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Começa agora o Explicador das manhãs 360º, esta sexta-feira, sobre o novo podcast do Observador: o escândalo que destruiu a seleção. Quem não se lembra do caso Saltillo no Mundial do México de 86? É sobre isso que vamos falar nos próximos minutos com a Carla Jorge Carvalho, que narrou este novo podcast, com o autor dos quatro episódios, o jornalista e editor da Rádio Observador, Miguel Cordeiro, e com o Augusto Inácio, comentador também aqui da nossa rádio, que fez parte da equipe que esteve nesse mundial no México.
E para quem viveu esses tempos, parece mentira, mas já passaram 40 anos. 40 anos é muito tempo. Miguel Cordeiro, bom dia, bem-vindo a este Explicador. És o autor deste podcast sobre o caso Saltillo e para todos aqueles que tenham menos de 50 anos, por que o nome desta discreta cidade mexicana se tornou também sinônimo de escândalo no futebol português?
Isso também foi algo que eu tive que tentar perceber, porque também tenho menos de 50 anos.
Saltillo não te dizia nada, não é?
Começa por aí.
O Miguel começa logo a entrar na peça.
Dizia, mas eu acho que a muitas pessoas, mesmo os mais novos, se quisermos ir por aí, existe essa vaga de fumo de que aconteceu alguma coisa em 86. Saltillo teve alguns problemas, a participação não foi boa, mas de facto, assim que começamos a investigar o caso, percebemos que há insólitos em toda a parte. Basicamente, não há um dia da participação de Portugal nesse mundial do México sem incidentes, podemos dizer assim. Quase todos têm incidentes, uns mais graves do que outros, e outros eram basicamente regulares, aconteciam no dia a dia. Mas para resumir, temos uma revolta de jogadores, temos jogadores a prometerem fazer greve. A única greve que se concretizou efetivamente foi a ausência a um jogo de treino. Para além disso, temos treinos num campo inclinado e com buracos. O Augusto Inácio certamente nos vai ajudar a falar sobre isso.
Normalmente, no futebol-
Se fosse golfe era pior.
No futebol, normalmente fala-se em campos inclinados, mas aqui foi literalmente o caso.
Era mesmo esse o caso, e as imagens mostram isso. Temos um campo inclinado.
Muito desnível.
No sentido das balizas, mas também no sentido das linhas laterais. Portanto, tinha dois declives e tinha buracos que foram tapados com cimento. O hotel La Torre, onde estavam os jogadores, apesar de ter boas condições, na generalidade, eu diria que tinha melhores condições para passar férias do que para uma seleção estagiar. Os jogadores passavam o dia a dia no mesmo sítio que os jornalistas, que os membros da direção, que outras pessoas que pudessem estar no hotel. E depois, temos que situar-nos na década de 80 e temos que situar-nos no México na década de 80. Mas vamos dizer que alguns hábitos do dia a dia, quer de jogadores, membros da direção, até de seguranças, de funcionários, não eram os indicados para um estágio da seleção. Desde consumo de álcool, fumar cigarros, que na altura, mesmo para jogadores de futebol, era habitual. Os seguranças consumiam substâncias proibidas também. O Augusto Inácio certamente pode ajudar a contar sobre isso. Havia também companhia feminina regular no hotel da seleção.
Já vamos ouvir o Augusto Inácio, mas Carla, és a narradora deste podcast. Eu não vou revelar a tua idade, mas de certeza que te lembravas do caso Saltillo. Mas como é que foi regressar a estes tempos? De certeza que encontraste, ou reencontraste, ou relembraste alguns episódios mais rocambolescos relacionados com esta participação de Portugal.
