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Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que os ouvintes enviam para o e-mail foradobaralho@observador.pt. Esta semana é o Jorge Fernandes a responder às perguntas sobre comentadores e sobre fuga de capitais da Europa. E a primeira pergunta, Jorge, é do nosso ouvinte Pedro Filipe Sousa, que começa por realçar que atualmente os europeus investem nas ações das empresas tecnológicas nos Estados Unidos e nota que isso significa que há uma fuga de capitais que, no fundo, deixa os Estados Unidos mais ricos e a Europa mais pobre. Quais são as consequências desta situação para os europeus?
Antes de mais, agradecer ao nosso ouvinte por esta pergunta. Esta foi uma das matérias mais discutidas, em Portugal menos, embora Jean-Claude Juncker e Figueiredo tenham tentado trazer esta questão para cima da mesa nas últimas eleições europeias, mas, de facto, foi uma das matérias mais discutidas na Europa, nos jornais internacionais, que diz respeito à união fiscal e à união de capitais. Um dos problemas que existe e que está identificado na Europa é que os mercados de capitais não estão integrados. Isto é, cada país tem o seu mercado de capitais próprio e há algum investimento que cruza os países, mas não há um mercado europeu de capitais. Houve, de resto, vários cálculos feitos, quer pela própria Comissão Europeia, quer por economistas independentes, que mostraram que a criação de um mercado único a nível de capitais, tal como existe a nível de bens e sem restrições à circulação, etc, impulsionaria a Europa, sob o ponto de vista do crescimento económico e sob o ponto de vista da possibilidade de financiamento para empresas, para startups, que é no fundo aquilo de que estamos a falar, de forma bastante substancial. Mas aparentemente, há muita resistência dentro da Europa, dentro dos países europeus e infelizmente, muitas vezes discutimos coisas, por exemplo, agora muito em breve estaremos a discutir o orçamento comunitário e estaremos a discutir se Portugal ou outro país qualquer da coesão vai receber mais mil milhões ou menos mil milhões, quando era muito mais interessante, a prazo e para o nosso bem-estar de todos, estarmos a discutir este tipo de dimensões, porque de facto há esse problema. Há muitas startups e há imensos exemplos disso. Há imensas startups que quando começam a ganhar uma certa dimensão e quando precisam de capital a partir de um certo nível, simplesmente escolhem mudar-se para os Estados Unidos, porque é muito mais fácil aí angariarem capital, angariarem os venture capitalists, pessoas que investem em empresas desta natureza. Na Europa, nós temos muita dificuldade nisto. E isto custa-nos não só pela perda potencial de empresas europeias que se podem vir a tornar grandes, mas que quando chegam à fase de se tornarem grandes, já estão nos Estados Unidos e já não voltam à Europa. Mas depois perde-se um conjunto de coisas. Perde-se termos mão de obra altamente qualificada, estarmos na vanguarda e em investimento de ponta sob o ponto de vista até científico e de resto, agora estamos a ver que tem ainda outras dimensões, por exemplo, a dimensão de segurança. Neste momento, a Europa praticamente depende dos Estados Unidos para qualquer sistema operacional de computadores, coisas tão simples como a inteligência artificial. A Europa utiliza todo o software que os países europeus utilizam.
Mas isso significa que era preciso mudar todo o panorama para inverter esta lógica?
Sim, era preciso que isto fosse uma prioridade real. No relatório Draghi, isto aparecia de forma bastante explícita, que a integração total do mercado de capitais era uma condição indispensável para a competitividade da Europa. O que eu estou a dizer é o que se costuma dizer uma perfeita banalidade, isto está tudo perfeitamente identificado. Toda a gente sabe quais são os passos que são necessários a tomar para que isto aconteça. No entanto, há muita resistência. Basta pensarmos agora, por exemplo, no caso de França, tal como aconteceu em Portugal há muitos anos, quando foi a nossa intervenção externa, ou a Grécia, estamos a ver os juros da dívida francesa a subirem de uma forma absolutamente explosiva e o dinheiro que os franceses vão gastar no serviço de dívida já se está a tornar incomportável, quase incomportável. E claro que França é um país demasiado grande para falhar. Mas o ponto aqui é que os países europeus continuam a ter medo precisamente por causa destas coisas. Os países estão em situações financeiras muito diferentes, têm dívidas, estruturas muito diferentes e há resistências nacionais que fazem com que as elites políticas, apesar de elas saberem que isto é necessário fazer, havia aquela velha frase que o Jean-Claude Juncker dizia durante o tempo da troika em Portugal e noutros países, durante aquela grande crise europeia. Ele dizia: "Nós sabemos o que temos de fazer, só não sabemos como é que somos eleitos depois de fazer o que tem que ser feito." É um bocadinho isto. Do ponto de vista técnico, os governos europeus, as elites europeias sabem o que tem que ser feito, mas depois o problema é que há muitas notícias que têm que ser dadas aos cidadãos, que implicam escolhas, implicam gente que fica para trás. Quando eu digo que fica para trás, é: há uma grande transformação a acontecer no mundo do ponto de vista económico, social e naturalmente, como em qualquer grande transformação, não há só ganhadores, há ganhadores e perdedores. E a sociedade americana assenta num contrato social em que os perdedores, de alguma maneira, se quisermos, são um bocadinho deixados à sua sorte ou têm que se reinventar pessoalmente. O contrato social existente na Europa é muito mais protetor sob esse ponto de vista, é um contrato social que protege muito mais os indivíduos e qualquer pessoa sabe daquilo que eu estou a falar. Mas isso faz com que depois também exista menos a margem de manobra e a tolerância política que quer os cidadãos, quer os governos tenham à existência de pessoas que possam tornar-se grandes perdedores, por exemplo, de uma transformação económica ou relacionada com inteligência artificial, é muito mais baixo e portanto, os governos têm que ser muito mais cautelosos. Basta ver o que está a acontecer em França. Há reformas que têm que ser feitas em França que são absolutamente evidentes. Qualquer pessoa sabe que aquilo tem que ser feito, mas os franceses resistem. E o problema daquilo, mais uma vez, é como é que alguém consegue ser eleito se disser a verdade ao povo. Sob esse ponto de vista, vão ter que mentir, quem disser a verdade ao povo. Eu vi Marine Le Pen a dizer que estava a pensar fazer cortes no orçamento da ordem dos 140 mil milhões. Não concebo muito bem como é que ela vai conseguir passar esse programa pelos franceses, mas neste caso até é bom que ela diga a verdade, porque pode ser que evite que ela seja eleita. Mas sob esse ponto de vista, eu concebo isto de forma bastante difícil. Eu não consigo ver a Europa, mais uma vez está perdida a discutir a política da coesão, quanto é que vão receber os agricultores, aquelas coisas. E portanto, estamos todos nisto, em vez de estarmos a discutir as coisas a sério, até ao momento em que a crise será profunda.
