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Muito bom dia, José Carlos Ferreira. Bem-vindo aqui aos estúdios da Rádio Observador. O senhor está neste momento na Costa da Caparica a avaliar o impacto da tempestade e por aí que tem desenvolvido o seu trabalho. O que é possível concluir nesta altura?

Muito bom dia, muito obrigado pelo convite. A tempestade tem provocado bastantes problemas no nosso território, em toda a costa. Na Costa da Caparica, felizmente, não.

Desta vez.

Desta vez, há alguns anos, desde 2014. Ou seja, o trabalho tem sido feito pelas nossas autoridades, nomeadamente com o fornecimento de sedimentos, a alimentação artificial e também a utilização cada vez maior das soluções com base na natureza, como as dunas e a praia, tem feito, efetivamente, a redução do perigo nestas áreas, o que é interessante. É uma situação a acompanhar, o que não se passa noutras regiões do país. Como sabe, no Algarve, na região Centro, tem havido bastantes problemas. Ainda ontem eu fiz um pequeno levantamento rápido pra ver se havia alguma situação após a noite que tivemos e, para além dos tradicionais galgamentos, da areia ocupar algumas áreas da via pública, aquilo que nos chamou muita a atenção é que havia muitas pessoas a visitar a zona costeira e muitas pessoas sem a noção do comportamento de risco. E isso é algo que tem que se pensar seriamente como é que podemos alterar este padrão. Ou seja, numa situação de emergência, numa situação de perigo, as pessoas não têm noção, não têm essa perceção e expõem-se. Ou seja, há perigos, ficam vulneráveis e obviamente correm riscos.

Como é que se altera este tipo de comportamentos?

É algo que nós, na Faculdade de Ciência e Tecnologia, quer no departamento de Engenharia do Ambiente, quer nos cursos que nós também temos de Engenharia do Ambiente, Urbanismo, etc., trabalhamos com os nossos futuros profissionais, os nossos atuais alunos, é que efetivamente grande parte destas questões, as políticas públicas, as estratégias, os planos, enfim, todo o trabalho que fazemos, e é muito bem feito, nós temos muito boas estratégias, muito bons planos, muitas vezes por que eles não são, eu não digo que falhem, mas não são tão eficazes e tão eficientes. Isso acontece porque eles são construídos sem as pessoas. Ou seja, como é que nós alteramos isto? Construindo estas estratégias com as pessoas. Porque nós temos muitos bons planos, volto a repetir, já temos bastante tecnologia e de facto, se nós não construímos com as pessoas, elas depois também não se reveem, não são co-responsabilizadas e também, muitas vezes, as questões não são efetivas. Ou seja, pode haver uma política pública, mas tem que ser adaptada a cada comunidade.

A experiência da Costa de Caparica acha que devia ser replicada para outros pontos da nossa costa?

Em termos de quê?

De ordenamento, daquilo que tem sido feito para prevenir o impacto destes eventos.

E tem sido feito. Na Costa de Caprica tem resultado, noutras zonas não tem resultado.

Por quê?

Tem a ver com muitas características locais. Tem a ver com a exposição da própria costa, tem a ver com ondulação, tem a ver com uma série de-

Ou seja, não dá para replicar a mesma forma de atuar.

Não, o que nós sabemos e aquilo que nós percebemos é que não há uma solução única. Nós, naturalmente, no departamento que nós trabalhamos, defendemos muito a utilização das soluções com base na natureza e nomeadamente, as soluções com base na natureza são interessantes, têm um investimento à mesma, muitas delas não são propriamente ecológicas, como é o caso do enchimento de praia, mas tem um compromisso menor em termos financeiros, por exemplo, a longo prazo com o erário público. E tem resultado. Tem resultado esta integração entre apostar no enchimento de praia e também no restauro das dunas, com a manutenção das obras aderentes e mais pesadas. Mas é uma situação a curto prazo. Se pensarmos em ordenamento do território, é a curto prazo.

José Carlos Ferreira, nós basicamente vamos pagando algum custo por algum mau trato do ordenamento costeiro no passado ou não fomos muito maus assim?

Não, o custo é elevado.

Cometemos muitas asneiras no passado, é isso?

