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Boa tarde. Estamos no Gabinete de Crise, uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa para avaliar o estado da pandemia e a forma como Portugal e o resto do mundo estão a enfrentar a doença. Os nossos especialistas são a professora da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias. Boa tarde, Sónia.
Olá, boa tarde, Carla.
E boa tarde também ao Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Pedro, bem-vindo.
Obrigado, boa tarde.
A convidada da segunda parte é a investigadora do Six Nova, Liliana Pascoeiro. Com ela vamos analisar os grandes desafios que toda a comunidade escolar enfrenta neste ano letivo, que começa presencial, mas que não se pode prever como vai acabar. Mas para já, arrancamos com a ordem de trabalhos desta semana. Começamos sempre este gabinete de crise com um número, o número da semana. Sónia, qual é o seu?
O meu número é uma percentagem, 13%, que corresponde à percentagem de pessoas que respondeu ao barómetro da opinião social da escola, com mais de 1700 respostas esta semana, que considerou ter elevado risco de contrair Covid. Trago este número porque provavelmente demonstra que existe um grupo significativo de pessoas com uma perceção errada ou incorreta do risco e que é, de facto, necessário consciencializar alguns grupos da população. Ontem tivemos 770 casos, o número mais alto em cinco meses, só equivalente no início de abril. E é interessante referir que quando na altura fizemos a mesma pergunta sobre a perceção de risco, tínhamos uma percentagem muito maior de pessoas que referiam ter risco elevado. Vejamos, na altura estávamos em confinamento e a exposição real ao risco, com grande parte da população fechada em casa, era de facto muito menor do que a que existe agora, que temos grande parte das pessoas a trabalhar, a deslocar-se no decorrer da sua vida para o trabalho, outras atividades, crianças e jovens a regressar à escola. Temos vindo a referir esta necessidade de envolver a população, consciencializar para a necessidade do papel de todos e de cada um de nós, de encontrar soluções inovadoras na área da comunicação que nos possam motivar para a adoção de hábitos que nos ajudem a controlar esta pandemia. Diria que agora temos ainda outras desvantagens neste combate. Para além do tal vírus invisível, em que muitos infetados estão assintomáticos e, portanto, não sabem que são portadores, temos uma grande fadiga social para adaptar as medidas necessárias que vão contra a nossa natureza de ser sociável. Como trabalhar e passar este sentimento que provavelmente estarão a sentir, que é: "Estou tão cansado e vamos ficar todos infetados de uma maneira ou de outra, que não vale o esforço". Isto são sentimentos comuns quando se trabalha em prevenção. Precisamos claramente de fazer uso do que se sabe sobre a mudança comportamental. E há aqui vários aspectos cruciais. Primeiro, estamos a falar de estratégias de comunicação e não apenas de informar. Já todos sabemos as regras genéricas, mas como é que elas, na verdade, se implementam no mundo real? E tem havido aqui alguma confusão com estas duas áreas. Segundo, precisamos também de ter consciência do peso, da dificuldade e dos custos que estamos a pedir. E por isso não são mudanças fáceis nem automáticas. Vamos provavelmente falar disto durante o programa de hoje com os jovens. É, no fundo, necessário ter um balanço entre o tudo ou o nada. É preciso dar pistas concretas, encontrar soluções que permitam que as pessoas mantenham a vida com alguma normalidade, que mantenham o seu bem-estar, mas com o menor risco possível. É fácil? Seguramente que não vai ser. Mas precisamos de acreditar que envolvendo as pessoas, percebendo as suas necessidades, encontrando estratégias para as motivar para contribuir, vai ser provavelmente a grande força do que nós precisamos de fazer ainda nesta vertente da comunicação e que, na minha opinião, é urgente neste preciso momento.
É o grande desafio dos próximos tempos, de certeza. Pedro Pita Barros, qual é o seu número?
