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Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise. Todas as semanas analisamos o estado do combate à pandemia da Covid-19, numa parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Contamos sempre com os dois membros residentes do Gabinete de Crise: Sónia Dias, coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública. Olá, Sónia, boa tarde.
Olá, muito boa tarde, Vanessa.
Contamos também com o professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pita Barros. Boa tarde, Pedro.
Bem-vinda, boa tarde.
Os últimos dias têm sido ricos nas notificações que recebemos no telemóvel sobre vacinas. A Rússia a anunciar a primeira registada, mas envolta em secretismo. A China a aprovar uma patente. A União Europeia já tem um pacote definido para reservar a vacina de Oxford, que teve resultados preliminares promissores. Portugal vai receber quase sete milhões de vacinas. O governo também já aprovou um investimento de €20 milhões para comprar o primeiro lote. Tudo anúncios desta semana. Na segunda parte vai ser nosso convidado o jornalista e antigo correspondente em Moscovo, José Mehazes, precisamente a propósito desse anúncio russo da primeira vacina contra a Covid-19. Para já, os números da semana. Vamos a eles. Os dados estão lançados no tabuleiro do Gabinete de Crise. Começamos com o Pedro. O seu número tem precisamente a ver com vacinas.
Tem, o meu número desta semana são 300 milhões, que é o número de doses que foram pré-compradas pela União Europeia à AstraZeneca e ainda com a opção de comprar mais uns 100 milhões de vacinas. Só para ter uma ideia, a União Europeia, 27, tem cerca de 450 milhões de habitantes. E sabemos que estão também em negociação, ou já foram negociadas, a compra de vacinas com outras companhias. E aqui a parte importante é ser uma iniciativa europeia, que está a dar a cada país uma segurança sobre aceder à vacina e sobre o preço a que irá fazer. Além da segurança que transmite, é também um exemplo de como a coordenação a nível europeu pode ser útil para cada país. É duvidoso que Portugal conseguisse ter este posicionamento tão cedo junto de vendedores de vacinas ou de fornecedores de vacinas daqui a uns meses, como sendo parte da União Europeia. É também importante dizer que o esforço europeu não é só na coordenação. Desta aquisição que foi falada de ontem, de cerca de €20 milhões que serão dedicados por Portugal a esta aquisição, uma parte substancial, ou se calhar a totalidade, vai até ser recuperada através de um programa europeu de ajuda a este aspecto. E portanto, a União Europeia tem ajudado aqui a tomar riscos nas empresas para elas desenvolverem as vacinas, mas tem apoiado também os países no encontro. E esta atuação da União Europeia é também de destacar por surgir num contexto político em que a vacina se tornou uma corrida de prestígio. O encontrar uma vacina se tornou uma corrida de prestígio geopolítico, que envolve a Europa, os Estados Unidos, a China e a Rússia. E nós já vimos que esta última, a Rússia, procurou colocar-se à frente, anunciando uma vacina ainda antes dos testes mais amplos na população. E portanto, daqui a pouco nós vamos falar um pouco mais sobre isso, mas os 300 milhões, que foi o escolhido desta vez como sendo o número da semana, tem tudo a ver com o conseguirmos dar segurança à população, mas também numa lógica mais ampla de posicionamento da União Europeia como grupo de países num contexto global.
A corrida à vacina da Covid-19 tem muito que ver com esta força e este poder, e aqui com um sinal de cooperação no que toca à União Europeia. Sónia Dias, outro número também sobre como controlar esta pandemia.
