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Um dos concelhos mais afetados pela Depressão Cristine. Falamos agora da forma como as autoridades se organizaram para reagir aos estragos e à falta de comunicações. É nosso convidado, Domingos Antunes, comandante distrital da PSP de Leiria. Muito bom dia e obrigada por estar conosco nesta emissão que trazemos aqui a Leiria. Falamos logo, quase nas primeiras horas depois da passagem da Depressão Cristine, na emissão da Rádio Observador, e ficamos a saber, aliás, porque nos contou, que a rede SIRESP falhou e que a própria PSP ficou sem comunicações no exterior e no interior, as comunicações pararam. Se a tempestade fosse hoje, alguma coisa seria diferente?
Em primeiro lugar, agradeço muito a vossa comparência aqui em Leiria, porque todos nós precisamos desse ânimo e desse entusiasmo para tentarmos nos reerguer. São momentos de, às vezes, alguma imprevisibilidade, em que apesar de nós sabermos muitas respostas, de facto, as perguntas mudaram. E isso foi desafiante. E para dizer logo como é que nós reagimos, em primeiro lugar, houve aqui uma-- às vezes nós não sabemos bem porque estamos naquele sítio, naquela hora, e eu, à data, pernoitei dentro do comando em face do aviso que foi emitido pelas autoridades e percebi que havia um ruído muito estranho, pensando até que eram alguns camaradas que circulavam dentro do edifício, mas depois, perfeitamente pela extensão e pela durabilidade, percebi que havia alguma coisa de estranho. E recebi um telefonema da central telefónica, foi o último, já muito perto das 05h, e percebi que tinha que reagir. Primeiro, porque a chamada caiu. Segundo, tentei abrir a janela do quarto e vi claramente a cidade sem um único ponto de luz. E depois foi a minha complicação, foi como é que eu agora regresso para vestir, porque não havia absolutamente luz nenhuma, uma vez que o nosso gerador também teve algum delay para poder reagir. Felizmente, temos esse gerador, que repôs o mínimo das condições da eletricidade, mas ainda foi algum tempo. Procurei encontrar o meu telemóvel para ligar a lanterna e conseguir vestir-me. E vesti-me rapidamente e voltei para o exterior e percebi que havia um caos no comando, porque o nosso centro de comando e controle, que é basicamente o coração e a casa das máquinas da polícia, concretamente para movimentarmos meios, tinha acabado de ruir. Só nos restou um rádio que apenas funcionou em Leiria. Deixámos de conectar com a Marinha Grande, com Pombal, que era a nossa preocupação, saber como é que estava o resto do dispositivo.
Ou seja, tinham que reagir perante uma situação que desconheciam, na verdade.
Completamente, porque à partida há uma presunção de que pelo menos as comunicações funcionam. E para movimentar meios desta natureza, carros-patrulha, chamar pessoas, é necessário haver o mínimo de comunicações. Depois, ainda por cima, com a agravante que as operadoras móveis também acabaram por colapsar. Foi uma outra adicional que muitas vezes, é lógico, quando não conseguimos ter uma cobertura sobre a rede de transmissões, utilizamos muito o telemóvel e os nossos grupos informais, que às vezes até funcionam melhor em função da velocidade da informação e dos nossos hábitos de rotina.
Em muitas organizações isso acontece.
Funciona e é isso, são um sinal dos tempos. Agora, depois eu tive esse impulso de sair logo pra rua, até porque recebi um último telefonema de uma pessoa que estava a pedir socorro. Ainda consegui fazer uns cinco, seis quilômetros e percebi àquela hora que estávamos perante um caso inédito, único, pelo menos na minha vida.
Senhor comandante, claro que estamos a falar de uma situação completamente imprevisível, mas deveria haver protocolos para uma situação destas em que todas as comunicações falhassem. Esses protocolos existem?
Nós temos um protocolo de atuação nestas crises. De qualquer maneira, nós admitimos sempre, dentro de vários cenários, que há aqui alguns que têm que ser garantidos, e designadamente as comunicações são fundamentais.
Agora estamos a falar de um caso de intempérie, mas tivemos, por exemplo, o apagão no ano passado, e aí atingiu todo o país. Aprendeu-se alguma coisa já com o apagão ou, neste caso, voltaram a estar perante as mesmas dificuldades?
