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Este é o Explicador das manhãs 360. Esta quarta-feira sobre a vaga de calor que está a afetar parte da Europa. Para nos dizer o que pode ser feito para minimizar o impacto, são nossos convidados Jorge Carvalho e Silva, vice-presidente da Asprocivil, e Miguel Miranda, ex-presidente do IPMA. A moderação é da Carla Jorge Carvalho e do Paulo Ferreira.

Bom dia, sejam bem-vindos a este Explicador. Miguel Miranda, deixe-nos começar por si, para olharmos para aquilo que está a acontecer em França. É uma situação verdadeiramente excepcional ou pontualmente já encontrámos no passado comportamentos destes?

Bom dia a todos. Nós neste momento temos uma vaga de calor severa, mas que não é só França. Nós hoje temos alertas vermelhos no norte da Espanha, portanto, no País Basco e na Cantábria, temos na zona de Londres e, portanto, à volta daquilo que é o Golfo de Biscaia, toda esta região está neste momento sob o efeito daquilo que está agora a chamar uma cúpula de calor. Os valores atingidos são elevados, muito elevados em relação à série histórica e em alguns casos são mesmo recordes absolutos.

Isso significa que, olhando para essa tendência, é dos tais fenômenos a que temos que nos habituar, que são cada vez mais frequentes.

Eu diria que existe sempre uma frase que é muito repetida, que é: "Estamos no novo normal". Nós não estamos no novo normal, porque isto não é normal, quero dizer, nós vamos sempre agravar essa situação. Onde, depois, geograficamente, é que vai ser a zona mais atingida, agora está a ser esta zona do Golfo da Biscaia. Felizmente, Portugal passou um pouco ao lado desta grande onda de calor, senão para nós teria sido catastrófico.

Para nós em particular, por alguma razão, estamos menos preparados do que estes países?

Não tem a ver com menos preparação. Eu diria que estes países estão menos preparados que Portugal para estas situações de ondas de calor. Aliás, o que se passa, se ler a imprensa internacional, é que realmente os países do centro e norte da Europa têm muito poucos sistemas de arrefecimento instalados, mesmo em zonas importantes como hospitais ou escolas. E, portanto, a única medida que conseguem tomar é encerrar escolas, por exemplo. Nós, apesar de tudo, como temos tido uma tradição de uma meteorologia mais quente, estamos mais, de certa forma, preparados para isso. Quando eu digo que o risco para nós teria sido muito grande, era o risco dos fogos florestais, obviamente.

Ora bem, essa é, de facto, a nossa grande preocupação. Jorge Carvalho e Silva, bem-vindo também, vice-presidente da Asprocivil. Esta questão é importante. Estamos a ver as formas que os países estão a encontrar para tentar lidar e superar estas altas temperaturas, teletrabalho, encerramento de escolas, horários de serviços públicos a serem alterados. É por aí que os países e as sociedades se devem organizar para gerir estas vagas de calor?

Olá, bom dia. Esta alteração, que começa a ser mais frequente a nível da questão climática, tem que começar a ser vista de uma forma diferente. Estes países da Europa Central, França, Alemanha, aqui o norte de Espanha, são países que, por via de terem menos exposição à luz no inverno e no normal, são países que têm as suas construções com grandes janelas para entrar luz com muita força. E agora, o ter uma massa de ar estacionada em cima da Europa Central, que não consegue sair e que continua a aquecer, como se tivesse dentro de uma redoma, este calor, traz dificuldades. E então é o cobrir destas janelas, é o tentar fechar entradas de luz para tentar diminuir ao máximo o aquecimento interior das casas para poder também refrescá-las. É o normal que nós temos que ultrapassar. Agora, temos que preparar o futuro de outra forma, temos que começar a ter uma resiliência diferente face a estas alterações climáticas. E isto acontece, seja na parte do calor, seja depois no inverno, que associado vai trazer demasiada chuva, porque se neste momento está demasiado calor, vai haver uma evaporação maior, vai haver uma condensação maior de água na atmosfera e ela quando descarregar, descarrega com efeitos como foi o que aconteceu em Valência há algum tempo. Isto é o novo normal que estava a falar o colega há pouco, que é: temos que começar a preparar todos os mecanismos de proteção civil para esta normalidade diferente.