Exatamente. Portanto, eu escolhi o número seis, que tem a ver também com as seis vacinas que estão já na fase três dos ensaios clínicos. Há mais de 20 vacinas contra a Covid que estão a ser testadas já em humanos e que receberam autorização para avançar com os testes e mais de uma centena estão em fase de investigação. No entanto, alguns dos progressos divulgados são considerados por algumas das autoridades de saúde mais quase publicidade do que propriamente ciência. Passada a semana, foi registada a primeira vacina contra a Covid-19, a tal vacina russa. No entanto, poucas horas depois, a própria Organização Mundial de Saúde referiu-se com muita cautela a esta notícia, pois não existiam dados conhecidos sobre a sua qualidade, eficácia e segurança. Muitos cientistas, quer até do próprio país, mas também do estrangeiro, questionavam a decisão de registar esta vacina antes de os cientistas completarem a tal chamada fase três do estudo, que é uma etapa dos ensaios clínicos que, por norma, demora vários meses, envolve milhares de participantes e é a única forma de se provar que a vacina experimental é segura e funciona, ou seja, onde é avaliada a resposta imunitária, mas também a segurança. Há até quem mencionasse que, na verdade, não se estava a falar de uma vacina, mas de um protótipo ou de um projeto. E há aqui dois pontos importantes: por um lado, é que a vacina, até pelo próprio nome, e o Pedro estava também a referir um pouco isto, é que pode parecer que esta se tornou quase numa luta para ver quem chega primeiro. E aqui é importante realçar que se podem levantar, do ponto de vista do cidadão mais comum, ainda mais receios sobre estas vacinas e principalmente porque logo que aparece uma vacina a ser publicitada, se levantam tantas questões de segurança. Se já existiam muitos rumores de que as pessoas podiam pensar que a vacina está a surgir demasiado rápida e, portanto, pode não ser segura, podem assim aumentar os receios sobre as vacinas Covid e diminuir a adesão para que esta depois possa ser aplicada no futuro. Portanto, deve-se preparar bem a estratégia de vacinação, incluindo o investimento na comunicação de como é que é possível ter uma vacina tão rapidamente. E para terminar, acho que é importante falar com as pessoas mostrando que houve fortíssimos financiamentos que nunca tinham existido no passado, novas tecnologias que permitiram uma caracterização muito rápida do vírus, a criação da própria vacina e os testes de eficácia e segurança. Todas estas questões têm assim que ser bastante comunicadas para que não se perceba que se estão a saltar Passos no processo, como provavelmente aconteceu nesta parte da vacina russa.
Vamos perceber se esse anúncio foi prematuro na segunda parte. Ficamos então com estes números, passamos à revista da semana, uma semana também muito marcada, para além do tema das vacinas, pelo anúncio fresco de que Portugal vai finalmente integrar os corredores aéreos do Reino Unido já a partir deste sábado. Pedro Pita Barros, já não era sem tempo?
Já não era sem tempo. E de certa forma, esta decisão do Reino Unido vem nos mostrar o reconhecimento agora internacional do que tem sido a evolução em Portugal. Esta semana que passou, naquele barômetro da semana do gabinete de crise, foi em média melhor do que tinha sido a semana anterior e retoma alguma tendência que já vinha atrás. E portanto, há aqui uma evolução positiva desta última semana, que foi sobretudo devido ao que se passou em Lisboa. E nós temos então uma situação em que nos vários indicadores, seja óbitos, internados ou internados em unidades de cuidados intensivos, temos uma rampinha descendente em Portugal. Ora, esta evolução de pequena rampa descendente é mais favorável do que temos estado a assistir nas últimas duas semanas nos outros países europeus, nomeadamente os do sul da Europa e que a Inglaterra tinha incluído dentro dos seus corredores aéreos. E portanto, são países muito comparáveis conosco, no sentido em que o turismo é também uma atividade econômica importante para eles. Ora, Portugal, de certa forma, tem estado a contraciclo desses vários países europeus. Enquanto os outros países, França, Espanha, até Croácia, tiveram uma quebra acentuada do número de novos casos há algumas semanas, nós tínhamos uma rampinha ligeiramente ascendente, que até causou aquelas preocupações da volta de Lisboa, etc. Mas depois nós passamos a uma rampinha descendente, portanto, uma inclinação suave, uma diminuição suave ao longo do tempo, enquanto esses países entraram quase que num elevador a subir, começaram a subir de uma forma bastante acentuada. E portanto, é muito natural que se tenha feito esta mudança dentro da estratégia inglesa e a saída de um país como a França, que criou inclusive uma corrida ao regresso de ingleses que estavam em França para Inglaterra, é muito o contraponto do que foi agora a abertura do corredor aéreo para Portugal. Agora, essas situações têm todas uma grande fluidez. De duas em duas semanas pode haver mudanças substanciais, uma vez que o período do vírus também tem cerca de duas semanas até se manifestar e, portanto, pequenas variações para cima e para baixo podem levar a decisões deste gênero.
São medidas à condição, no fundo, são reavaliadas de duas em duas semanas. Já temos então este corredor aberto para viajar para o Reino Unido e os britânicos para Portugal sem qualquer restrição. Mas nem tudo são boas notícias. Sónia Dias, assistimos esta semana a um agravamento da situação nos lares, na Grande Lisboa e no Alentejo, com Reguengos de Monsaraz em destaque.
