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80% dos atuais deputados do PSD voltam ao combate eleitoral. 11 ministros integram as listas candidatas às eleições legislativas de 18 de maio. As escolhas, as surpresas, quem fica de fora e a estratégia eleitoral da AD neste explicador. O convidado é o antigo ministro social-democrata Miguel Relvas. A entrevista é conduzida pela Judite França e pela Vanessa Cruz.

Bem-vindo, Miguel Relvas. Luís Montenegro aposta nos atuais ministros e também em ex-governantes para cabeças de lista. Pode ser uma aposta vencedora ou vê alguma incongruência em algumas destas escolhas? Por exemplo, o ex-secretário de Estado Hernani Dias, que se demitiu depois de ter criado duas empresas que poderiam beneficiar da Lei dos Solos, ele vai concorrer por Bragança. E já agora, também a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que tem estado debaixo de fogo e é a escolha para Vila Real.

Boa tarde. Antes de mais, sem personalizar as questões, a mim o que me parece é que, em primeiro lugar, os candidatos a deputados não são eles que vão marcar as eleições, quer queiramos, quer não. O poder é muito personalizado nos candidatos a primeiros-ministros, em particular nos grandes partidos. Podem desajudar mais do que ajudar. Essa é a questão. Eu aqui diria que eu gostaria de ver, e sempre preferi ver, quando tive responsabilidades, até na organização das listas, que houvesse também uma parte substancial de candidatos que viessem da sociedade, de vários setores de atividade e que não fosse tão expressivamente uma componente partidária. Seguiram um caminho oposto. Parece-me haver um pouco governo a mais e qualquer situação mais delicada que o governo vai ter impacto público, impacto na comunicação social. Penso que poderia ter sido feita uma questão mais equilibrada nas listas, como foi feito há um ano atrás, em que entraram candidatos pela primeira vez e pessoas que vieram para a vida política. A vida política ganha com a capacidade de captar independentes e captar personalidades que não têm a ver diretamente com a vida partidária. Uma coisa é a vida política, outra é a vida partidária, e a vida partidária ganha quando trazemos e robustecemos com gente que não está no dia a dia da política.

O fato de terem sido escolhidos para cabeças de lista 11 ministros não pode causar alguma confusão sobre o que é campanha e o que é propaganda do governo?

Eu diria até pior do que isso. A maior crítica que vai haver é: se houver um problema num determinado ministério ou com determinado ministro, afeta a campanha eleitoral. Mas um partido não se pode esgotar e um partido do governo não se pode esgotar só no governo. Há vida própria no partido, há vida nas autarquias, há vida em vários setores de atividade. E o PSD sempre foi capaz de ser um partido, nesse aspecto, muito mais aberto do que o Partido Socialista, muito mais capaz e muito mais atraente para setores dinâmicos da sociedade. Seguiu-se outro caminho. Eu não diria que seja uma situação extremamente preocupante, mas não é uma situação entusiasmante. E o PSD precisava ter aqui uma estratégia entusiasmante, porque Portugal precisa de estabilidade e precisa de uma força política que venha a ganhar as eleições de uma forma muito clara e inequívoca. Eu gostaria muito que esse cenário se pudesse concretizar com o PSD.

É difícil para um governo que parece que está sempre a prazo, conseguir trazer para a política essas pessoas entusiasmantes?

Eu não sei se houve sequer essa vontade. Não me pareceu, foi tudo tão rápido. Eu não gosto de ver a vida política nesta lógica de cumprir calendário. Nós temos que ser capazes de surpreender e desta vez o PSD não surpreendeu.

E há pouco não queria personalizar, mas a escolha de Hernani Dias não acaba por ser aqui um pouco surpreendente, tendo em conta a forma como saiu do governo.

O doutor Hernani Dias não cometeu nada de ilegal, mas foi imprudente naquilo que fez. E a questão que eu ponho é: se foi imprudente para ser membro do governo, eu pergunto se não seria também imprudente ser cabeça de lista nas próximas eleições. Essa é a questão central. Há um mês, um mês e meio, deixou o governo. Foi um ato de imprudência, um erro, mas deixou o governo. E, portanto, hoje já não se coloca essa questão. Eu penso que essa é que é a questão que muitas pessoas se interrogarão. Se saiu do governo por ter cometido uma imprudência, como foi definido pelo primeiro-ministro, agora regressa já sem essa mesma imprudência. Mas eu volto a dizer, eu não considero que isso seja limitativo politicamente, o que vai estar em jogo nas próximas eleições é muito mais. Eu tenho dito, eu não consigo compreender a estratégia que o Partido Socialista está a seguir, em que é uma estratégia de ataque ao primeiro-ministro, pondo em causa a sua seriedade, pondo em causa uma série de circunstâncias. Eu acho que se isso continuar assim, o Partido Socialista está numa estratégia suicidária, ou então o doutor Pedro Nuno Santos sabe algo que nós não sabemos e vai apresentar, porque este clima não leva a lado nenhum. Nós não estamos a discutir o país, estamos a discutir questões laterais que têm sido discutidas, que a comunicação social pode levantar. Agora, o maior partido da oposição não o deve fazer.

