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Mais uma reunião do Gabinete de Guerra na tarde em direto com o historiador Bruno Cardoso Reis, também aqui em estúdio com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Isto numa altura em que estamos quase com 400 dias de conflito. E também estamos com avisos da Rússia dizendo que está para durar.

"E durar muito tempo", é a expressão do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, hoje que se completa o dia 398 desta guerra e é um aviso que chega numa altura importante, com a visita amanhã de Pedro Sánchez à China, que se mostrou disponível para iniciar conversações de paz. Só que vemos agora a ministra espanhola da Defesa, ao mesmo tempo cética quanto à paz negociada. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Quer dizer que a ida de Sánchez à China e depois a seguir, em abril, de Ursula von der Leyen e de Emmanuel Macron, pode resultar numa mão cheia de nada?

Eu penso que ninguém está na expectativa de que daí resulte um avanço imediato para uma negociação, para um processo de paz. Acho que é evidente também que há aqui outros interesses, ou seja, não é irrelevante que estejamos a falar que o primeiro líder europeu agora neste novo ano que foi para a China foi o chanceler Scholz, depois a seguir vamos ter o Macron, temos também o primeiro-ministro Sánchez. Estamos a falar dos principais parceiros comerciais da China e Europa. Na verdade, o primeiro é mesmo os Países Baixos, mas logo a seguir é a Alemanha, depois a Itália, a França e a Espanha, sendo que a França e a Espanha estão quase empatadas em termos do volume do seu comércio com a China. Portanto, é evidente que esse fator também pesa e há intenções importantes também a gerir, garantias em termos de melhor acesso ao mercado, de condições de investimento também mais transparentes. Agora, no contexto da guerra da Ucrânia, no fundo, tudo ou quase tudo passou a ser tocado pela guerra e, portanto, o primeiro-ministro espanhol, o presidente francês, fazem questão de dizer que também vão à China falar disso. A mim parece-me inteligente. Eu fui crítico de uma postura que eu achei que era excessivamente crítica desta proposta de paz chinesa. Ou seja, acho que não se deve alimentar ilusões sobre o fato da China realmente não estar aqui com uma proposta de paz que possa levar rapidamente ao fim da guerra, mas apesar de tudo, é uma forma de sinalizar que não está completamente alinhada com a Rússia. Ora, acho que isso tem alguma utilidade. Acho que é útil que o presidente Xi, os responsáveis chineses tenham dito que iam procurar aqui algum tipo de concertação estratégica com a Europa em relação à guerra da Ucrânia. E, portanto, acho que pelo menos explorar essa possibilidade, ver até onde é que a China irá, até que ponto é que está realmente mais alinhada com a Rússia ou se pode distanciar um pouco mais da Rússia. Acho que isso é algo que é útil e, portanto, também imagino que seja parte desta estratégia diplomática dos líderes europeus, no fundo, para justificarem esta ida à China e para explicarem que não vão apenas falar de negócios. Portanto, imagino que isso também seja um fator, mas independentemente disso, eu acho que é realmente algo que vale a pena explorar tudo que seja a possibilidade de alguma margem de manobra, alguma possibilidade de afastar um pouco mais a China da Rússia, acho que vale a pena explorar. Agora, expectativas de paz no curto prazo, acho que não faz sentido e nesse sentido estou de acordo com a ministra da Defesa. Também percebo que, em termos retóricos, ela devia talvez ter coordenado melhor as coisas com as declarações do seu chefe de governo, do primeiro-ministro Sánchez, mas eu acho que em termos substantivos, ela tem razão e já estou cético há muito tempo em relação a isso. E acho que, de fato, não há nenhum sinal das partes que elas tenham abandonado para já, pelo menos, a via militar. Quando a Rússia ou quando a Ucrânia, mas provavelmente a Rússia, achar que está em condições vantajosas de conseguir, no fundo, uma paz que lhe fosse favorável, aí sim, poderiam surgir sinais nesse sentido, ou quando a Ucrânia, eventualmente, também estivesse nas mesmas circunstâncias, mas não me parece que seja o caso para já.

Bruno, Volodymyr Zelensky convidou Xi Jinping para se deslocar à Ucrânia. Poderá o presidente chinês aceitar e, se sim, como é que o Ocidente vai olhar para isto?

