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Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise. Todas as semanas analisamos o estado da pandemia da Covid-19 em Portugal e no resto do mundo, numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Vamos ao encontro dos nossos comentadores. Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública. Muito boa tarde, Sónia.

Boa tarde, Carla.

E Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Boa tarde também ao Pedro.

Viva, boa tarde.

E no dia em que se ficou a saber que morreu em Portugal o primeiro médico no ativo por Covid-19, vamos discutir as condições de segurança dos profissionais de saúde perante a pandemia. Vai ser na segunda parte do Gabinete de Crise com o cirurgião e vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, José Fragata. Mas para já, os números da semana. Vamos partir para os números que servem de análise dos últimos dias. Sónia Dias, qual é o seu número?

Queria começar por também realçar a notícia que referiu agora no início do programa, realmente muito triste, e queria deixar uma palavra de consternação e endereçar as condolências à família e aos amigos antes de iniciar o meu número da semana.

Do médico que morreu ontem à noite.

Exatamente. O número da semana vai ao encontro deste tema do programa desta semana, que é o 15, que é 15% dos profissionais de saúde que testaram positivo num estudo na área da saúde ocupacional da escola, coordenado pelo professor Sousa Uva e pelo Florentino Serralheira, e que envolveu cerca de 5300 respostas de profissionais de saúde. No fundo, este resultado vai acompanhando a evidência de que os profissionais de saúde são o grupo que mais representa elevado risco de contágio, porque estão frequentemente em contacto próximo, quer com casos suspeitos, quer com doentes infectados. Esta porcentagem encontrada é mais baixa do que outros países europeus, mas realça, de facto, a importância de não baixar mesmo a guarda relativamente a todas as medidas de proteção que são necessárias adotar. Por outro lado, encontraram também, ainda neste estudo, que mais de metade dos profissionais de saúde considera que neste momento os equipamentos de proteção individual estão muito mais acessíveis do que estavam no início da pandemia, o que também é de valorizar, e quase 80% dos respondentes consideravam que agora estes meios eram adequados ou muito adequados. Acho que outro aspecto importante é que um em três profissionais de saúde referia que não realiza a automonitorização diária, por exemplo, com a medição de temperatura. E é importante quer para a sua própria proteção da saúde, quer para a redução da possibilidade de risco de contágio, etc. Para terminar, só mais dois resultados interessantes: 36% dos inquiridos reportava a inexistência de serviço de saúde ocupacional no seu local de trabalho, que pode ser uma forma de também, no fundo, aumentar a consciência da necessidade de proteção. E para além destes fatores de risco mais associados à exposição ao próprio vírus, encontraram também efeitos a nível psicossocial relevantes e que podem influenciar a sua atividade diária, e encontraram que mais de dois terços dos profissionais de saúde que responderam ao estudo apresentavam níveis de ansiedade elevados como resposta às situações de estresse que vivenciavam.

Ficamos aqui com um retrato importante. Pedro Pita Barros, e qual é o seu número da semana?

O meu número da semana é um número mais financeiro desta vez, são os € 504 milhões que estão no orçamento suplementar, que são destinados ao Ministério da Saúde. E é importante referir este número e ligado ao tema de hoje, porque sabemos que parte substancial desse valor, pelo menos 76 milhões, serão para reforço da resposta na medicina intensiva, mas de uma fatia grande, de 410, há uma parte importante para aquisições de bens e serviços que vão incluir os equipamentos de proteção. Portanto, mostra que a proteção dos profissionais de saúde tem sido necessária, vai ser necessária, a preparação dos espaços tem sido necessária, vai continuar a ser feita e vamos ter toda a capacidade ou pelo menos não vamos ter limitações financeiras importantes à lógica de fazer um reforço da proteção dos profissionais de saúde que estão dedicados ao tratamento da Covid-19, nas unidades dedicadas ao tratamento da Covid-19 e, em geral, desses profissionais. É preciso provavelmente também ter em atenção, e isso creio que provavelmente o professor Fragata depois também falará um pouco, de que todo este processo da Covid tem levado a um certo cansaço, a uma certa exaustão dos próprios profissionais de saúde, e que isso até poderá levá-los a aligeirar, de alguma forma, medidas de proteção ou menor cuidado, e que seria importante que isso não acontecesse de todo, até para a sua própria saúde. Portanto, nós temos aqui desafios que não é apenas comprar o equipamento de proteção, é também todo o ambiente em que se está a funcionar e toda a proteção que pode ser feita aos profissionais de saúde, através de rotação de profissionais, descanso, etc. Temos na proteção dos nossos profissionais de saúde, também um desafio para os próximos tempos em termos de organização da resposta à Covid.

