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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que analisamos os principais conflitos a marcar a atualidade. Hoje com Ana Cavalieri, especialista em assuntos internacionais. Vamos começar pelo Irão. Começa a haver uma grande discrepância quanto ao número de mortos na sequência dos protestos contra o regime. Há pelo menos 2 mil mortos já confirmados por agências de direitos humanos e reconhecidos pelo governo iraniano. No entanto, a imprensa internacional, como a CBS, a CNN ou o The Guardian, avançam que, de acordo com alguns ativistas iranianos, este número de mortos já vai para lá dos 12 mil, pode até chegar a 20 mil. Perguntava-lhe qual é a veracidade destes números.

Boa tarde. Antes de mais, é difícil de saber. Eu tendo a acreditar em números independentes e mesmo de figuras ativistas, que provavelmente queiram, para as suas próprias causas políticas, referir um número elevado. Parece-me que os vídeos que têm saído da violência que tem sido cometida, provavelmente já estaremos nos muitos milhar de mortes de pessoas que estão a tentar exercer um protesto contra um regime muito violento. Não é a primeira vez que nós sabemos que as forças, não só do exército, as Forças Armadas iranianas, mas a própria Guarda Revolucionária, cujo único objectivo, a natureza, a função da Guarda Revolucionária é precisamente manter o governo revolucionário, dos aiatolás, como é óbvio. E portanto, chegou a um ponto em que eles estão a fazer aquilo que é a obliteração da possibilidade de estes protestos elevarem-se a uma nova fase, que nas últimas tentativas, na última década, não conseguiram passar por uma fase de ruptura com o sistema, ou de tentar eliminar ou destruir os alicerces deste sistema que, por mais incompetente que seja ao nível das políticas domésticas, nomeadamente a falta de água, que é uma situação horrível que está a ser vivida em Teerão e outras cidades no Irão, a inflação absolutamente brutal que tem condenado aquele povo à miséria, o facto de terem seguido uma estratégia de financiar o Hamas, o Hezbollah e outros grupos terroristas, ao ponto de canalizarem biliões de dólares para esse fim e deixarem a sua economia entrar em colapso. São incompetentes a todos os níveis, mas há uma grande competência que eles têm tido e têm conseguido até agora manter, que é a sobrevivência do regime através da morte de um número elevado de manifestantes e protestantes.

Entretanto, Donald Trump pediu hoje aos manifestantes que controlem as instituições estatais e diz que a ajuda está a caminho. Quando fala em ajudas, estará a falar concretamente de quê, o presidente norte-americano?

Neste momento, ele refere que têm várias opções. As que são preferíveis por parte da administração Trump, e é algo que eles já têm executado, são ataques cirúrgicos a determinadas infraestruturas militares. Não esquece-se que em junho o Irão e Israel tiveram uma guerra de 12 dias, em que Israel, com ataques muito precisos e de uma celeridade e competência extraordinárias, conseguiram não só delapidar e decapitar muito daquilo que era a liderança da Guarda Revolucionária e das Forças Armadas iranianas, também as equipas de cientistas nucleares, também algumas centrais nucleares e, por fim, todo o sistema ou praticamente aquilo que seriam os pontos fundamentais do sistema de defesa antiaéreos iranianos. Isso mostra a vulnerabilidade que a defesa iraniana tem neste momento e que ainda não se conseguiu reabilitar, certamente. E portanto, eu penso que o cálculo de Trump é tentar conseguir, de alguma maneira, replicar alguns ataques cirúrgicos, sendo certo que eu penso também que eles estão a ter o cuidado de esta intervenção externa por parte dos Estados Unidos, de alguma maneira mobilizar forças pró-governo, pró-Khamenei, pró-Aiatolás, e isso eles também não querem. Os americanos e Israel, neste momento, estão a se preparar para uma possível reação por parte dos iranianos contra Israel, porque os iranianos já referiram que se os americanos tentarem intervir, eles irão atacar não só alvos e bases americanas, mas também aquilo que é o seu maior aliado na região, que é Israel. E nós sabemos, neste momento, Israel está em alerta elevado com essa possibilidade. Mas também é preciso ter um cuidado, e eu penso que aquilo que o Pentágono já informou, que estão a ter o cuidado de, através de um ataque que possa servir para proteger ou galvanizar os manifestantes, não ter o efeito contrário de galvanizar e promover aquilo que seria movimentos pró-governo iraniano, porque no fundo haveria ali os atores externos a tentarem imiscuir-se nesta questão. E eu penso que é um equilíbrio de, por um lado, tentar dar um suporte a protestantes que estão neste momento sem armas para combater as milícias da Guarda Revolucionária e também o exército iraniano. É esperar que haja pessoas por parte militar e também no governo que possam começar a tentar opor-se ao governo, de alguma maneira, mas aquilo está muito controlado pela Guarda Revolucionária, que eu volto a repetir, a sua única competência, e competência primordial, é precisamente salvaguardar o regime Eu penso que os americanos vão tentar equilibrar essa resposta. Também pode haver cyber attacks, ou seja, tentar eliminar as comunicações, tentar providenciar também ligações à internet através do Starlink, porque nós sabemos que os iranianos cortaram a internet neste momento, que é fundamental para organizar os protestos anti-governo. A internet é uma ferramenta fundamental e, neste momento, é tentar observar. Nós sabemos que Trump vai ter um briefing de segurança nacional e vai fazer algumas declarações introdutórias sobre aquilo que serão as opções que estão em cima da mesa. Sendo certo que a última informação que ele deu é que ainda prefere uma solução diplomática que passe por negociar com o regime dos Aiatolás, mas neste momento também não se quer desperdiçar uma oportunidade de revolução. E quando eu digo revolução, é verdadeira revolução contra este regime teocrático. Portanto, é uma situação muito dinâmica.

Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump, encontrou-se secretamente com o filho do último xá do Irão durante este fim de semana. É uma informação que foi avançada pela imprensa internacional, que destaca também que esta terá sido a primeira reunião de um membro da administração Trump com membros da oposição iraniana. Pergunto-lhe o que é que pode significar este encontro.

Vê-se aqui a necessidade de quando-- normalmente há cinco condições para derrubar um regime tirânico. Duas parecem estar até agora conseguidas, que é haver uma situação trágica e muito grave em termos domésticos, de economia, de custo de vida, acesso a bens essenciais que faz a população revoltar. Haver um ambiente externo conducente à revolução, nomeadamente apoio de poderes que possam, de alguma maneira, fazer pressão sobre o regime. Neste momento, também uma das últimas medidas de Trump foi aprovar sanções secundárias contra o Irão, no fundo, sanções contra países que fazem qualquer tipo de negócio com o Irão. E isso é um ambiente favorável, no fundo, à revolução. E depois existem outros elementos que são mais difíceis de verificar se essas condições estão presentes. Um deles é, no fundo, uma alternativa ideológica que faça com que toda a oposição ao regime se una em prol de uma narrativa alternativa à teocracia que existe. Poderia ser uma narrativa nacionalista daquilo que era o Irão antes da revolução de 1979. E o xá poderia ser uma figura que pudesse unir esse tipo de nacionalismo e uma nova era de cooperação econômica e política com forças que não são teocráticas e islamistas. Mas o problema é que até agora existe a suspeita que o xá não é aquilo que, se calhar, dentro do Irão, as alternativas que querem derrubar o regime provavelmente queiram. E é isso, é saber que tipo de poder alternativo que tenha a capacidade de também ter as alianças militares dentro do próprio Irão, que consigam combater aquilo que é a guarda revolucionária e outras forças que ainda têm alianças com o regime. E é essa possibilidade de ainda não haver essa figura ou uma narrativa alternativa ao poder atual, que crie uma identidade política e social suficientemente forte para conseguir levar em frente este processo revolucionário, que é preciso saber se existe. Porque outra condição que existe, e que é muito positiva, é o facto de o descontentamento ser diverso ao nível socioeconômico e também diverso geograficamente. São várias as cidades e várias as regiões dentro do Irão que estão muito insatisfeitas com a situação atual e com o regime. Isso também é uma condição preponderante que parece verificar-se, mas não sabemos até que ponto é que existem ainda as condições de haver uma alternativa para o regime atual que tenha, no fundo, também as alianças necessárias relativamente ao exército. Se a guarda revolucionária está preparada para manter o regime até o fim, é possível começarmos a ver pessoas importantes das Forças Armadas iranianas a quererem determinadas alternativas. Isso seria importante observar essas dinâmicas, mas não sabemos se essas dinâmicas vão estar aliadas com o xá como alternativa ou se haverá outro caminho democrático que se passa a adotar. Mas neste momento é uma situação muito complicada, porque até agora ainda não existem essas fraturas nas elites governativas do Irão que possibilitem ajudar todos estes manifestantes, que neste momento estão sob ataque de armas de fogo e a perder as suas vidas.