Recordo-me, vagamente ou não, vou confessar. A seleção nacional estagiava no Hotel Cidadela, em Cascais, mesmo ao lado da escola onde eu andava. E eu era daqueles miúdos que ficavam à espera dos jogadores e deve haver lá em casa, dos meus pais, uma caderneta com um livrinho com as assinaturas, os autógrafos do José Torres e dos jogadores que lá andavam. Por isso, houve aí uma aproximação emocional muito divertida. Depois, muito divertido gravar isto, porque claro que me lembro do caso Saltillo, do choque, da comoção no país, na forma como o país se entrincheirou, uns pelos jogadores, outros pela federação, a maioria no início pela federação. Portugal ficou envergonhadíssimo da atitude dos jogadores, mas depois, e o podcast conta isto muito bem, o Miguel Cordeiro explica muito bem como a história começa como aquele fio da camisola que se começa a puxar e de repente a camisola fica desfeita. Cada caso, cada história, cada episódio é o deslaçar desta camisola. É uma exposição entre o embaraço, 40 anos depois, o muito divertido e o inacreditável.
O insólito.
O insólito do que foi o caso Saltillo.
Vamos ver. Augusto Inácio, bom dia, bem-vindo também. E para quem estava lá.
Bom dia.
Foi divertido? Foi insólito? Como é que foi?
Mais uma vez, bom dia a todos. Deixem-me dizer que eu aconselho a vocês todos, para quem pensa passar férias no México, não vão ao Hotel La Torre. Não vão para esse hotel, porque aí não vai dar certeza, porque aquilo é um deserto tão grande. A não ser que gostem de piscina, e a piscina, sim senhor, aí pode-se tirar umas férias de piscina.
A piscina é por ser quase um símbolo desta participação portuguesa, porque era o único lugar que os atletas, os futebolistas que participaram neste mundial tinham para descontrair.
Era a única coisa que tínhamos. De resto, a gente saía do hotel, olhávamos pra direita, olhávamos pra esquerda, e era só deserto. E à noite víamos ali para 300, 400, 500 metros, umas luzinhas mais à frente. O que era aquilo? Era o hotel onde estavam os ingleses. Repara uma coisa, os ingleses como não tinham nada que fazer, às vezes alguns de nós íamos lá ao hotel dos ingleses, o que eles se distraíam? A beber cerveja e a jogar sinucas. Era assim que eles se distraíam lá também. Mas diria que, ao contrário do que se está a dizer, e eu tenho que ser sincero nisto, não foi a questão de os jogadores queriam mais dinheiro, não foi nada disso. Os jogadores não queriam mais dinheiro, os jogadores queriam melhores condições e nesse sentido, aquilo foi um desastre. Claramente que hoje as coisas são diferentes, mas naquela altura também havia as diárias, havia os prêmios de jogos, havia tudo que mais ou menos estava determinado. Hoje, os jogadores com cinco, seis meses de antecedência já sabem o hotel onde vão, as condições que têm, os prêmios que têm, quando atingem os objetivos. Hoje, tudo é mais facilitado nesse sentido, porque as coisas são muito mais e melhor organizadas.
Inácio, mas não houve uma negociação com a federação para definirem quais seriam os prêmios do jogo e qual seria o valor da diária. Ou seja, foi a federação que decidiu unilateralmente esses valores e que à partida estariam muito abaixo do que seria justo para os jogadores.
Sim, mas isso não foi o principal problema, porque nós sempre quisemos resolver as coisas cá, antes de partirmos para o México. E como sabes, nós fomos lá com 40 dias de antecedência. Nunca o presidente da Federação Portuguesa de Futebol quis se reunir conosco cá. Havia cá um diretor, que era o senhor Arménio de Carvalho, que simplesmente só nos dizia: "Epá, o presidente não está cá, quando chegarmos lá, o presidente vai resolver as coisas". Só que nem em Lisboa, nem no México, o presidente nunca apareceu. Por isso, nós insurgimos numa situação em que nós queríamos treinar e não podíamos treinar, um campo, como vocês disseram, e bem inclinado, com os buracos tapados com cimento, com um hotel completamente aberto, com muita segurança, é verdade, que passavam mais o tempo a fumar charros do que a tomar conta de nós e de não entrar lá ninguém. E isto também convém dizer, porque mandam sempre as culpas pra cima dos jogadores, mas não é verdade. As meninas quando começaram a entrar lá pra dentro do hotel, foram os jornalistas os primeiros a levar as meninas, porque os jornalistas também estavam lá há 40 dias e também já estavam fartos daquilo.
