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Explicador da Rádio Observador. Estão a ser repostos os areais em várias praias do país, com especial destaque para a zona da Costa da Caparica, em Almada, particularmente fustigada pelas tempestades. A reposição das areias que as tempestades levaram custa cerca de € 10 milhões, são financiados por fundos europeus. No total, vão ser aplicados € 170 milhões numa ação que está a ser coordenada pela Agência Portuguesa do Ambiente. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E a nossa convidada, Maria da Graça Carvalho, Ministra do Ambiente. Bem-vinda, obrigada pela disponibilidade. Repor areia é uma solução que dura cinco a sete anos e depois pode repetir-se. Faz sentido este esforço financeiro?
Muito boa tarde e muito obrigada por esta oportunidade. Faz sentido porque, para já, é a única solução conhecida, provada, que tem efeito na retenção do avanço do mar e na proteção da nossa costa. Esse é o primeiro objetivo: proteger aquilo que tem sido roubado do nosso território. Por exemplo, só na zona da Costa da Caparica, desde 1958, recuamos 250 metros para o mar. Portanto, isso é uma tendência que já dura décadas e que tem que ser contrariada. Os especialistas, os técnicos, os engenheiros nos dizem que a melhor forma é repor a areia. E nós estamos a fazer isso em muitas praias de norte a sul do país, mas estamos também a reconstruir os esporões, estamos a consolidar ribas, que também é uma questão de segurança das pessoas que frequentam as praias, e temos muitas obras em curso. Portanto, os 174 milhões são o conjunto das obras.
É o global.
A obra da Costa da Caparica é cerca de 10 milhões, é para 10 praias, porque são as praias de São João e várias praias em frente à Costa da Caparica, que é a Praia Nova.
Esta areia, neste caso da Costa da Caprica, vem do Tejo, é dragada. Eu peço desculpa pela imagem, mas sempre que eu ouço falar em dragagem de areias, lembro-me de algumas consequências trágicas, nomeadamente no leito dos rios. Os custos ambientais foram avaliados aqui, senhora ministra?
Sim, claro, isto tem tudo estudos de impacto ambiental. Na maior parte destes casos em que estamos a usar dragas, a areia vem do fundo do mar e depois é injetada na costa. Temos outra praia com uma obra ainda maior do que na costa, que é num conjunto de sete praias de Quarteira, Vale do Lobo e Garrão, que são cerca de 15 milhões, e é a maior draga. É uma empresa espanhola que subcontratou uma draga holandesa, é a maior draga, penso que mesmo a nível mundial, que vai buscar a areia ao fundo do mar e depois injeta na linha de costa. Essa já está a acabar, dentro de poucos dias fica pronta, a de Quarteira, e a da Costa da Caparica muito em breve, antes da época balnear começar, também estará pronta. Aliás, há uma parte, nós hoje estivemos lá, há uma parte grande já das praias de São João, que já está pronta. Ela alargou cerca de 40 metros de largura de areia a mais do que o que tinha. Ela tinha muito pouca, estava sem praia. Nós vimos hoje a parte que não estava construída, estava mesmo sem praia, não seria possível fazer praia. E a parte que já tem a areia, tem uma extensão de cerca de 40 metros e estamos a fazer isto ao longo de 3,9 km.
E há também aqui uma preocupação económica com o turismo.