O número é o 21. Há 21 semanas que nós tínhamos uma situação tão complicada como a que estamos a ter agora em termos de novas infeções. E aqui não é só o valor absoluto que preocupa ou que deve nos preocupar, mas a velocidade com que começou a subir. Apesar de várias pessoas andarem a referir ou vários comentadores terem referido que estes novos casos estão, sobretudo, a ocorrer em idades mais novas, como a sociedade e as relações dentro da sociedade não são perfeitamente estanques entre idades, significa que mais cedo ou mais tarde irá chegar às idades mais problemáticas. E é muito diferente nós andarmos várias semanas à volta dos 200, 300 novos casos por dia, ou de repente andar a 200 casos por dia numa semana, 400 na outra semana, 600 na seguinte. Aqui a dinâmica de crescimento é o elemento de maior preocupação, sobretudo quando nós olhamos para os outros países à nossa volta, como França, Espanha, Reino Unido e outros no centro da Europa, onde o crescimento começa a parecer descontrolado, incluindo países que numa primeira fase, em março, abril, tinham conseguido conter de uma forma muito razoável todo esse crescimento. E, portanto, há algo que mudou de há 21 semanas para agora, que nós temos que perceber melhor e temos que perceber como é que intervimos. E como a Sónia falou, temos provavelmente que ter uma mudança de atitude, seja na parte de quem decide medidas, seja na parte da sociedade, e começarmos a reinventar a nossa forma de olhar para a pandemia e aprender com o que conseguimos até agora e fazer com que as próximas 21 semanas possam ser diferentes do que está a ser estas últimas duas semanas.
De resto, o governo avalia hoje a evolução da pandemia numa reunião de emergência. À hora que gravamos este programa, ainda não há conclusões. O que sabemos é que já estamos na primeira semana da nova situação de contingência em todo o país, a semana em que são recomendados os horários desfasados nas escolas e no trabalho, e em que o número de infecções diárias está a atingir os valores de abril. As autoridades garantem, no entanto, que os doentes Covid não estão a sobrecarregar os serviços de saúde. Mas vamos à análise. Sónia, governo e DGE garantem isso mesmo, que estão à espera de uma subida dos números e que, para já, os casos de internamento não preocupam. A questão é: até onde é que isto pode subir?
Pois, essa é uma questão. Voltando aos números e ao aumento que está a haver, provavelmente mais acelerado do que aquilo que tínhamos inicialmente pensado, porque na verdade o que seria melhor era que este início de regresso ao ano escolar tivesse sido com menos casos. Portanto, há aqui talvez um alarme ou um momento de alguma preocupação, que é: nós não estamos, já com este crescimento, a dar muito espaço para o impacto ou o embate que provavelmente o início do ano escolar poderá ter, não no fato de as escolas terem sido abertas e portanto terem jovens. Penso que provavelmente esse também é um aspecto que nós vamos ter que trabalhar. Provavelmente não é na área escolar que estará o maior risco de infecção, mas é fundamentalmente por tudo o que isso acarreta: mais mobilidade, maior socialização. Portanto, há aqui um risco acrescido no aumento de casos, sabíamos disso, e teria sido muito mais favorável se tivéssemos iniciado este ano escolar com muito menos casos do que aqueles que temos. E na verdade, estes casos ainda não refletem esse início. Provavelmente são ainda a tradução do regresso ao trabalho e do final de férias e, portanto, estamos claramente agora na necessidade de organizar os esforços, de perceber quais são as capacidades que temos. Temos começado novamente a falar da capacidade do país e parece que há indicações de que temos mais reforço, por exemplo, para as questões da testagem. Vai ser muito importante agora nas próximas semanas conseguirmos, de facto, travar ao máximo a transmissão comunitária. Temos aqui vários desafios e um deles, como o Pedro também referia, é claramente a responsabilidade individual e o que cada um de nós pode fazer para o combate à epidemia. Nas escolas, e temos visto isso, só para terminar, houve um extraordinário esforço de todos os agrupamentos escolares, diretores, professores, auxiliares de educação, etc., para prepararem o ano escolar, mas sabemos que claramente precisamos também da sociedade, dos estudantes, dos pais, dos encarregados de educação para se juntarem a toda esta luta. Portanto, temos aqui vários desafios, penso eu.
E tanto que a Sónia e o Pedro têm falado nestes meses de gabinete de crise, da importância do comportamento individual. Pedro, a Sónia falava que estes números ainda não espelham, obviamente, a abertura das escolas, mas sim o fim do período de férias. Isto indica-nos então que saímos definitivamente do tal planalto e voltamos à curva ascendente.