E continuamos a cometer. Nós temos um território, se me é permitido, podemos começar a dizer: alguma coisa mudou. Sobretudo em termos do clima. Mudou, pronto. As coisas mudaram e nós sabíamos que iam mudar. A ciência já tinha informado que ia mudar. Estou na componente mais de ensino e investigação, nós investigadores até ficamos surpreendidos com a mudança.

Com a rapidez da mudança?

Com a rapidez e a intensidade. Ou seja, os piores cenários foram confirmados no menor curto espaço de tempo. As nossas previsões, de um modo geral, obviamente, eram conservadoras, na verdade. Portanto, algo mudou. Nós estávamos habituados a períodos de seca, sete a 10 anos, períodos úmidos, sete a 10 anos. Sempre houve tempestades, sempre houve inundações. Até a nível das inundações, nos anos 60 e 70, morreu muita gente neste país. Se nós formos recuarmos, as coisas melhoraram bastante, não há dúvida nenhuma. Mas estas tempestades mais intensas vieram para ficar E este é o exemplo que nós temos neste momento. Nós temos o quê? Temos um jet stream, ou seja, aquela circulação em altitude de 10, 11 quilômetros, que normalmente está nesta fase mais próxima do pólo, só que a Inglaterra está rebaixada. É como se nós imaginássemos uma onda, ela cava mais, ou seja, vem mais pra sul e depois quando volta a subir, vem na direção da Península Ibérica, que é o que está passando neste momento e que dá sequência a estas tempestades todas, ela está muito rebaixada. Está muito rebaixada e está a gerar fenômenos extremos. E aquilo que nós temos que pensar é que isto vai continuar. Esta é a lição que temos que tirar.

No inverno?

No inverno. E no verão, temos os incêndios e as ondas de calor.

Claro. Aqui falando da zona costeira.

Exato. Falando da zona costeira e não só, em todas as áreas urbanas, em todas as áreas urbanizadas, em todas as cidades, na agricultura, ou seja, em todo o território. E como nós vimos, e de certa forma, as consequências são tão graves sem ser na zona costeira, que a zona costeira neste momento não está no foco, mas estamos com foco no resto do território. Efetivamente, estas mudanças vieram para ficar. E nós dizemos assim, a culpa é das alterações climáticas. Obviamente, permitam-me a expressão, as alterações climáticas têm as costas largas. Obviamente, as alterações climáticas, e neste caso, por que nós temos estas depressões mais cavadas? Por quê? Porque temos um oceano mais quente. Tendo um oceano mais quente, temos, por exemplo, nesta caso do jet stream baixar pra sul, temos uma massa de ar frio a entrar, que toca numa massa de ar quente, dá esta precipitação muito intensa e isto afeta todo o território. Portanto, aqui as alterações climáticas intensificam. Agora, o problema está lá. Nós não podemos continuar a ocupar áreas de risco e pensar que nada acontece.

Como disse há pouco, que não só cometemos erros no passado, como continuamos a cometê-los. Muito rapidamente, José Carlos Ferreira, para fechar, que erros é que continuamos a cometer no ordenamento da orla costeira, sobretudo?

No ordenamento da orla costeira e no país.

E no país.

É, no país. O ordenamento da orla costeira é mais gráfico, porque é um grande ativo que nós temos. No ordenamento da orla costeira, continuamos a pensar que soluções como o enchimento de praia, as soluções de natureza e também a proteção costeira mais rija, os tradicionais pontões e paredões, são suficientes pra conter o risco. Não são.

Dá uma sensação.

Dá uma sensação de insegurança. Portanto, o erro é não considerarmos efetivamente que as áreas de risco são áreas não ocupáveis por áreas urbanas ou não ocupáveis por pessoas. Então, nesta situação que está a ocorrer. Portanto, de uma vez por todas, as autarquias, a administração central, a Agência Portuguesa do Ambiente, a CCDR, o Instituto de Conservação da Natureza, todas as entidades que têm a gestão deste território, têm que incorporar estas áreas de risco, de galgamento costeiro, de inundação, veja-se o que está acontecendo hoje pelo país todo. Portanto, é algo que está ocorrendo.

Esperemos que seja então uma oportunidade para se pensar de outra forma. José Carlos Ferreira, muito obrigada por ter estado aqui na Rádio Observador da Manhã.

Muito obrigado.