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Explicador especial na Rádio Observador para acompanhar as consequências do mau tempo, sendo que nos próximos minutos, Miguel Vilela, vamos receber o presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho.
Está conosco José Veríssimo, autarca de Montemor-o-Velho, que não tem tido mãos a medir nos últimos dias face às consequências do mau tempo no município de Montemor-o-Velho, concelho do distrito de Coimbra. Olhava há pouco para o Diário das Beiras, jornal regional da zona centro, que dava conta que Montemor-o-Velho alerta para dia crítico esta sexta-feira. Boa tarde, bem-vindo, José Veríssimo. O que torna este dia crítico?
Sim, muito boa tarde. Efetivamente, é crítico porque poderemos ter algumas populações em risco, ou seja, todas as águas que vêm pelo rio Mondego passam aqui por Montemor. Em Montemor, neste momento, temos o periférico direito que está com caudais muito grandes, inclusive a estrada 111 está cortada. Passa por uns rios aqui junto à vila de Montemor-o-Velho e junto a uma povoação que é a Vila Nova da Barca. Ou seja, se um desses rios colapsa, pode meter em causa todas essas pessoas. Nós tentamos salvaguardar as pessoas, algumas saíram, outras não saíram, mas estão todas avisadas, estão de pré-aviso. Temos todas as forças de segurança aqui no local. Neste momento as coisas, felizmente, estão a correr dentro da normalidade, mas como os caudais são muito grandes, poderá haver um colapso de um momento para o outro. Portanto, nós estamos a monitorizar e a ver se tudo flui possível.
Qual é que tem sido a evolução do caudal do rio Mondego nas últimas horas?
O caudal do rio Mondego neste momento não é muito grande, está a passar 1608 metros cúbicos por segundo no açude em Coimbra.
E portanto, baixou em relação ao dia de ontem, não é?
Baixou. Não nos preocupa, só que a questão é como há a ruptura do rio, a montante, por baixo da ponte da A1, essas águas estão no vale central e entretanto também já passaram para o periférico direito. Elas neste momento estão a entrar aqui em Montemor por esse periférico direito, que era o rio antigo. Estão aqui a passar com muito caudal. O nosso grande problema é se houver um colapso de uma dessas margens ou desses rios, pode ser um problema para a população. É isso que preocupa neste momento.
Sendo que se mantêm as inundações na cidade de Montemor?
Sim, completamente. A freguesia de Ireira está, Montemor também, mas neste momento não é essa a maior preocupação. Isso já temos há alguns dias, agora é este perigo iminente que poderá surgir a um momento qualquer. Esperamos que não.
Quais são as localidades que estão sob ameaça face a esse risco?
Casal Novo do Rio e Montemor, e por consequência, Ireira novamente, que irá aumentar o isolamento. Neste momento, já tem um metro e meio de água à volta, estamos a falar pelas estradas. Depois irá subir possivelmente muito mais ainda, mais de um metro ou metro e meio.
Face a esse risco, foi decidido promover a retirada de pessoas, novas evacuações ou não?
Sim, algumas pessoas. A Câmara tem todo o dispositivo para serem retiradas. Neste momento, algumas pessoas mudaram de localização para familiares, outras estão no primeiro andar. Neste momento, nenhuma quis sair ainda, mas temos o plano, que é só ativar se houver necessidade. Temos um grande contingente de GNR, de bombeiros, do exército, de fuzileiros. Temos tudo no terreno e disponível caso haja o mínimo sinal de perigo, as pessoas serão retiradas.
Em Ireira, qual é o ambiente entre a população que ainda permanece na localidade? Há receio ou, habituada que está a estas inundações, não é propriamente esse o sentimento mirando?
É assim, as pessoas estão habituadas, as mais idosas. As mais novas nem por isso, mas neste momento acaba por ser uma vida difícil. As pessoas não têm as condições de trabalho, psicologicamente sentem-se afetadas, é um pouco doloroso e desgastante. Isto porque já estamos a falar de uma situação destas há bastante tempo, há 15 dias. Isto começa a ser um pouco doloroso, porque dois ou três dias é uma festa, mas neste momento não é festa nenhuma, porque inviabiliza muito o dia a dia das pessoas.
Há equipamentos municipais destruídos por força da intempérie?