Claramente, eu acho que neste momento não há dúvidas que entramos nessa curva ascendente, muito provavelmente relacionada com as últimas duas semanas de férias em agosto. E se há duas semanas ainda se podia dizer que não tínhamos grande preocupação, porque os outros indicadores habituais, número de internamentos, internamentos em unidade de cuidados intensivos e óbitos estavam estáveis e valores baixos, agora, com este habitual desfasamento de cerca de duas, três semanas, já começaram também a subir. Portanto, vamos começar a ter todos os sinais de preocupação a acumularem-se com o desfasamento habitual. E vai ser crucial perceber como é que se vai evoluir a partir daqui. A decisão pública vai ter que equilibrar vários fatores, vai ter vários dilemas pra lidar e vai ser diferente do que foi no início da pandemia. Vamos ter que lidar de forma diferente com a saúde Covid e não Covid, porque já há vários alertas que têm sido dados nesse sentido. Vamos ter que lidar entre este equilíbrio entre saúde e educação. Não vai fazer sentido fechar totalmente todas as escolas novamente, até porque isso geraria desigualdades sociais no acesso à educação, que teriam efeitos de longo prazo, que poderiam ser bastante gravosos para determinados grupos da população. Vamos ter que fazer diferentes equilíbrios entre saúde e atividade econômica. E aqui vamos ter que assumir como é que vai ser feito algum apoio e quem é que vai suportar perdas de rendimento, que vão ter que ser partilhadas de qualquer forma. E estes equilíbrios afetam de forma diferente diferentes gerações, e são diferentes as gerações que são afetadas em cada um dos dilemas. Portanto, temos muitos dilemas simultâneos pra lidar, e este vai ser um problema pra decisão pública. Se olharmos para o que está a acontecer agora na abertura das escolas, temos também alguns elementos interessantes. Se nós olharmos para o que têm sido os relatos, vemos que a abertura das escolas está a decorrer com alguma calma, mas também com alguma confusão. Digo calma no sentido em que não houve um movimento generalizado de fechar as escolas à revelia das decisões públicas. Mas claramente precisamos de mais comunicação entre pais e escolas pra arrumar o funcionamento. E é claro que é necessário linhas globais da Direção Geral de Saúde, mas também é claro que vai ser preciso decisões locais, escola a escola e se calhar turma a turma. E essas decisões locais não são compatíveis com a centralização de todas as decisões na DGS. É impossível, a meu ver, que a DGS consiga criar uma circular normativa, uma orientação ou outro documento qualquer que cubra todas as situações que é possível imaginar surgir. Além daquelas que eles conseguissem imaginar, vão haver certeza situações que vão surgir que não foram antecipadas e que não foram imaginadas. As escolas e as direções das escolas vão ter aqui um papel central em conseguir perceber o que está a acontecer e para isso elas vão ter que ter informação e dar algum apoio em termos de conhecimento e de descrição, para depois poderem tomar as decisões que se adequam dentro de cada escola e que vão certamente ser diferentes de escola para escola. Em cima disto, vamos juntar duas coisas que aconteceram esta semana, que não deixam grande tranquilidade também. A primeira foi as famosas reuniões do Infarmed, que já foi na semana passada, e que eu só agora é que tive a oportunidade de ver via YouTube. Fiquei com aquela convicção que se este é o modelo de comunicação da parte científica, não vamos muito bem. Não sei se já tentaram assistir ou se assistiram ao vivo, mas eu diria que o adjetivo para a sessão foi doloroso. Isto é, é difícil perceber o que se tira em termos de implicações para decisões públicas, decisões individuais, daquelas mais de duas horas de intervenções. E, portanto, como a Sónia referia, a comunicação tem que existir, mas tem que ser pensada de outra forma. Tem que ser mais orientadas para como é que na prática cada organismo, continuando com o exemplo das escolas, como é que cada escola vai poder reagir. Aliás, é um exercício interessante olhar para as duas horas e tal dessa sessão do Infarmed e perguntar: "Se eu fosse um diretor de uma escola, o que é que eu retirava daquela sessão para o que tenho que decidir no meu dia a dia?" Eu acho que era muito pouco. Aliás, eu se fosse diretor da escola, ao fim de 10 minutos já estava a pensar: "O que eu tenho para fazer que estou aqui a perder o meu tempo?" Estou a ser um pouquinho ácido, mas acho que o modelo de comunicação que foi usado foi um modelo de comunicação centrado nos apresentadores e não nas pessoas a quem se destinava ajudar, se era esse o objetivo. O outro aspeto desta semana foi a mini remodelação governamental, que provavelmente vai mudar muito pouco na resposta à pandemia. Só que esta lógica de andar sempre pessoas a entrarem e a sair, seja na DGS, agora no ministério, tem que ser acompanhada também por sinais que permitam às pessoas que estão de fora ter uma total confiança na condução do que está a acontecer. E é certo que entradas e saídas são naturais, mas tem que ao mesmo tempo dar-se um sinal de que a linha estrutural, a trave mestra do que se quer fazer, não mudou, mesmo que os atores possam estar a mudar circunstancialmente. A não se fazer isso, eu acho que rapidamente, sem um modelo de comunicação diferente e sem essa confiança que as pessoas possam ter na orientação pública, começa-se a ter um desligar crescente das pessoas face ao funcionamento. E aqui, essa confiança provavelmente é crucial para que as próprias escolas, os diretores das escolas, as pessoas que estão nas escolas, sintam o à vontade e a segurança delas próprias tomarem decisões.