Exato. Nós já temos vindo a reportar que, de facto, os lares e os residentes destes lares continuam a ser grupos prioritários e de maior vulnerabilidade na epidemia. E, portanto, na verdade, apesar dos enormes esforços desenvolvidos no controle da transmissão do vírus nos lares e na proteção destas populações mais frágeis, continuam a surgir situações de contágio, quer nos próprios idosos, mas também nos seus funcionários. Em primeiro lugar, eu acho que não é possível não reforçar e esquecer que estamos a falar de milhares de instituições a nível nacional, que na sua maioria têm funcionado muitíssimo bem, que estão a conseguir resolver os surtos, a preparar-se e a capacitar até todos os seus funcionários.
O anúncio feito ontem dos 100 milhões de euros pelo governo esta semana chega?
Eu acho que é um bom início. Quer dizer, nós sabemos também, e isso até noutros aspectos, como as questões das desigualdades sociais, etc, que a Covid vem, no fundo, quase como uma lente a exacerbar alguns problemas mais estruturais que nós temos. A questão de uma população envelhecida e que é preciso, de facto, encontrar soluções para esta nova realidade quase demográfica, é uma questão. E portanto, aqui nós vamos ter que ser capazes de conseguir intervir de forma rápida para que estes surtos de maior contágio e que depois não têm uma resposta tão atempada quanto gostaríamos, não acontecessem. E provavelmente, esta é uma população também que nós sabemos que à partida é mais frágil, por exemplo, em situações de gripe. E portanto, claramente, nós precisamos de encontrar aqui uma resposta que reforce também a situação que se vai verificar agora com a conjugação das duas epidemias.
É preciso reforçar o investimento nos lares, mas este anúncio dos 100 milhões, Pedro Pita Barros, coincidiu também com a semana em que a ministra da Segurança Social assumiu que não leu o relatório da Ordem dos Médicos. A delegada regional de saúde do Alentejo, em entrevista aqui na Rádio Observador, disse que não recebeu esse relatório e o presidente da Administração Regional de Saúde do Alentejo atira a responsabilidade para os médicos. Fica aqui a sensação de que há um passa-culpas e muita coisa por esclarecer em matéria de fiscalização.
Sim, toda esta história do lar de Reguengos tem dois elementos que vão ter que ser pensados com cuidado. O primeiro é perceber o que é que nós podemos aprender dele para evitar situações semelhantes que ocorram no futuro. Portanto, aqui nós devíamos ter, aliás, em geral, devíamos ter a noção de que os surtos em lares vão provavelmente continuar a acontecer, dado que é um local vulnerável, portanto, o que nós temos que perceber é de cada caso, o que é que nós aprendemos para intervir mais cedo e qual é a melhor intervenção a fazer nesse contexto. E claramente, o que correu mal no lar de Reguengos pode eventualmente começar a ocorrer noutros lares também e há que prevenir essas situações. Esse é um elemento de aprendizagem que nós temos que ter e que me parece estar um pouco descurado neste processo todo da discussão à volta dele. O segundo aspecto é quais são as responsabilidades e de quem envolvidas neste processo. E aqui, provavelmente o melhor é nós esperarmos pela Pelo que a Inspeção-Geral de Atividades em Saúde irá fazer e irá procurar saber, esperando que haja também do lado da Segurança Social uma iniciativa similar, para percebermos exatamente em que é que as várias informações, às vezes quase discordantes sobre o que se passou ou sobre a parte da responsabilidade do que se passou, o que é que aconteceu de fato.
Temos também a investigação do Ministério Público.