Sim, temos alguns edifícios municipais já com água também. Mas nós, em termos dos bens, das infraestruturas, não estamos preocupados. Acima de tudo, o que mais nos preocupa são as pessoas. É evidente, estamos preocupados também com os bens, mas neste momento salvaguardámos o possível, as infraestruturas estão com água. Mas acima de tudo, nós não queremos que aconteça nada com as pessoas. Acima de tudo é pessoas e bens, mas primeiro as pessoas.
Há pouco falávamos do caudal do rio Mondego. A barragem de Agueira continua a libertar água. O caudal libertado tem uma dimensão a ponto de poder promover essas inundações de que há pouco aqui nos dava conta?
Pronto, é assim, Agueira atingiu o recorde de capacidade.
99%, não era, ontem?
Exatamente, sim. Neste momento, o que estava previsto para hoje era que a capacidade Fosse dois metros e pouco. Neste momento, tem uma capacidade de quatro metros. Eu agora não tenho as contas das afluências que está a ter. Também tem a ver um pouco com a pluviosidade que possa vir ou não, mas dá-nos a impressão que as coisas não estão a ser tão graves como inicialmente se previa.
Comigo está aqui o João Miguel Santos, animador da Rádio Observador. Gostava de lhe fazer uma pergunta antes de terminarmos esta conversa consigo, José Veríssimo. João, faz favor.
Sr. Presidente, o que é que mais teme nesta altura?
O que mais temo é precisamente isto, é o aluimento de um destes diques que provoca o maior pânico e mais constrangimentos à vila e a esta população do Casal do Rio. E também há uma coisa que neste momento não está fora de hipótese ainda, é a possibilidade de poder vir a romper o rio para a margem esquerda.
Nesse caso, o que é que pode acontecer?
Não é tão preocupante, mas poderá ainda acontecer. Portanto, não há risco zero.
Se esse dique se romper, o que é que pode acontecer?
Enquanto aqui rompeu para o lado direito, é o vale central, é o vale agrícola, em que tem aqui muitos milhões de metros cúbicos de água, estou para o lado esquerdo tem as populações muito em cima, muito próxima. Isso é muito mais complicado.
Deixe-me terminar esta conversa com uma pergunta de cariz mais pessoal. Imagino que não esteja a ser fácil para si lidar com esta situação, que, como já aqui sublinhou, se prolonga há tantos dias.
Sim, efetivamente, é muito difícil sobreviver a uma situação destas. A minha pouca experiência, alguma experiência, porque só há três meses que estou à frente do município, ter uma responsabilidade de ter todos os munícipes que confiaram em mim e não conseguir dar o melhor, é uma angústia muito grande e é aquilo que eu tudo quero, tudo faço para que nada lhe aconteça. Tenho todas as condições que eu tentei, mas há coisas que não se consegue ultrapassar, que é a natureza. E no fundo, aqui é um facto, é que a natureza é que manda e estamos cá para tentar minimizar as coisas.
José Veríssimo, boa sorte para esse trabalho de monte que tem em mãos. Ao presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, a fazermos um ponto de situação no concelho, sendo que as preocupações das autoridades de proteção civil centram-se precisamente nas populações e nas localidades banhadas pelo rio Mondego. Avançamos agora para outro município, município aqui bem mais próximo da cidade de Lisboa, Sobral de Monte Agraço. É nossa convidada a presidente da Câmara Municipal, Raquel Lourenço, a quem agradeço a disponibilidade para estar aqui conosco neste explicador da Rádio Observador. Raquel, começo por lhe perguntar, há pouco vi uma notícia que dava conta de que 10 pessoas tiveram de ser retiradas de casa. O que é que aconteceu para que tenha sido decidida esta evacuação?