Há uma preocupação primeiro ambiental, de proteção da costa e de toda a erosão costeira. Depois, há uma preocupação com as pessoas. Eu sei que é algo muito importante para quem vive em Portugal e para quem nos visita, ter a possibilidade de ir à praia. Nós, neste momento, estávamos com a maior parte das nossas praias sem areia e sem a possibilidade de ser, por um motivo ou outro, ou por segurança, ou porque não tinham areia, não estavam habitadas ou porque não tinham acessos. E, portanto, isso também é um segundo objetivo muito importante, é dar aos portugueses e a quem nos visita, quem cá vive, a possibilidade de ir à praia, agora que o tempo vai começar a melhorar. E a terceira é o ponto de vista económico. Há aqui zonas, agora vamos começar, por exemplo, com a Praia da Fuseta, que está fechada. É uma operação urgente, de fazer em poucas semanas, para que em um de junho, quando abra a época balnear, já haja praia, porque neste momento não há praia. E, portanto, é aquela região que vive essencialmente da praia. Há comunidades costeiras cuja principal atividade económica é relacionada com a costa, com os visitantes, com os restaurantes.15% do PIB português é turismo e há muito turismo relacionado ou com a praia ou com o litoral. Temos um litoral bonito. É, por exemplo, uma grande riqueza no Algarve, mas não só. O que seria do Algarve sem o acesso às suas praias? Nós estamos a fazer várias obras de ribas, estamos a fazer também no Vau e na Praia da Rocha para os Três Castelos e o Vau, e temos esta zona toda de Quarteira. Quarteira é uma praia muito frequentada, e depois outra também muito frequentada por portugueses, mas com muitos turistas.
E vai estar tudo pronto a tempo.
Que é Vale do Lobo e Garrão.
E vai estar tudo pronto a tempo?
Sim. Há uma obra mais pequena, mas que foi a primeira a ser acabada, que tinha ficado completamente destruída, que também foi muito emblemática, que é Moledo. Foi a primeira que nós conseguimos acabar, eu irei visitar na próxima semana. Fui antes, quando ela estava destruída, fui ver, e agora já está pronta.
Se tivermos outro Christine no inverno, vai tudo embora outra vez? Vai a areia toda outra vez?
Não, porque a areia fica de certo modo no sistema. Há alguma que se perde, mas a maior parte fica no sistema e, portanto, nós precisamos de recarregar geralmente de 10 em 10 anos. Se os anos forem de tempestades muito intensas, pode diminuir pra sete ou mesmo pra cinco. Mas agora o que aconteceu é que muitas destas praias não tinham recargas há bastante tempo, há 10 anos, há 12, há 13, e sofreram mais. Aquelas que tinham recargas há pouco tempo ficaram muito mais protegidas, porque a areia o mar leva, mas também traz a maior parte, volta a recarregar a praia. Só que todos os anos se perde algo.
Daí também esta pergunta, porque no fundo o mar muitas vezes leva a areia, mas depois no ano a seguir ou nos dois anos seguintes repõe.
Mas geralmente não repõe tudo, ou repõe noutro sítio um pouco mais do que deveria, e, portanto, também temos que tirar areia.
Sra. Ministra, aproveitando também a sua disponibilidade, entre janeiro e fevereiro deste ano fomos atingidos por um comboio de tempestades. O IPMA disse que a tempestade Christine terá sido uma das maiores desde que há registros. Fomos completamente apanhados desprevenidos por esta tempestade. Passado este período, que balanço consegue fazer sobre o que aconteceu e por que aconteceu?
Vamos ver. Nós tivemos um número elevado de sete a oito tempestades.
Exato.
A Christine foi diferente do que estamos habituados, porque foi uma tempestade com vento, com uma velocidade muito elevada, mais de 220 km/h. Isso é muito raro em Portugal. E embora eu tivesse devido mensagens de aviso, é uma coisa que com certeza teremos que mudar, quando há uma mensagem de aviso de algo tão grave como isto, ela tem que ser diferente. Não pode ser a mensagem habitual que todos recebemos quando há avisos laranjas ou amarelos.
Mas acha que essa lição foi aprendida pelas autoridades e pela população?
Diretores gerais ou algum porta-voz, mesmo político, terá que falar à população e dizer: "Este é um aviso muito grave". Pronto, e no Christine eu acho que isso, embora não haja muito a fazer com ventos daquela natureza. E de certo modo, houve ali uma parte de sorte ter sido à noite. Se tivesse sido de dia poderia ter consequências.
O problema é que no atual quadro das alterações climáticas, esse tipo de fenômenos pode ser mais frequente.