Mas não estamos a discutir isso e o partido da oposição não está a tirar proveito disso por responsabilidade do primeiro-ministro, tendo em conta que esta crise decorre precisamente das escolhas de Luís Montenegro?

A crise existiu. O primeiro-ministro, a meu ver, não cometeu nenhuma ilegalidade, é uma pessoa séria, devia ter suspendido a atividade da empresa, isso é real, já o disse e volto a dizer, mas isso não é razão...

Ficamos agora aqui sem ligação, creio, com Miguel Relvas, que estava aqui a olhar para a responsabilidade. Agora, sim, Miguel Relvas. Perdemos aqui durante alguns segundos a ligação, mas se puder retomar essa ideia sobre a responsabilidade de Luís Montenegro.

Sabe algo que nós não sabemos Se o Dr. Pedro Nuno Santos tem alguma informação, deve clarificar de uma vez por todas, porque senão corre o risco de chegar ao debate final com o primeiro-ministro e o primeiro-ministro o confrontar e lhe colocar a questão de que ele andou mais de um mês a pôr em causa a sua seriedade, a criticá-lo pela impossibilidade de poder ser primeiro-ministro, que não deveria ser primeiro-ministro nestas circunstâncias, e o primeiro-ministro dizer: "Olhe, o senhor sabe alguma coisa sobre mim. Se tem alguma prova, o senhor cá apresente e apresente já." E o Dr. Pedro Nuno Santos ficará numa situação particularmente difícil. Por isso mesmo, hoje é visível o incômodo que a estratégia do Dr. Pedro Nuno Santos está a causar dentro do próprio Partido Socialista. É um alerta e é mau para a democracia, porque a democracia precisa que se discuta. A saúde, que em 2015 se gastava R$ 9.000 milhões na saúde, nós estamos a caminho dos R$ 20 bi na saúde, com só um aumento de despesas estruturais, sem que isso signifique melhoria da situação da saúde em Portugal. Não está melhor do que em 2015 e gastamos mais, e caminhamos para gastar já mais do dobro do que aquilo que se gastava. Isso significa o quê? Significa erros de gestão. Significa o quê? Significa não ter planeamento e não ter uma estratégia. Essa é que é a questão. O partido da oposição, cabe-lhe fazer críticas, é verdade, mas cabe-lhe também apresentar alternativas.

Há alguma surpresa na escolha destas listas? Eu estou a pensar, por exemplo, nomes que saíram, como o de Liliana Reis ou Telmo Faria, e nomes, por exemplo, como o de Castro Almeida, que vai por Portalegre, onde o PSD não elegeu na última eleição.

Sim, eu não compreendo a estratégia. A dra. Liliana Reis e o dr. Telmo Faria, que eu conheço muito bem, eram mais-valias nas listas. Isto é uma rendição ao que de mau tem o aparelho partidário. São duas pessoas que objetivamente tinham lugar nestas listas. Tirá-los só pode significar uma cedência ao pior que o aparelho partidário tem.

O CDS, Miguel Relvas, ambiciona ter mais lugares no Parlamento, mas a composição das listas não dá garantias nesse sentido. Era importante reforçar o peso dos centristas nesta coligação?

O CDS, quando quiser ter mais lugares no Parlamento, tem que demonstrar prova de vida. E se assim o entende e se sentir incomodado com a representação que tem, tem um bom remédio para isso: é apresentar listas próprias e ir às eleições com listas próprias. Penso que o dr. Luís Montenegro e o PSD têm sido, para aquilo que o CDS hoje representa na sociedade portuguesa, têm sido bem generosos.

Esta aliança pré-eleitoral deixa de fora o PPM de Gonçalo da Câmara Pereira. Faz bem, Luís Montenegro?

Sério mesmo, eu acho que isso é uma falsa questão. Era discutir o passado no presente, quando não tem razão de ser, porque não tem futuro.

Deixe-me recuperar o que dizia há pouco do pior que o aparelho tem. Exatamente o que quer dizer isso quando há saídas como as de Liliana Reis e Telmo Faria?

