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Estes gritos ouviram-se no início da semana, quando as equipas de demolição da Câmara de Loures entraram no bairro do Talude Militar. Não foram as primeiras demolições no concelho e o presidente da autarquia, Ricardo Leão, já prometeu que não serão as últimas.
As construções ilegais são inaceitáveis, colocam em causa a segurança, a salubridade e dignidade das pessoas. Esta não foi a primeira intervenção, nem será a última. E temos um único objetivo: defender a segurança das pessoas, garantir condições mínimas de dignidade humana. E em todos os casos, o princípio é claro: não permitimos que se viva em condições desumanas, ilegais e perigosas.
É por esta polêmica, que ecoou durante os últimos dias, que Ricardo Leão, presidente da Câmara Municipal de Loures, é a figura da semana. Não é de agora que Ricardo Leão é notícia por questões relacionadas com despejos. Em outubro do ano passado, a propósito dos moradores nos bairros camarários que não pagavam renda, o autarca foi filmado na reunião da Assembleia Municipal a indignar-se com os incumpridores.
Quem não honrar com os compromissos é despejado das casas. E doa a quem doer. Reduzimos a 55% de incumpridores para 22% de incumpridores. Agora perguntam-me assim: "E esses 22% o que é vão fazer?" Despejados. Despejados.
Na altura, o autarca foi criticado da esquerda à direita, até dentro do próprio Partido Socialista, mas na época, como agora, não recuou.
E não permitimos no Conselho de Loures a construção de barracas, não por falta de empatia, mas porque é a única forma de garantir a segurança e justiça para todos. Importa esclarecer que antes da intervenção na zona do Talude Militar nesta segunda-feira, todas as pessoas foram informadas e abordadas pessoalmente pelos serviços da Câmara Municipal. Das famílias que nos procuraram, ninguém ficou sem resposta social.
Versão diferente têm os moradores do bairro ilegal que, alegam, foram avisados apenas nas vésperas da demolição.
Estamos perante este testemunho mais uma vez, ato de crueldade e agressividade por parte da Câmara, que é colocar 60 famílias na rua, incluindo 62 crianças e uma idosa, crianças com problemas de saúde e comunicação por parte da Câmara nenhuma, a não ser o edital que foi afixado aí na sexta-feira, por volta das 18, 19h.
E o edital publicado pela Câmara, assinado por Ricardo Leão, tem mesmo a data de 11 de julho, sexta-feira. As demolições começaram logo depois, na segunda de manhã. Certo é que Ricardo Leão está seguro destas demolições, como estava depois de ter sido criticado por António Costa por prometer despejos sem dó, nem piedade, a quem tivesse participado nos distúrbios que ocorreram na área metropolitana de Lisboa. Num artigo no jornal Público, em novembro do ano passado, assinado em conjunto com os socialistas José Leitão e Pedro Silva Pereira, o antigo primeiro-ministro criticava de forma subliminar o presidente da Câmara de Loures, que na altura era ainda o líder da Federação do PS Lisboa, escrevia o agora presidente do Conselho Europeu: "Quando um dirigente socialista ofende gravemente os valores, a identidade e a cultura do PS, não há calculismo tacitista que o possa desvalorizar". Questionado sobre este artigo no programa Comissão de Inquérito da Rádio Observador, Ricardo Leão dizia que era preciso discutir os problemas que o país vive sem tabus.
Os valores estão cá. Agora, nós não podemos é desviar dos problemas que o país hoje vive, que são diferentes daqueles que o país outrora viveu. E, por isso, sem esquecer nunca a matriz socialista, humanista, que está dentro de mim. Os problemas de hoje são diferentes e exigem respostas diferentes.
E a verdade é que depois dessa polêmica, Ricardo Leão acabou por demitir-se da presidência da Federação de Lisboa do PS. Em comunicado, alegou que queria preservar o Partido Socialista da polêmica que o envolvia, não sem garantir que a recomendação de despejar os inquilinos camarários que se tivessem envolvido nos distúrbios tinha tido a aprovação de 64% dos vereadores.
O percurso político recente não tem sido isento de polêmicas e Ricardo Leão explica porquê.
Embora tenha minha matriz muito bem definida, gosto e sempre assim serei, pensar pela minha cabeça. E por isso tenho agido ao longo destes três anos e meio pensando naquilo que é o melhor pra população do meu concelho.
E por falar no Conselho de Loures, de onde vem Ricardo Leão? Ricardo Leão conhece bem o conselho que lidera.
Sou autarca de um conselho desde 97, portanto, já passei por tudo. Já fui membro da Assembleia de Freguesia da minha freguesia.
Conhece os problemas.
Já fui tesoureiro da minha Junta de Freguesia, já fui vereador com Loures durante 12 anos, já fui vereador sem Loures durante quatro anos, já fui presidente da Assembleia Municipal e agora sou presidente da Câmara, portanto, já passei por tudo, pelos órgãos todos eleitos, nada de nomeações.
Ricardo Leão chegou à presidência da Câmara de Loures em 2021, depois de vencer a CDU e o comunista Bernardino Ribeiro, Bernardino Soares, perdão, que esteve à frente da autarquia durante oito anos. O interesse de Leão no poder local vem de longe. Já o pai tinha sido presidente da Junta de Freguesia de Sacavém e a grande ligação que tem ao território leva-o de novo a ser candidato a Loures nas eleições de 12 de outubro.