Muito bem, são questões que vamos, de certeza, desenvolver na segunda parte do Gabinete de Crise, mas para já vamos fazer o balanço da semana, porque os novos casos de infecção não baixaram. Foram até detectados novos focos, não só na já identificada região de Lisboa e Vale do Tejo, mas também noutros pontos no país, como um lar em Cinfães, outro em Aljubarrota, ainda novos casos no IPO de Lisboa e uma festa informal no Algarve. Isto quer dizer, Sónia, que a situação está descontrolada?

Eu acho que não. O que é que poderia dizer relativamente a isto? Claro que com o desconfinamento é natural que haja maiores situações como estas e mais casos de infecção. Se calhar colocaria as coisas neste ponto: os casos estão a ser bem identificados, os surtos estão a ser levados a cabo com respostas rápidas de identificação dos casos, identificação dos contactos, isolamento quando é necessário e eu acho que neste momento não há uma demonstração dos dados para que se possa dizer que há uma disseminação sem controle. Outro aspecto que eu acho que é muito importante de realçar e que já temos vindo claramente a identificar, é que esta política de testagem em massa e de uma procura activa de casos, para os identificar, isolar e parar esta cadeia de transmissão, que é o que nós estamos neste momento a fazer nas várias situações que referiu, leva claramente a um aumento dos números. Mas também o que pode estar a acontecer, e isso é importante realçar, é que se, por exemplo, estivéssemos a fazer apenas testes quando as pessoas já desenvolveram sintomas e chegam aos serviços de saúde, assim claro que os números seriam mais baixos. O que nós temos neste momento é provavelmente um maior conhecimento de como a infecção está a evoluir na comunidade, ao contrário provavelmente de outros países em que a infecção mantém-se grande parte desconhecida, porque os testes não estão a ser feitos, e essa também é capaz de ser uma das razões para justificar a diferença quando nos comparamos com outros países. Mas isto não quer dizer, com os muitos testes e maior infecção, que estamos tranquilos com estes números. Eu acho que as coisas não estão descontroladas, mas os números mostram-nos que temos que estar alerta e ter respostas rápidas às várias situações.

Pedro, faz também esta análise, não estamos descontrolados, mas será que afinal o milagre português não foi bem um milagre?