Jorge, mudando aqui radicalmente de tema. O nosso ouvinte, António Cardoso, ouviu o especial contigo, o último que fizemos sobre comentadores, e quis acrescentar um novo ponto. Pergunta o António Cardoso se não é ridículo que para além dos comentadores falarem sobre tudo, muitas vezes sem serem especialistas em nada, que ainda por cima atribuam notas no final do comentário. Esta é uma dinâmica que temos visto muito ao longo dos últimos anos, os comentadores a darem notas até em debates, por exemplo, na altura das eleições. O que achas sobre isto?
Bem, isso foi mais uma daquelas coisas implementada por Marcelo Rebelo de Sousa, que foi a primeira pessoa a dar notas a alguém na política, nos anos 80, ainda na TSF, quando ele era comentador de rádio e dava notas. Eu concordo com o ouvinte, sem nenhuma dúvida, e estou genericamente de acordo. Eu, às vezes, sou chamado a dar notas em programas, por exemplo, o Observador. Eu só queria, não sei se quero defender, mas eu acho que há situações em que isto não tem qualquer sentido e é completamente desinteressante. Por outro lado, há situações, e eu próprio, quando comecei a fazer rádio de forma mais sistemática, percebi que há coisas que são feitas muitas vezes para organizar o pensamento e organizar o programa e dar uma certa cadência ao programa. E portanto, muitas vezes os programas são organizados em torno das notas para poder organizar os pensamentos e as intervenções de cada uma das pessoas.
O problema está mais no conteúdo do que na forma, a teu ver.
Eu acho que, sinceramente, por exemplo, volto ainda ao caso dos debates das legislativas, o problema daquilo é que vamos supor, se houvesse dois debates ou três debates no total de umas eleições, e certamente se houvesse notas, aquilo passaria quase ao lado, ou até poderiam entender o sentido. Eu acho que o problema que existe mais nesse modelo de debates, que foram as televisões que implementaram, de resto, e que é uma coisa relativamente recente, eu ainda me lembro de existirem apenas dois, três debates, que era um debate entre os principais candidatos a primeiro-ministro e depois um debate geral. Mas o problema agora realmente é que estamos numa campanha eleitoral, muitas vezes com dois debates por dia, ene debates. Eu posso dar aqui o exemplo de Espanha, vai começar agora a campanha eleitoral e vai haver um debate entre os dois principais líderes dos dois principais partidos, um debate com oito e depois um debate com quatro. Na verdade, três grandes debates nacionais. E chega, que era o que Portugal tinha. Agora as televisões portuguesas, como se especializaram, como eu disse, de resto, no comentário, as televisões portuguesas, infelizmente, já não fazem jornalismo, fazem comentário, fazem dois minutos, passam uma peça com umas imagens de arquivo ou com uma meia dúzia de coisas, depois estão 50 minutos ali a escalpelizar aquilo que se passou. E portanto, como desistiram de fazer jornalismo e enchem as coisas de comentários, os políticos agradecem. Os políticos utilizam aquele tempo, que supostamente é de debate, como pura propaganda eleitoral, aquilo é um momento de propaganda eleitoral. Os comentadores estão ali. Mais uma vez, é um produto barato onde toda a gente ganha, ganham os políticos, porque têm uma plataforma para falar para o país todo, geralmente em horário nobre, ganham os comentadores e ganham as televisões, porque têm conteúdo muito barato, às vezes grátis mesmo. Sob esse ponto de vista, quem fica a perder é a democracia e os espectadores, porque se uma televisão decidisse, por exemplo, fazer uma reportagem bem feita, longa, para falar sobre a situação da habitação em Portugal.
Provavelmente custaria mais dinheiro.
Três meses a estudar a situação da habitação, a falar com os especialistas, em que de facto pudesse ter o preto no branco e informar os espectadores sobre a situação real. Podia falar da habitação, como podia falar sobre a imigração, o Estado social, a saúde, enfim, o que quiséssemos. Isso custaria muito mais dinheiro do que pôr os políticos a falar, os comentadores, e pronto. Assim está organizada a economia política do comentário e da televisão portuguesa.
Muito obrigada, Jorge. Este "Fora do Baralho", ouvintes, fica por aqui. Para nos escrever, fazer perguntas ou deixar comentários para que os ases respondam, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Até para a semana.