Sim, portanto vamos ter várias entidades a olhar para lá e acho que vale a pena, nessa parte das responsabilidades, perceber. De um ponto de vista político, é evidente que é um bocado estranho a ministra responsável pela Segurança Social, dizer que não leu o relatório. De certa forma, mesmo que não o tivesse lido, suponho que alguém dentro do ministério já teria olhado e já lhe teria dado pelo menos um resumo, mesmo que ela não o tivesse lido integralmente. E portanto, deveria ter pelo menos alguma opinião sobre o mesmo, que é a parte que me parece complicada aqui de gerir. Não é que ela tenha lido diretamente o relatório, mas é qual é o posicionamento que o ministério tem relativamente a isso. Agora, é evidente que às vezes pequenas frases são empoladas também numa bolha política, que aqui acaba por ser a continuação de algo que nós já estávamos a ver acontecer desde há algum tempo a esta parte, que é conforme fomos ganhando mais tempo com a Covid, o certo consenso político ou a união política que existiu à volta dos primeiros tempos, foi se diluindo de várias formas e eu acho que isto agora entra também numa fase, não de combate político partidário, mas claramente combate político também entre a Ordem dos Médicos e a estrutura governamental. Então nós vamos provavelmente assistir até ao inverno, mais situações deste gênero, em que diferentes opções que são tomadas ou diferentes falhas que são detectadas, vão fazer parte de um combate político em sentido geral.
Estamos numa nova fase da gestão da pandemia. Quase no fim da primeira parte do gabinete de crise, vamos ainda aos mitos e alertas. Vamos a eles. Sónia, traz um mito esta semana sobre a normalidade, o novo normal.
Exatamente. O meu mito seria a normalidade a regressar significa a pandemia a passar. É um mito, apesar de provavelmente todos nós desejarmos fortemente que isto pudesse acontecer e que de forma milagrosa estaríamos a acordar um dia e a pandemia ter terminado, não é verdade. A sociedade, apesar de começar a dar sinais comportamentais, e já bem precisávamos, do que parece estar a voltar à normalidade neste período de férias, com regresso a restaurantes, encontros familiares e amigos que são tão essenciais para o nosso bem-estar, pode de facto dar uma falsa sensação de que o vírus já não está a circular, observando-se aqui e ali um baixar de guarda. Assim vai ser essencial neste regresso de férias, reinventar uma forma de incentivar e reforçar a necessidade de continuarmos a nos proteger de uma pandemia que está entre nós. Não podemos ter um regresso à normalidade pensando que não existe risco.
E por falar em proteção, Pedro, também traz aqui um mito sobre a medição da febre.
Sim, tem sido várias vezes dito que deveria haver verificações de temperatura em vários locais, fala-se muito nisso nos aeroportos, mas devemos ter em conta que as medições de temperatura ou as verificações de temperatura, não são um teste à Covid-19. Detectam apenas se a pessoa tem febre ou não, portanto, se tem uma temperatura elevada, o que pode ser devido a várias causas. E há pessoas que nós sabemos que têm Covid-19 sem terem febre, não terem praticamente sintomas, e portanto, quando muito, essa verificação de temperatura é um sinal imperfeito sobre a Covid-19, permitindo apenas encontrar casos suficientemente graves para terem febre e serem detetados naquele momento. É claro que a facilidade de o fazer e o baixo custo de aplicação acabam por justificar que se utilize este mecanismo de triagem em locais de circulação em massa. Mas sabemos que vão existir erros. Há pessoas não detetadas e algumas com febre não terão Covid. E aqui a parte importante é que mais cedo ou mais tarde estas verificações de temperatura serão provavelmente substituídas por outros mecanismos, por testes com maior precisão, e as pessoas quando lhes for pedido que façam uma verificação de temperatura, devem ter em mente que não estão a fazer um teste à Covid-19, estão apenas a tentar obter um sinal sobre se vale a pena depois fazer um teste mesmo para a presença da Covid.
Portanto mitos associados a esta nova normalidade estão desfeitos e nós estamos de volta já daqui a pouco com notas de esperança e também com o jornalista e antigo correspondente em Moscovo, José Milhazes, a propósito do anúncio da primeira vacina contra a Covid-19, feito por Vladimir Putin. Já aqui estamos para a segunda parte do gabinete de crise, os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros ajudam-nos todas as semanas a analisar o combate à pandemia. Hoje também com o jornalista e antigo correspondente em Moscovo, José Milhazes, que se junta a nós entretanto. Primeiro, notas de esperança que levamos para o fim de semana. Sónia Dias, a sua nota de esperança leva-nos de novo ao tema deste programa, as vacinas.