O milagre português foi um milagre inicial. Nós não sei se estamos a conseguir continuar a fazer dele um milagre. De qualquer forma, esta última semana não foi tão complicada como parece ser, por uma razão simples. Se nós olharmos para os valores do que têm sido os óbitos, os internados, e os internados em unidades de cuidados intensivos, continuam a baixar devagarinho. Provavelmente ainda não temos aqui reflectido o aumento que possa vir a surgir por terem sido detectados mais casos nas últimas duas a três semanas. Leva sempre duas a três semanas a depois ser reflectido nesta parte de internamentos, que aliás, em sentido estrito nos últimos dias até subiram face aos dias anteriores, mas ainda não é preocupante, ainda não temos um sistema a rebentar pelas costuras, ainda estamos muito longe da capacidade. E nesta última semana do gabinete de crise, o número médio de novos casos diários que ocorreu em Lisboa e Vale do Tejo até baixou face à semana anterior, embora tenha subido ligeiramente no resto do país. E estes três surtos que têm merecido destaque, o da Festa do Algarve, o dos lares no Norte e no Centro e agora no IPO de Lisboa, eles acabam todos por, além de ser umas situações em que são detectados de forma rápida e com intervenção também rápida, como a Sónia referiu, mas revelam também muito bem onde é que nós temos que estar com atenção. Por exemplo, na Festa do Algarve, nós podemos dizer que reflecte muito a importância das decisões sociais como parte do problema, quando se decide fazer a festa, mas também como parte da solução, quando alguém decide alertar que houve a festa e houve uma intervenção rápida para a parar. Nós aqui temos um exemplo claro do papel que todos estamos a ter nisto. Aliás, seria interessante até colocar-se a pergunta se este milagre inicial, se este sucesso da resposta inicial que nós tivemos, não terá levado a uma diminuição do receio com a própria pandemia e as pessoas agora abrandarem um pouco. No início havia muito medo sobre a pandemia, sobre quem seria afectado, quando, como. Ao fim destes três meses, esse receio pode ter diminuído em grande medida, porque muita gente não conhece directamente quem teve Covid-19 ou quem tenha estado internado. O número de casos global dentro do país não é suficientemente grande para que todos nós tenhamos alguém no nosso círculo de conhecimentos, alguém que tenha tido a Covid. Aqui é claramente um ponto onde ter atenção, garantirmos que as nossas decisões de relacionamento social não criam problema. O outro ponto de atenção que tem sido reafirmado ao longo destes meses é os lares como centro de risco, como ponto de risco. As estruturas residenciais para idosos, na designação oficial. E aqui temos que equilibrar três coisas: inevitavelmente a segurança de quem vive nessas estruturas, mas também as vidas profissionais das pessoas que por lá passam, os trabalhadores, como é que eles equilibram a sua vida profissional com a vida familiar e com os riscos de contágio, e a colaboração necessária dos familiares que visitam estas estruturas. É uma área onde nós sabemos que temos que ter atenção e onde sabemos onde, mesmo com essa atenção, por vezes vão surgir surtos. O terceiro ponto crucial onde temos que estar com atenção nos surtos é também nas unidades de saúde, que como se viu, mesmo com todo o cuidado que tem sido tido, pode surgir algum surto que tenha que ser atalhado rapidamente, o que no caso do IPO, mais uma vez, parece que houve essa capacidade de decisão rápida. E nestes três pontos de stress, temos tido sempre respostas adequadas a cada um destes surtos e respostas tomadas rapidamente. E portanto Eu acho que devemos ter a preocupação de continuar a ter o mesmo tipo de resposta e de conseguirmos começar a baixar o mais depressa possível as potencialidades destes surtos, sabendo que provavelmente eles irão surgindo.

Portanto, estar atento, mas não estar demasiadamente preocupado com estes números. Estamos quase no fim da primeira parte do Gabinete de Crise. Vamos ainda aos mitos. São ideias habitualmente aceites, mas que não correspondem à realidade. Vamos a eles. Sónia Dias, apareceu um medicamento que vai curar a Covid-19?

Pois, realmente foi um mito que durou relativamente pouco tempo. Queria até realçar a forma positiva como a comunicação social contribuiu para que rapidamente houvesse uma disseminação correta da informação, que é, de facto, muito importante pra saúde. É relevante voltar a realçar que, apesar da boa notícia de que a dexametasona parece ter efeitos na redução da mortalidade, é falso que este medicamento seja a cura da doença. Aliás, os dados que têm surgido, e é preciso ter em atenção que esta evidência é ainda muito frágil, portanto, ela necessita de maior robustez, apesar de indicarem que este medicamento poderá ter efeitos positivos, mas apenas no tratamento de doentes com complicações sérias. É um medicamento que precisa de prescrição médica e nunca deve ser utilizado em casos de Covid-19 com sintomas ligeiros, nem como prevenção da doença. Só pra realçar um último ponto: o uso incorreto pode prejudicar gravemente a saúde e até foi referido que pode ajudar que a doença se desenvolva mais rapidamente numa primeira fase. É um mito e devemos continuar a adotar as medidas de prevenção, que já sabemos que são a única forma eficaz de combater esta epidemia.

O Pedro quer também destruir este mito? Nem pode ser sequer uma nota de esperança. Muito rapidamente.

Aqui o destruir o mito é, estando de acordo com tudo o que a Sónia disse, dizer que nós temos que ter cuidado quando surgem notícias de curas milagrosas, quase instantâneas e com grande destaque. E aqui o mito mais global é: temos que ter em atenção que o processo científico de validação de medicamentos demora o seu tempo e não é certamente de repente, de uma semana pra outra, que surgirá a cura.