Entre 2019 e 2021, foi deputado à Assembleia da República, mas saiu para ser candidato a Loures por convite de Duarte Cordeiro, que na altura era o presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa. Já vamos ouvir o próprio Duarte Cordeiro falar sobre Ricardo Leão, é o amigo que escolhi esta semana. Mas foi o Duarte Cordeiro quem escolheu Ricardo Leão para se candidatar ao lugar.
Já lá vamos. Já vamos ouvir Duarte Cordeiro para já. E olhando para o currículo acadêmico, Ricardo Leão é formado em Gestão de Empresas e contabilista certificado.
Nascido no verão de 1975, recordava em entrevista ao jornal "i" que as férias em família eram sempre momentos marcantes. As viagens ao Baixo Alentejo, especialmente a Moura e Pias, locais onde tem raízes familiares e a praia de Monte Gordo faziam as férias de infância. E também por isso continua a fazer férias nas mesmas zonas. A mulher é de Pias, o que o leva a voltar regularmente a esta terra alentejana, e o Algarve continua a ser sinónimo de praia e descanso.
Na infância, e porque passava as férias no monte do avô, sem luz nem televisão, os livros tornaram-se na principal forma de entretenimento. Também por isso se lembra vivamente de ler os livros do Tintim e a Aventura dos Cinco.
Este som indica-nos a tarefa que a Raquel Abecasis tem sempre todas as semanas na figura da semana: é a de encontrar um amigo do protagonista que escolhemos. E este conta-nos um episódio da vida do biografado e um desejo para o futuro. Fomos falar com Duarte Cordeiro. Duarte Cordeiro, boa tarde. Sei que conhece bem o Ricardo Leão. Aliás, foi quem o escolheu para ser candidato à Câmara de Loures. Conte-nos um bocadinho o que é que o levou a fazer essa escolha.
Quando me pedem para falar do Ricardo Leão, eu penso sempre no percurso de vida dele. Eu acho que é difícil nós às vezes caracterizarmos as pessoas sem conhecermos um bocadinho da sua vida e da sua história. O Ricardo Leão é filho de um ex-presidente de junta de freguesia de Sacavém, que faleceu em funções. O Ricardo foi 12 anos vereador da Câmara Municipal de Loures e esteve, antes de ser presidente da Câmara, nas funções de presidente da Assembleia Municipal, mas exercia o seu mandato de presidente da Assembleia Municipal ao mesmo tempo, de forma também voluntária, era tesoureiro da Junta de Freguesia de Sacavém. Ou seja, o Ricardo é uma pessoa com uma ligação ao território muito grande. Ele era o presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa. Ele tinha dúvidas sobre se seria ou não o melhor candidato à Câmara de Loures, ainda para mais porque estávamos num período de contraciclo, porque o presidente da Câmara, do PCP, Bernardo Soares, ainda se poderia recandidatar. E na altura, em conjunto, chegámos mesmo à conclusão que não haveria outra pessoa que tivesse maior ligação ao território, com maior conhecimento da realidade e que compreendesse melhor aquilo que muitas vezes as pessoas sentem pela forma como ele sempre se relacionou com quem vive em Loures. Portanto, esta é um bocadinho a história da vida dele, que dá para depois, a partir daqui, traçar um bocadinho da sua personalidade e da capacidade de estar sempre, obviamente, na rua, em contacto diário com a população do concelho.
E agora pedia-lhe um desejo para o futuro do Ricardo Leão.
Um desejo para Ricardo Leão. Ele tem sido, em muitos aspectos, usado e incompreendido relativamente a muitas das políticas e da forma como tem implementado algumas ações no concelho. Decisões que são difíceis. Às vezes é mais fácil termos uma posição branco ou preto. Nem sempre é fácil compreendermos os riscos associados a não fazer nada. E eu muitas vezes nestes últimos dias tenho pensado nisso. Se houver alguém numa habitação que tem condições indignas, de quem é a responsabilidade? A responsabilidade não deixa de ser também do próprio presidente da Câmara. E a minha expectativa é que, com o tempo, Ricardo Leão consiga mostrar o contributo que o trabalho tem feito à coesão social do território, para aquilo que é a criação de melhores condições para as famílias terem igualdade de oportunidades e se desenvolverem e colocar Loures, que está entre o quinto e o sexto maior município do país, como um município onde as pessoas sintam que também por ação da Câmara, tenham a possibilidade de chegar onde desejam e não tenham limitações no seu percurso.
Interessante a forma como o amigo Duarte Cordeiro espera que o tempo venha a dar razão a Ricardo Leão.
E para onde vai Ricardo Leão? Para já sabemos que vai ser candidato à autarquia de Loures. Será que as últimas polémicas serão prejudiciais às eleições?
E será que o autarca vai mesmo continuar com a demolição de barracas, como prometeu?
E será que estas operações trazem vantagem nas urnas? E depois do trabalho camarário, será que tem ambições de outros cargos na política ou, de facto, como diz, é feliz como autarca.
Felizes não ficaram, pelo contrário, os moradores do bairro do Talude Militar, visados por este processo de demolição que se iniciou esta semana e que tem dado que falar. Por este motivo, por mais esta polêmica, Ricardo Leão foi a figura da semana escolhida pela Tarde Política da Rádio Observador, programa que fica disponível em podcast. Na próxima sexta-feira, um novo protagonista.