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Começa agora o Explicador das manhãs 360. Esta quarta-feira olhamos para a realização dos quatro espetáculos-teste que pretendiam ser o balão de ensaio de grandes eventos com público. Quase dois meses depois, ainda não foi feito qualquer balanço. Para falar sobre o tema, convidamos Álvaro Covões, da direção da Associação de Promotores de Espectáculos, Festivais e Eventos, também diretor da Everything is New, e o coordenador de emergência da Cruz Vermelha Portuguesa, Gonçalo Órião. A moderação é da Carla Jorge Carvalho, a quem se junta o Paulo Ferreira e o Júlio Magalhães. Muito bom dia, obrigada pela vossa presença. Temos também de dizer que convidámos a Direção-Geral da Saúde para estar presente nesta discussão, mas não aceitou o nosso convite. Desde ontem que se têm criado várias interrogações sobre a monitorização das pessoas que assistiram a esses espetáculos de Braga, Coimbra e Lisboa, que foram amplamente noticiados. Gonçalo Órião, bom dia. Quer ajudar-nos a explicar o que se passou e qual foi, afinal, o papel concreto da Cruz Vermelha Portuguesa nestes testes-piloto?

Bom dia. A Cruz Vermelha participou nestes testes-pilotos a realizar os testes, ou seja, a fazer testes COVID, para garantirmos que todos os participantes dos eventos e o staff tinham teste negativo à COVID, ou seja, que não apresentavam COVID, para podermos ter estas metodologias de abrir mais público para estes eventos e perceber efectivamente o papel que um evento cultural pode ter a nível da transmissibilidade do COVID. Por isso, a Cruz Vermelha, no próprio dia dos eventos, fez um teste rápido de antígeno a todos os participantes e o staff. Esse foi o nosso papel para conseguirmos ajudar esta dinamização cultural e percebemos que efectivamente conseguíamos ter eventos culturais como em Braga, através da realização de testes COVID previamente ao evento.

Previamente, neste caso, Gonçalo Órião. E o plano das autoridades de saúde era qual depois? As pessoas eram todas testadas previamente, realizava-se o espetáculo e depois do espetáculo, qual era o seguimento deste plano?

O plano das autoridades de saúde, naturalmente, era da responsabilidade das autoridades de saúde.

Estamos com muito ruído aqui. Não sei se não será o Álvaro Covões, talvez. Bom dia, Álvaro.

Bom dia.

Algum ruído por aí, talvez, não?

Não, estou sozinho no escritório.

Muito bem. Gonçalo, desculpe esta interrupção. Era para criar condições para conseguirmos ouvir. Estava a explicar que depois do espetáculo realizado, o que devia acontecer ou o que aconteceu para se cumprir este processo?

Agora tivemos problemas na ligação com o Gonçalo Órião, o representante da Cruz Vermelha, que foi de alguma forma responsável pela participação da Cruz Vermelha na realização destes testes-piloto que começaram em março. Álvaro Covões, vamos tentar perceber também consigo, porque há de facto aqui muitas questões. Temos Gonçalo Órião, Carla. Muito bem. Vamos tentar fazer aqui um ponto de situação à conversa. Estávamos a tentar perceber como é que se realizaram e que acompanhamento foi dado a estes testes-piloto. O Gonçalo Órião, da Cruz Vermelha, já nos explicou que fez os testes rápidos para todo o público que participou nestes eventos. Quando é que termina este processo da Cruz Vermelha Portuguesa, Gonçalo Órião?

Da parte da Cruz Vermelha Portuguesa, o nosso papel foi realizar estes testes previamente ao evento e naturalmente temos de comunicar todos os testes e os resultados de acordo com as normas que existem, nomeadamente através do SNAI e articulação, sempre que foram solicitados para que naturalmente as autoridades de saúde pudessem fazer uma vigilância sobre os participantes do evento e perceberem se algum deles desenvolveu algum sintoma com diagnóstico COVID, e perceber se efectivamente isso teria alguma ligação ao evento ou não.

E esse era o grande objectivo destes testes. Álvaro Covões, e agora sim vamos conseguir ouvi-lo bem. Por que ainda não sabemos nada passados um mês e meio, quase dois meses destes eventos?