E isso significa exatamente o quê, Jorge Carvalho e Silva? Porque de facto estamos sempre a dizer isto, temos que nos adaptar a esta anormalidade, como dizia Miguel Miranda. Isso é o quê? O que é que tem que ser alterado na nossa forma de estar?

O planeamento da emergência é conter situações de excepcionalidade que sejam previstas, porque nós, técnicos de proteção civil, o que nós temos que pensar é sempre prever o pior. Prever o pior que pode acontecer a nível de chuvas, prever o pior que pode acontecer a nível de calor, prever o pior que pode acontecer a nível de incêndios florestais e quais as medidas que temos que antecipar para mitigar que esse pior aconteça. Nós temos que ser pessimistas na previsão para poder ver um cenário catastrófico, ao mesmo tempo conseguir delimitar ideias, só que depois têm que ser acompanhadas por políticas públicas. Voltando aqui depois à questão dos incêndios florestais, nós conseguimos prever que este ano há um grande problema e uma grande preocupação de incêndios florestais, tendo em conta a vegetação rasteira, que está muito elevada, em função do grande crescimento que houve este inverno, potenciado por mais água e mais humidade. Temos essa previsão Não é só fazer o combate, não é só trabalhar o combate, aumentar o número de carros, aumentar o número de homens em combate, é também o limpar, é prever que temos que retirar esta carga florestal para trabalhá-la. Isto nos incêndios florestais. Na questão da onda de calor que atravessa a Europa Central e França, mais especificamente, é começar a ter grandes espaços refrescados, porque o corpo humano precisa de seis a oito horas de calmaria e de retorno de fresco. Se estiver sempre constantemente em calor, começa a entrar em estresse e precisam de passar em zonas frescas pro corpo conseguir acalmar e depois conseguir voltar a aguentar a outra parte do tempo com calor. E temos que aumentar o AVAC em grandes superfícies, temos que também escolas, centros de saúde e outras entidades transformá-las para ter uma ventilação mais refrescante, porque isto vai começar a ser uma constante regular.

Jorge Carvalho da Silva, o que é o AVAC? Pode explicar-nos?

Desculpe. Isto é um termo técnico que é os sistemas de ventilação e refrigeração que são considerados pra grandes superfícies, que é ventilação, arejamento e, ao mesmo tempo, arrefecimento e aquecimento.

Muito bem, já percebemos.

É um conjunto de climatização que permita manter a temperatura em forma estável. Peço desculpa porque os termos técnicos, claro, nós trabalhamos directamente com eles.

Claro, assim mais pessoas o entenderão.

É. Ok.

Olhando então para esta onda de calor, Miguel Miranda, o fato de ela estar a acontecer e de serem fenómenos cada vez mais recorrentes, isso significa que claramente não estamos a fazer o suficiente para travar o aquecimento global.

Sabe que eu não gosto nunca de ser totalmente pessimista, porque há medidas que estão a ser tomadas e, por exemplo, é público que o cenário mais gravoso que estava a ser considerado até agora, aparentemente, a probabilidade dele baixou um pouco. Mas a verdade é que nós não estamos a fazer o suficiente. Provavelmente, o sistema não está a ser suficientemente rápido e, portanto, as emissões continuam a ser feitas. Enquanto as emissões forem feitas e enquanto nós enchermos a atmosfera de CO₂ e de outros gases de efeito estufa, estes fenómenos só vão aumentar. Eu não diria se vão aumentar de frequência. Eu diria que nós estamos numa subida de temperatura média, claro, medida, sem dúvida, sem nenhum tipo de discussão, e que essa subida da temperatura média está a fazer com que o clima esteja mesmo a modificar. Agora, o clima não vai ficar como está, vai piorar. A temperatura vai aumentar mais. E porque isso, mesmo que agora se tomassem medidas radicais, a situação iria sempre agravar-se no futuro próximo. E, portanto, nós aí estamos na situação que o meu colega de painel descreveu, em que temos que nos adaptar o melhor possível. Há situações de comportamentos que são inadmissíveis. É incrível como ainda há crianças a morrer dentro de carros fechados. É incrível. É incrível como é que nós ainda não temos capacidade de refrigerar durante algumas horas as pessoas. Só que este caminho, que é puramente de adaptação, está a criar aquele fantasma dos filmes de ficção científica em que a humanidade tinha que viver dentro de uma bolha, dentro de uma cúpula de vidro ou do que quer que seja, pra conseguir sobreviver. Quer dizer, nós estamos a ter dificuldade em viver em contacto com o sistema natural.

