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Já é conhecida a lista do PS às eleições legislativas em Lisboa, com duas surpresas: a saída de Fernando Medina e a entrada de Hugo Mendes. Entretanto, em Aveiro, Pedro Nuno Santos foi alvo de forte contestação na aprovação dos nomes. É sobre este e outros temas que é convidado para este "Explicador" Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde. Uma entrevista conduzida pela Judite França e pela Raquel Pecasiz.
Adalberto Campos Fernandes, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Ficamos a saber nas últimas horas que Fernando Medina não vai ser candidato a deputado nas próximas eleições e, ao contrário, Hugo Mendes, o ex-secretário de Estado das Infraestruturas de Pedro Nuno Santos, que se tornou célebre pelo célebre caso de indenização à Alexandra Reis, ex-administradora da TAP, vai entrar nessas mesmas listas. Que sinais é que lê destas primeiras escolhas?
Eu não queria particularizar muito, a não ser relativamente a Fernando Medina. Eu acho que a não entrada de Fernando Medina, aparentemente por opção dele próprio, é de facto um sinal negativo. Os partidos têm que reflectir a diversidade daquilo que é a sua inserção na sociedade, a sua própria composição interna e a sua própria diferenciação interna. E portanto, o Fernando Medina não é um militante qualquer. É um militante prestigiado, exerceu funções importantes. Para além de autarca, foi ministro das Finanças, aliás, um bom ministro das Finanças. Aparentemente, a opção foi pessoal, foi dele. Quanto a isso, enfim, não poderemos fazer muito mais a não ser lamentar. Mas eu, sem me fixar estritamente no Partido Socialista, diria que há aqui um problema que se acentua de eleição para eleição: é que os partidos se fecham sobre si próprios, a sua capacidade de recrutamento, por vontade ou por falta de possibilidade, começa a ser um sinal. Repare, eu lembro-me ainda de Alexandre Quintanilha encabeçar, por exemplo, a lista do PS pelo Porto e a relevância que tem abrir os partidos à sociedade civil, à vida real, a pessoas que trazem valor. E nós vemos também no PSD a situação de Hernani Dias em Trás-os-Montes, que os partidos estão muito reféns de lógicas internas, de combates de poder, lógicas de poder interno, de alinhamento, e isso diminui a qualidade da democracia. Portanto, sobre isso não vale a pena nós dizermos muito, porque é óbvio que os partidos deveriam ser uma representação.
Mas acha que Pedro Nuno Santos deveria ter feito mais para tentar segurar Fernando Medina nas listas?
Há aqui um aspecto que tem sido pouco discutido no debate público, que é este: eu penso que verdadeiramente nenhum dos partidos, sobretudo os dois maiores, estariam a contar que houvesse eleições agora. Eu acho que esticaram a corda, foram esticando a corda e de esticar em esticar, até que a corda partiu. E repare, o PS tinha anunciado o secretário-geral, a organização dos Estados Gerais, que procurasse mobilizar a sociedade, os independentes. Não houve tempo. Tudo isto agora está a ser feito a correr. O PSD, nesta matéria, leva vantagem porque arrumou esta questão do ponto de vista mediático, pondo os ministros todos em cabeça de lista. E repare, pouco ou nada se fala do PSD, a não ser do candidato a deputado Hernani Dias, por Trás-os-Montes. Eu diria que esta falta de tempo talvez tenha precipitado um refúgio na chamada prata da casa. E portanto, nós estamos a trabalhar com a prata da casa, nas apostas seguras, que dão confiança aos líderes, que são protetoras, que não trazem nenhum tipo de risco face a situações imprevistas.
Percebi que não queria falar da escolha de Hugo Mendes, mas também haverá uma tentativa do secretário-geral do Partido Socialista de, desta vez, trazer para as bancadas do PS socialistas que lhe são mais próximos, como é o caso de Hugo Mendes e de outras escolhas que venha a fazer.
Está no seu direito, embora, repare, não é apanágio do atual secretário-geral do Partido Socialista. Muitas vezes, os líderes partidários parece que têm uma especial atração por contrariar aquilo que é o sentido público e o sentido da perceção pública das coisas. Às vezes, por uma questão de necessidade, de equilíbrios internos, outras vezes porque pensam que com isso fazem uma afirmação de força. Para mim, força, e para muitos outros, não é isso. Para mim, força é qualificar o Parlamento, qualificar o debate político, elevando a fasquia daqueles que nos representam, independentemente até de serem militantes há mais ou há menos anos. Mas quer dizer, nestas matérias, quem põe a cabeça em cima do sebo, como costumo dizer, é quem decide e é quem tem a sua responsabilidade, para o bem e para o mal. Pode correr bem, pode correr mal, não sabemos. Teremos que ver.