Bom dia. Essa é uma pergunta que tem que ser colocada à Direção-Geral de Saúde. Nós, enquanto entidade que organizou os eventos de teste piloto, fizemos o que nos competia. Tivemos um trabalho e uma colaboração absolutamente extraordinária por parte da Cruz Vermelha. Foi-nos solicitado um conjunto de dados, como o doutor Órião referiu, para que a DGS pudesse acompanhar as pessoas que participaram no evento e, pelos vistos, não conseguiram fazer esse acompanhamento e pediram mais uns dados. Pedimos à Cruz Vermelha para fornecer à DGS, que já foi feito de imediato e portanto, agora vamos aguardar. O que é estranho, de facto, e o doutor Gonçalo Órião referiu muito bem, estes testes foram feitos precisamente para estudar a possibilidade de aumentar a lotação das salas ou viabilizar eventos como os festivais. Extraordinariamente, sem que tenha sequer esses resultados, a DGS já tomou decisões sobre o assunto e a partir de agora a testagem passou a ser obrigatória para todos os eventos em sala com mais de 500 pessoas e no exterior com mais de 1000 pessoas.

E portanto não valeu de nada fazer os testes. É a conclusão que podemos tirar?

Sim. Quer dizer, há de valer sempre. Porque quando os resultados saírem, se calhar a DGS vai ser obrigada a alterar as normas que entretanto ontem publicou. De certa forma, o que está a passar neste momento é que a DGS emitiu uma certidão de óbito sobre o setor cultural. Ou seja, como nós sabemos, mais de 90% das pessoas não vão estar disponíveis para pagar um teste que irá a um espetáculo. Pagar e fazê-lo. Isso não vai acontecer. E sem explicação científica, de repente, um setor que tinha umas regras que estavam em vigor, eram exatamente as mesmas que entraram em vigor no dia 1 de junho de 2020, quando nenhum português estava vacinado, nem sequer existiam vacinas. E agora, com o processo de vacinação a correr como está a correr, quando até a própria Comissão Europeia decidiu ontem que para viajar na Europa não é necessário fazer teste, basta ter só a vacina ou já ter tido Covid. E de repente, em Portugal, para se ter acesso a um espetáculo, passamos a ser penalizados e passamos a obrigar o espectador a pagar do seu bolso um teste e só poder entrar quando tiver teste negativo. O grande objetivo dos testes, afinal, não se aproveitaram, para já. E de repente, há uma decisão, pelos vistos sem nenhum caráter científico, penalizadora sobre um setor, sem nenhuma explicação, aliás. Esta decisão foi tomada sem explicação, sem nenhuma. Até comparam um espetáculo com um casamento, que é uma coisa absurda.

Álvaro Covões, só para percebermos melhor, na semana passada terá havido uma reunião em que participou a Associação de Promotores de Espectáculos, Festivais e Eventos, em que foram dadas algumas explicações sobre este atraso. Sobre o atraso nos resultados destas experiências-piloto.

Sim, porque os dados que nos tinham sido solicitados e que nós solicitamos à Cruz Vermelha para transmitir, pelos vistos, não permitiram que os informáticos da DGS conseguissem fazer o acompanhamento. Então perguntamos por quê e pediram: "Precisamos também do número do utente." Então pedimos à Cruz Vermelha, que felizmente fez o trabalho em que pediu mais informação do que a que estava combinada às pessoas. Portanto, a Cruz Vermelha pediu exatamente a mesma informação que faz num teste normal. Enquanto quando nós preparamos eventos de teste piloto, a única informação que nos era solicitada era o nome da pessoa e o cartão de cidadão. Felizmente, a Cruz Vermelha fez o seu trabalho bem e não se desaproveitou. Portanto, felizmente, essa informação existe.

Gonçalo Órfão, o Álvaro Covões está aqui a acrescentar dados ao processo. Portanto, quando estes eventos piloto são preparados, não está contemplado todo o procedimento metodológico que se deveria seguir?

É assim, naturalmente, os eventos pilotos, quando foram preparados, foi algo aqui numa estreita articulação entre a organização e a Cruz Vermelha. Tentámos também criar as melhores metodologias para darmos a melhor resposta. A pensar logo nos participantes para o período, testarmos obviamente também fluxos de pessoas, fluxos de testagem, para conseguirmos perceber também qual é a capacidade de aumentarmos o número de participantes nestes eventos e a nossa capacidade de testagem. Em relação aos dados, a Cruz Vermelha naturalmente cumpriu como se fosse um teste regular. Houve uma comunicação ao SINAV imediata e essa comunicação ao SINAV também é feita preferencialmente pelo número do utente ou o número do SNS da pessoa. Naturalmente que se percebeu que existiu aqui um problema a nível de base de dados, porque naturalmente também temos que ter sempre em consideração que isto não deixam de ser dados pessoais, dados que requerem a sua privacidade e por isso a sua comunicação também deve ser feita estritamente quando necessário às atividades necessárias e de acordo com os dados que estas entidades pedem. E por isso houve aqui esta discrepância a nível dos dados existentes e da capacidade de cruzar estas bases de dados, que motivou naturalmente agora enviarmos também o tal número do utente, que é o número de base, por exemplo, para um SINAV.