Não, o apagão foi um evento completamente diferente. Enquanto o apagão, nós tivemos sempre, particularmente a polícia, a capacidade de ter o gerador ligado e basicamente foi uma sobrecarga do sistema, neste foi um colapso de todas as estruturas e isso ruiu completamente. Nós tivemos ali um delay no apagão, algum tempo, mas conseguimos retomar e aprendemos uma coisa: a unirnos mais e a coordenarmos. E eu tenho que deixar aqui um elogio, porque às vezes temos um discurso derrotista e de negação, mas verdadeiramente, nós fomos uns heróis, todos, porque conseguimos.
Isso notou-se já na atuação, na resposta a esta tempestade?
Sim. Eu que estive também aqui no apagão em Leiria, notei claramente um plus de conforto, de coordenação, porque também tínhamos um problema de geradores. O apagão também gerou aqui um problema de geradores e aqui também foi. Posso dizer, por exemplo, relativamente ao combustível para os nossos carros-patrulha, já estava tudo muito mais oleado, já sabíamos qual era o posto de combustível de emergência para as forças de segurança e para os serviços de proteção. Sobre isso, já tínhamos também feito alguns exercícios de reposição de geradores, eu particularmente na polícia, alertei a direção nacional que isso era o básico dos básicos.
Mas alertou depois do apagão?
Sim, isso já era uma situação que já estava muito identificada. Por aí, muitas vezes nós temos muitos sonhos, mas depois estamos condicionados em função também das nossas disponibilidades financeiras. É assim em todo lado e também no Estado.
Então deixe-me recuperar a pergunta que lhe coloquei no início Se voltarmos a ter uma situação catastrófica como a de 28 de janeiro, já há novos mecanismos que lhe parece que não só a PSP, mas todas as entidades que estão no terreno, como a Proteção Civil, já conseguiram criar para conseguir reagir de uma outra forma?
Seguramente. Nós temos sempre reuniões diárias, fazemos um debriefing, isso tudo é escalpelizado ao milímetro. Conseguimos todos fazer uma análise crítica com a maior humildade. Há sempre espaço para melhoria e, efetivamente, na minha experiência aqui do apagão e esta transição para esta, é completamente notório, mas evidente mesmo. Só para dizer, todos nós percebemos que temos que ter um kit de sobrevivência institucional, até intitulamos esta do kit institucional de sobrevivência, mas temos que ter combustível disponível, primeiro, temos que ter um gerador, temos que ter comunicações e temos que ter água. São os quatro elementos básicos que nós, para qualquer instituição de primeira resposta, temos que ter. E também o cidadão. Aquilo que eu vi foi alguns, e agora também, já têm kits em casa. Parece que não, mas as pessoas estão a acreditar que isso possa ser repetido. E depois há aqui uma nota, que é: todos nós estamos a perceber que os ciclos entre tempestades são cada vez mais curtos. Estou aqui há cerca de dois anos, já fui confrontado com o apagão, que não foi fácil de resolver, e depois agora com esta aqui que não estava mesmo no meu imaginário, e depois para quem saiu de Lisboa procurando algum conforto.
Mesmo que uma situação destas não volta a acontecer tão depressa aqui nesta região, pode acontecer noutra região do país. Aquilo que aprenderam aqui em Leiria, há mecanismos, há forma de fazer chegar essa informação também a outros pontos do país, dentro da PSP e não só, para reagir a fenômenos como este?
Sim, a princípio, as unidades todas de coordenação e a própria direção nacional também está claramente empenhada em fazer a difusão desta resposta, que ao nosso nível foi boa, aliás, foi difundido mesmo por vós. Nós passado uma hora estávamos a chamar recursos, porque percebemos que isto não funciona só com os elementos que temos disponíveis no território. Temos que ter aqui, entre aspas, uma robustez e um reforço imediato, e isso não é compatível com as forças locais e com os nossos recursos. E depois avançámos exatamente para este kit de sobrevivência. Não podemos abdicar disto. E também dizer que aprendemos todos uma coisa que por cada euro investido na prevenção, poupamos sete na repressão e na reação. Isto é uma cultura que nós temos que interiorizar, quer ao nível particular, quer ao nível do Estado. E este também vai ser um outro mundo, mas para lhe responder concretamente à questão, sim. Há vários relatórios, definimos já um protocolo, estamos também empenhados em cada vez melhorar esse protocolo, porque depois a arquitetura da resposta é quase sempre a mesma. Dizer que se monta uma célula de comando, isso é uma célula de comando em qualquer lado. Eu, particularmente, tenho isto na minha cabeça, até pela minha experiência, também já há 36 anos de serviço, 37 este ano, e obviamente, também já estive nestes cenários. Para mim foi muito fácil, porque cheguei, estava no comando e basicamente comecei logo a convocar a logística, a investigação criminal, as informações, as transmissões, e a partir desse momento começámos a desenvolver o nosso trabalho. O que é preciso é alguém que tenha essa capacidade de decisão e não demorar tempo.