Mas Miguel Miranda, se quisermos ir mais longe nas adaptações necessárias, isso implica pensar de forma diferente o desenho das cidades, a construção de edifícios e por aí fora, não é?

Completamente. Mas isso é mesmo completamente. Na verdade, tudo que tem a ver com infraestruturas urbanas, em particular, tem mesmo que ser repensado, de forma a poder garantir que com custos controlados, seja possível ter uma vida saudável e possível, na maioria dos casos, em particular para os setores mais frágeis da população. Estamos a falar das crianças e das pessoas de idade, nas quais eu já me incluo, como é evidente. E portanto, isto para lhe dizer que a questão toda não pode ser o Estado. Nós não podemos estar sempre a dizer que o Estado vai fazer isto, aquilo, fritico e cozido, porque não haverá recursos pra tal. Mas o que tem a ver é que nós temos que criar um novo equilíbrio social, em que a percepção das pessoas seja que é necessário termos zonas frescas, porque a temperatura vai aumentar. Provavelmente alguns dos problemas que nós tínhamos com temperaturas mais baixas também vão desaparecer. A agricultura, hoje em dia, tem que ser essencialmente regada. Portanto, nós estamos a caminhar pra um novo mundo, só que este novo mundo ainda se está a fazer.

Sim. E nós participamos nessa feitura. Jorge Carvalho da Silva, esta manhã aqui na Rádio Observador falamos com um jornalista que está em França e que nos dizia que havia equipes a visitar as pessoas idosas para garantir que estavam bem, que se estavam, por exemplo, a hidratar. Se tivermos ou quando tivermos, não sei se o Miguel Miranda concordará com a expressão, se isto acontecer em Portugal, nós teríamos meios e recursos para fazer algo semelhante?

É preciso explicar que a grande maioria das autarquias em Portugal têm os seus planos de contingência e planos de emergência feitos e que contemplam medidas para ondas de calor.

Sim.

Depois, as autarquias, a grande maioria também, não a sua totalidade, têm acompanhamento aos idosos e à terceira idade, com planos que preveem a teleassistência e acompanhamento. E depois temos uma rede solidária de apoio domiciliar das IPSS, que também ajuda bastante. Isto é aquilo que a Proteção Civil, depois, pede e recruta para podermos chegar às pessoas. Foi isso que aconteceu no tempo da pandemia, foi esta rede que nós usamos no COVID-19, e é ela que temos que lidar e trabalhar pra chegarmos a situações de acompanhamento mais minucioso à população Se temos uma capacidade plena de chegar a toda a gente, não. É impossível chegar a toda a gente, porque há sempre pessoas que ficam de fora da rede por algum motivo, ou porque não estão inscritos, ou porque não se sabe a sua situação, ou porque se prevê que estejam com os familiares e não estão. Há sempre algumas falhas no meio desta situação, mas na sua grande maioria, a situação está planeada e prevista. Esta é a ideia. Só que acrescentando uma questão sobre a alteração climática, nós temos que olhar para o mundo e ter de perceber o que está a acontecer. Nós, Portugal, por exemplo, em abril, foi o mês em que se matricularam mais viaturas em Portugal e neste momento existem nove milhões de viaturas matriculadas em Portugal para cerca de cinco milhões de pessoas com mais de 18 anos com carta de condução. Este é o grande problema, que é nós estamos a caminhar para um sentido que não há inversão se não houver políticas públicas que travem esta situação.

Ou seja, ainda estamos a agravar a situação, ainda não chegamos àquele ponto de viragem, se quiser, que pode dar frutos a prazo.

Ainda não. E não é com uma política de incentivo à compra de um elétrico, que custa muito caro e que a população, a grande maioria, não tem capacidade de compra de um elétrico, nem tem depois capacidade de carregar um elétrico na rua. Não é com essas políticas, é com alterações claras à estrutura de redução de viaturas, de controle. Antigamente havia uma viatura por agregado familiar, hoje existem três e quatro. É muito complicado. É muito complicado e hoje lidamos com as cidades com uma dificuldade muito grande.

Jorge Carvalho e Silva, Miguel Miranda, muito obrigada por terem participado nesta discussão no Explicadores da Rádio Observador. Um bom dia.

Bom dia, obrigado.

Bom dia a todos. Obrigado.

Obrigado, bom dia.