Olá, bom dia. Acontece que nós tínhamos, desde o início da tempestade Cristina, 10 desalojados, três deslocados. A situação tem estado a agravar com os abatimentos de vias. Sucede que em Pé do Monte tivemos que, por questões de segurança, face ao crescente abatimento da via, a necessidade de interdição da ligação da Estrada Nacional 248-2 à localidade de Pé do Monte, pelo que esta aldeia onde residiam 49 famílias deixou de estar acessível através de vias automóveis. O Serviço Municipal da Proteção Civil solicitou a todos os moradores que procedessem à retirada das viaturas. Os Serviços de Ação Social também colaboraram na identificação de eventuais necessidades de apoio, estando a assegurar a alimentação e a medicação destas pessoas. Contudo, durante a tarde de ontem, numa visita pedida por nós também por parte do LNEC, constatou-se que duas das habitações que estavam na entrada da localidade de Pé do Monte teriam de ser evacuadas, pelo que cerca de quatro pessoas, uma família de um casal, uma criança e uma avó ficaram deslocadas para uma casa secundária e um idoso de uma outra habitação não quis sair. Entretanto, também na Barqueira, tivemos seis pessoas, dois casais, duas crianças, que foram evacuadas por precaução e ainda durante o dia de hoje, esta manhã, uma senhora também ficou na Barqueira sem telhado e reencaminhámos para a Santa Casa da Misericórdia. Todas estas pessoas estão a ser acompanhadas pelos nossos serviços municipais, fornecendo nós alojamento temporário, sendo que algumas famílias estão a encontrar outras soluções.
Alguma expectativa de quando é que estas pessoas possam regressar a casa em segurança?
Estamos com os nossos técnicos nos locais, também relativamente aos abatimentos de via. Hoje, por exemplo, em Pé do Monte, vamos ter a ajuda do Exército Português na retirada daquele abatimento de via no alcatrão. Os nossos serviços municipais vão-se dirigir também ao local para tentar estabilizar as terras, mas previsões ainda não conseguimos ter, depende muito do comportamento também das nossas terras, porque neste momento temos os solos saturados e precisamos de perceber, ao minuto temos de decidir e ao minuto temos que ver como é que estão as coisas.
Há condicionamentos em quantas vias do concelho?
Nós temos, em termos de trânsito, cortado nove vias e temos trânsito condicionado em 14 neste momento. A interrupção do abastecimento de água também constitui, precisamente, o maior constrangimento, sendo que existem localidades que estão sem abastecimento há quase uma semana, devido a ruturas sucessivas das condutas da EPAL. Para minimizar esta situação, o município tem vindo diariamente a realizar as suas pensas do Serviço Municipal de Abastece em articulação com os Bombeiros Voluntários de Sobral Monte Agraço, com a distribuição gratuita de água através de viaturas externas.
Com recurso a autotanques, não é? Sim, com recurso a autotanques, é isso.
Isso mesmo.
O risco de aluimento de terras, presumo que se mantenha, tendo em conta aquilo que há pouco nos dizia, que os terrenos estão saturados de água.
Sim, choveu muito durante as últimas horas. Aproximam-se também mais períodos de chuva. Os terrenos efetivamente estão saturados. Nós estamos a acompanhar a situação ao momento com os nossos serviços municipais e o nosso Serviço Municipal da Proteção Civil, a questão das terras. E é precisamente por causa desta parte dos solos saturados, que temos tido o abatimento das vias, também o deslizamento de taludes para as estradas e daí a necessidade de cortar algumas estradas e não conseguimos mexer em algumas, precisamente porque os taludes estão sempre a drenar a água e a deslizar.
Tem tido o apoio de que necessita por parte da administração central?
Nós somos um conselho que foi-nos decretado o estado de contingência. Tenho estado em contacto com o senhor secretário de Estado da Proteção Civil, em matéria de viaturas externas por parte de outros bombeiros também da região. E até agora, tem sido este o apoio em termos de Exército português e de viaturas externas por parte de outros bombeiros voluntários. Solicitámos o pedido de situação de calamidade e estamos ainda a aguardar a resposta.
O que é que ganha o município, caso venha a ser incluído nessa declaração de calamidade? Que respostas é que passa a ter?
Sim, nós temos tido danos em habitações, telhados e telheiros. Portanto, as pessoas passariam a ter este acesso ou apoio para habitações. E para além disso, temos muitos danos já reportados de abatimentos parciais de vias, não só em estradas nacionais, mas também em estradas municipais, até uma delas provocadas por uma rutura da EPAL. E portanto, em termos de infraestruturas, precisávamos deste apoio, dado que somos um conselho pequeno e com o orçamento também ainda pequeno e que ultrapassa a estrutura orçamental do nosso conselho e, portanto, a nível de infraestruturas, também há associações recreativas e coletividades a valer o telhado e, portanto, também precisavam, se calhar, de algum apoio por parte da administração central e daí o estado de calamidade poder ajudar estas pessoas e as nossas infraestruturas.
