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Gabinete Guerra das manhãs 360, é o primeiro da semana e é a segunda. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, bom dia.
Olá. Começamos pelo Médio Oriente. Ao mesmo tempo que Scott Bessant fala num acordo iminente para reabrir o Estreito de Hormuz, a violência no terreno volta a disparar com ataques americanos na ilha de Larak e retaliações iranianas na Jordânia e também nos Emirados. Esta é a primeira escalada entre os dois lados em mais de um mês. Miguel, que leitura fazes disto? Cai por terra o otimismo dos Estados Unidos ou são os militares no terreno que estão a atuar à revelia das negociações?
Eu não diria que estão a atuar em revelia às negociações, até porque não há negociações claras e visíveis sobre a questão da reabertura do Estreito de Hormuz ou da não reabertura. O Estreito de Hormuz está aberto e tem passado pelo Estreito de Hormuz o número de navios que o Irão e Omã têm negociado. A negociação tem sido entre Omã e o Irão, mas, efetivamente, há aqui um ponto essencial: o Irão precisa que o Estreito de Hormuz continue neste ponto, com uma certa inflexibilidade, porque é a sua grande arma negociante. É a sua forma de ir mantendo esta presença contra os Estados Unidos, dizendo aos Estados Unidos que o Irão está ali, que o Irão não negociou, que os Estados Unidos não negociaram, que os Estados Unidos não levantaram as sanções ao Irão, que os Estados Unidos não devolveram os ativos congelados e que, portanto, este é o ponto de inflação que os dois vão ter que discutir.
Mas Marco Rubio também fala em negociações.
Sim, toda a gente fala em negociações, mas não existe uma prova de que há as negociações. O Irão continua a dizer que não há negociações. O Paquistão, que era sempre o pivô das negociações, nunca mais falou na questão das negociações e o que nós temos estado a ver é uma arquitetura geopolítica do próprio Médio Oriente que tem-se alterado. Tu mencionaste agora que a retaliação do ataque por parte do Irão é à Jordânia e é aos Emirados Árabes Unidos, mas não é a nenhum dos países que agora assinou o tal acordo de Meca.
Uhum, precisamente.
De autodefesa entre o Paquistão, a Arábia Saudita, a Turquia e desde há três dias atrás, o Kuwait. Portanto, nenhum destes países, obviamente que a Turquia estaria sempre fora de um ataque, mas nenhum destes países que fazem parte agora deste novo acordo foi atacado. E até vamos imaginar que o maior país ali é a Arábia Saudita e até está mais próximo, em termos terrestres, do Irão do que, por exemplo, a Jordânia. Portanto, há aqui uma retaliação muito pensada. Há aqui um avanço militar que é pensado e que também é pensado, acima de tudo, por razão do que acontece hoje e da reunião que vai juntar hoje o Irão, a China e também a Rússia. Tu repara, é um ataque a lançadores de mísseis que iriam lançar as minas marítimas depois do presidente dos Estados Unidos ter dito que tinha sido tudo limpo e que estava tudo pronto para ser usado, em termos daquilo que são os canais de navegação. Mas depois, logo no dia anterior à grande reunião entre os três países que eu mencionei, há este ataque e há esta necessidade também, porque nós estamos aqui numa narrativa política, que é a necessidade dos Estados Unidos mostrarem força, internamente também para o seu próprio público, e também para demonstrar que pode haver essas reuniões, pode haver até uma linha de entendimento daquilo que é a posição da China e da Rússia relativamente ao Médio Oriente e ao Irão, mas que os Estados Unidos estão presentes e têm capacidade militar. Portanto, há aqui várias mensagens e há aqui uma posição de força que os Estados Unidos têm que marcar presença.
Miguel, vamos então falar do que acontece a partir de amanhã no Quirguistão, em mais uma cimeira da Organização de Cooperação de Xangai. Juntar no mesmo espaço Putin, Xi Jinping e o novo presidente do Irão é a fotografia perfeita da constituição de um bloco antiocidente. Esta cimeira serve, sobretudo, como uma demonstração de força para provar a Washington e também à Europa que a diplomacia ocidental falhou na tentativa de isolar a Rússia e o Irão?