E estavam no mesmo hotel, partilhavam o mesmo hotel com os jogadores.
No mesmo hotel. E então estás a imaginar, aquilo era um regabofe como tu pudesses calcular. Passa uma semana, passa duas, passa três. E a gente a ver as meninas ali. Eu, realmente, sinceramente, não entrei no esquema, mas acredito que houvesse colegas meus que aproveitassem também aquela situação. Mas a nossa grande luta foi realmente nós, por exemplo, sabermos, se nos acontecesse alguma coisa, qual era os nossos direitos. Como aconteceu com o Bento, partiu o pé e praticamente acabou a carreira ali.
Inácio, deixa-me só perguntar-te isto em relação a esse episódio da lesão do Bento, que era o capitão da equipe, um dos principais rostos também da contestação. Esse episódio afetou muito a equipe, a lesão do capitão?
Afetou. Afetou ao ponto do Damas, que foi o guarda-redes que depois jogou. Partilhávamos, às vezes, a mesa do almoço e do jantar, e ele dizia sempre pra mim: "Ei, pá, ô Inácio, já viste, pá, o caldinho vai tocar a mí". Eu digo assim: "Mas qual caldinho? Então, pronto, o Bento teve a lesão, vais ter a oportunidade de jogar". "Pois, mas é que nós ganhámos a Inglaterra 1 x 0, se acontecer alguma coisa e se nós não ganharmos, vão dizer logo que é por causa do Damas." Eu disse: "Epá, não te preocupes com isso, nós vamos ganhar o jogo, não fiques com essa coisa na cabeça que só te vais prejudicar". Mas isto para dizer o quê? Para dizer que nós quando vimos aquilo, a primeira coisa que eu disse ao Bento foi: "Bento, a idade que tu tens, não sejas parvo. Isto, a companhia de seguros, se a coisa estiver bem feita, tu vais ter aqui o teu seguro para toda a tua vida, porque tu não vais jogar mais e como não vais jogar mais, o seguro é obrigado a pagar-te". E ele disse: "Epá, mas Augusto, sabes que eu gosto de jogar. Vivo muito isto." Eu digo assim: "Tá bem, podes viver muito isto, mas tens que olhar pra tua vida." O que é que aconteceu? Quando o Bento começou a se sentir melhor, começou a treinar, o seguro, claro, ficou cancelado. Passado pouco tempo, o Bento acabou a carreira de jogador e não teve nada direito também ao seguro, que se ele realmente não entrasse nem em campo pra treinar, teria direito a essa compensação. E deixou de a ter. E por isso aquilo foi um momento marcante. Mas aquilo que mais nos impressionou era que realmente a gente não viu da parte dos responsáveis da federação, um indício qualquer de que íamos resolver as coisas. Repara uma coisa, aqui a questão era: eu senti, eu estou a falar por mim, eu senti da parte da federação que olhavam para nós como uns meros bonecos que andavam ali, que iam jogar a bola e que as coisas rolavam assim.
Claro.
Houve uma altura que nós ficamos revoltados, porque nós queríamos reunir com o presidente da federação, que já estava no México, e depois apareceu uma fotografia com ele na piscina no hotel, pronto, pá pra o ar apanhar sol.
Claro, e em um hotel bem melhor, certamente. Deixa só, Inácio, só ver aqui com o Miguel Cordero. Miguel
Que dificuldade encontraste, se é que houve alguma, em recuperar esta história 40 anos depois? As pessoas falam, a documentação que há sobre o caso permite reconstituí-la facilmente?