Estou aqui com o João Miguel Santos, animador da Rádio Observador, que olhava aqui para o mapa e dava conta de que há algumas fábricas aí no concelho de Sobral de Monte Agraço. Estão a laborar essas fábricas?
Não, o nosso tecido empresarial neste momento tem estado alguns dias sem água e, portanto, não conseguem laborar. Esta é uma realidade que nós estamos cientes e estamos a acompanhar. Alguns conseguiram arranjar depósitos e os nossos bombeiros articulados connosco foram abastecer esses depósitos, mas de facto muitas empresas tiveram de fechar devido, sobretudo, à questão do abastecimento de água.
Claro. As escolas estão de portas abertas ou também estão encerradas?
Nós já tivemos aqui vários momentos. Diariamente tomamos uma decisão. Neste momento, existe água aqui nas escolas de Sobral Monte Agraço. As escolas da Sapataria e do Pero Negro não têm, é uma zona mais alta aqui e que tem a ver com a rede de abastecimento de água. Aquilo que estamos a fazer ao dia de hoje é assegurar as refeições aqui na Escola Secundária de Sobral Monte Agraço e que são levadas para a Escola da Sapataria.
A linha ferroviária que atravessa o concelho está encerrada, não há circulação de comboios. De que forma é que isto afeta a vida dos munícipes do seu concelho?
Isto poderá atrasar um pouco a obra da Linha do Oeste, que estava prevista para abril de 2026, e certamente é um outro meio de mobilidade que vai ser afetado. Temos que recorrer e temos que densificar as outras vias, nomeadamente de autocarros, para que as pessoas possam continuar a haver essa intermodalidade entre outros meios de transporte públicos.
Raquel Lourenço, termino esta entrevista com a mesma pergunta que fazia há pouco o autarca de Montemor-o-Velho, a José Veríssimo. Sob o ponto de vista pessoal, como é que tem vivido estes dias e a resposta pedida pelos munícipes do seu concelho às dificuldades criadas pela intempérie?
Têm sido 16 dias muito desafiantes. Tomei posse há três meses e está a ser uma prova de fogo.
É o seu primeiro mandato e a sua primeira experiência autárquica?
É sim. 46 anos e mudou este ano a cor política aqui do conselho e tem sido muito desafiante estes 16 dias. Há algumas pessoas, obviamente, que pedem respostas. Nós não conseguimos muitas vezes dá-las porque não depende de nós, nomeadamente do abastecimento de água com os serviços da EPAL no terreno e estão a fazer também todos os esforços, mas há outras que percebem a situação em que nós estamos e veem-nos diariamente e até de noite a trabalhar para o bem-estar das pessoas e para este abastecimento de água. E de facto, os nossos serviços municipais da Proteção Civil, os nossos bombeiros voluntários, a nossa GNR, os nossos trabalhadores do município, têm estado dia e noite para conseguir trazer o melhor bem-estar para as nossas populações. Há situações que nós não prevemos, é a natureza, são alterações climáticas, mas aquilo que estamos a tentar assegurar é os serviços mínimos que podemos dar à nossa população, dar o valor à vida humana para que as pessoas possam abandonar as suas casas no momento em que nós não temos a certeza do que poderá acontecer em determinadas zonas. E, portanto, são estes os valores que nós estamos a premiar, o valor da vida humana e os serviços mínimos que nós possamos dar e estamos a trabalhar todos no terreno para que isso aconteça e seja uma realidade.
Raquel Lourenço, como há pouco sublinhava, é de facto uma prova de fogo para alguém que assumiu funções há três meses. Agradeço-lhe, presidente da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, aqui a traçar-nos um retrato da forma como os munícipes estão a viver os impactos e os efeitos do mau tempo neste município de Sobral de Monte Agraço. Tivemos aqui também conosco o presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, que dava conta da preocupação em torno daquilo que pode acontecer durante o dia de hoje, muito em particular, o receio de se registar um novo colapso do dique do Moundecl.
Talvez nos próximos minutos a Proteção Civil nos possa dar alguma indicação do que vai acontecer ao longo do dia. Vamos estar em direto com a sede da Proteção Civil. Vai lá estar um repórter do Observador. Vamos dar conta dessa conferência de imprensa daqui a instantes.