Nas últimas eleições, havia o compromisso de tentar respeitar, na feitura das listas, os 37% que José Luís Carneiro conseguiu nas eleições internas. Pedro Nuno Santos já está desobrigado dessa regra agora?
O Pedro Nuno Santos é o secretário-geral do Partido Socialista. Ele tem o poder democrático e o poder que lhe é conferido por uma vitória num congresso. E, portanto, a partir do momento em que um congresso se realiza, eu diria que transitam em julgado os poderes informais ou os poderes fácticos que possam existir. Isso não existe. A afirmação de um líder é algo muito importante num partido, não só no plano interno, mas também pelo país. Às vezes, os líderes esquecem-se que o que estão a fazer dentro Está a ser visto de fora pelo país. São essas imprudências que muitas vezes levam a que existam surpresas menos agradáveis. Qualquer líder deve ter a preocupação de ser, não digo generoso, mas deve compreender que os partidos não são monolíticos, enfim, existem infelizmente alguns, mas estão em vias de extinção, que a diversidade acrescenta valor e um líder forte não tem receio de se confrontar com companheiros de partido ou camaradas que em determinada altura o desafiaram para uma luta leal e legítima dentro de um quadro pré-eleitoral no Congresso. Mas cada líder é como é, cada pessoa é como é. Imagino que a estratégia seguida resulta, que o partido sai mais forte, que de facto tudo isto significa uma maior ligação à população, às comunidades. Eu não o faria assim, sou-lhe franco , particularmente no que diz respeito a dois quadros que acabou de referir que têm enorme valor político. O caso do Fernando Medina, que já referimos, e o caso do José Luís Carneiro, que presumo que irá naturalmente nas listas, mas não necessariamente que haja aqui alguma obrigação, temos que ser justos, do secretário-geral definir quotas ou definir partes de listas. O que eu entendo que o José Luís Carneiro tem direito naturalmente é a ser tratado com a dignidade que lhe advém de ser um militante que disputou a liderança e teve um resultado bastante significativo.
Há muita especulação sobre a saída das listas de alguns nomes fortes do costismo. Podemos ver isso acontecer?
Eu não sei o que é o costismo. Eu percebo a pergunta, nem sei o que é o pedronismo. Eu só sei o que é o Partido Socialista. E um Partido Socialista tem de certeza, para ser forte e para se afirmar junto do país, tem pessoas que estiveram mais alinhados com António Costa, mais alinhados com António José Seguro, até com José Sócrates. Os partidos têm história. E é claro que nos partidos há sempre aquela coisa de que o líder presente é sempre aquele que representa a força e que tem a capacidade de decidir. Mas a memória não se apaga. Nós olhamos para os diferentes protagonistas, militantes com 10, 15, 20 anos, que serviram o partido em diferentes momentos e com diferentes líderes. Eu não vejo como muito até, se quiser eticamente, muito aceitável que as pessoas reneguem o seu próprio passado. E que isso, por outro lado, seja de facto um anátema. Por que razão alguém que trabalhou com António Costa ou foi ministro de António Costa ou foi próximo de António Costa não poderá ser, por exemplo, a Mariana Vieira da Silva, ao que parece, vai ser cabeça de lista por Lisboa e era uma das pessoas mais próximas de António Costa. Não vejo que isso seja um fator nem de inclusão nem de exclusão, porque a história das pessoas nos partidos tem anos, tem décadas.
Mas reconhece que há uma tendência e uma vontade de Pedro Nuno Santos de descolar do rasto dessa liderança.
Sou-lhe franco, porque não sei por quê.
Mas reconhece que sim ou não?
Não. Eu reconheço que isso pode parecer à opinião pública e até aos jornalistas e a quem analisa o processo político, pode parecer assim. Mas eu sou-lhe franco, não me faz nenhum sentido, porque António Costa pode ter cometido muitos erros, e eu muitas vezes também critiquei coisas que correram menos bem, como outros, mas não deixa de ser, no Partido Socialista, uma pessoa que o projetou para não só um tempo de exercício governativo muito prolongado e que teve uma maioria absoluta de grande expressão, até inesperada, mas de enorme expressão, e que é um político nacional e internacionalmente com elevado nível de reconhecimento. Agora, eu acho que se um partido desvaloriza ou diminui esse seu próprio patrimônio, que são os antigos líderes, e ainda por cima líderes que estão no ativo, que António Costa é presidente do Conselho Europeu, não se reformou. Não percebo. Essa ideia de matar o pai. Às vezes diz-se que os líderes para se afirmarem têm que matar o pai, têm que matar os pais fundadores ou têm que se afastar dos pais fundadores. Não, o António Costa não tem lepra. É um dos maiores ativos do Partido Socialista, goste-se ou não se goste do seu estilo, tenha-se ou não a consciência de que aqui e ali terá cometido alguns erros, mas quer dizer, não há, para além de Mário Soares, líderes que tenham projetado o Partido Socialista durante o tempo de governação e depois da governação. Eu penso que isso não faz nenhum sentido. E essa questão da caça às bruxas isso não existe.