Eu acho que é um convite inteligente. Acho que é mais um exemplo de uma diplomacia ucraniana também muito hábil. Acho que desde o início Zelensky, de fato, não alinhou com esta postura mais crítica em relação à China, que eu percebo que também possa ter aqui algum papel. Eu acho que, aliás, os Estados Unidos podiam desempenhar aqui um pouquinho o papel de polícia mau e a Europa um pouco de polícia bom, porque há também o risco de que a China possa vir depois a utilizar isto para tentar quase que forçar um cessar-fogo numa altura em que possa parecer que a Rússia está em dificuldades. Mas a verdade é que eu acho que o papel da Ucrânia deve ser sobretudo este. Houve um momento em que Zelensky, muito em reação também a atrocidades, a uma série de abusos, disse taxativamente que não ia negociar a não ser que houvesse uma mudança de governo na Rússia, a não ser que Putin saísse, deixasse de ser o chefe de Estado, o chefe do governo da Rússia. Mas eu acho que rapidamente ele corrigiu isso e percebeu que era fundamental também para manter o apoio dos países ocidentais, que a Ucrânia não fosse vista como um obstáculo à paz A forma certa de avançar foi aquela que a Ucrânia tem sido, que é a própria Ucrânia apresentar um plano de paz, deixar claro que não pode ser uma paz a qualquer preço, que é fundamental, por exemplo, que a Rússia retire dos territórios que ocupou entretanto, como condição para uma paz justa e duradoura. Que isso não pode também implicar que a Ucrânia não tenha meios depois de se defender de eventuais novas agressões russas, portanto, tem que continuar a poder ter aqui uma parceria com o Ocidente. Mas acho que isso é uma postura muito mais inteligente da parte da Ucrânia. E nesse sentido, também mostrar abertura a propostas de paz, mostrar abertura e até aproveitar, no fundo, a China a posicionar-se aqui como um potencial mediador para dizer: "Bem, então devíamos falar e devíamos falar em pessoa" e, portanto, o presidente Xi devia vir à Ucrânia. Acho que isso é, de facto, uma postura muito inteligente da parte da Ucrânia. É pouco provável. Estou longe de estar seguro de que o presidente Xi aceite, porque isso no fundo seria colocar um pouco em xeque esta parceria muito próxima com a Rússia. Mas na medida em que ele aceite, aí então pode-se fazer críticas mais justificadas a esta ideia de que a China pode ser um mediador e um mediador de alguma forma equidistante. Portanto, acho que é, de facto, um convite muito inteligente da parte de Zelensky.

Bruno, aqui um pouco lateral, mas que acaba por estar relacionada com esta guerra, e aliás estamos a falar também de Xi Jinping, é a visita que começa hoje da presidente de Taiwan aos Estados Unidos, isto depois de em agosto do ano passado a norte-americana Nancy Pelosi ter ido a Taiwan. A China volta a falar em provocação. Podemos esperar um novo aumento da tensão? Quais as consequências previsíveis desta visita?

Eu acho que tudo depende do nível a que ela será recebida, da interação que terá com altos responsáveis americanos. De facto, todas estas visitas são muito complexas e muito complicadas. É uma situação muito complexa e muito complicada. No fundo, nós temos dois territórios, dois Estados de facto, que reclamam a mesma legitimidade, reclamam o mesmo território. A República da China em Taiwan e a República Popular da China, a China comunista, que obviamente controla a maior parte do território chinês e, portanto, basicamente desde o fim da guerra civil chinesa, desde 1949 que se põe essa questão. E sobretudo em relação aos Estados Unidos, coloca-se desde 1972, quando precisamente para afastar a China comunista da União Soviética, da Rússia comunista, se quisermos, os Estados Unidos de Nixon e Kissinger, muito pragmaticamente, muito pensando em termos de geopolítica, de facto apostaram na aliança com a China comunista, sem, no entanto, pôr completamente de lado aquilo que eram as relações históricas com esta república da China em Taiwan. E portanto, aí a forma que foi encontrada foi: nós aceitamos aquilo que os dois governos dizem, que há uma só China. A nossa posição, a posição americana, é que isso não pode ser alterado pela força. Até aí, muito bem. Agora a questão é então implicações em termos de relações diplomáticas, por exemplo. E de facto, aí a China tem, até também com base no seu peso econômico crescente, no seu peso global crescente, tem procurado restringir o mais possível a capacidade de Taiwan de interagir com outros países em termos diplomáticos de uma forma que possa minimamente sinalizar que tem um estatuto que não seja de um território do Estado chinês. E, portanto, a visita de Pelosi, desse ponto de vista, quebrou um pouco isso e foi aproveitada pelas Forças Armadas chinesas para testar um dos planos que eles têm para tentar coagir, pressionar Taiwan, que é criar um bloqueio, procurar isolar em termos marítimos e aéreos a ilha. Pode voltar a acontecer e, portanto, tem que ser aqui certamente pesado nesta visita e, lá está, no nível de interação com responsáveis americanos, não estar a dar mais pretexto à China para voltar eventualmente a criar mais dificuldades a Taiwan, mas realmente é uma situação difícil e sobretudo neste contexto da guerra, em que não interessa aos países ocidentais, em termos estratégicos, não interessa aos Estados Unidos, estar a empurrar a China mais para o lado da Rússia. A Rússia, de facto, está ciente desta situação e portanto também não é por acaso que nesta visita de Xi, Putin fez questão de deixar muito claro que apoiava totalmente a posição da China em relação a Taiwan.