São equilíbrios e desafios para os próximos tempos e também para a segunda parte do gabinete de crise, mas agora vamos desfazer mitos e lançar alertas. Vamos aos alertas, mensagens em que vale a pena insistir. Sónia Dias, é preciso usar máscara, mas é preciso usar corretamente.
Exatamente. Muito já se falou do uso correto da máscara, mas de facto este alerta, mais do que até um mito, pode ser importante numa altura em que se faz novamente o apelo à utilização mais frequente da máscara e, por exemplo, até em toda a comunidade escolar, nas escolas, mas em outros contextos. E é importante ter em conta a perigosidade da incorreta colocação. Por exemplo, continuamos a ver quem, por algum facilitismo, coloca a máscara no queixo ou no pescoço. Explicando: imagine-se que tem a máscara colocada de forma correta, ou seja, que ela está a tapar o nariz e a boca, mas como deixamos a garganta ou o pescoço exposto, porque não está tapada, esta área pode ficar contaminada. E de facto, quando tiramos a máscara, ao colocar ali a máscara no pescoço ou no queixo, o seu interior vai acabar por ficar contaminado. Por exemplo, quando tiramos, quando precisamos de comer, beber ou fazer qualquer outra coisa. E depois o que acontece normalmente é que quando precisamos de voltar a colocar a máscara, esta máscara já está no fundo contaminada no seu interior e voltamo-la a colocar para tapar novamente o nariz e a boca. E portanto, isto acaba por ser muito perigoso e pode aumentar, de facto, o risco da infeção. Já agora também, só como último ponto. Quando tirar a máscara, remova-a completamente da face e por precaução, não coloque em cadeiras ou mesas que estejam ao seu lado.
Mea culpa. Pedro Pita Barros, mesmo que já estejamos cansados, é preciso continuar a respeitar as regras.
Exatamente. Aqui o meu alerta desta semana é evitar a indiferença às regras devido ao cansaço que se gera. Nós sabemos que não houve alterações do vírus, que não houve alterações meteorológicas relevantes nas últimas semanas. Hoje e ontem já começou a chover mais. O que nós conseguimos constatar é que para os sinais de alerta dos números que falámos há pouco, a única justificação é uma alteração gradual do comportamento cuidado que as pessoas estavam a ter. E isto com uma provável redução na utilização das regras de higiene, no menor respeito do distanciamento físico, numa má utilização das máscaras, como a Sónia estava a dizer, ou uma menor utilização das máscaras. E portanto, nós temos que voltar a ter a paciência e ter a resiliência de cumprir estas regras de uma forma generalizada. Provavelmente as de distanciamento físico e máscaras nos espaços públicos, certamente temos que voltar a ter a vontade de fazer. Talvez faça sentido decretarmos um dia por semana que é o dia sem máscara, mas em que não nos aproximamos de ninguém, que assim evitamos as coisas. Mas começar a ter uma forma de lidar com este cansaço, seja pessoalmente, seja como grupo, seja do que for. Temos que evitar a indiferença às regras.
É isso mesmo. O cansaço não é desculpa, as regras de distanciamento social, a etiqueta respiratória e o uso correto da máscara são para manter. Regressamos já a seguir com notas de esperança e também com a investigadora Liliana Pascoeiro. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que analisa o estado do combate à Covid-19. Estamos com Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco com a investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Liliana Pascoeiro. Mas antes de mais, uma nota de esperança. O clima é de incerteza, muita incerteza, de preocupação, mas também há alguns sinais para termos confiança. Sónia Dias, qual é a nota que quer destacar?