Mas também depende da extensão da região afetada. Uma das questões que tem sido falada é a resposta dos municípios, a capacidade de resposta quando estamos a falar de uma região muito vasta. Existe essa capacidade de coordenação mesmo entre as forças de segurança quando a região é mais vasta?
Sim. Aí cada município, obviamente, de acordo com as suas capacidades, as cidades não são iguais, os recursos não são iguais. Nós notamos que as velocidades são diferentes. Estar aqui a dizer não seria leal da minha parte, nem frontal. Percebemos que as velocidades são diferentes em determinados municípios. Claro que o município de Leiria, por força até do seu poder financeiro, tem já uma resposta muito maior. Aliás, tem logo os bombeiros sapadores que em outros locais não existem. Há aqui um grau decisivo nos primeiros momentos.
Disse-nos também, logo a seguir à tempestade, que a criminalidade diminuiu em Leiria. Como é que está agora?
Sim, isso é sempre o padrão. Volto a dizer também que não há nenhuma opção de magia. Em primeiro lugar, porque as pessoas ficam em casa, protegem mais a sua propriedade. Segundo, não havendo bens de oportunidade no espaço público, não existe, é basicamente a triangulação do crime.
Alguns conselhos relataram o roubo de geradores ou de combustível, por exemplo.
Pois, nós tentamos fazer um combate à desinformação. Isso não se verificou já em sede briefing e pedimos encarecidamente também, foi uma lição que houve muita gente a injetar, perdão-me a expressão, informação, que isso cria um pânico. Eu adotei essa tática passado dois dias, nós colocámos a videoproteção e a videovigilância sobre os equipamentos. Nós não tivemos um único registro, nem de furto de combustível, nem de gerador. Isso não é nem conversa de circunstância, é a verdadeira realidade. Não sei se alguém quis injetar isto para criar aqui uma necessidade, mas verdadeiramente nós não tivemos.
Mas a certa altura houve algum pânico em relação a essa possibilidade.
Algum desconforto nos próprios populares, porque começaram a retrair-se e até levar os geradores para o interior de casa e tivemos alguns registos.
Exatamente, algumas vítimas mortais dessas situações.
Quando alguém começa a lançar esse pânico e que, de facto, é as tais perceções, mas que não têm qualquer tipo de correspondência em termos objetivos, e foi aquilo que verificamos. Falo da PSP, também saí da área da GNR, mas estamos a falar de mais de 300 e tal geradores por todo o concelho. Não é uma coisa de dois ou três. Inclusivamente, até fui confrontado com uma fuga de presos. Alguém lançou esse pânico, porque nós temos aqui um estabelecimento prisional, uma prisão escola com grande-
Em momentos de catástrofe, a informação também é muito importante, não é?
Perdoe-me, não querendo ser inconveniente, mas quero elogiar o papel da rádio, que para nós foi essencial. E já agora, permita-me dizer que eu, quando saí, verifiquei, às 05h e pouco da manhã, que as pessoas ainda estavam a acordar e a sair de casa sem ter noção do que estava a acontecer. As árvores a cair, os postes a cair, os painéis a cair, as pessoas correndo risco e eu peguei no telemóvel, foram as últimas comunicações que fiz, e liguei para a Lusa, a quem pedi mesmo: "Por favor, difundam isto, não saiam de casa, porque isto vai criar aqui um obstáculo evidente." Se os carros de patrulha não circulam, se os bombeiros não conseguem chegar com o trânsito, impossível. Isto foi insistentemente. De facto, passaram logo essa mensagem para as pessoas não saírem, porque ainda aqui, muito próximo do largo, já era próximo das 06h, 05h50, interpelei uma senhora que vinha no carro, ela sem ter a perceção, apesar de haver árvores já caídas aqui à frente da loja de conveniência, e eu perguntei: "Mas a senhora a esta hora está aqui?" Era uma senhora já com alguma idade, queria ir tomar um cafezinho ao shopping e eu: "Por favor, você vá para casa, porque está a correr risco e não faz nenhum sentido."
O que mostra que nestas situações a informação e a passagem, a circulação da informação também é fundamental. Domingues Antunes, é comandante distrital da PSP de Leiria. Agradecemos muito a sua participação neste Explicador e também o trabalho desenvolvido em prol das populações neste período tão difícil para a região de Leiria. Muito obrigado e bom dia.
Eu é que agradeço. Obrigado.
Obrigada.