Bruno, e falando na Rússia, voltando aqui à guerra na Ucrânia. A Rússia terminou a partilha de informação nuclear com os Estados Unidos e isto decorre da suspensão do Tratado de Controle de Armamento, o Start. E entretanto, ao mesmo tempo, na Índia, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia garante que Moscovo não pretende utilizar armas atômicas. Como é que podemos interpretar isto?

Por um lado, não é muito inesperado, embora houvesse um pouco essa dúvida, qual seria no fundo, o que é que exatamente significava esta suspensão, mas na prática já tinha significado isto, ou seja, o fim da troca de informações. Aquilo que os Estados Unidos também vieram dizer é: "Sendo assim, nós também não partilhamos informações". Há muitos analistas, e eu tendo a concordar com isso, que acham que apesar de tudo, há algum interesse da Rússia, e foi por isso também que formalmente a Rússia suspendeu, mas não se retirou do tratado, portanto, não deu o tratado como morto, vamos dizer assim, tem algum interesse em manter algum controle nesta corrida ao armamento, porque isso implica despesa, porque a Rússia tem outros conflitos com que se ocupar, sobretudo se continuar a apostar numa guerra prolongada na Ucrânia, porque há outros atores nucleares também a investir mais e portanto, seria importante criar mecanismos de controle que pudessem eventualmente até ser alargados, por exemplo, em relação à China, que é uma área em que, paradoxalmente, os Estados Unidos e a Rússia até convergem um pouco. A China está a expandir muito o seu arsenal nuclear e por regra não está nestes acordos e portanto, seria interessante para os Estados Unidos e para a Rússia que viesse a estar. Portanto, temos de continuar a observar, e obviamente, para já não é algo positivo, mas também não vejo como um desenvolvimento muito grave ou que traga muito novo. E acho muito significativo essas declarações. O Nikolai Patrushev, o secretário do Conselho de Segurança Russo, é das pessoas mais próximas de Putin, é alguém que deve ser escutado com muito mais cuidado, por exemplo, que Medvedev, até porque fala muito menos vezes e de forma menos histriônica e menos propagandística. E eu acho que é também significativo que tenha dito isso precisamente em Nova Delhi. A Índia e a Rússia têm uma longa história de colaboração em termos militares, em termos também de fornecimento de armamento russo à Índia. Por outro lado, a Índia tem sido muito clara, ainda muito mais clara do que a China, a dizer que é para ela completamente inaceitável a utilização de armamento nuclear num conflito como o da Ucrânia. E portanto, acho que isso é um exemplo concreto de como há aqui pressão de países importantes do sul global, no fundo, para evitar que esta retórica russa do nuclear se transforme em algo mais grave, como por exemplo a utilização de armas nucleares táticas.

Bruno, tivemos vários pontos na ordem de trabalhos hoje no Gabinete de Guerra, além da guerra da Rússia na Ucrânia, também falamos aqui da questão de Taiwan e amanhã também continuaremos a olhar para este tópico, para esta visita da presidente de Taiwan aos Estados Unidos com o Luís Tomé, que vai ser o convidado do Gabinete de Guerra. Bruno, nós voltamos a encontrar-nos na sexta-feira. Até lá.

Até lá, obrigado.