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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é por aqui que todos os dias analisamos as principais novidades nos dois grandes conflitos no mundo, não só a guerra da Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje, para isso, junta-se a nós Luís Tomé, professor catedrático, também diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e ainda investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Luís Tomé, boa tarde, bem-vindo. Obrigado por estar conosco.
Boa tarde.
E hoje começamos pela possibilidade de termos uma segunda conferência de paz, sendo que podemos ter uma novidade. Ontem tivemos Volodymyr Zelensky a mostrar-se favorável, pela primeira vez, a uma presença da Rússia. Pode ser este finalmente um passo mais objetivo para chegarmos finalmente à paz nesta guerra na Ucrânia?
Todos esperamos que sim. É verdade que tem havido algumas análises e interpretações que remetem esta posição do presidente Zelensky como uma posição de alguma fragilidade, pela dificuldade em receber, pelo menos com a velocidade com que tem pedido, certo tipo de equipamento fornecido pelos seus parceiros, a dificuldade de recrutamento e viram isto como um sinal de fraqueza e de início de cedência da parte de Kiev. Podendo ser assim, a verdade é que eu acho que é significativo, não apenas porque o presidente ucraniano aceita a possibilidade, apela à presença até da Rússia nesta nova conferência de paz, sem pôr as condições, em particular, que as tropas russas se retirem do território ucraniano, mas o mesmo também é possível dizer do lado de Moscovo, porque reagiu apenas dizendo que aceita participar em princípio, mas precisando de saber o que é que verdadeiramente a Ucrânia pretende. É significativo que pela primeira vez, os dois principais beligerantes se predisponham a participar numa conferência de paz, sem pôr condições à partida. Isto é significativo, o que nos permite alimentar o sonho de haver, de facto, uma conferência de paz com a participação quer da representação ucraniana, quer da representação russa e nesse sentido, seja possível estabelecer linhas de conversações entre as partes, mais libertação de prisioneiros, inclusivamente a possibilidade de um cessar-fogo, de novo a retoma da exportação de cereais ucranianos, a devolução de cadáveres e de crianças, identificação de desaparecidos e criar um clima de desanuviamento para abrir negociações de paz, sem que necessariamente isso signifique o reconhecimento das conquistas e das anexações territoriais de parte da Rússia. Nós aliás, temos uma série de exemplos na história ou atuais, que demonstram como pode não estar uma situação resolvida totalmente, mas não haver guerra, mesmo que não se reconheçam as anexações e separações, como a Abecásia e a Ossétia do Sul em relação à Geórgia ou a própria Crimeia, quando a Rússia anexou em 2014 até a invasão do resto da Ucrânia em 2022, as várias conquistas e ocupações de Israel. É um processo que nos permite alimentar alguma expectativa de que finalmente possamos ter as partes diretamente junto com outros a falar de paz, mas é uma expectativa apenas, porque nós sabemos que o contexto é delicado.
Claro.
Todos esperamos que a intensidade da ofensiva russa se agrave nas próximas semanas e meses e no meio disto tudo há sempre a grande incógnita sobre o futuro presidente dos Estados Unidos, que é um fator essencial a ter em conta.
Luís Tomé, se por um lado temos essa esperança de que finalmente possa haver aqui uma convergência, por outro lado, temos aqui hoje um aviso do antigo presidente e antigo primeiro-ministro da Rússia, Dmitry Medvedev, que avisa que uma adesão da Ucrânia à NATO vai ser vista pela Rússia como uma declaração de guerra. É um aviso que deve ser levado a sério, Luís Tomé, na sua opinião?
Todos os avisos do lado de Moscovo devem ser levados a sério, tal como Moscovo deve levar a sério todos os avisos que vêm do lado de cá.
Claro.
E não podemos nunca cair no erro de achar que é só retórica, que são ameaças vãs, que frequentemente traçam linhas vermelhas que depois, afinal de contas, se revelam flexíveis. Aliás, as declarações do antigo presidente e antigo primeiro-ministro Medvedev são comuns. Durante algumas semanas até estranhámos o relativo silêncio, porque as declarações até vinham essencialmente do presidente Putin. Mas ele acrescentou até que no caso desta expansão da NATO, do alargamento à Ucrânia, que isso significa uma declaração de guerra, ele até diz com atraso. Na perspetiva dele, a possibilidade que vem sendo criada há algum tempo de a Ucrânia pertencer à Aliança Atlântica, justificam que haja uma guerra e uma declaração de guerra ou guerra sem declaração da Rússia com a Aliança Atlântica. Eu tenho, honestamente, dúvidas que a Rússia esteja disposta a correr todo o risco inerente, a assumir os custos de, por via de uma entrada formal da Ucrânia na NATO, arriscar-se uma guerra total com o conjunto da NATO. A realidade é que essa possibilidade, para já, não está em cima da mesa, como não estava próxima à entrada da Ucrânia na Aliança Atlântica no início de 2022. Estamos a ver aqui um ator que frequentemente gosta de fazer afirmações mais taxativas e ameaçadoras. Agora, também estamos todos cientes que por muito que seja a retórica, como foi agora recentemente em Washington, de considerar sem retorno ou irreversível o percurso da Ucrânia a caminho da adesão à Aliança Atlântica Uma das fórmulas simples de isso não acontecer num processo de paz mais alargado é, por exemplo, o candidato, neste caso Ucrânia, voltar a inscrever na sua Constituição o estatuto que quer manter de neutralidade e que deixaria de pretender aderir à Aliança Atlântica. E é uma forma de aliados, que é a própria Rússia, lavarem a face num contexto totalmente diferente daquele que vivemos. Neste momento, continuamos aqui numa retórica ameaçadora de escalada e não podemos pôr de parte que isto se transforme, de facto, em ação e não apenas ameaça.