Ora, muito bem. Então ainda não há uma cura para a Covid-19. Pode haver algumas notas de esperança, mas é preciso dar tempo à ciência para que haja certezas absolutas. Vamos regressar então já a seguir com as notas de esperança e também com o nosso convidado esta semana do Gabinete de Crise, o cirurgião vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa, José Fragata. Até já. Estamos na segunda parte do Gabinete de Crise. Analisamos o estado do combate à Covid-19 com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros. Daqui a pouco com o cirurgião e vice-reitor para a Saúde da Universidade Nova de Lisboa, José Fragata. Mas agora é tempo das notas de esperança. Porque não há só motivos para preocupação, há também razões para olhar com otimismo para o futuro. Sónia, qual é a sua nota de esperança?

A minha nota de esperança esta semana vai pra questão da previsão de que as consultas, cirurgias e outros cuidados de saúde vão retomar a sua atividade também em Lisboa e Vale do Tejo pra semana, o que é, de facto, uma boa notícia. Para além do enorme desafio que o SNS terá de enfrentar, gostaria agora de realçar que muito se aprendeu e inovou na resposta do SNS a esta epidemia e que será essencial que estas mudanças e aprendizagens possam permanecer para um maior fortalecimento da eficiência do SNS. Há aprendizagens pelo lado de serviço e do seu funcionamento, como por exemplo, a utilização muito mais frequente da telemedicina, consultas à distância, o que se aprendeu com uma maior integração das equipes multidisciplinares de cuidados primários, equipes de saúde pública, de medicina geral e familiar, a ligação com as equipes hospitalares, serviços sociais, os cuidados de apoio aos doentes aos domicílios, a rede de rastreios, mas também a ligação com outras estruturas governamentais e até da sociedade civil, que rapidamente se prontificaram a auxiliar, por exemplo, com realização de testes, transporte de doentes, apoio social necessário. E, portanto, a minha esperança é que todas estas lições, com novas formas de funcionar, como por exemplo, a renovação do receituário realizado de forma não presencial e outras respostas inovadoras, aliadas ao reforço do investimento do SNS, poderão agora contribuir para uma recuperação mais rápida do impacto que a pandemia teve também em outras doenças não Covid.

É para acompanhar então essa reabertura dos cuidados de saúde não Covid. Pedro Pita Barros, qual é a nota que quer destacar?

A minha nota de esperança desta semana vem do mundo internacional. Nós tínhamos falado há algumas semanas que poderíamos ir acompanhando a reabertura da economia, das atividades normais nos outros países que começaram mais cedo. E aqui queria chamar a atenção para a abertura das escolas no norte da Europa, que foi feita com muitas precauções e até agora sem grandes problemas de aumentos de contágios ou de surtos. E, portanto, sugiro que está na altura de se voltar à normalidade possível também no funcionamento escolar em Portugal e tentar minimizar os efeitos sobre as crianças e sobre a sua aprendizagem. E aqui a esperança é também não só que as crianças aprendam, mas que nós venhamos a aprender também com quem vai mais avançado neste processo e que rapidamente acertemos estes ritmos de reabertura das escolas com esses exemplos, porque claramente é possível fazê-lo e é possível provavelmente fazê-lo de forma mais rápida do que aquilo que nós estamos a fazer hoje em dia em Portugal. E portanto, aqui a nota de esperança é que haja um pensamento de como agora reabrir rapidamente todas as escolas, aproveitar o que ainda possa ser aproveitado do ano escolar e que no início do próximo ano escolar tenhamos uma ideia mais concreta de como tudo poderá funcionar, também atendendo ao que os outros países irão fazendo à nossa frente.

Ora, vamos ter de aguardar para isso.

Posso fazer aqui mais uma pequena nota rápida relativamente à nota de esperança da Sónia, que me parece totalmente ajustada, e só adicionar que algumas destas aprendizagens já eram possíveis. Já era possível fazer, por exemplo, a renovação de receituário não presencial através da internet. E, portanto, nós já tínhamos mecanismos que agora podemos utilizar mais e que durante este processo aprendemos que os podemos utilizar.

E até já falámos um pouco disso. Temos que reforçar um pouco o que é que vai ser a medicina pós-Covid. Apresento agora o convidado desta semana. José Fragata é médico-cirurgião, vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa. Muito boa tarde, muito bem-vindo ao Gabinete de Crise.

