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E começa agora o Explicador das manhãs 360, conduzido pelo Paulo Ferreira. Esta sexta-feira falamos sobre o ranking das escolas com Catarina Ângelo, investigadora da Nova SBE e uma das autoras do ranking divulgado pelo Observador.

Muito bom dia, Catarina Ângelo, obrigada por ter vindo aqui aos nossos estúdios. É uma das pessoas da equipa que colabora com o Observador, precisamente na elaboração anual destes rankings da equipa da Nova SBE. Quando olha para estes dados, para os dados que acabamos de divulgar durante esta madrugada, acha que há dados que merecem algum destaque quando comparamos eventualmente com os resultados de anos anteriores?

Olá, Paulo, bom dia. Antes de mais, obrigada pelo vosso convite. É um gosto estar aqui. Relativamente à sua questão, se há alguma diferença fundamental que eu ache relevante relativamente ao ano anterior. Eu arriscaria dizer que existe uma diferença relevante porque as médias descem transversalmente em públicos e em privados para quase todos os exames. Existem, no entanto, exceções. E existindo exceções, eu não sei até que ponto é que será correto dizer que os resultados foram piores este ano do que no ano passado.

Olhando só para as médias, não é?

Olhando só para as médias. Não consigo tirar daqui uma grande conclusão. De facto, temos aqui a nossa primeira escola pública num lugar um pouco pior que no ano passado.

Parece que em que lugar têm esse dado, concretamente?

Tenho aqui comigo. A primeira escola pública em Oliveira de Azeméis está em 37º lugar.

37º.

Curiosamente, com uma média muito semelhante, aliás, até inferior à média da primeira escola pública que aparecia o ano passado, que se eu não estou em enganada, era uma escola de Chaves. Essa escola, que era a primeira o ano passado, este ano encontra-se curiosamente no lugar 135 do ranking.

Uma grande volatilidade, não é? De alguma forma.

Sim, a volatilidade é grande, mas se formos olhar com cuidado, isto não representa uma alteração muito grande no desempenho da escola. Se olharmos para as médias, ela tem médias muito semelhantes àquilo que tinha. O que acontece este ano é que de facto o número de exames realizados na escola quase que duplicou e quase que duplicando, é inevitável que a média desça. Portanto, quando olhamos para o posicionamento no ranking, em termos absolutos, eu não sei se passarmos a ter a primeira em 37º ou em 44º ou em 31º, se é um dado muito relevante.

Importa também-

Se não tivéssemos nas 100 primeiras, se calhar já começaria a ser relevante. Mas esta variação não penso que seja importante.

Importa também que os dirigentes de cada estabelecimento de ensino, públicos ou privados, olhem é para a sua performance ao longo do tempo, é isso? Isso é importante.

Eu penso que sim, que isso será o mais importante. Eu acho que uma das grandes mais-valias destes rankings é nomeadamente ao nível de tornar pública esta informação, que é muito importante. E esta informação está disponível para as direções das escolas. É importante ver se passaram dos primeiros 100 para os últimos 100, se mudaram no fundo de quartil da distribuição. Estão nos melhores 25% e passaram para os piores. Não havendo alteração no quartil da distribuição, eu diria que são variações que não são muito relevantes.

Das quais não se pode tirar certamente grandes conclusões.

Sim, é preciso ter cuidado ao olhar para estas médias e tirar conclusões imediatas.

Definitivas, pelo menos. Catarina Ângelo, podemos dizer que as médias a norte são mais altas do que a sul do país.

Sim, as médias a norte são mais altas do que a sul do país.

Isso permite-nos alguma conclusão? Já ouvimos várias explicações aqui em antena, nomeadamente de representantes das direções das escolas, que dizem que o grande problema de falta de professores é a sul e não a norte, o que interfere obviamente na estabilidade dos quadros letivos.

Sim, se nós olharmos para a percentagem de professores nos quadros, e eu agora até vou olhar aqui para a minha cábula.

Só para a Catarina Ângelo veio de computador saber.

Sim, vim, porque há números que não é possível-

Obviamente, e que não estão públicos, não estão no ranking, não são tão relevantes.

E de facto, aquilo que nós conseguimos ver é que a percentagem de professores dos quadros a norte é superior, talvez não por muito, curiosamente, mas a percentagem de professores nos quadros que temos mais a sul. Só um facto é que também variamos dentro de um extremo. Temos aqui algumas escolas que estão abaixo dos 60% dos professores, percentagem de professores nos quadros. Mas estas escolas são um valor muito pequeno. Estamos a falar de 17 num universo de 500 escolas públicas.