Totalmente. E demonstra, acima de tudo, que existe uma linha pensada por parte da China relativamente ao projeto que está a levar, que é ficar e igualar-se em termos de potência mundial, olhos nos olhos nos Estados Unidos, e esta reunião, acima de tudo, vem demonstrar que existe aqui uma linha estratégica e que essa linha estratégica, por mais dificuldades que vá passando, seja na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, seja também na questão do Médio Oriente, mas que a China tem este projeto e que este projeto vai seguindo o seu caminho. Com mais dificuldade aqui, mais dificuldade ali, mas vai seguindo o seu caminho. E demonstra aos Estados Unidos que existe, efetivamente, um projeto diferente, de demonstração de política e de poder diferente ao dos Estados Unidos e ao da NATO e que, acima de tudo, junta este eixo, que há quem lhe chame o eixo do mal, mas que este eixo tem um poder muito forte E que quer contrabalançar este poder com os Estados Unidos e com a presença dos Estados Unidos em vários pontos estratégicos. O sul global, economicamente, nós já sabemos que tem a sua maior relação com a China. Há pontos estratégicos que são essenciais, que são pontos estratégicos militares, quer seja, por exemplo, o Médio Oriente, a questão da Ucrânia. Por exemplo, na América Latina, a questão da Venezuela, que temos agora estes 25% de cativação do petróleo, ou a relação do Brasil com a China, o seu maior parceiro econômico. Mas principalmente há aqui um ponto de inflação muito grande, que é muito importante pra China, que é efetivamente o Indo-Pacífico, que é aí que a China concentra o seu grande poder econômico e militar. Importante, esta reunião é a reunião do outro bloco, do bloco ao qual nós não pertencemos e o bloco que quer efetivamente fazer duas coisas, que é desconstruir este projeto europeu que temos e tirar a influência dos Estados Unidos nestes pontos estratégicos que eu referi.
Entretanto, Miguel, a Ucrânia enfrentou uma vaga devastadora de ataques em Kiev, pouco depois da visita do diretor da CIA a Moscovo e dos apelos de Washington para não bombardear a capital russa e outros avisos. O que significa para ti esta vaga de bombardeamentos? É a prova de que Putin interpretou a diplomacia americana como um sinal de fraqueza e decidiu demonstrar que o único plano de paz aceitável para o Kremlin é impedir a vida em Kiev?
Eu nem diria isso. O que eu diria é o seguinte: Putin está a fazer um tudo ou nada. Putin também sofre pressão dentro de portas. Aumento daquilo que é o custo de vida, aumento da inflação. A economia russa, apesar de agora ter tido um pequeno crescimento com aquilo que foi o levantamento de sanções sobre os produtos petrolíferos quando tivemos o Estreito de Hormuz bloqueado e, portanto, os Estados Unidos levantaram durante alguns meses essas sanções e isto injetou algum dinheiro na economia russa, mas tem dificuldades internas. E tem dificuldades internas também políticas de chegar a esta altura e de os oligarcas, as pessoas do regime olharem para Putin e dizerem: "Mas afinal, cinco anos depois, esta guerra é pra quê? E há capacidade de vencer esta guerra?" Porque nós também temos 1,4 milhões de baixas, que é um número monstruoso e que às vezes nós não olhamos. Dito tudo isto, Putin vê uma fragilidade política em Zelensky, vê uma fragilidade militar da Ucrânia por não ter os interceptores suficientes para fazer o contrabalanço a este ataque e vê esta grande oportunidade, antes do inverno, de fazer uma grande demonstração de força militar e ganhar, efetivamente, quer seja no terreno, junto àquelas quatro cidades fortalezas, na tentativa de quebrar pelo menos uma delas, e também de gerar, dentro da Ucrânia, a fadiga de guerra e a ideia de que a Rússia está a avançar e que poderá avançar até ao coração da Ucrânia. Portanto, tudo junto é mesmo este projeto que Putin tem que ter também para dentro de portas, para dizer aos seus de que está a ganhar a guerra e que sabe o que está a fazer. E isto tudo junto é muito importante. A visita do diretor da CIA, e com isto termino, serviu dois propósitos: política americana interna, para mostrar que Donald Trump tem força e que ainda controla a narrativa internacional e o que se passa, e que foi a Moscovo dizer a Putin de que há linhas vermelhas intransponíveis, e serviu exatamente para a questão do Irão, pedindo à Rússia que não ultrapassasse algumas linhas vermelhas, nomeadamente a informação militar e de intelligence, que é constantemente dada pela Rússia ao Irão.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra.
Muito obrigado.
Uma boa semana, Miguel. Obrigada.
Obrigado.