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A única mulher, antiga líder do PSD, entre os oito ex-presidentes do partido convidados por Luís Montenegro para o almoço de aniversário dos 51 anos do PSD, foi ontem. Manuela Ferreira Leite é hoje entrevistada no "Explicador", nesta primeira semana de campanha, por mim, Vanessa Cruz, e pelo Miguel Vieira.

Bem-vinda a este "Explicador", dra. Manuela Ferreira Leite. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. E vou começar esta conversa por lhe pedir já antecipadamente desculpa pela interrupção nesta entrevista, caso se aviste fumo na chaminé da Capela Sistina, para uma breve viagem até à Praça de São Pedro, no Vaticano, para o enviado especial d'"O Observador", João Francisco Gomes, nos dar conta da decisão desta primeira votação para a escolha do sucessor do Papa Francisco. Bem-vinda, como diria si, dra. Manuela Ferreira Leite, a honra de apagar ontem as velas do bolo de aniversário número 51 do PSD. Saiu deste almoço com um trava doce, pela imagem de unidade que transparece do encontro que reuniu vários antigos líderes, ou deixou a São Caetano à Lapa com outros sabores a percorrerem os sentidos?

Muito boa tarde. Agradeço a interrupção relativamente à visão da cor do fumo que poderá sair da chaminé que nós todos estamos com os olhos postos. Queria dizer que saí com um sentimento muito confortada, porque havia alguns antigos líderes que, por motivos da vida quotidiana de cada um, não via há muito tempo. Aliás, mesmo há muito tempo. E portanto, é o tipo de reencontro que é sempre muito gratificante. E uma coisa absolutamente visível, e que muito me sensibilizou, foi o fato de ver a forma como todos se reencontraram numa verdadeira confraternização e alegria pelo encontro. Não foi um encontro formal, foi um encontro muito afetivo. E esse aspecto penso que é muito de sublinhar.

À chegada, Luís Filipe Menezes dizia que o PSD é um partido belicoso e que este almoço vinha dar um sinal de unidade. É mesmo assim ou o recado que Pedro Passos Coelho deixou pode ter sido um pouco mais difícil de digerir para Luís Montenegro?

Eu considero exatamente que não encontro recados belicosos. Cada um fez a sua declaração à entrada do almoço, que era evidentemente expectável. E é evidente que aquilo que ele disse, do meu ponto de vista, não é nada de extraordinário. Toda a gente sabe que o Partido Social-Democrata é um partido que ao longo da sua vida, quer como responsável pelo governo, quer em situação de oposição, sempre foi um partido reformista, que não deixou a situação, seja ela qual fosse, a degradar-se sem qualquer espécie de intervenção. Sempre teve uma visão que vem do dr. Sá Carneiro e que foi protagonizada de uma forma absolutamente visível na transformação que fez ao país durante os mandatos do pastor Cavaco Silva e que todos os líderes direi que não se atrevem a dizer que não há um movimento reformista e de preocupação com as pessoas e com o aumento do bem-estar das pessoas. Portanto, o que ele disse não é nada de especial, nada de novo. Evidentemente, o que é necessário é haver condições políticas para isso.

Era isso que lhe ia perguntar, para saber se na sua análise e na interpretação que faz, Pedro Passos Coelho não abriu caminho que o PSD e a AD não afaste por completo o entendimento com o Chega que permita esse apoio que leve por diante o tal ímpeto reformista defendido pelo antigo primeiro-ministro.

Ouça, todas as coisas na vida não se fazem sem um preço. E portanto, é evidente que seria absolutamente fantasmagórico que alguém pensasse que o dr. Montenegro, de repente, depois de ter afirmado e afirmar categoricamente, e ter já demonstrado que o faz, que o não é não, e portanto, que não se fará nenhuma coligação com o Chega, que essa hipótese possa estar em cima da mesa. Não vale a pena estar-se a pensar nisso, estar a levantar esse problema. E não creio que o dr. Passos Coelho, não o disse, não sei se pensa, mas não disse isso, estivesse a pensar no Chega. Pode estar a pensar, como qualquer cidadão poderá pensar, que para haver alguns tipos de decisões que são importantes para o progresso do país, seja necessário haver uma maioria maior do que aquela que havia neste momento. E portanto, é com esse objetivo que as pessoas neste momento devem encarar a eleição, que é um governo com uma força maior do que aquela que tinha.

E Luís Montenegro tem usado essa expressão, maioria maior, sendo que nas últimas horas até falou num ciclo de oito anos de governação. Acredita que esse voto de confiança, quiçá até uma maioria absoluta, possa ser dado já nestas eleições, pese embora o caso Spinola Viva?