Luís Tomé, vamos avançar para o Médio Oriente e vamos falar sobre o ministro da Defesa de Israel, que diz que são as operações feitas em Gaza até agora que vão permitir chegar a um acordo futuramente sobre os reféns. Concorda que estas operações em Gaza tiveram esse efeito positivo de poder levar a um acordo agora entre Hamas e Israel?
É muito difícil para um observador externo, que não tem todas as informações, poder taxativamente dizer que sim ou que não. Eu entendo que não. Estar a assumir esse efeito como sendo positivo, não há a libertação da totalidade dos reféns, não sabemos se e quando vai acontecer, não sabemos sequer se nós teremos mais reféns que cheguem com vida junto das suas famílias. E estar agora a dizer que teve esse efeito positivo é totalmente precoce. Nós entendemos por que o governo, neste caso o ministro da Defesa, pretende transmitir esta mensagem. Nós estamos a ver frequentemente a pressão, desde logo dos familiares, mas da oposição internacional sobre o governo israelita. Há muito tempo que eles vêm dizendo que quanto maior pressão militar fizerem sobre o Hamas e aquilo que chamam terroristas do Hamas, mais perto estarão da libertação dos reféns. Mas, na realidade, neste momento, ninguém tem nem pode ter a certeza de quantos reféns ainda estão detidos na Faixa de Gaza, quantos estão ainda vivos. O que o governo israelita quer também justificar e legitimar é a continuação da sua campanha militar frequentemente desproporcional contra o Hamas e a Jihad Islâmica, que, por outro lado, nós percebemos desde o início, aliás, foi por isso que desde estes reféns, têm utilizado não apenas a população verdadeiramente civil da Faixa de Gaza, mas os reféns como escudo. E o que o Hamas devolve é sempre que está disposto a libertar os reféns numa negociação completa de paz ou pelo menos de cessar-fogo. E o governo israelita insiste na tecla de que não aceitarão um cessar-fogo e uma paz definitiva sem que os reféns sejam libertos. Continuamos nesta ação-reação, mas voltando à sua pergunta inicial, não concordo com dizer nesta altura que teve esse efeito positivo, porque os reféns não foram libertados. E os factos desmentem esta declaração do ministro da Defesa e não saberemos, no futuro, se serão e em condições ou se estarão com vida quando finalmente chegarem aos reféns.
Luís Tomé, temos apenas dois minutos até ao final, mas vamos muito rapidamente falar ainda sobre as declarações do líder da oposição a Israel, Yair Lapid. Exige-se que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anuncie que aceita o acordo sobre os reféns durante o discurso no dia 24 de julho, no Congresso dos Estados Unidos da América, e que caso não o faça, que deve cancelar a viagem a Washington. Esta posição de Lapid pode pressionar realmente Benjamin Netanyahu, na sua opinião?
A pergunta colocada como pode, quem sou eu pra dizer que não pode? Poder, pode sempre. Atendendo ao histórico do primeiro-ministro Netanyahu, ele tem se revelado frequentemente imune aos mais variados tipos de pressão, incluindo do seu principal aliado, os Estados Unidos. Há uma preocupação, obviamente, da oposição israelita estar a marcar posições, atendendo àquilo que são as suas expectativas de um futuro próximo de fazer cair o governo de Netanyahu, mas há uma outra preocupação, que não é apenas exclusiva da oposição israelita. É que a relação muito próxima de Netanyahu com Donald Trump, e agora com uma crescente perceção de que Donald Trump pode regresar à Casa Branca, condicione a oposição israelita, condicione aqueles que são favoráveis a uma solução de facto de dois Estados e amplie a margem de manobra para dentro da política israelita e na gestão do dossiê palestiniano e da guerra com o Hamas e a Jihad Islâmica, Netanyahu acaba por ter mais margem de manobra do que se as perspectivas fossem de Biden, sobretudo, ser francamente o favorito à reeleição, ou que se fosse possível politicamente a Casa Branca manter a pressão que tem tido nas últimas semanas face a Netanyahu. Dentro deste quadro, é natural essa afirmação e essas preocupações. Agora, estamos todos à espera que neste seu discurso no Congresso dos Estados Unidos, Netanyahu tente justificar a sua agenda e tente manter uma linha que tem tido até aqui, sabendo que desse ponto de vista, tem maior acolhimento do lado republicano e de Trump do que tem, obviamente, do lado democrata e do presidente Biden.
Certo. Luís Tomé, muito obrigado por ter estado conosco em mais uma edição de Gabinete de Guerra, que regressa amanhã novamente para analisar as guerras não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Muito obrigado e até uma próxima.
Obrigado.