Gonçalo Órfão, pelo conhecimento que terá deste processo, é recuperável isso de alguma forma ou não? Isto é, mesmo com o atraso que já estamos a verificar, será que nas próximas semanas vamos conseguir chegar ao fim deste processo, conforme estava previsto no início? Ou essa falta de compatibilidade entre bases de dados poderá tornar impossível que se chegue a uma conclusão?

Eu penso que sim, porque todos os diagnósticos de Covid, todos os testes realizados em Portugal, são comunicados ao SINAV. Ou seja, há uma base de dados das entidades de saúde onde conseguem monitorizar e fazer todos esses registos. Ou seja, eles têm capacidade de perceber e saber todas as pessoas que estão infetadas em Portugal. Naturalmente que podem precisar de mais informação para perceber o contexto da infeção, mas se existir a vontade de saber dos participantes quem desenvolveu doença em determinado período posterior, acredito que isso seja possível. Naturalmente, será algum trabalho informático para haver essa extração de dados. Não será algo automático, mas que os dados existem e é possível nós haver essa gestão de informação, este trabalho de informação.

Veremos então quando é que esses resultados poderão ser ainda assim conhecidos. O Álvaro Covões já nos deixou aqui uma frase muito forte nesta conversa. Disse que está passada a certidão de óbito ao setor da cultura com as regras que foram conhecidas ontem à noite em relação à testagem. Isto quer dizer que as perspectivas para o verão são realmente muito dramáticas e muito negras.

Claro, absolutamente. Aliás, é preciso voltar ao início da história. Estes eventos de teste piloto aconteceram porque foram decididos em Conselho de Ministros E apesar de no Conselho ter sido decidido avançar com estes testes piloto, foi solicitado à sociedade civil que os fizesse. E nós, com a colaboração de entidades como a Cruz Vermelha e com as autarquias, dos artistas e de empresas privadas do setor, conseguimos levar a cabo estes quatro eventos teste piloto. Todos nós fizemos o nosso trabalho e demos o nosso contributo. E sem ter ainda os resultados, é absolutamente extraordinário, como o governo já anunciou, que até 31 de agosto não há festas nem romarias, portanto, também não há festivais em Portugal. Foi decidido que estão proibidos até o dia 31 de agosto. Obviamente, que se a situação evoluir de uma forma mais positiva, poderiam alterar essa proibição. E também, entretanto, ontem foi decidido que para ir a um espetáculo, apesar de termos sido sempre um bom aluno, porque o setor cultural foi sempre apontado pelo governo como um setor que cumpriu sempre as regras, tornou a sua atividade segura e, portanto, até recomendou que todos seguissem o exemplo da cultura, e de repente, sem explicação absolutamente nenhuma, sem dados científicos absolutamente nenhuns, vem uma obrigação de testagem para espetáculos com mais de 500 pessoas, o que significa que nós sabemos e sentimos isso nos eventos teste piloto, as pessoas têm alguma resistência a fazer um teste. As pessoas fazem teste quando sentem a responsabilidade por contactarem com alguém que apresentou sintomas de Covid, ou porque vão a um momento especial, como um casamento, como uma viagem.

Não se querem dar ao trabalho para ir a um evento mais simples.

E muitas vezes o preço vai ser mais alto. Portanto, isto é altamente penalizador para o consumo da cultura. E sem explicação. No mínimo, a DGS teria que esperar pelos resultados dos eventos teste piloto para emitir uma norma sobre os espetáculos. Isto não faz sentido absolutamente nenhum. Portanto, isto é uma decisão de secretaria sem explicação absolutamente nenhuma. Um dia vamos perceber porquê.

Álvaro Covões, não sei se tem dados, qual é neste momento o impacto, já vamos com mais de um ano de um setor de atividade que está praticamente parado a 100%. Consegue nos dar um retrato em termos de emprego, de perdas de postos de trabalho ou de prejuízos causados neste setor?

