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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos olhamos para os conflitos que continuam a marcar a atualidade. Hoje contamos com o Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Vítor Gabriel Oliveira, bem-vindo, obrigado por estar com a Rádio Observador.
Obrigado pelo convite.
E hoje começamos com a guerra no Médio Oriente, porque foi hoje divulgada uma carta conjunta assinada por 26 países, em que se inclui Portugal, e também pela comissária europeia Adja Lahbib, em que se apela a um cessar-fogo imediato, incondicional e permanente na Faixa de Gaza. Este é um sinal de endurecimento da posição dos países do Ocidente em relação ao conflito do Médio Oriente?
Sim, penso que sim. É cada vez mais uma pressão dos países ocidentais, principalmente os países da União Europeia. Temos sabido que dentro da própria União Europeia há bastantes questões, entre os 27, que não são pacíficas e de igual interpretação entre todos. E aos 27 eu junto também o Reino Unido, que também tem estado envolvido em bastantes negociações nesta matéria. Mas é claramente uma pressão pública para que Netanyahu seja mais moldável e mais flexível. Aquilo que temos visto até pelos ataques que têm sido feitos e pela maneira como tem escalado o conflito em vários países à volta de Israel, não nos leva a crer que isso seja a sua intenção, mas isto é uma pressão diplomática. Agora sabemos que, na realidade, muito daquilo que possa acontecer está em grande parte nas mãos dos Estados Unidos e de Donald Trump, e da forma também como é que Donald Trump gere aquilo que será o futuro e o planeamento de Israel estratégico na região.
Ia perguntar precisamente isso, Vítor Gabriel Oliveira, um dos primeiros a falar em deslocar palestinianos, que é uma das críticas que vem nesta carta, até foi Donald Trump. Os Estados Unidos não assinarem a carta pode ter algum significado e algum impacto?
Os Estados Unidos, a partir do momento em que Donald Trump assumiu a posse, têm-se gerido quase a eles mesmos de uma forma una. Ou seja, de uma forma quase independente dos seus pares. Nomeadamente até da União Europeia, que Donald Trump, como é sabido publicamente, detesta, não tem muito boas relações com von der Leyen, e isso de certa forma tem também sido explanado sobre algumas negociações diplomáticas que Donald Trump não tem dado grande importância. Aliás, vimos isso na questão das tarifas e noutras questões que temos acompanhado. Aquilo que os Estados Unidos, e também temos visto isso com a evolução do mandato de Donald Trump, é que Donald Trump o que defendia no dia anterior à sua eleição, o que defendia um mês depois e o que defende agora, tem sofrido mutações, não só nesta questão da guerra do Médio Oriente, como na questão da guerra da Ucrânia, como na questão tarifária, como até os seus próprios parceiros dentro da administração, como é o caso de Musk e outras figuras de proa da política americana. Portanto, aquilo que sabemos é que o que podemos contar de Donald Trump é o imprevisível, isso é aquilo que podemos contar. Agora, claro está que a carta, não sendo assinada pelos Estados Unidos, perde um pouco de capacidade de pressão, mas também acredito que os Estados Unidos, por outra forma, não quererão neste momento aquilo que Donald Trump anunciou foi na altura que ia fazer um resort sobre o território de Gaza, mas não é isso que eu acredito neste momento que passe pelos seus horizontes. Talvez manter Netanyahu no poder, porque é o seu principal aliado, mas passando por um processo de tentar ganhar um período de paz mais duradouro, que não está a ser conseguido pelo que temos visto.
Podemos então olhar para esta carta mais como uma declaração de interesses destes 26 países do que como uma carta destinada a obrigar mesmo Israel a mudar alguma coisa?
Sim, até porque eu acho que a carta tem mais a ver com uma questão até interna dentro da própria União Europeia. Há várias semanas que se ouve dentro dos corredores de Bruxelas, talvez até um, dois meses, que não há uma posição conjunta. Aliás, nós vimos algumas posições da Espanha, mas também politicamente neste momento é um país com uma política interna um pouco sui generis, como é sabido publicamente, mas porque também tem havido bastantes pressões sobre aqueles países que não reconhecem ainda o Estado palestiniano para que o possam fazer. E há várias doutrinas dentro dos corredores do Parlamento Europeu e isto é provavelmente, eu não sei quem terá liderado nos corredores, não tenho essa informação para saber quem é que terá liderado nos corredores a execução da carta ou a iniciativa para que ela acontecesse, mas parece-me que é uma prova de união da União Europeia nesta matéria. E isso é um sinal diplomático e público. Eu penso que é mais nesta área que se pode refletir e claro está, para que Israel veja que realmente os países da União Europeia estão a falar a uma só voz, do que realmente terá algum efeito prático na realidade.
E enquanto isto acontece, e até continuando nesta nota, o exército israelita continua a atingir alvos militares dos houthis no Iémen. Ainda este fim de semana Tel Aviv mandou evacuar o centro de Gaza. Quer isto dizer que o governo de Netanyahu vai continuar a agir como quer, ou até como estava a dizer Vitória Gabriel Oliveira, que Só a palavra dos Estados Unidos é que interessa a Netanyahu?