Hoje trago uma nota um pouco diferente, que na verdade é a questão de que se a Covid-19 nos vai de facto dar uma oportunidade para refletir e reinventar o futuro. Será que o impacto tão abrangente que teve nas nossas vidas e no mundo irá mesmo permitir que se possa romper com alguns padrões? Seremos capazes de implementar mudanças mais estruturais na nossa vivência global ou no final tudo irá prevalecer da mesma maneira? As decisões e experiências que em tempos podiam ter levado anos de resolução, foram aprovadas em questões de dia. Por exemplo, espaços aéreos fechados, níveis de poluição tão baixos que já não imaginavas possíveis, pessoas em casa, escolas e universidades todas online. Como é que vamos estruturar em relação aos cuidados e atenção aos mais velhos, aos mais vulneráveis, aos mais frágeis? Na verdade, não enfrentamos apenas um vírus novo e temível, nem só as suas consequências económicas e sociais imediatas, que são em si já muito duras. Na minha opinião, enfrentamos também constrangimentos estruturais que há muito tempo existiam e que só agora são tão visivelmente expostos. Sabemos que se trata de um objetivo muito complexo, envolve uma mudança de visão e de racionalidade do mundo, o nosso, de cada um, mas também o global. Mas são estes momentos históricos que provavelmente nos obrigam a refletir e a perceber se queremos contribuir para algo novo. O que não está bem, infelizmente, não vai simplesmente acabar com a pandemia. E assim, fica a minha esperança de que talvez esta mobilização social e que as inúmeras dificuldades que enfrentamos e que nos vão continuar a desafiar, implicando mudanças em todos nós, mas também de uma forma mais macro a nível nacional e de cooperação e rearranjo internacional e global, possam de facto ter um propósito maior.
Esperemos que sim. Pedro, qual é o seu sinal de otimismo?
O sinal de otimismo esta semana vem do frio da Islândia e está relacionado com um tema que esteve aqui no nosso gabinete de crise há duas semanas, quando falámos de reinfecção, de uma ou duas pessoas que estavam a aparecer reinfetadas e podia-se começar a questionar a questão de quanto tempo é que dura de facto a imunidade, que é algo que tem surgido de vez em quando na discussão. E aqui a boa notícia é que num estudo publicado no New England Journal of Medicine da semana passada, encontraram que 91% das pessoas que tiveram Covid-19 e que foram testadas ao fim de vários meses para o desenvolvimento da resposta ao vírus, continuam a apresentar anticorpos ao fim desse tempo. E, portanto, têm uma situação de estabilidade nessa resposta, o que é uma boa notícia para a ideia das vacinas que vamos vir a ter e mesmo para aquelas pessoas que já tiveram, poderem ficar descansadas para o futuro. Portanto, a nota de esperança aqui é claramente que este vírus, nalgumas coisas, também se comporta como outros vírus, apesar de ser muito contagioso, e devemos ter a esperança de ter uma vacina e que as pessoas tenham uma vacina que vai ser eficaz, uma vez que a resposta parece ser estável ao longo do tempo quando são infetados.
É uma boa notícia. Vamos então à escola. Pela primeira vez em seis meses, milhares de alunos regressaram esta semana ao ensino presencial. Já percebemos que nada está como dantes. Os horários foram revistos, os tempos de pausa, as refeições e as máscaras e o gel desinfetante passaram a fazer parte do material obrigatório. Os desafios são tão grandes quanto a incerteza. A nossa convidada desta semana é a Liliana Pascoeiro, é investigadora do CICS, o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, trabalha na área da educação e acompanhou o processo de transição que as escolas tiveram de fazer com o confinamento obrigatório do ensino presencial para o ensino à distância. Liliana Pascoeiro, boa tarde, bem-vinda e obrigada por estar connosco.
Boa tarde.
Liliana, tendo em conta o processo a que assistiu logo em março, com o encerramento físico das escolas e agora com esta reabertura, acha que a comunidade escolar está preparada para esta nova fase?
A comunidade escolar tem, como tem sempre em qualquer desafio que lhe propõe, a grande capacidade de adaptação e o grande esforço para esta adaptação. Agora, efetivamente, há questões que são muito difíceis de contornar, principalmente a questão do espaço físico da escola. E não há qualquer dúvida que os diretores e professores e toda a comunidade escolar está fortemente empenhada para que tudo corra bem. E assim esperamos, que tudo corra bem.
E a vontade existe. O que é que apontaria como principais desafios para que corra efetivamente bem?
Os principais desafios eu acho que não está tanto dentro dos muros da escola, que também existe, mas que as pessoas, ou as crianças e os jovens consigam manter estas regras fora do muro da escola, como aliás vimos nestes últimos dias que tem acontecido. E o esforço não pode ser só da parte dos diretores e dos professores, tem também que partir da parte familiar, da parte da casa. E é muito importante sensibilizar os jovens e dar-lhes uma ideia de que isto são regras, exatamente, têm que ser cumpridas, mas também não pode ser de uma forma tão rígida, como aliás há pouco a Sónia e o Pedro fizeram questão de mencionar. Nós temos que encontrar este equilíbrio de que as regras são para cumprir, com o "mas". E respeitando que estamos a falar de crianças e de jovens. Eu acho que este é o grande desafio que as escolas vão debater. Por outro lado, vai ser a questão de o que ficou para trás que vai ter que ser reposto e compensado.