Boa tarde. Muito obrigado.

Sr. Fragata, desde o início da pandemia que se percebeu que os profissionais de saúde e os utentes do SNS, mesmo os não Covid, teriam de ser especialmente protegidos. Ontem à noite tivemos a confirmação da primeira morte de um médico no ativo em Portugal por Covid-19. Essa proteção está, de facto, a acontecer?

Muito obrigado. Esta pergunta é muito importante neste momento, por um conjunto diverso de razões. De facto, a primeira palavra é uma palavra de pesar por este nosso colega que morreu nas trincheiras, que morreu em pleno combate. Os profissionais de saúde foram identificados pela Direção-Geral de Saúde, e bem, como grupo de risco pra infecção por Covid-19. E foram identificados como tal, porque naturalmente são as pessoas que estão na primeira linha do combate à doença, são eles que lidam com os casos que sabemos estarem infetados e com todos nós que podemos estar assintomáticos e ser portadores. Portanto, os profissionais de saúde são um grupo de risco exatamente pela exposição que têm. A situação em Portugal foi branda de início e foi bem gerida, mas eu tenho, graças a Deus, que não me pelem palavras de preocupação ou nem de esperança, porque eu tenho alguma preocupação neste momento.

Mas posso perguntar-lhe. Está preocupado, nesta altura, com os profissionais de saúde?

Sim, com o país em geral e com os profissionais de saúde. Um semanário dizia no outro dia que nós tínhamos cerca de 3200 a 3500 profissionais de saúde infetados neste conjunto, dos quais cerca de 500 eram médicos, 1100 eram enfermeiros e depois assistentes profissionais, assistentes técnicos, etc. Eu trabalho num grande centro hospitalar, trabalho exatamente no centro hospitalar em que este nosso colega trabalhava também e faleceu e de facto nós estamos aqui perante um dilema muito grande. Nós temos que reassumir uma normalidade possível, que deve ser cada vez mais normalidade efetiva, porque senão vamos morrer de outras causas que não são os Covid. E nós sabemos que a mortalidade dos doentes, há estudos da Escola Nacional de Saúde Pública, a que a Sónia pertence, e que mostraram que de facto houve um aumento da mortalidade por causas ditas não Covid. E portanto, é imperioso recomeçar a atividade econômica, como é imperioso recomeçar a tratar os doentes. Ora, neste momento, nós percebemos que há um crescimento à taxa de cerca de 1%, mas não há nenhum reporte diário que não represente focos de aumento de incidência de infecção, prevalência de infecção. E de facto, nós não vemos isso só em Portugal. Vemos isso na Alemanha, vemos isso num conjunto de países que começaram a abrir a sua atividade. Ora, estamos aqui, como eu estava a dizer, no dilema entre ter que tratar os doentes, ter que recomeçar a atividade, ter que voltar às universidades, mas simultaneamente ter que lidar com novos casos, novas emergências de infecção. A única maneira que nós podemos para fazer isto é tomar medidas de precaução rigorosas e usar uma disciplina que eu sinceramente acho que não estamos a usar.

Mas por parte de quem?

Por parte de um certo laxismo geral. A geração mais nova vejo-a muito despreocupada. E sabe que estas questões, são questões que devem ser lideradas na opinião. E eu acho que o governo andou muito bem até aqui, mas eu acho que o discurso do governo e das autoridades em geral deveria endurecer. E nós precisamos de disciplina. Disciplina no uso de máscaras. Criou-se uma tremenda confusão no país com o uso de máscaras, que era desnecessária. Portanto, nós temos que aumentar o rigor no uso de máscaras, o rigor nas medidas de distanciamento social, as medidas da higiene respiratória, as medidas que todos sabemos decor, mas que não são uniformemente cumpridas. Por outro lado, o discurso que passa, e eu entendo o discurso das autoridades, é um discurso de maior abertura e de algum distendimento. Isso é uma mensagem que não é boa, sobretudo numa altura em que nós precisávamos que a mensagem fosse de disciplina e de adesão estrita a estes princípios. Se nós não fizermos isso, vamos ter o discurso da abertura da economia, que é totalmente legítimo. Há um trade-off entre a abertura e o risco que não queremos correr. E a única maneira que nós temos de fazer isso, nós sabemos que o vírus está entre nós enquanto não houver uma vacina. E, portanto, o único modo que nós podemos fazer isto é Seguir à risca as medidas de proteção das quais, volto a dizer, a máscara, não isoladamente, mas em termos complementares, é uma medida tremendamente eficaz.