Eu penso que sim. Penso que já tivemos a oportunidade também de falar nisso no gabinete Guerra e Observador. Netanyahu no seu primeiro governo até hoje, ano sim, ano não, falhou penso eu dois a três anos, tenho de memória, mas todos os anos tem estado nos Estados Unidos em visitas oficiais, em outras visitas paralelas que tem feito à ONU, tem feito trabalho diplomático com as suas equipas nos Estados Unidos. Portanto, os Estados Unidos são o seu, eu não diria único, mas o seu principal parceiro, se calhar a mais do que 90%, se me permite o número de extrapolação. Sabemos que os ataques de Israel aos houthis no Iémen são coordenados, como é óbvio, e os Estados Unidos sabem que eles acontecem, porque o Golfo de Áden, na passagem para o Mar Vermelho, e nomeadamente no comércio internacional que passa através de navios no Canal de Suez e toda a frota que leva grande parte das commodities que fazem mexer na Praça de Londres. Por isso é que o Reino Unido também tem muito interesse na região e mantém muitas tropas estacionadas na região. Dar-lhe-ia um exemplo, nesta região do Médio Oriente, os Estados Unidos têm cerca de 45 mil homens estacionados. Portanto, não interessa aos Estados Unidos serem condicionados pelos rebeldes no Iémen, que lhes condicionem a frota marítima das commodities que entram nos Estados Unidos, por exemplo. E não podem ser os Estados Unidos a bombardear todo o mundo. Portanto, daí os Estados Unidos terem um parceiro essencial na região, não só nesta questão de poderem bombardear e não ser os Estados Unidos, ser de forma indireta, portanto foi Israel, mas também que a intelligence de Israel continua a colaborar de forma muito estreita com os Estados Unidos. Israel é o principal equilibrador dos Estados Unidos em toda a região e é aquilo que também permite aos Estados Unidos manterem uma tranquilidade em relação à sua hegemonia nesta região.
Olhamos também para a guerra na Ucrânia, isto porque a Rússia volta a admitir hoje participar numa terceira ronda de negociações de paz com a Ucrânia. Ainda não há data, ainda não há local, só esta vontade expressa pelo porta-voz do Kremlin. Por isso, Vítor Gabriel, o que pergunto é: se uma terceira ronda de negociações, quando acontecer, tiver o mesmo resultado que estas duas últimas, ou seja, se acabar com uma troca de prisioneiros e pouco mais, deve ser vista como um falhanço?
Nós temos visto isso nos últimos anos, Putin com várias retóricas dizendo que quer, na realidade, negociar, mas temos, por outro lado, ouvido, visto, peço desculpa, tanto Sergei Lavrov e outros líderes russos e também Putin dizerem que não reconhecem a Ucrânia e que, na realidade, querem tomar o território na totalidade da Ucrânia. Aquilo que eu acredito é que essas rondas de negociações sejam cada vez mais processos para prolongar e para fazer crer à opinião pública internacional que a Rússia está interessada, sem, na realidade, estar, porque, na realidade, no terreno, isso não é visível. No terreno continua a haver ataques cada vez mais sofisticados, cada vez mais capazes de ter uma projeção com uma destruição ainda maior sobre a Ucrânia. Também sabemos que há aqui um volte face nas últimas duas, três semanas, em que o Donald Trump já não vê a figura de Putin como via até agora.
Isto está excepcional.
Exatamente. Ou seja, Donald Trump via uma figura de Putin em que ele pensava para ele próprio que podia chegar ao pé de Putin como ele entendia, e na realidade ele percebe que isso não é bem assim. E estas rondas de negociações são realmente processos para prolongar a capacidade da Rússia de se reorganizar, organizar e voltar a reorganizar no terreno, para que possam ir paulatinamente ganhando cada vez mais terreno e desgastando cada vez mais a Ucrânia, que francamente, se nos dissessem que a Ucrânia aguentaria três a quatro anos quando a guerra começou, todos nós diríamos provavelmente que isso era completamente impossível. Também sabemos que Trump está a utilizar esta questão internamente para, se me permite uma expressão portuguesa, virar o bico ao prego. Como? Explico-lhe. Na realidade, ele antes destas duas semanas dizia que provavelmente não forneceria mais armas à Ucrânia e neste momento já está a dizer que fornece armas à Europa para a Europa colocar na Ucrânia, mas que a Europa a compra aos Estados Unidos. E isso, na realidade, está a falar para a sua base de apoio magra para dizer: "Não, nós até conseguimos virar a questão na Ucrânia e agora até estamos a vender e a fazer lucro com a questão da Ucrânia". Portanto, na realidade, está a tentar sair vitorioso de uma questão que ele dizia que resolveria em poucos dias ou em cerca de uma semana.