Em termos de conteúdo.
Exato. E que estes conteúdos, e se há uma nota de esperança, utilizando as palavras que já foram ditas há pouco, é que esta mudança realmente tenha efeito nas nossas escolas. E não pode ser à custa de mais aulas expositivas e de grande sobrecarga para as crianças e para os jovens. Não pode, porque senão as competências não vão ficar, de novo.
E por aquilo que tem assistido, parece-lhe que houve margem para as escolas encontrarem as suas próprias soluções com base naquilo que foram as diretivas da DGS? Foi possível ser criativo neste contexto, com regras tão rígidas e tão claras sobre os metros que uma criança tem que estar distante da outra? É possível encontrar soluções no meio disso tudo?
Eu acho que sim. É claro, não conheço todas as escolas, longe disso, mas eu acho que essa é a parte que as escolas ainda têm um caminho para fazer e possivelmente vão fazê-lo agora que vamos entrar realmente na prática. Agora que as aulas estão a começar. Eu acho que vai ter que haver reajustes. As escolas estiveram muito preocupadas, a meu ver, em cumprir à risca as regras da DGS, e que vieram do ministério, mas vão ter que fazer uso da capacidade imaginativa, vão ter que fazer uso da autonomia que têm, para reajustar essas regras ao contexto escolar e, principalmente, ao tipo de alunos que têm presente. As regras existem e têm que ser cumpridas, mas podem ser readaptadas.
Peço desculpa, porque penso que foi o Pedro, na primeira parte do programa, que dizia que a DGS não vai poder centralizar todas as decisões que vão surgir nas escolas sobre problemas que eventualmente ninguém ainda consegue antecipar. Tem que haver, de facto, essa margem e essa autonomia para as escolas poderem responder conhecendo melhor a realidade do que eventualmente os técnicos da DGS?
Exatamente. Eu acho que essa autonomia já estava decretada. Nós temos os decretos da flexibilização e da autonomia de escolas. E quando eu falo desta capacidade imaginativa, não é só uma capacidade de espaço. É também uma capacidade pedagógica de adaptar estas aulas, que ficaram para trás, e destes conhecimentos que têm que ser adquiridos. E nisso a escola tem autonomia para repensar o seu modelo de ensino. E é uma das questões que eu quero acreditar que vai trazer benefício à escola, é exatamente isso. É a escola olhar para si e pensar que este modelo, e lá está, como há pouco a Sónia falou, há muitos problemas que já estavam latentes e que esta pandemia só veio trazê-los mais ao de cima. E a escola também tem esse desafio para abraçar.
Tem esse desafio dos conteúdos que terão ficado para trás, pelo menos em parte dos alunos, nesse terceiro período que foi dado à distância. E depois há uma questão que está a ser colocada neste momento aos alunos, que é dizer-lhes que não podem socializar. É isso que está basicamente a acontecer. Este é o custo que os alunos vão ter que pagar para poder sair de casa.
Sim, sem dúvida. Embora, nós passamos de um problema de que os alunos ou as crianças e os nossos jovens passavam demasiado tempo online, passavam demasiado tempo em telemóveis, em redes sociais, e agora estamos a pedir-lhes, ou muito preocupados com o contrário. Que as socializações estão em risco. E estão, efetivamente estão. Mas, mais uma vez, eu acho que estas regras que existem, devem ser mediadas. É claro que estes primeiros dias que nós estamos a assistir é quase como libertar de seis meses de estarem em casa, não se verem presencialmente, alguns deles. E eu acho que esta euforia dos primeiros dias, eu penso, eu quero acreditar, que vão ser mediadas, pelos professores, pelos auxiliares, por diretores, pelos pais, e sejam realmente respeitadas as regras. Dentro da escola, eu acho que elas vão ser respeitadas. O meu problema é pensar fora dos muros da escola.
É aí que está o maior risco.
Sim, a meu ver, sim. A meu ver é fora da escola.
Sónia Dias, como é que se vai pedir aos jovens, mas de uma forma que eles ouçam, que entendam e que aceitem, que é preciso manter o tal distanciamento social, mesmo com as saudades de seis meses de separação?