A pôr de lado gente de qualidade, gente com representatividade na sociedade, uma em Castelo Branco e o outro em Leiria. Eu conheço o Telmo Faria há muitos anos, foi presidente da Câmara de Óbidos, era um dos melhores autarcas portugueses, com pensamento estruturado, que sabe bem e fez um trabalho notável na área da recuperação do património e na área cultural. Quando nós sabemos que há uma crise de qualidade no nosso sistema político e quando se põem de lado duas pessoas com esta qualidade, é difícil de compreender e de aceitar. Quer isso dizer que as escolhas não foram para gente mais dotada e com mais capacidade.

E há algum mal-estar nas estruturas?

Não estou a falar de mal-estar. Não sei, isso eu não sei. Estou afastado do dia a dia da vida política. Estou afastado, portanto, para mim não é uma questão de mal-estar, é uma questão de olhar para as listas e fazer uma interpretação, que não pode ser só de admiração, e dizer por que gente como esta, quando nós sabemos hoje que há, de fato, os melhores da sociedade portuguesa fogem da vida política. Isso não é positivo, dos setores mais jovens da sociedade fogem da vida política. E a vida política devia ser mais integradora dessas pessoas, porque nós estamos a falar de gente que vai, no futuro, gerir milhões, que tem responsabilidades, que vai definir o nosso futuro. Portanto, nós precisamos dos melhores na vida política, não os podemos afastar.

Acredita que o PSD sairá reforçado destas eleições?

Espero bem que sim.

Mas sem ser só a esperança de um social-democrata.

Eu acredito nisso, até porque o PSD, os dois candidatos a primeiros-ministros, há uma grande diferença entre eles. O dr. Luís Montenegro já tem demonstrado a sua capacidade, é uma pessoa moderada, é uma pessoa que tem uma visão para o país. O dr. Pedro Nuno Santos é alguém que está sempre numa atitude pouco construtiva na vida política e quando teve responsabilidades, lembramo-nos bem o que foi a nacionalização da TAP, os radicalismos do seu discurso. Penso que está um bocadinho mais moderado, não sei se por uma questão tática, se por convicção, mas a verdade é que a forma como está a conduzir esta campanha eleitoral não é propriamente demonstrativo daquilo que no passado o Partido Socialista foi na sociedade portuguesa e que teve responsabilidades em algumas décadas da nossa democracia.

No pós-eleições, Luís Montenegro, se não conseguir a maioria absoluta, e as sondagens pelo menos não apontam para isso, que parceiro preferencial é que deve escolher? A Iniciativa Liberal foi o único partido que esteve ao lado do governo na moção de confiança.

Se houver uma maioria de direita, quer o PSD ganhe ou não ganhe as eleições, nós vamos ter que assumir as nossas responsabilidades. Isso a política portuguesa mudou depois de 2015, em que o Partido Socialista, tendo perdido as eleições, de uma forma clara e objetiva, o Partido Socialista disse: "Não, há uma maioria num bloco à esquerda com as outras forças políticas e nós vamos governar. O país precisa de maioria, de uma maioria no Parlamento, nós temos a maioria." Eu penso que o PSD tem que fazer o mesmo. Se houver uma maioria de direita, o PSD tem que ser capaz de entender, de conseguir encontrar entendimentos parlamentares para que essa mesma maioria possa governar.

Mas isso significa deitar abaixo o "não é não" ao Chega?

Significa saber que o país precisa de uma maioria para governar. Não é possível entendimentos com o Partido Socialista, nem são lícitos, o Partido Socialista é a alternativa. E como é que é possível que o dr. Luís Montenegro faça um entendimento com um partido para viabilizar o orçamento, para lhe viabilizar políticas, um partido que diz que no primeiro dia da nova Assembleia da República apresentará uma comissão de inquérito sobre o dr. Luís Montenegro. Enfim, nós temos que ser coerentes e temos que ser objetivos para que o eleitorado, para que os portugueses saibam com quem estão a lidar. E, portanto, se houver uma maioria à direita, o PSD só tem que ser coerente com esse princípio.

Acha que o PSD de Luís Montenegro consegue fazer isso agora que está em rota de colisão com André Ventura, até por causa de cartazes?

O PSD não é de ninguém, o PSD só tem que saber ler os resultados, interpretá-los e agir em conformidade. Quem vota são os portugueses, os portugueses é que dizem se querem uma maioria à direita, nós temos que saber interpretar e saber ler esses resultados.

Miguel Relvas, muito obrigada por ter vindo ao Explicador da tarde política da Rádio Observador.

O prazer foi meu.

Obrigada, Miguel Relvas, antigo ministro do PSD, aqui a não excluir que o Partido Social Democrata possa vir a formar uma maioria de direita também com o Chega.