Professor Fragata, está a ser muito crítico com o discurso que está a passar agora com esta mensagem. Fala em laxismo. Também se sente ofendido com a vinda das competições da Liga dos Campeões para Lisboa?

Não. Aliás, eu já escrevi sobre isso. Nós temos aqui um dilema muito forte que é: nós temos que abrir a atividade, senão vamos morrer de fome ou de outras doenças senão o Covid. E portanto, é absolutamente claro, nós vamos ter que abrir a atividade. São questões éticas de justiça distributiva. Portanto, nós não podemos verdadeiramente para proteger quatro, cinco, oito ou 10, prejudicar toda uma sociedade. Agora, o que nós temos que fazer para permitir isso exatamente, o que nós temos que fazer é, sem dúvida nenhuma, aumentar as medidas de proteção que temos. E sobretudo, ser tremendamente rigorosos com essas mesmas medidas. E esse discurso, nós vemos as autoridades referirem: "É preciso passar uma palavra de tranquilidade." De facto a tranquilidade é muito importante, mas não se pode confundir tranquilidade com o abrandamento de normas. Eu no outro dia, tenho um colega meu canadiano, que me mandou uma lei emitida recentemente no Canadá. A lei emitida recentemente no Canadá, é a lei do país, diz que as pessoas que vêm de volta têm quarentena de 14 dias. Se falharem essa norma, têm uma multa de 750 mil dólares canadenses e prisão até três meses. Se forem trabalhar ou andarem na rua infectados, as coimas e o tempo de prisão aumentam. O discurso que nós temos aqui é um discurso de não alarmismo, mas esse discurso não pode ser confundido, de maneira nenhuma, na minha modesta opinião, com o abrandamento das regras que têm que ser disciplinarmente cumpridas. Se você for para um desses passadiços de praia, vê jovens de 20, 30 anos, todos em cima uns dos outros, convivendo normalmente, sem máscara, sem proteção de qualquer tipo. Eu não estou a dizer que o governo não tenha feito um esforço de comunicação e tudo isso, mas eu endureceria com toda a sinceridade da palavra. E digo-lhe isto porque trabalho num serviço, trabalho num centro muito grande. Hoje mesmo, eu atrasei na saída que tinha, porque hoje mesmo tivemos uma positividade no serviço. Portanto, nós estamos a lidar com isto todos os dias. E de facto, os profissionais de saúde dos serviços têm que estar protegidos. E este é o último comentário que eu queria fazer. Sendo grupo de risco, nada pode ser negado em termos do número de testes realizados a todos os estratos dos profissionais de saúde, sejam auxiliares, sejam médicos, sejam enfermeiros ou técnicos. E é muito importante que cada diretor, cada PPCIRA, cada entidade hospitalar, faça o reinforcement dessas normas, que passam por despiste de doentes infectados, por medição de temperaturas, por periodicamente ter testes de RNA, testes de diagnósticos virais a estes doentes, porque muitos de nós podemos ser portadores assintomáticos e contudo ser ainda infectantes para a comunidade. E como pode imaginar, os profissionais de saúde estão numa posição em que não só se podem infectar a si próprios, entre eles, como podem infectar os doentes que tratam, o que seria uma coisa trágica.

E por isso é tão importante estarmos aqui a falar sobre estas matérias. Nós estamos quase a chegar ao fim. Queria ainda ouvir a Sónia Dias e o Pedro Pita Barros sobre esta questão, porque ela é fundamental quando estamos a falar numa estratégia de combate à pandemia. Sónia.