Eu quero acreditar que, de facto, há aqui um lado que nós podemos sempre colocar as questões mais do ponto de vista de regras, procedimentos, imposições. E, por outro lado, há uma outra forma, que é a de motivar, de consciencializar, de informar e a de, no fundo, envolver as pessoas com alternativas e estratégias que lhes façam sentido, que possam contribuir para esta luta. Foi perguntado aos jovens, por exemplo, o que é passar cinco ou seis horas do seu dia com uma máscara colocada em sala de aula? A seguir, quando sai da escola, está consciente desta importância de socializar? Claro, podem socializar, não é preciso tudo ou nada. Podem socializar, por exemplo, mantendo a distância. Portanto, é preciso encontrar, juntamente com diferentes grupos, o que é possível fazer correndo o menor risco possível. E eu acho que este caminho é importante ser feito. Eu quero acreditar que os jovens, se estiverem envolvidos e com estratégias que lhes façam sentido, serão uma força muito importante nesta luta. Temos muitas dúvidas. Os jovens provavelmente também têm muitas dúvidas. E aqui eu acho que a comunidade escolar, como dizia a Liliana, terá de fato esta autonomia e este papel muito importante também na comunicação. Claramente vai ser necessário adaptar ao contexto as regras que estão a ser impostas, mas eu penso que, provavelmente, o que precisamos aqui, mais uma vez, tem sido feito um grande esforço na questão da informação. Penso que estamos todos muito bem informados já das regras. Agora precisamos de estratégias de comunicação, de trabalhar com os diferentes grupos, envolvê-los, encontrar os canais importantes de comunicação para diferentes grupos. Provavelmente, os jovens não veem telejornais, têm outro tipo de canais de comunicação que são precisos ser utilizados e, portanto, claramente precisamos desta estratégia de comunicação, que é muito diferente de informar. E acho que é este trabalho, mas penso que estamos no momento ideal para fazer um investimento nesta área.
Comunicar aos jovens. As regras já lá estão, é preciso que elas agora acabem por ser compreendidas e aceites. Ora, Pedro, temos máscaras durante horas seguidas, sem pausa, afastamento. São muitos custos. Vale, ainda assim, a pena insistir no ensino presencial? Não se desvirtua exatamente a ideia quando aquilo que se passa fora da aula, essa vida e esse contato fica praticamente inexistente agora neste ano letivo?
Não. Curiosamente, este tempo de pandemia permitiu a realização de vários estudos, sobretudo noutros países, onde se verificou que o ensino presencial, afinal, é até mais importante do que aquilo que se pensava. E só quando se coloca os alunos todos em casa e fazer online é que se percebe o quanto se perde não ter o presencial. Agora, nesta parte toda de comunicação, o meu receio, às vezes, é que tendemos a infantilizar os jovens a partir de determinada idade e estamos sempre em dar-lhes as regras para eles cumprirem. Poucas vezes falamos em envolvê-los na construção das regras que eles acham adequadas para atingir o mesmo objetivo. Não me pareceu que houvesse em algum momento uma lógica de dizer: "O nosso objetivo é este. O que é que vocês propõem que se faça para conseguirmos garantir este objetivo, dada esta situação toda?" E estamos antes a ditar-lhes as regras. Acho que esse é o tipo de situação que vai, mais cedo ou mais tarde, criar cansaço e criar alguma contracorrente, no sentido de não respeitar. Estávamos aqui a falar, e eu estava a pensar, por exemplo, qual é aquela circunstância que eu vejo às vezes os jovens aglomerarem-se? É quando um quer mostrar alguma coisa aos outros no telemóvel. Ora, isto provavelmente cria uma oportunidade de alguém criar uma app que permite partilhar uma mensagem ou um vídeo a todos os que estão ali à volta, através de Bluetooth, que não fica registrado em lado nenhum. Uma espécie de minidifusão, que permitiria que eles não estivessem todos aglomerados em cacho em cima daquele que tem o telemóvel. Mas se calhar há outras ideias de coisas que se podem fazer, que ajudam a que se cumpra o objetivo de algum distanciamento e que não retira a sociabilização. O que eu vejo muitas vezes é um dirigismo extremo e pouca, uma palavra agora da moda, pouco codesenho ou pouca coparticipação dos jovens na própria definição das regras para se atingir o objetivo que se pretende.
Isso pode fazer toda a diferença. São nesses detalhes que não são assim tão curtos quanto isso. Liliana Pascoalho, que escola é que vai sair desta pandemia? Ainda não sabemos quando é que ela vai acabar, mas já conseguimos perceber se vai ser uma escola muito diferente daquela que havia em março deste ano.
Eu espero que sim, sinceramente.
Acha mesmo que sim. Não quer voltar atrás.