Tendo em conta isso que disse e conhecendo o Partido Socialista como conhece, qual é que é o seu feeling sobre a forma como o Partido Socialista está a partir para estas eleições? Vou só dar aqui um exemplo que tem ainda a ver com listas, que é o facto da lista pelo círculo eleitoral de Aveiro, que é encabeçada por Pedro Nuno Santos, foi a votos e teve 26 votos contra. Acha que há, ainda que de uma forma silenciosa, um certo desagrado com a liderança de Pedro Nuno Santos?
Não tenho informação que me permita chegar a esse ponto. O que eu lhe digo é que é estranho, e não é bom, que o processo de construção de listas esteja a ser como tem sido discutido na praça pública e que algumas diferenças que existam, que são sempre normais e também existirão no PSD e nos outros partidos quando esse processo estiver a ser finalizado, que sejam praticamente conhecidas online, em tempo real. A luta por lugares nos partidos, ainda por cima num quadro em que os partidos disputam menos lugares, porque há uma fragmentação parlamentar, quer o PS, quer o PSD têm hoje menos deputados do que teriam Antes da reconfiguração parlamentar, essa luta é muito forte e cada federação, cada concelhia quer colocar naturalmente os seus próprios representantes. Não é bom, não dá um sinal de força nem de unidade isto ser feito na praça pública. E também lhe digo: as lideranças afirmam-se não por fugir do passado ou por renegar o passado. Afirmam-se por dizer que há uma evolução, que o passado nos orgulha, que nós reconhecemos erros e qual foi o partido que não cometeu erros ao longo da sua história na vida democrática e enfrentando, naturalmente, a diversidade interna. Quer dizer, o partido sai mais rico se tiver pessoas que trabalharam muito com António Costa, que trabalharam muito com qualquer outro secretário-geral, até com José Sócrates, que foi líder do partido durante muito tempo. Portanto, eu não tenho essa visão de clube. Se quiserem, é uma espécie de visão tribal. Há umas tribos e a minha tribo está contra a outra tribo, isso não tem acrescento valor e não valoriza para o país, porque o país quando vai escolher um candidato a primeiro-ministro, quer perceber se ele tem características para liderar o país e a forma como ele lidera o seu próprio partido é um indício da forma como ele pode liderar o próprio país, no caso de ele ser primeiro-ministro.
Temos ainda uma última pergunta para lhe fazer. Dizia há pouco que é favorável trabalhar com ex-líderes. É favorável ter o nome de Fernando Araújo como cabeça de lista pelo PS no Porto?
Fernando Araújo é um excelente técnico, não é eminentemente um político. O Fernando Araújo eu não sei se ele vai dar um bom deputado ou um mau deputado, acredito que dará ou daria um bom ministro da Saúde. Ele é uma pessoa muito bem preparada.
Mas acredita mais que ele vai ser deputado do que ele vá ser ministro?
Depende. Ainda falta um mês e meio para as eleições e, portanto, ainda é muito cedo, apesar de as sondagens darem sinais de alguma vantagem da Aliança Democrática, ainda falta um mês e meio, portanto, nós não sabemos. O que nós sabemos é que o secretário-geral disse que se o PS ganhar, se ele fará ministro. Não, ele não é um político feito de carteira, não é. Ele é um técnico, é um homem para trabalhar na área técnico-política. Mas naturalmente que é um trunfo que é apresentado por contraponto à área da saúde da Aliança Democrática e, portanto, essa foi a escolha. Parece-me que é um nome forte e respeitado no país, independentemente de não ter um perfil muito de partido e de político. Eu conheço razoavelmente bem, foi meu secretário de Estado e ele é, sobretudo, um homem de gabinete, um homem técnico, estuda as coisas e toma decisões e é ponderado, etc. Vamos ver, mas é um nome forte, indiscutivelmente, das cabeças de lista que se conhecem até agora, que ainda não são muitos. Penso que é um nome que foi bem escolhido e que abre à sociedade e sai um bocadinho do perímetro estritamente partidário.
Adalberto Campos Fernandes, muito obrigada por ter estado conosco neste Explicador.
De nada. Boa tarde.