Sim, de facto, no fundo, de alguma maneira, a questão da comunicação, nós já fomos várias vezes referindo aqui essa importância. E por mais que nós tenhamos uma rápida atuação das autoridades de saúde e das várias intervenções, sabemos claramente que grande parte do trabalho de contenção e futuro da pandemia está nas mãos de todos e no comportamento de cada um de nós. E, portanto, nesse aspecto, acho que, de facto, realçar e não abrandar esse tipo de comunicação é extremamente importante. E com o cansaço, de facto, pode haver algum abrandamento dessas medidas que neste momento ainda não nos podemos dar ao luxo.

E como a Sónia bem falou, de resto, na primeira parte ainda do programa. Pedro Pita Barros, um último olhar, um último comentário sobre esta questão da necessidade de proteção fundamental dos profissionais de saúde.

Pois, Kiki. É central, como tem sido reafirmado, e gostaria de saber um pouco mais, e talvez o professor Fragata saiba um pouco mais sobre isso, desde o tempo que decorreu desde o início da pandemia, se temos neste momento riscos acrescidos pela exaustão dos profissionais e pelo cansaço ou se, pelo contrário, podemos confiar que as rotinas adquiridas estão já a ser suficientes para dar grande confiança que os profissionais de saúde já têm os cuidados todos. Portanto, é saber um pouco como é que ele sente que deveria ser a actuação agora. Reforçar, porque pode haver riscos maiores devido ao cansaço ou, de alguma forma, estar com mais calma, porque na verdade as rotinas adquiridas já foram importantes. Também só tenho um comentário relativamente às multas canadianas. Se calhar cá em Portugal, mais do que multas, era interessante pensar quem dos jovens fosse apanhado em festas ou em situações mais irregulares, fazer um bocadinho de serviço cívico, ajudar nos hospitais. Há sempre limpezas para fazer e terem conhecimento em primeira mão o que significa a doença para quem a tem, que é uma forma de criar essa consciência.

Seria também uma sugestão. Professor Fragata, estamos mesmo nos últimos dois minutos.

Eu só quero fazer um comentário, se me permitir, em relação àquilo que o professor Pedro Pita Barros disse. Eu acho que nós andámos muito bem na fase inicial desta pandemia. O meu receio, e é um receio fundado, acredite, e fundado no terreno, é verdadeiramente que, não tanto por cansaço... sabe que a cultura leva muito tempo a estabelecer-se e a tendência é abrandarmos na guarda. E por isso eu acho que é tão importante que a mensagem que o governo e as autoridades, que tão bem se comportaram em termos gerais, têm que passar agora, não é só uma palavra de tranquilidade, que pode ser igual a laxismo de atitude, mas uma palavra de guarda activa. Eu vou reforçar a partir de segunda-feira todas as medidas antigas que tínhamos no serviço, que estão em ordem, mas que nós vamos reforçar. Estava há bocadinho a falar com a minha enfermeira-chefe nesse sentido, exactamente para proteger pelo menos aquela comunidade de 300 ou 400 pessoas que ali temos, de não se infectarem e, eventualmente, de não infectarem os doentes também, que estão à nossa guarda e que são a razão de ser da nossa prática e devem ser agora a nossa principal preocupação.

Mas também é a sensação que tem que é preciso reforçar esta mensagem junto dos profissionais de saúde?

Absolutamente. Guarda permanente. O assunto não está resolvido e é nestes momentos em que, de repente, começamos a viver aparentemente de forma normal, podemos ser colhidos traiçoeiramente pela doença. E nós vemos que todos os dias os casos aumentam. Portanto, nós não estamos em decrescimento. O que é normal, dado que recomeçámos a actividade. E como temos que mantê-la, isto é um raciocínio estratégico, lógico. O que temos é que aumentar e reforçar a guarda para podermos vencer este vírus.

Fica essa ideia da guarda activa. Professor José Fragata, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise.

De nada. Foi um gosto, foi um privilégio. Muito obrigado.

A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão voltar para a semana à mesma hora. Terminamos com o elogio aos profissionais de saúde. Foram tantos nos últimos meses e em praticamente todos os pontos do mundo. Esta semana, e a propósito da Liga dos Campeões, houve até uma discussão sobre como devem os governos compensar o esforço de médicos e enfermeiros. À margem deste debate, a banda britânica Queen gravou uma nova versão do tema "We Are the Champions", uma versão com ligeiras alterações da letra para homenagear precisamente os campeões no combate à pandemia. Boa tarde e até para a semana.