Exatamente. E eu escolhi então como nota de esperança o procedimento europeu centralizado para a aquisição destas vacinas. De fato, a Comissão Europeia vai garantir aos europeus o acesso rápido a uma vacina segura contra este vírus e vai adquirir as vacinas de forma coordenada com o processo europeu centralizado. Portugal irá, segundo os dados mais recentes, obter 6,9 milhões de vacinas em coordenação com outros países da União. E neste processo, a União Europeia tem também financiado alguns laboratórios pro desenvolvimento da vacina e já selecionou aquelas que lhe parecem ter maior segurança. Por outro lado, acho que é importante aqui referir que a pandemia e o receio de um colapso econômico têm sido um desafio pra Europa. A pandemia veio assim reforçar, por um lado, o poder dos Estados, mas ao mesmo tempo aumentou também a sua interdependência. Por exemplo, as vacinas e a imunização em geral, mas também, por exemplo, não é indiferente que cada país ou que os outros estejam sãos ou doentes. Ou seja, a todos convém que estejam sempre os cidadãos mais sãos, quer seja por razões sanitárias ou até por razões econômicas, e o exemplo são estes corredores seguros que fomos vendo e até a luta pelos turistas que de alguma maneira se impôs. Portanto, pra terminar, dizia que a pandemia veio transformar quase a saúde pública numa área política. E temos aqui, então, a oportunidade extraordinária de decidir se queremos uma maior unidade na União Europeia, com decisões dos governos, do Conselho Europeu e das instituições da União, mas também da mobilização forte dos cidadãos e das opiniões públicas de cada Estado-membro.
É um puzzle com muitas peças. Pedro Pita Barros, traz uma nota de esperança sobre um teste ao coronavírus.
Exatamente. Esta semana, o meu destaque vai pra aprovação pelas autoridades americanas, pela conhecida FDA, de um teste pra presença da Covid, que é baseado na saliva, mas que face a outros que já existem, custa muito menos. Custa cerca de $10, segundo as previsões deles, e não vai exigir nenhum produto ou um processo difícil de fazer. Foi desenvolvido pela Yale School of Public Health e, portanto, tem uma lógica não lucrativa em termos da sua disponibilização. Eles apontam que em menos de três horas consiga ter o teste. Ora, se se conseguir, de facto, ter um teste rápido e barato, que permite testar muito mais e fazer uma identificação mais rápida de quem está doente, pra ser separado e tratado, e se permitirmos até conseguir fazer baixar o tempo de disponibilização do teste pra 15 ou 20 minutos, podemos passar a ter, mesmo sem termos ainda uma vacina, uma capacidade de retomar uma maior normalidade da vida diária do que temos experimentado nos últimos meses. Isto por quê? Porque se eu tiver um teste que custa $10 ou €10, que seja, e que se pode fazer em 15 minutos, pode-se passar a fazer os testes antes de sair pra escola, antes de sair pro trabalho, antes de ir a um filme, ou ir a um teatro, ou fazer uma viagem. Permite, no fundo, termos um novo normal muito mais próximo do antigo normal do que tem sido a vida dos últimos meses. E, portanto, a minha esperança é que este teste possa ser disseminado de uma forma muito ampla e que tenha os resultados que se espera ter. Eles fizeram uma comparação deste teste com outros testes junto de basquetebolistas, junto dos jogadores da NBA, e chegaram à conclusão que tinha o mesmo grau de identificação, tinha a mesma capacidade de identificação ao Covid. E, portanto, podemos ter aqui uma esperança pra termos mais um instrumento para retomarmos alguma normalidade adicional na nossa vida.
Um novo teste nos Estados Unidos e por cá também a Universidade de Trás-os-Montes está a ultimar uma espécie de teste, um dispositivo portátil para detectar o coronavírus em apenas 20 minutos. É uma notícia das últimas horas. Entretanto, já temos conosco o convidado desta semana, José Mehazes, jornalista e antigo correspondente em Moscovo, na Rússia. Uma cara e uma voz bem conhecidas dos portugueses. Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise.
Boa tarde.
Obrigada por estar conosco. Esta semana chegou o já esperado anúncio de uma vacina por parte da Rússia. Vamos lembrar as palavras de Vladimir Putin.
Tanto quanto sei, esta manhã, a primeira vacina contra a infecção do coronavírus foi registrada. A minha filha foi vacinada e depois da primeira injeção, a temperatura foi de 38 graus. No dia a seguir, estava um pouco acima dos 37. E é isso. Depois da segunda injeção, a temperatura também subiu um pouco, mas depois voltou ao normal. Ela sente-se bem, o que é ótimo.