Acho que os oito anos podem efetivamente suceder sem ser com a maioria absoluta, mas haver uma maioria mais estável. Eu acho que a maioria da população percebe isso, percebe que a instabilidade não conduz ao progresso do país e que a esquerda, neste momento, também não oferece nenhum tipo de estabilidade, nem qualquer hipótese de um governo que pudesse seguir todas as modificações e alterações que possam ter que ser feitas em termos de funcionamento do país. Acho que fica bastante claro que a alternativa é, evidentemente, uma maioria mais forte à Aliança Democrática, independentemente de não haver uma maioria absoluta. Os portugueses julgarão da bondade ou da maldade dessa solução. Mas estou convencida que as pessoas, de um modo geral, valorizam muito a estabilidade e valorizam muito o trabalho que este governo tem feito.

Há este caso da Spin Livro a pairar sobre esta campanha da Aliança Democrática. O primeiro-ministro e o candidato a presidente do PSD, Luís Montenegro, tem reiterado a ideia de que não fez nada de ilegal. Cavaco Silva escreveu um artigo publicado aqui no "Observador", precisamente considerando que Luís Montenegro não violou princípios éticos. É uma opinião por si partilhada?

Com certeza. De resto, é por mim partilhada e partilhada até por todos os órgãos decisores deste país, pela Procuradoria-Geral da República, por tribunais constitucionais, por qualquer tribunal de outra natureza. Ainda não houve nenhum tipo de acusação, porque não há por onde. Porque uma coisa é aquilo que a pessoa tem meios para fazer ou poderá fazer, outra coisa é ter meios para fazer, mas não faz. Eu tenho aqui várias facas em casa, portanto posso com certeza esfaquear alguém, mas não me passa isso pela cabeça. Quando a pessoa está a ser julgada por aquilo que pode fazer, de acordo com determinado tipo de situação, mas que efetivamente não fez, nem faz, as pessoas ou as instituições que poderiam julgar isso têm estado todas caladas. Ainda não ouvimos nenhum tipo de acusação. Quando nós ouvimos algum tipo de acusação por parte de entidades que dão simplesmente a denúncia anónima e outros tipos de acusações que são feitas apenas com afirmações de boca, evidentemente que as pessoas percebem.

Mas há, doutora Manuela Ferreira Leite, a parte judicial e depois há a parte política e a parte ética. Nem a empresa familiar do primeiro-ministro receber uma avença mensal de € 4500 da Solverde pode ter aqui uma leitura desse ponto de vista ético?

Já haverá um primeiro-ministro que receba uma avença do pai, porque o pai tem uma empresa e lhe dá uma avença todos os meses. Isso já não tem mal? Quer dizer, qual é o critério ou qual é a análise que é feita nesta matéria?

Não parece que o Luís Montenegro podia ter gerido este processo de forma diferente, eventualmente, ter passado de imediato a empresa?

Tudo na vida pode ser de forma diferente. Neste momento estamos em campanha eleitoral, vamos escolher um governo. Os argumentos que existem sobre o Luís Montenegro, estamos à beira das eleições e ainda não surgiram. Portanto, a única coisa que pode surgir é a discussão daquilo que ele promete que vai governar. Só para isso é que servem as eleições e só para isso, neste momento, é que serve a campanha eleitoral. Nós estamos a deturpar o sentido útil do voto e a democracia pode estar em causa. Temos que ter isso em consideração, porque se queremos pessoas capazes, se queremos pessoas independentes, se queremos pessoas com modos de vida, com experiência profissional, que nos governem, nós não conseguimos isso na base do que se está a passar neste momento. Eu, por mim, não utilizo sequer esse tipo de argumentos. E quando eles surgirem, então tomaremos essa decisão. Eu fiz uma campanha eleitoral quando era presidente do partido, fiz campanha eleitoral com o Dr. José Sócrates. Nunca ninguém me ouviu uma palavra sobre algum assunto que não fosse o assunto do governo. Nenhuma. Portanto, não tenho nenhuma adesão a este tipo de política que é feita não com base nos interesses do país, mas na base do interesse de como é que se ganha uma eleição a todo o custo. São duas coisas completamente diferentes. Eu faço parte do grupo que pensa que vamos para eleições, vamos escolher o governo, que nós consideramos que é aquele que nos dá estabilidade e alguma possibilidade de não nos afundarmos de vez. Assuntos de outra natureza têm efeitos provavelmente perniciosos, mas conduzem a uma situação que é bastante antidemocrática. Eu não imagino o doutor Mário Soares ou o doutor José Sampaio a fazerem uma campanha semelhante a esta. Não os imagino a fazerem.

E apesar deste caso Spin Livro, que acabou por precipitar um país a ir de novo a eleições, a AD acaba por consolidar a vantagem nas sondagens e até poder aspirar uma maioria absoluta com a iniciativa liberal. Falou há pouco do CHEGA e desse "não é não", que no seu entender Montenegro terá de manter, tendo em conta também aquilo que foi prometendo. Veria com bons olhos um entendimento pós-eleitoral com os liberais? Podem ajudar a avançar com essas reformas que o país precisa?