Centenas, claro.

Sim. Porque a maioria está a variar entre os 94 e os 64%.

De professores no quadro, o que significa que os outros, para os 100%, é que vão rodando de ano letivo para ano letivo, ou podem ir rodando.

Ou podem eventualmente rodar. É claro que a estabilidade do corpo docente é importante, mas eu diria que não será A única coisa, haverá muitas outras coisas aqui a ter em linha de conta. Eu tive o privilégio de contactar com alguns quadros dirigentes de algumas escolas e ver que da autonomia que tinham a nível das iniciativas que podiam tomar relativamente aos seus quadros, saíam resultados positivos. Portanto, talvez um pouco mais de autonomia da parte das escolas na contratação e, de facto, se temos falta de professores, não podemos prestar um ensino de qualidade, não temos professores para todos.

Claro, e aí há uma grande diferença logo entre o público e o privado.

Exatamente, claramente.

O ensino privado, as escolas privadas têm uma capacidade de recrutamento e uma flexibilidade que nós sabemos que a educação pública, a escola pública, não tem. Catarina Anjo, a base de dados permite trabalhar muitos indicadores. Há um indicador de equidade aqui no ranking que é feito para a divulgação no Observador. O que é esse ranking da equidade e o que pretende levar-nos a ponderar?

No fundo, este indicador de equidade nos permite comparar universos comparáveis. O indicador não é construído por nós, é construído pela DGEEC.

Da Direção-Geral de Educação.

Sim, e, portanto, nós apenas associamos o indicador à unidade orgânica, à escola, e fazemos exatamente o ranking. Agora, o que é isto do indicador de equidade? O que é calculado é a diferença entre o número... Portanto, deixa-me voltar um pouquinho atrás. Em primeiro lugar, olhamos para os alunos que concluem os cursos científico-humanísticos do secundário em três anos, portanto, no prazo expectável.

Aqueles que não vamos, linguagem inclusiva, nunca chumbam.

Não chumbam entre o 10º e o 12º. Depois olhamos, e é um dos dados que nós apresentamos, a porcentagem de alunos que beneficiam de apoio da ação social escolar na unidade orgânica.

Que serão, já agora, alunos de famílias mais desfavorecidas.

Exatamente.

Em termos relativos.

Destes alunos com ação social escolar-

E que nunca chumbaram.

Exato, este é o outro subconjunto. São os alunos que beneficiam da ação social escolar e nunca chumbaram. E isto tem uma determinada porcentagem em cada uma das escolas. Depois, o que é calculado? Calculamos a média nacional para o universo de alunos que é comparável. Ou seja, aqueles alunos que quando entram no 10º ano, vêm de escolas com uma porcentagem de alunos a beneficiar da ação social escolar idêntica, que têm uma idade à entrada que é semelhante e cujas habilitações da mãe também são idênticas.

Mas também porque vários estudos dizem que as habilitações da mãe são absolutamente relevantes para o percurso escolar de cada aluno.

Exatamente, é o que os estudos indicam, talvez por a mãe ser quem mais acompanha, quem está mais presente, talvez por isso seja mais relevante, mas é exatamente por causa disso. E ao vermos a diferença entre esta porcentagem de alunos da escola com ação social escolar, que consegue terminar o secundário sem chumbar, e a tal média nacional comparável, conseguimos ter o posicionamento relativo da escola.

Do trabalho de cada escola, isto é, em fazer funcionar o elevador social, vamos pôr dessa maneira.

Exato.

Em conseguir estabelecer um patamar em que os alunos mais desfavorecidos, que são esses, têm performances mais próximas dos alunos que não recebem a ação social escolar.

Não é bem isso que nós estamos a dizer com este indicador.

É comparar com a média do mesmo universo.

Nós estamos a comparar com a média dos alunos que beneficiam da ação social escolar, não estamos a comparar com os restantes.

Certo. Deixe-me só estimular aqui o debate. O que podemos, à partida, é comparação com o mesmo universo, partir do princípio, logo que temos dados pra perceber se no universo nacional, os alunos que recebem ação social escolar têm performances diferentes dos outros.

Sim, os alunos com ação social escolar, o indicador da ação social escolar, de ser beneficiário ou não da ação social escolar, é um dos indicadores que nós usamos quando queremos estabelecer correlações entre o desempenho dos alunos e as características socioeconômicas, e o fato dos alunos beneficiarem da ação social escolar, ou melhor, os alunos que beneficiam da ação social escolar têm, em média, um desempenho inferior àqueles que não beneficiam da ação social escolar. Portanto, à partida, têm resultados mais baixos.