José Mehazes, o argumento de Putin ter vacinado a própria filha foi uma boa jogada na propaganda russa para dar credibilidade a esta vacina que ainda está envolta em secretismo?
Claro que é, evidentemente. Não se podia pedir muito mais. Claro, podia-se pedir que o teste fosse feito no presidente, mas como a Rússia sem o presidente Putin, segundo a propaganda, não existe, era meter em risco toda a Rússia testar o presidente.
Mas Vladimir Putin nem costuma falar da família.
Exatamente. E ele evitou sempre. Nós nem sequer sabemos se ele só tem aquelas duas filhas ou não, o que é que fazem as duas filhas e etc. E ele, nesse sentido, é dos dirigentes mais fechados. Daí que este momento é um momento claramente de propaganda política para sublinhar que a vacina é a sério e que ele até pôs, não digo em jogo, mas digamos, a filha a tomar a vacina Para mostrar que a vacina irá ter resultados positivos.
E que será de confiança. Quanto ao nome da vacina, Sputnik, a vacina ainda não foi registrada, mas tem este nome. É também o nome do primeiro satélite artificial da Terra, que foi lançado precisamente pela Rússia. É também, de resto, a designação de um dos órgãos de propaganda do Kremlin para o estrangeiro. Nada aqui é ao acaso, estamos perante uma demonstração de força?
Isto aqui é claramente uma campanha preparada. E eu não diria bem preparada ou mal preparada, porque eu, por exemplo, dizia que a propaganda soviética cheira um bocado a mofo e é até um bocado ridícula. Comparar o Sputnik à vacina. Efetivamente, o Sputnik constituiu uma revolução para a humanidade, principalmente em termos de telecomunicações e comunicações espaciais. Sem dúvida que foi um grande passo para a humanidade. E claro, apresentar esta vacina como um passo igual ao Sputnik, é que aqui há uma pequena diferença: quando foi feito o lançamento do Sputnik, só foi anunciado depois de ter tido êxito.
Aqui estamos a anunciar ainda antes de haver publicação científica, não é?
Exatamente. Daí que isto é uma campanha de propaganda e que tem claramente pontos fracos e que levantam sérias dúvidas sobre a vacina, mesmo que a vacina até seja melhor do que aquilo que alguns pensam.
Há esta corrida à vacina, como ouvíamos também o Pedro Pita Barros comentar na primeira parte, o prestígio, o poder em termos geopolíticos, mas também uma competição econômica, não é, José Milhais?
Claro. Primeiro que tudo, trata-se da geopolítica, da maldita geopolítica, diria eu. Porque isto aqui faz com que, numa situação destas, as grandes potências científicas poderiam coordenar esforços para conseguir uma vacina de boa qualidade e até rápida. Mas a geopolítica aqui vem confundir e vem travar. Por um lado, vem travar o avanço científico, porque os cientistas estão separados a lutar por uma vacina. Mas, por outro lado, também tem uma vantagem: obriga os outros a andar mais depressa depois deste anúncio. Tanto mais que este anúncio tem uma componente, penso eu, muito curiosa. Não foi por acaso que o Putin fez na semana passada essa declaração bombástica. É porque o Kremlin receia e receava, e penso que com razão, que Donald Trump fizesse o mesmo para vencer as eleições.
Foi uma jogada por antecipação, é isso?
Exatamente. Porque repare uma coisa: os russos têm capacidade científica e até podem estar a fazer uma boa vacina e apresentá-la com bons resultados, mas não foi no dia em que o Putin anunciou. Ela poderá ocorrer, no melhor dos casos, se poderá chegar ao mercado, no início do ano que vem. Agora, há outra coisa aqui: os dados da vacina. Normalmente, estas investigações são publicadas em revistas científicas. Ora, os estudos russos não foram, devido ao tal secretismo, para possivelmente também ganhar os milhares de milhões de dólares neste negócio.
E há cientistas russos que também se vieram queixar disso mesmo, desse secretismo.
Exatamente. Mas há tempo, os russos agora vão ter tempo para tentar, digamos assim, afinar essa vacina, porque os testes, as tais 38 pessoas que foram submetidas, há suspeitas de que teriam sido submetidas mais pessoas, mas o Kremlin veio negar, nomeadamente homens de negócio e outros membros da elite política. Foi feito em 38 pessoas e todas elas estavam de perfeita saúde, mesmo a filha do Putin. Ora, por isso, eles testando, podem testar na filha do Putin e dar resultado, mas pode não dar em mim se eu já tiver algumas doenças.