De momento, em relação ao programa que tem a Iniciativa Liberal, não vejo nenhum motivo para que seja um partido cujas ideias possam criar alguma repulsa por parte das ideias da Aliança Democrática. Portanto, em termos de composição da Assembleia, parece-me que é uma possibilidade que não me repugna, como é o caso do Chega.

Partilha a visão económica da Iniciativa Liberal, em particular, defende também uma descida acentuada dos impostos?

Tenho dificuldade em estar neste momento a fazer uma análise em pormenor sobre os diferentes sectores. E o repugnar é algo que não é para mim um termo muito adequado à tomada de decisões que possam ser essenciais para o país. A questão dos impostos, evidentemente, que é uma questão absolutamente decisiva. Uma questão é haver uma redução brutal de impostos, mas haver reduções de impostos no sentido de criar riqueza no país. Disso não tenho dúvida, que não vai haver aumento de riqueza no país se não houver uma redução, não sei se é redução, é incentivo, sejam eles quais forem. Incentivo para que as empresas que criam riqueza possam distribuir. Como é que nós podemos obrigar os empresários a aumentar os salários dos funcionários e as suas condições, que todos defendemos, se não lhes dermos meios para eles aumentarem essa riqueza para a poder distribuir? Não se consegue distribuir aquilo que não existe. E não existe forma de pôr um país a funcionar simplesmente fazendo aumentos através de meios que são obtidos através de impostos sobre empresas. Ainda por cima, não nos podemos esquecer, e este ponto é muito importante, que quando nós falamos nas nossas empresas, infelizmente, as grandes empresas são muito poucas. São tudo pequenas, médias, pequeníssimas empresas. E não conseguimos competir com outros países que efectivamente têm grandes empresas e conseguem uma criação de riqueza e a sua distribuição, porque esse é um ponto essencial do programa da Aliança Democrática, e evidentemente, que é também a distribuição da riqueza. Mas não há como distribuir se não tenho.

Estamos mesmo a aproximar-nos do final da nossa entrevista da doutora Manuela Ferreira Leite, mas queria ainda perguntar-lhe: a oposição tem acusado a AD de estar a fazer campanha com procedimentos da Agência para a Integração, Migrações e Asilo, a AIMA, são procedimentos administrativos, isto depois de ter anunciado a deportação de 18 mil imigrantes, um número entretanto já atualizado à Rádio Observador pelo governo, agora já serão 22 mil imigrantes. Estão a ser usadas estas pessoas como arma de arremesso na campanha de Luís Montenegro?

Não creio. A única coisa que se verifica é que houve efetivamente nos governos do Partido Socialista uma entrada absolutamente incontrolável de imigrantes para o país, do qual o país precisa. E ao precisar deles, deve acolhê-los e criar as condições necessárias para os acolher com dignidade, com conditionnal, e não abrir as portas e depois pô-los a dormir no meio da rua. É algo que é absolutamente impossível de se manter. Para além de terem acabado com o SEF sem perceberem que isso ia ser evidentemente algo de incontrolável. Portanto, direi que a herança que se recebeu nessa matéria não é muito melhor do que aquela que se recebeu noutras. E aquilo que está a ser feito é aquilo que é necessário fazer para que se mantenha a possibilidade de o nosso país ser um país que recebe imigrantes, porque é necessário efetivamente também para esse crescimento económico. Não temos população suficiente para cumprir determinado tipo de tarefas, é o caso do turismo ou o caso da agricultura, todos sabemos isso. Agora temos que lhes dar condições. Nós somos humanos e com preocupações de natureza social, que não nos pode permitir perpetuar com a situação como tal a encontramos.

Doutora Manuela Ferreira Leite, estamos de saída. Gostava só de lhe fazer uma pergunta para perceber que expectativas tem em torno desta eleição do novo Papa, do sucessor de Francisco. Acredita na possibilidade de vir a ser escolhido um Papa de nacionalidade portuguesa?

Há muitos anos que falo disso, até porque conheço bem o Cardeal Tolentino Mendonça, penso que é nele que está a pensar.

Estamos todos.

Estamos todos. Parece-me que do ponto de vista, pelo menos se se quiser seguir uma ideologia semelhante à do Papa Francisco, acho difícil que neste momento haja alguém da Europa. Eu diria que o Papa que virá a ser eleito terá uma enorme probabilidade de não ser europeu.

E assim sendo, ainda não vai ser desta. Doutora Manuela Ferreira Leite, e assim sendo, ainda não vai ser desta que vamos ter outra vez um Papa português. O que é considerado também um handicap. Sendo agora escolhido para liderar a Igreja Católica, o próximo Papa e o próximo Cardeal teria que esperar vários anos, pelo menos acreditando naquilo que é a esperança média de vida e a lei da vida para que fosse escolhido um sucessor de Tolentino Mendonça. Doutora Manuela Ferreira Leite, muito obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade e pela sua presença neste Explicador da tarde política do Observador.

Boa tarde.