A documentação permite reconstruir, porque esta participação no Mundial do México, é preciso dizer isto, é apenas a segunda vez na história de Portugal que a Seleção Nacional vai a um mundial. E se formos olhar para o século passado, Portugal só esteve duas vezes no mundial: em 66, terceiro lugar com o Eusébio, e em 86, esta participação. Portanto, os jornais fizeram uma cobertura extensa de toda esta competição e desta participação. Não só extensa, como detalhada, porque como já explicámos, estavam no mesmo hotel que a seleção e, portanto, muitos dos casos estavam já nos jornais. Aliás, o primeiro comunicado público dos jogadores para a imprensa é feito no dia 25, mas os jornais do dia 25, que saíram de manhã em Portugal, já tinham a revolta que estava a acontecer em Saltillo, porque no dia antes os jogadores tinham feito um ultimato ao Amândio Carvalho, o diretor, e a imprensa sabia disso. Portanto, aquilo que foi comunicado depois à 13h do dia 25, a imprensa já sabia o que ia ser dito, a imprensa portuguesa, neste caso. Depois há relatórios da Federação Portuguesa de Futebol a que tivemos acesso, muito documentados também. Dificuldade, sim, alguns jogadores já não querem falar sobre o assunto. Há figuras importantes que também já não estão entre nós, como Silvano Rezende, Amândio de Carvalho, o próprio José Torres, o próprio Bento, capitão, que leu os comunicados. Nesse aspecto, sim. Agora, é importante nós não nos esquecermos de 86 e por vezes parece que a própria Federação Portuguesa de Futebol ainda tenta esquecer este mundial. Basta, por exemplo, a semana passada, Roberto Martínez deu uma entrevista em que confessou que era adepto da numerologia. Já é uma frase curiosa, mas pronto. Quando ele disse que era adepto da numerologia, que gostava muito do número seis, porque em 66 ficámos em terceiro, em 2006 ficámos em quarto no mundial e em 2016. Exato. Falou que em 86 ganhou, que acredita que 2026 vai ser muito bom, mas 86 não aparece sequer na equação do selecionador nacional e é importante não esquecer o que aconteceu em 86.
Deixa-me só. Augusto Inácio, telegraficamente, isto hoje era impossível, hoje há mais profissionalismo e mais escrutínio, não?
Sim, claramente, até porque nós ficámos com a fama dos marginais, os maus da fita, mas foi a partir daí que eu acho que houve o 25 de Abril do futebol.
É uma grande frase para acabar este programa.
É verdade, até porque em 1984, em que Portugal ficou em terceiro lugar no Europeu, já havia grandes problemas, mas o resultado camuflou realmente os grandes problemas que havia na seleção. Não foi em 84, foi em 86. E nós demos esse pontapé de saída para que as coisas tivessem pelo menos uma outra visão da parte dos dirigentes, que não iam para um país qualquer ou para um evento destes como o mundial, como se fosse passar férias. Aquilo era uma coisa importantíssima para todos e para o país. Deixa-me só referir uma coisa que é importante dizer, que é verdade. Nós nunca fizemos greve. Simplesmente, quando íamos fazer um jogo particular a 80 km de onde nós estávamos de estágio, o que aconteceu é quando nós entrámos dentro do relvado, que aquilo nem estádio era, começámos a olhar para a cara dos nossos adversários e nós começámos a olhar uns para os outros. Quem eram os adversários? Eram os empregados de mesa que nos serviam. Eram esses senhores, essas pessoas que iam jogar conosco. Era a equipa adversária. E nós dissemos: "Não, com esses não, vamos jogar nós uns com os outros". Já viste o que é, aos cinco minutos estás a ganhar 10 a 0. Não era treino, não era nada.
Não era treino. Mas é uma grande analogia ao 25 de Abril do futebol português. Carla Jorge Carvalho, tu que nunca falas na rádio, só por curiosidade.
Como é que foi a experiência?
Quantos episódios é que são? Como é que é?
São quatro episódios, chave na mão, no meu caso, é só ouvir hoje a partir das 15h.
Muito bem, todos convocados.
Aqui vão todos ao México.
Augusto Inácio, Miguel Cordeiro e a Carla Jorge Carvalho. Obrigado, sobretudo a ti, Carla, pela presença nesta manhã da rádio.
Obrigada por vocês e pela atenção.
Volta sempre!