E outras vacinas que têm sido testadas noutros países, têm sido testadas em milhares de pessoas. Pedro Pita Barros, já se diz que o segredo é a alma do negócio. A vacina ainda não foi registrada sequer, esta vacina russa, e foi, lá está, como eu dizia, pouco testada em comparação com outras que estão em ensaios clínicos um pouco por todo o mundo. Mas este anúncio pode, de facto, imprimir aqui um ritmo ainda maior na corrida à vacina, estimular a concorrência para salvar, no fundo, a humanidade. Queremos salvar a humanidade, mas também estamos perante um negócio.
Aqui, até mais do que o negócio, eu tenho a impressão que é mesmo a parte da componente geopolítica, até por uma razão simples: como a Sônia referiu no início, há já pelo menos seis vacinas em estado avançado e provavelmente vão surgir outras mais ainda. E, portanto, do ponto de vista económico, vão haver caminhos alternativos para definir vacinas e criar imunidade e, portanto, vão haver opções. Se existem opções, vamos ter provavelmente também alguns efeitos de preços e, portanto, a parte de negócio provavelmente vai ser menor do que aquilo que se pode pensar neste momento. Por uma razão simples, eu tenho alternativas, posso sempre procurar negociar preços mais baixos numa outra alternativa. E até as pré-compras que a União Europeia está a fazer, e como os Estados Unidos também fizeram com algumas companhias, sugerem que se está a começar a preparar alguma dessa concorrência. Agora, o que é interessante no caso russo não é que eles estejam à procura de negócio, mas que é a mesma parte de geopolítica com duas componentes. Há uma parte interna, e aqui gostava de ouvir o José Milhazes, que é ao fazer a referência ao Sputnik, deu uma sensação que seria também uma mensagem sobre a glória passada da Rússia ou da União Soviética, e com isso também ter algum apaziguamento interno de alguma tensão que a própria Covid possa estar a gerar dentro da Rússia, e com isso dar um sinal interno. E claro, tem o sinal externo de serem os primeiros e de jogar o prestígio científico da Rússia para a fronteira, e é perfeitamente plausível que a vacina até possa ser boa. Resta saber se exatamente tudo o que eles estão a anunciar é verdade. Agora, aqui é claramente também uma jogada de risco por parte do Putin e da Rússia, porque se a vacina for boa, de fato, a Rússia ficará com os louros de ter sido a primeira, independentemente desta ser a melhor ou a mais vendida no futuro. Será a primeira. Agora, se não for boa, temos que ver como é que vão disfarçar, de algum modo, algum fracasso que possa existir. E essa parte pode ser contraproducente até na lógica do prestígio que estavam a querer ganhar.
José Milhazes, olhando aqui então para o que acabou de dizer Pedro Pita Barros, há esta tentativa, outros motivos políticos, por exemplo, para encobrir a crise que a pandemia também está a causar na Rússia?
Claro. O Pedro falou, e muito bem, eu subscrevo aquilo que ele disse, que se trata de uma manobra também para consumo interno. Agora, o problema aqui vai ser que quando, por exemplo, ainda hoje, neste momento, há poucos minutos, o famoso laboratório Vector, que é um laboratório da Sibéria que trabalhou e trabalha para o Ministério da Defesa e que teve um grande papel na prevenção da guerra biológica durante a Guerra Fria, eles hoje anunciaram que têm uma vacina que começará a ser produzida em setembro.
Portanto, já no mês que vem.
Ou em finais de setembro. Exato. Cá está. E eles também querem mostrar trabalho feito e daí que o problema aqui é a questão da segurança, como falou o Pedro. Os testes que foram anunciados para a vacina de Putin são muito incompletos. Por exemplo, não foram revelados, só mais tarde é que a imprensa veio a saber, que existem contraindicações, que são muitas, que há uma limitação de idade, são dos 18 aos 60 anos. Ou seja, por exemplo, no caso da questão de Portugal e de outros países, na questão dos lares de idosos, que é um dos focos sérios, ficariam fora, pelo menos na primeira etapa. E tudo isto é que leva a recear que estamos perante uma manobra de propaganda. Quando chegar a hora da venda das vacinas, o Kremlin lá arranjará motivos para se desculpar. Ou seja, ou que alguém entrou nos computadores deles, ou sei lá. Como qualquer outro dirigente político saberá na altura própria encontrar meios para desmistificar. E pode acontecer uma coisa, que é continuarem, como eles disseram: "Nós vamos começar a administrar em médicos, professores e outros grupos" e essa administração servirá o tal teste para os mil.