Não, não quero voltar atrás. É claro que este modelo, esta transição abrupta trouxe muitos problemas e trouxe uma grande sobrecarga aos professores, principalmente, e também aos alunos, claro, e aos pais. Mas eu quero acreditar que realmente a tal escola teórica do século XXI pode sair em alguns aspectos deste confinamento e desta alteração que os professores foram obrigados a fazer, nomeadamente ao nível do tipo de aulas que são feitas e do tipo de aprendizagem que os alunos têm que fazer. Não podemos continuar com o modelo de escola de somente dar aulas expositivas. É claro que nós temos ainda muitas limitações ao nível do acesso à internet, a equipamentos, etc. Mas eu quero acreditar que este modelo pode trazer isso de vantagem. Dos alunos serem realmente mais autônomos, incentivar-se o trabalho por projeto e tantas outras medidas que têm sido faladas ao longo de talvez uma década, se não mais, e que as escolas têm feito, e também percebo, alguma resistência. Eu quero acreditar que vai sair uma escola--
Acreditar que vai ser uma escola diferente e será uma escola em que as turmas terão menos alunos. Isso parece que é um fator que pode ser decisivo, não só neste contexto de pandemia e do risco de contágio, mas na forma de tornar os momentos da aula mais ágeis. Isso é um fator importante, Liliana?
Bom, esse aspecto é curioso, é um debate muito grande na comunidade. Porque efetivamente o tamanho das turmas, e nós ouvimos qualquer professor e o professor diz-nos isso, que é fundamental. Contudo, é muito difícil que os estudos o provem. Tem muito mais a ver com o tipo de alunos que têm e também com o tipo de professor que está à frente dessa turma. E, lá está, o tipo de aula que é ministrada. É claro que há metodologias que implicam ter menos alunos, como é lógico, e há outras que até podemos ter 100 alunos na mesma aula. Tudo isso depende, e depende muito da
de que metodologia e de que pedagogia esse professor segue. Com a pandemia, é claro que nós precisávamos de muito menos alunos por turma e é claro que precisávamos de escolas, em alguns locais do nosso país, precisávamos de mais salas, de mais professores. Mas isto nós esperamos que seja uma transição, que seja um momento passageiro.
Estamos num momento de passagem. Não queremos voltar à escola de há seis meses, mas queremos uma escola melhor. Liliana Pascoal, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise e obrigada pelas reflexões que aqui trouxe. A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão voltar para a semana, à mesma hora. Até lá. Despedimo-nos com a YouTuber Mafalda Creative, habituada a falar para crianças e jovens, não perdeu a oportunidade de assinalar este regresso às aulas.
Olá a todos, eu sou a Mafalda e este regresso às aulas eu sinto que está a ser mais difícil, porque a verdade é que nós não nos lembramos de nada do que demos nas aulas online e nem sequer sabemos bem como é que passámos de ano.
Com quase meio milhão de subscritores, Mafalda Creative usa o humor para chegar aos mais novos e desta vez identificou alguns novos tipos de alunos que surgiram com a Covid-19 e estão lá quase todos. Boa tarde e até para a semana.
Outro tipo de aluno é a hipocondríaca, que tem medo de apanhar o vírus, ou seja, anda com vários desinfetantes, é também ela a dealer de máscaras para quem quiser comprar na escola. Tem de estar sempre a dois metros de toda a gente e isto é o que acontece se ela vir alguém a espirrar. Professora! A Marina está a espirrar, professora! Temos de ficar agora em quarentena aqui, professora. Temos de ficar duas semanas aqui. Eu quero só falar-lhe dizendo, professora. Isto é uma simulação, isto não é uma simulação! Não podia deixar de falar do nerd, que estuda muito, chora quando tem um 18 no teste, quando esperava ter um 20. Toda a gente quer ficar com ele nos trabalhos de grupo porque sabe que este aluno vai fazer o trabalho todo sozinho e ter uma ótima nota. Os pais dele ensinaram-no a ler quando ele tinha três anos. E ele estudou durante as férias para ter a melhor nota da turma nos testes diagnósticos. Sabe tudo sobre o Covid-19. Ele é tímido e inseguro. Nunca sentiu o toque de uma mulher sem ser o da sua mãe. Este ano, o nerd vai ser o único aluno a passar de ano, porque os outros já não conseguem copiar por ele devido ao distanciamento social. É o autor desta frase: Professor, desculpe. Esqueceu-se de corrigir o TPC que nos tinha mandado fazer para hoje. Desculpem, colegas, só quero saber se tem erros.