Isto é um setor que tem muitos profissionais liberais e, portanto, é um setor mais de empreendedores, porque o músico é um empreendedor, é um empresário, é uma pessoa que é empresário em nome individual e trabalha para várias entidades, um técnico também. E, portanto, temos alguma dificuldade em saber. Temos conhecimento de muita gente que mudou de profissão, porque teve que procurar outro trabalho. Temos informação, obviamente, que o que importa são mais os números, por exemplo. DGPC em 2020 perdeu 74% dos visitantes. O cinema em 2020 perdeu também 75% dos visitantes. Nós, na Associação de Promotores, no inquérito que fizemos junto dos nossos associados, que são promotores privados de espetáculos, as quebras foram superiores a 75% também no ano 2020. Mas depois, curiosamente, quando temos acesso à informação sobre o nosso CAE, a quebra foi superior só a 50%. Mas dentro do nosso CAE estão entidades públicas, como o Centro Cultural de Belém e outras entidades. E portanto, essas entidades, logicamente, não perderam grandes receitas por ter uma dotação orçamental. E portanto, isto é algo meio confuso, mas obviamente que toda a gente entende que, em primeiro lugar, só são permitidos espetáculos em salas ou em recintos ao ar livre autorizados, que as últimas notícias têm sido que os eventos não têm sido autorizados, sempre sentados com lotações reduzidas. A lotação das salas reduzidas a 50%. Um país que tem poucas infraestruturas, ou seja, poucas salas de espetáculos, faz com que a maior parte dos eventos aconteça ao ar livre, naquilo que nós chamamos de recintos improvisados. Esses eventos não aconteceram, não acontecem desde março de 2020. E aqui é que se concentra a grande atividade deste setor. Havia uma expectativa, por isso é que esta ação dos eventos teste piloto consistia em tentar salvar o verão, mas, na realidade, não conseguimos. Nada vai acontecer. E pior ainda, ainda vemos a nossa situação agravada, que é até uma contradição, porque se nós repararmos, e bem, nos outros setores de atividade, as regras foram mais liberalizadas. Na praia, a distância que é exigida entre as pessoas não é a mesma do ano passado, é uma distância menor. Em todos os setores de atividade, houve, de facto, um aligeiramento de regras, ou seja, as regras não são tão exigentes. E de repente, ontem à noite, depois de um jogo de futebol em que toda a gente estava a comemorar, sai uma norma a dizer que mais de 500 pessoas numa sala de espetáculos, agora constitui perigo para a saúde pública.

Têm de ser testados. E deixe-me aproveitar, de resto, essa norma e a novidade que foi trazida ontem para perguntar ao Gonçalo Órfão se vamos ter capacidade logística até para realização de testes a um número enorme para um evento concreto. Cada vez que houver um evento com 500 espectadores, haverá capacidade técnica e logística para que isso possa ser realizável?

Eu acho que importa perceber que os testes, efetivamente, são importantes. A testagem massiva é importante, é algo que o PS desde setembro do ano passado defende em relação aos testes rápidos de antigénio, eles vêm configurar mais uma proteção. Importa também perceber que os testes não é tudo, há sempre medidas que vamos ter que manter, mas os testes vêm permitir mais uma medida e vamos chegar assim todos estes espetáculos. Quando falamos em mass gatherings, ou seja, quando falamos eventos de massa, existe sempre a questão logística, porque temos de fazer milhares de testes num curto período de tempo. Naturalmente, nós temos desenvolvido todo este sistema, mas existe uma limitação ao nível do profissional de saúde. A norma também abre a hipótese de haver o autoteste vigiado por um profissional de saúde, naturalmente, para não haver um falso teste, mas é algo que vamos ter que trabalhar em conjunto para conseguirmos dar este apoio aos eventos culturais com uma segurança, para conseguirmos fazer milhares de testes em curto período de tempo.

E com custos óbvios.

Obviamente que existem custos, obviamente, quando nós falamos também de manter alguma qualidade, há uma grande variabilidade a nível dos testes existentes no mercado. Aqui o importante é nós também percebermos que isto é mais uma medida e provavelmente tem que haver uma sensibilização também individual e da sociedade perante sinais de alerta, perante sinais de quando é que deve fazer o teste e também não usarmos os espetáculos como se fosse o único momento em que as pessoas podem fazer um teste. Naturalmente que a análise de risco tem que se manter. A estratificação de risco e o seguimento de casos positivos tem que se manter, é de extrema importância. Temos que olhar para isto como mais uma medida, mas tem que ser uma medida que tem que ser fazível para conseguirmos também haver essa recuperação natural, porque também sabemos que a doença afeta os mais idosos e neste momento estes são os que estamos a proteger.

Gonçalo Orfão. Sim, mas ficou essa nota. Os testes antes de espetáculos devem estar integrados num plano mais amplo de despiste da doença. Gonçalo Orfão e Álvaro Covões, muito obrigada por terem estado conosco. Falámos dos testes pilotos de eventos de espetáculos, mas também desta norma conhecida ontem da DGS para a realização de testes nos eventos culturais e encontros familiares. Obrigada, bom dia. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.