E Sónia Dias, pegando nesta ideia da venda das vacinas, da comercialização, e Portugal vai receber uma primeira remessa de 690 mil em dezembro. Se houver efetivamente uma vacina comprovada, podemos ter essa esperança de a ter, seja russa ou outra, sendo que a União Europeia acertou tudo com a farmacêutica ligada à Universidade de Oxford?
Sim, parece-me que é uma boa notícia. Agora, é necessário também ter aqui alguma atenção por várias questões. Uma delas é que não chega apenas ter a vacina, é preciso que as pessoas adiram a essa vacina. E portanto, como eu dizia na primeira parte, aqui o ponto essencial de que as pessoas têm que ter uma segurança de que a vacina é segura e tem qualidade e eficácia. Estas manobras que vimos relativamente à vacina da Rússia não ajudam nessa construção da segurança. Portanto, é muito importante que se distingam os vários tipos de vacinas que vão aparecer. Por outro lado, é também importante que as pessoas não imaginem que, de fato, porque temos uma vacina, que ela vai resolver-nos toda a pandemia já a partir do inverno. Nós sabemos também que a vacina tem aqui alguns desafios e que esse impacto pode ser moderado até, por exemplo, pela mutação que pode existir em alguns vírus, ou até a duração da imunidade que vai ser resultante. Portanto, pode ser uma estratégia e um instrumento importante numa primeira fase, mas claramente as estratégias que temos vindo a falar sobre o comportamento individual, etc., provavelmente vão ter que se manter durante algum tempo.
E a ver vamos quando é que temos essa vacina. José Milhazes, pelo conhecimento que tem de perto da realidade russa enquanto correspondente, e apesar de dizer que a propaganda russa cheira a mofo, há esta tradição, como também referia, das vacinas na Rússia. Podemos acreditar que esta vacina venha mesmo a ser comercializada na Europa?
Isso é uma questão muito complicada e eu penso que só se a vacina for extraordinariamente melhor do que todas as outras que são fabricadas no Ocidente. Aqui também há uma questão, que é a capacidade de produção da vacina. Porque imaginemos que a vacina russa, que é muito boa, pode ser, eu não estou em condições de dizer se é boa ou má, mas vamos imaginar que é a melhor de todas as vacinas, mas começa a ter encomendas da ordem de milhares de milhões de doses. Porque nós, por exemplo, não sabemos se a vacina vai ter uma ou duas doses.
E se a União Europeia já encomendou 300 milhões.
Pronto, 300 milhões. Está a ver? A Rússia tem recebido das Filipinas e de outros países, do México, do Brasil, encomendas também de milhões de doses. A Rússia até poderá ter uma grande vacina, mas não ter uma capacidade produtiva capaz de responder ao mercado. Daí que eu acredito que estas vacinas, todas elas, terão o seu mercado. Resta saber as que melhor estiverem preparadas e melhores efeitos derem, essas terão mercados maiores. Mas volto a dizer, a União Europeia compraria uma vacina à Rússia se ela for extraordinariamente melhor do que todas que neste momento estão a ser desenvolvidas, nomeadamente com o apoio da União Europeia.
E primeiro vamos ter que chegar a essa vacina com eficácia comprovada. Agradeço-lhe, José Ameixas, jornalista, antigo correspondente em Moscovo, que assina também ensaios no Observador. Muito obrigada por ter participado neste gabinete de crise.
Obrigado eu.
E numa altura em que há promessas de vacinas, a esperança pode ressurgir, embora a desconfiança também nos acompanhe. Queremos ganhar o controle de uma pandemia que há cinco meses nos meteu dentro de uma gaiola. Temos ciúmes do que fomos, ambicionamos a liberdade. Bon Jovi fez há dias a partir de casa uma versão de uma música dos The Killers, que é muito tudo isto de que estou a falar. Não há festivais nem nada do que se pareça, mas dá vontade de dar um pezinho de dança. E custou, mas até já podemos viajar para o Reino Unido. Fique com o senhor otimismo, "Mr. Brightside". Boa tarde e até para a semana.