Tem que se aprender, nomeadamente nos avisos e procedimentos, o que é que fazer no caso de ventos muito elevados. As outras também foram muito graves, também bateram recordes, mas foram de cheias. E nas cheias nós temos mais cultura, estamos muito melhor preparados. Começamos a esvaziar as barragens, coordenamos com Espanha, conseguimos prever, também é mais lento. Nós conseguimos prever e, por exemplo, em Coimbra aconselhamos a senhora presidente da Câmara, que imediatamente decidiu tirar a população na véspera, 24 horas antes do rombo. O mesmo aconteceu em Mértola, na parte baixa. Portanto, avisamos 24 horas antes e a parte baixa de Mértola foi deslocada pra outro sítio. Portanto, nós nas cheias, começamos a ter sinais em meio de janeiro e a preparar, nomeadamente a esvaziar barragens, a fazer planos, preparar a trabalhar com as zonas, sabíamos as zonas, sempre dissemos que o Mondego era a nossa principal preocupação, e foi. No Tejo conseguimos evitar muito. As cheias do Tejo foram muito menores que outras cheias que tivemos no passado, exatamente pela coordenação que fizemos com Espanha e das nossas barragens.
Deixe-me só voltar aqui um pouco atrás, porque falamos há pouco da tempestade Christine, mas não falamos do PTRR. Está no PTRR previsto o enterramento das linhas elétricas? Nós temos apenas cerca de 20% da rede elétrica enterrada, quando Espanha, aqui ao lado, tem 45%. Portanto, estamos atrás.
Sim, nós teremos que aumentar um pouco o enterrar das linhas, mas nós pedimos exatamente a especialistas na área para nos dizer que porcentagem e onde, porque de um lado é muito mais caro, é cerca de cinco vezes mais caro, e depoisNós somos um país muito sujeito a muitos eventos, porque se uma linha enterrada nos protege de ventos-
Tem de ser resistente aos incêndios, por exemplo.
Depois temos as questões das cheias, temos as questões dos tremores de terra, em que as linhas enterradas são piores, por vezes, do que as aéreas. Nós encontrámos, por exemplo, uma parte de uma linha enterrada que não foi pelo Christine, mas teve problemas por causa da chuva e das cheias.
Mas esse levantamento já está feito ou não?
Está a ser feito. Nós logo que acabaram as tempestades, fizemos um concurso.
E tem ideia de quando é que fica concluído esse trabalho?
Demos um período de seis meses, já passou algum tempo, portanto, muito em breve saberemos isso.
Senhora ministra Maria da Graça Carvalho, não resisto a fazer-lhe aqui uma pergunta, até porque a senhora ministra é dada no governo como o exemplo de alguém que faz e que tem muitos dossiês em mãos. E ontem tivemos mais críticas de Pedro Passos Coelho à uma certa falta de ímpeto reformista do governo. Como é que olha para estas críticas de Pedro Passos Coelho?
Eu não gostaria de comentar críticas de ninguém, muito menos do doutor Pedro Passos Coelho, que foi primeiro-ministro. O que eu queria dizer é que nós somos um governo que está a executar as obras. O PTRR não é um dossiê de papel. São estas obras que estão a acabar até antes do tempo, como foi o caso do canal de regra do Mondego e dos bicos do Mondego. Acabámos uma semana antes do tempo, já está pronto. E estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance. Muitos dossiês que estavam muito atrasados, até da altura do governo do doutor Pedro Passos Coelho. Já passaram vários governos.
Acha que é um problema de perceção, que o governo não está a avançar com as reformas que se impunham?
Nós trabalhamos tanto que muitas vezes não temos tempo de comunicar. Isso pode ser uma crítica que nos podem fazer. E encontrámos muitos dossiês, muitas obras atrasadas e resolvemos problemas, uns com 20 anos. Quando eu resolvo com 20 anos, acho que é pouco tempo. Alguns têm muito mais que 20 anos, passaram por muitos governos e não foram resolvidos. E nós estamos a resolver.
Muito obrigado pela sua disponibilidade, por estar aqui neste explicador, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho. Muito obrigado e boa tarde.
Muito obrigada pela oportunidade.