

Sim, é verdade que a reforma laboral não passou. Mas também deixe-me dizer que eu sou um apoiante deste governo, tenho dado a cara por este governo em circunstâncias difíceis. Perante uma campanha eleitoral que se adivinhava quase como perdida, eu estava na primeira linha e, portanto, posso também dizer que, a meu entender, a reforma laboral foi um erro, não é que ela não seja necessária, ela é indispensável, e sabemos que quem votou contra ela está a votar contra a história, mas, no entanto, eu penso que taticamente haveria outras reformas mais prioritárias e menos polêmicas para avançar nesta fase da governação.

E quer dar exemplos que reformas poderiam ser essas?

Precisamos de reformas importantes no que diz respeito a combater a burocracia do Estado, a burocracia de poderes intermédios que bloqueiam decisões, continuam a bloquear há dezenas de anos decisões do Estado no cotidiano, fazendo com que os investidores sejam prejudicados. Por exemplo, há um poder excessivo da APA, embora tenha um grande presidente. Há um poder excessivo de outros órgãos intermediários da administração, como por exemplo, alguns ligados à cultura, alguns ligados ao patrimônio, que às vezes impedem que haja um investimento de milhões e milhões de euros por estar a 100, 150 metros de algo que eles qualificam como monumento nacional e não passa de uma pedra enterrada na areia que ninguém viu. Portanto, há reformas que podem ser feitas na saúde. É importante avançar em frente com reformas na saúde. Evidentemente que também se elas não passassem no Parlamento, quem se opusesse a elas também ficaria com esse ônus perante os portugueses, se essas reformas aparecessem como corretas, sensatas e necessárias.

Luís Filipe Menezes, quase a chegar ao fim. E voltando aqui às declarações públicas de Pedro Passos Coelho e às reações que motivaram no PSD, por oposição à reação de ontem de Miguel Pinto Luz, presumo que critica a reação de ontem à noite no Porto, Luís Montenegro.

Eu não ouvi a do doutor Montenegro no Porto. Não sei o que terá dito.

Não leu ainda nada sobre isso esta manhã.

Imagino que será na esteira do que ele tem dito sobre a questão de manter a linha de determinada linha no que diz respeito ao CHEGA. Eu aí vou um pouquinho no caminho, apesar de não ter gostado muito ontem da intervenção do meu amigo e colega, grande amigo Pedro Santana Lopes, que talvez haja a tentação de seguir o caminho que seguiu António Costa, que é empurrar o tempo pra frente com a barriga, no pressuposto de que há uma conjuntura econômica mais ou menos favorável. Infelizmente, ela hoje já não é tão favorável como foi para o doutor António Costa, e com isto, com algumas medidas positivas tomadas na esfera fiscal, no IRS, mediadamente os escalões mais baixos, tomadas na área social, com aumento de pensões, que sejam suficientes pra chegar lá à frente e vencer eleições.

Acha que depois destas intervenções públicas, Pedro Passos Coelho ficou obrigado a apresentar-se a eleições diretas internas, coisa que não aconteceu nas últimas?

Eu não sei, isso é uma pergunta que terá que fazer ao doutor Pedro Passos Coelho. Neste momento, temos um presidente do partido legítimo, é um primeiro-ministro legítimo. Eu confio nele ainda, eu acredito que ele tem condições para seguir em frente. Siga os conselhos do ministro Pinto Luz.

Muito bem, Luís Filipe Menezes. Muito obrigado pela disponibilidade para estar neste "Explicador" nesta manhã. Obrigado, bom dia e boa semana.

Muito obrigado.