Muito bem. Portanto, quando trabalham este indicador dessa forma, já estamos a assumir à partida que há essa diferença.

Exatamente.

E pronto, estamos a comparar com essa diferença.

Exatamente.

De alguma forma, esse indicador permite-nos então perceber quais são as escolas, dentro dessa diferença que já existe entre os dois universos, quais são as escolas que trabalham melhor esses alunos, de alguma maneira.

Sim, que conseguem ter os melhores resultados com esses alunos.

Temos aqui, aliás, o ranking do Observador, um dos filtros logo à cabeça é precisamente esse indicador. Se nós vamos ver o ranking pelos exames finais ou por este indicador de equidade.

Exato.

No indicador de equidade, a escola que nos aparece à cabeça é logo a Escola Secundária de Monção.

Exatamente.

Que tem o melhor indicador de equidade. Depois, a Escola Secundária Dom Afonso Henriques em Santo Tirso e a Escola Secundária de Ponta Barga. Estamos a falar de zonas do interior norte, se quisermos.

Sim, e continuamos por aí abaixo, não é?

Sempre. Fafe, Vizela, Guimarães, Porto, Barcelos, Barreiro. Barreiro é a primeira escola que aparece a sul, se quisermos, em nono lugar. E aqui ficamos com este indicador, também é difícil chegarmos a conclusões, por que há escolas que fazem melhor neste campo do que outras.

Pois, nós sabemos que elas fazem melhor, não sabemos porquê quando produzimos. E não vou sequer arriscar dizer porquê. Uma coisa que falávamos há pouco, que era da percentagem de professores nos quadros. Curiosamente, se nós olharmos para aqui, vemos que a escola que está em primeiro lugar, em termos daquilo que consegue fazer a mais pelos seus alunos menos favorecidos, tem uma percentagem de professores nos quadros de 73%. Enquanto que depois temos aqui uma no Porto, que está num posicionamento pior, e tem 79, e outra em Vizela que tem 83.

Portanto, não podemos tirar conclusões diretas sobre isto. Catarina Ângelo, a divulgação destes rankings gera sempre polêmica, como é evidente, desde que eles começaram a ser divulgados, que há pessoas que acham que não deviam ser, precisamente por algumas conclusões que podem ser tiradas. Como é o processo desde o acesso à base de dados? Isto é, quem tem as mãos na massa e trabalha nas bases de dados e no Excel e por aí fora, como é que é? O Ministério da Educação divulga bases de dados em bruto, digamos assim, e depois são os critérios feitos, neste caso pela Nova SBE e pelo Observador, que levam a pegar nesses dados e a estabelecer quais são os critérios para fazer o ranking?

De alguma forma, sim. Porque os critérios são estabelecidos por nós. Nós, à partida, quando dizemos que os exames que são considerados a nível de cálculo do ranking são dos 10 exames que mais alunos fazem, estamos logo a restringir o universo de análise. Depois, nós fazemos uma outra restrição, que é: só entra no ranking uma escola em que sejam realizados pelo menos 20 exames.

Que é para haver um nível de observações que seja estatisticamente relevante.

Sim. E mesmo os 10 significa que estaríamos a olhar, por vezes, para 10 alunos. Nós já chegamos a considerar um número superior de exames. Quando consideramos menos, aproximamo-nos dos restantes rankings que são publicados pela comunicação social. Mas sim, estes são critérios que são definidos por nós. Depois, existe um outro critério: é que os rankings que nós trabalhamos, e que o Observador publica, são para alunos que nós consideramos como internos, ou seja, são alunos que estão inscritos na escola, têm o seu percurso normal, uma nota interna na disciplina e depois vão a exame.

Que têm a frequência letiva também na escola.

Exatamente.

Não são alunos que vão só fazer o exame.

Exatamente. Ambos só olhamos para rankings em que só entram notas de exame quando temos uma nota interna associada. Portanto, vai para além do critério de interno que vai na base de dados que nos é disponibilizada, porque estamos a considerar alunos que não estão a ser considerados na base de dados como internos. Pode ser erro, pode não ser. Ainda assim, o que nós consideramos é: tem que ter uma nota interna na disciplina. E isso faz, naturalmente, com que os resultados sejam diferentes de ranking para ranking.

Independentemente dos especialistas, como a Catarina, os trabalham e dos órgãos de comunicação social que os divulgam. Muito bem, Catarina Ângelo, obrigado por este mergulho nos rankings das escolas. A edição referente a dados 2024 acaba de ser divulgada. Obrigado por estas explicações. Bom dia, bom fim de semana.

Obrigada eu. Bom dia, igualmente.