E tocou precisamente no ponto que eu queria ir a seguir, porque entretanto o Reino Unido e Alemanha presidem hoje a uma reunião para discutir estes planos do Donald Trump para que sejam os aliados da NATO a fornecer armas à Ucrânia. Isto depois do anúncio de que os Estados Unidos iriam fazer chegar armamento a Kiev. Já apresentou aqui algumas razões, talvez até mais a nível interno, mas eu pergunto: por que não são os Estados Unidos a enviar diretamente as armas? É para poderem negar envolvimento direto no conflito também para fora?
Não, eu penso que não tem a ver com isso. Eu penso que realmente é uma visão que o próprio Donald Trump tem sobre o processo de construção da aliança atlântica, portanto da NATO, e dos seus parceiros, em que ele acha que os Estados Unidos são deficitários há muitos anos e que os outros se aproveitam deles. E aquilo que ele acha é que, e vimos isso, não sei se os ouvintes se recordarão quando o Trump falou para o Macron e o Macron disse que também a União Europeia já tinha colocado muitos milhões de dólares na Ucrânia e Trump disse: "Mas vocês emprestaram e nós demos". Portanto, essa é realmente a visão de Trump, é que é uma perda para os Estados Unidos. E a única maneira que Trump tem de reverter é com a venda do armamento. Ou seja, se houver uma venda e não houver uma entrega direta, Donald Trump consegue reverter, não deixa de ajudar a Ucrânia, porque neste momento a questão dos Estados Unidos é que Donald Trump não pode deixar de ajudar a Ucrânia, porque não tem nada para dar à comunidade internacional, porque não consegue nada de Putin. Portanto, tem que continuar, mas a única maneira que tem de dar a volta e jogar a favor dele internamente e politicamente nos Estados Unidos para consumo do seu movimento MAGA é esta questão da venda aos aliados, da venda à Europa, para a Europa colocar lá. Provavelmente, se me perguntar será que as antiaéreas e as armas vêm dos Estados Unidos e são colocadas diretamente na Ucrânia, provavelmente sim. Se calhar nem passam em nenhum país da União Europeia. Não sei como é que elas serão lá colocadas, mas não passam em nenhum país da União Europeia. Será apenas um pagamento aos Estados Unidos. Mas é isso que Donald Trump irá dizer internamente. Aliás, deixe-me só dar-lhe aqui mais uma nota que eu penso que é importante. Como se sabe, esta semana Ursula von der Leyen e António Costa estarão na China com Xi Jinping. Portanto, acredito que o tema Ucrânia e acredito que o tema da China estar não a ajudar a Rússia diretamente, mas ao não tomar nenhum partido e em certa medida, comercialmente, não tem nenhum embargo à Rússia, continua a fazer negócio com a Rússia, temos petrolíferos, etc. Poderá também estar aqui em cima da mesa e vamos esperar pelo final da semana para perceber quais são as conclusões dessa reunião.
Reunião que vai acontecer esta semana e eu aproveito para lhe fazer uma última pergunta, e voltando a esta questão, porque a nível interno, dentro do Partido Republicano, esta questão da ajuda dos Estados Unidos à Ucrânia é uma matéria muito divisiva. Esse discurso que falava de Donald Trump, ou seja, envia as armas através dos aliados da NATO, os aliados até pagam de volta. Parece-lhe que esse discurso pode ser eficaz para o movimento MAGA?
Donald Trump, como sabemos publicamente, tem tido uma série de sondagens internamente que lhe têm dado uma quebra na sua popularidade. Isso é algo que mexe com ele e com o seu ego. Isso é sabido, mas também sabemos que, pelo menos do que conhecemos agora, Donald Trump não poderá voltar a ser candidato. Aquilo que eu acho, e nós temos que ir olhando, provavelmente daqui a um ano, de outra forma, teremos que ir começando a olhar para as figuras que estão ao lado de Donald Trump e que provavelmente se começarão a posicionar daqui a um ano, as figuras que quererão ser candidatas na próxima eleição, vão ter que se começar a posicionar. Acredito que Marco Rubio poderá ser aquele que esteja melhor colocado dentro da administração. E se reparar, cada vez que Rubio tem falado, a seguir a Trump ou antes de Trump, o discurso não é colado a Trump. Aliás...
É para amenizar.
Exatamente. Ou seja, é um discurso mais redondo, um discurso mais político, um discurso mais diplomático para, provavelmente, isso é só a minha ótica e leitura política, para que no futuro consiga ir buscar o movimento MAGA, por ter sido com Donald Trump, mas também consiga ir buscar os republicanos mais conservadores e mais a máquina do partido. Portanto, teremos que começar a fazer as leituras também das personalidades que estão ao lado de Donald Trump nos próximos meses e provavelmente a partir de 2026.
E a ver vamos quem serão. Foi o Gabinete de Guerra com o Vítor Gabriel Oliveira, a quem agradeço mais uma vez a disponibilidade por estar com o Rádio Observador. O programa está de volta já amanhã.