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Houve alguns problemas na forma como esta transição foi gerida. Durante o confinamento, nós temos um processo de atuação que é centralizado, é normativo, é generalizado, é igual para todos. Desse tipo de registo para o desconfinamento, isso corresponde a uma mudança de modelo para um outro, que é descentralizado, é diferenciado e tem a ver com a informação que as pessoas precisam de ter de acordo com os riscos a que estão sujeitos, tomarem também as suas decisões quanto àquilo que querem fazer.
E isso aconteceu? Essa mudança aconteceu?
Enquanto durante o confinamento, quem decide é a autoridade e nós obedecemos, aqui temos dois termos na equação: decide a autoridade, mas nós também decidimos. E para decidirmos bem, temos que assegurar que a informação que nos chega permite essa decisão do risco. E essa informação tem que ser fundamentalmente, não só sobre o número de casos que ocorrem no espaço da nossa convivência, mas também o tipo de transmissão. Se a transmissão é uma transmissão controlada em clusters, em cadeias de transmissão conhecidas, ou se o vírus circula na comunidade. Se o vírus circula na comunidade, nós temos um tipo de comportamento diferente que teríamos necessariamente quando não há casos ou quando os casos decorrem de clusters ou cadeias de transmissão controladas.
E nós devíamos ter adotado, por exemplo, o sistema de semáforos, como os outros países, com esses níveis de risco para as pessoas saberem melhor como é que se hão de comportar?
Era mais fácil. São semáforos, se quiser utilizar essa linguagem, correspondem a níveis de risco. Se considerar que há quatro níveis. Digamos assim, o vermelho, o alaranjado, o amarelo e o verde. O vermelho é aquele em que o vírus circula na comunidade, portanto, o risco é grande. O a seguir, digamos, o alaranjado, é quando nós temos fundamentalmente clusters, mas ainda há alguma transmissão na comunidade, portanto, o risco é intermédio. Depois tem uma situação que só temos clusters, só temos cadeias de transmissão localizadas, não temos o vírus a circular na comunidade e, portanto, o risco é bastante menor, até o último nível em que não há transmissão, mas ainda existe vírus no mundo e, portanto, temos que estar sempre alerta. Ora bem, se nós diferenciarmos as nossas comunidades de acordo com esses níveis de risco, não só eles estão associados a medidas que o governo toma para cada nível de risco, não precisa fazer um Conselho de Ministros para tomar essas medidas. Essas medidas estão inerentes ao perfil epidemiológico para cada nível de risco, como também as pessoas têm a informação necessária para, com a família e com os amigos, com seus vizinhos, pensarem qual é o desenho melhor para o seu comportamento. Vão mais ao supermercado ou vão menos, vão ao centro comercial, vão ao restaurante, não vão. E portanto, essa sinalização não só permite saber de uma forma pré-determinada que medidas as autoridades vão tomar, como também orienta-nos a ter nós próprios desenhos inteligentes.
E ainda vamos a tempo?
A Sónia referia, e o Pedro também, o grau de confiança. Provavelmente, se nós tivermos mais informação para tomarmos as nossas próprias decisões e temos consciência dessa diferenciação, possivelmente temos também mais razões para compreender o que está a acontecer e, portanto, ter mais confiança em nós próprios e nas instituições que tomam decisões que nos dizem respeito. Claro que vamos a tempo.
O que é que tem de mudar?
É muito importante que as pessoas tenham consciência do grau de risco a que estão sujeitas, da forma como, uma vez expostas, qual é a resposta esperada, e deste modo, fazerem parte do jogo. As pessoas têm que ser o elemento ativo desse jogo. Não podem ficar à espera, como dizia, das instruções contínuas que vão receber, de forma a atuar de acordo com essas instruções. E portanto, uma estratégia deste tipo é absolutamente viável no país. Temos todas as condições para desenhar e implementar. E é muito importante a pergunta que fez, porque este é o momento para fazê-lo. Quando chegarmos a setembro, temos o problema das escolas, que é um problema sempre difícil e sensível. Temos as pessoas que regressam de férias e finalmente querem ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde, que em grande parte lhes foi barrado, foi dificultado. Temos a seguir os problemas de saúde do outono e inverno, múltiplos vírus que circulam. E, portanto, quando chegamos a meados de setembro, nós temos uma espécie de tempestade, em que não temos muito tempo para pensar. A ação predomina. O momento será para atuar, atuar em várias frentes, intensamente, de uma forma articulada. Não é a altura boa para repensar.
E para não reagirmos reativamente, o que é preciso fazer desde já?
Exatamente. Precisamos, de facto, de explicitar uma estratégia de saúde pública. Essa estratégia de saúde pública tem que partir desta diferenciação das situações de risco no país, das respostas que deva responder, da parte da autoridade, da parte das pessoas. E depois temos que acrescentar a isso aqueles aspetos que são específicos de diferentes circunstâncias. São as crianças que precisam de ir pra escola, de facto, são os jovens que precisam de viver, são as pessoas que trabalham, que vivem, se transportam e trabalham em situações difíceis, em termos de exposição do vírus, são aquelas pessoas que trabalham nos LARES, que precisam de uma atenção muito especial, e são os mais velhos que não querem desistir de viver. E portanto, cada um desses grupos profissionais precisa, nessa estratégia, uma atenção particular em relação à situação que tem que enfrentar e os riscos que decorrem das suas próprias circunstâncias. E depois temos que acentuar o papel das pessoas, o papel da literacia das pessoas, o papel das decisões inteligentes das pessoas, e nós temos hoje meios magníficos para conseguir estimular esse tipo de comportamento. E finalmente, temos a consciência que nos espera um período difícil em termos de igualdades sociais, em termos de pobreza, em termos de desemprego. Isso tem que ser contemplado na estratégia. Temos que criar uma relação entre uma estratégia de saúde pública e a economia. Não pode ser dois caminhos paralelos, tem que se entrelaçar, tem que se relacionar. E finalmente, temos que ter um faseamento, porque sabemos que nos próximos ano e meio vamos passar por várias fases.