O Irão também já veio dizer que desde a guerra dos 12 dias com Israel, está agora preparado para enfrentar novos ataques ocidentais. É esta uma forma de o Irão tentar afugentar possíveis interferências ocidentais nos assuntos internos do país?

Eu penso que sim. Aliás, algo que estes protestos podem ser vistos também como uma consequência daquilo que foi a incompetência evidente demonstrada por um governo que supostamente, a razão pela qual eles não investiam em setores estratégicos da economia iraniana e gastavam e canalizavam tanto o seu financiamento para as suas próprias forças armadas, mas também para armar e financiar grupos terroristas como o Hamas, o Hezbollah e os Houthis no Iêmen, é porque eles alegavam que esses investimentos, não só dentro do Irão como fora, eram fundamentais para dissuadir ou responder àquilo que fosse um ataque israelita Ou americano. Mas aquilo que os israelitas fizeram em junho, em apenas 12 dias, e depois os americanos naquele seu último bombardeamento em Fordow, revelou uma incompetência generalizada das forças armadas, dos sistemas de defesa e também das suas capacidades de lançamento de mísseis de longo alcance, que eu penso que eles não recuperaram. Nem o povo, provavelmente, acredita nessa tal preparação ou capacidade de reação por parte das forças armadas iranianas, e muito menos aquilo que serão as forças de informação e inteligência dos Estados Unidos e de Israel, que são as melhores do mundo, que provavelmente sabem muito bem o atual nível de capacidade das forças iranianas. Eu penso que o grande dilema por parte de uma intervenção dos americanos é saber se, ponto um, isso não irá promover um espírito de união a favor do governo. No fundo, o que eles irão vender é a narrativa de que estes manifestantes e estes protestos são algo promovido por fatores externos e não propriamente um ato revolucionário de uma população descontente. As forças do governo poderiam, no fundo, espelhar-se nessa narrativa. Isso é um receio que o Pentágono já informou que estão a calibrar bem se não irá prejudicar os próprios protestantes ou manifestantes ao fazerem qualquer ação militar mais direta. E depois o segundo grande problema é: ok, tentando-se fazer essas operações cirúrgicas, caindo o governo, se cair, que eu acredito que seria difícil ainda nesta fase prevermos uma queda do regime, o que é que viria a seguir? Ou seja, haveria estruturas de poder de transição estáveis o suficiente? Porque certamente nós sabemos que nem os americanos, e muito menos Israel, iriam ocupar o Irão, naturalmente, e fazer uma mudança de regime que envolvesse uma ocupação por parte de décadas e trilhões de dólares. E são esses cálculos, qualquer ajuda externa ou contribuição externa, neste momento, quem pode fazer essa ajuda ou quem prometeu fazer, caso protestantes e manifestantes tivessem a morrer, que são, que foi Trump, ainda não sabemos qual é o nível dessa intervenção, porque os cálculos são difíceis pelas consequências secundárias que podem ser negativas relativamente àquilo que são a própria proteção dos manifestantes.

Para terminar, vamos ao conflito na Ucrânia. 70% da capital ucraniana estará sem energia, isto depois de a Rússia ter atacado Kiev durante a noite, é pelo menos o que diz a Companhia Nacional de Eletricidade. Ainda há poucos dias o Kremlin tinha feito ataques semelhantes, estão a tornar-se cada vez mais frequentes. Eu pergunto-lhe qual será o objetivo concreto da Rússia ao atacar sistematicamente a infraestrutura energética ucraniana, em especial Kiev, e durante o inverno, com temperaturas bastante baixas. É mesmo com o intuito de deixar milhares de pessoas sem aquecimento para mostrar o impacto?

Para além daquilo que são as hostilidades na linha da frente, haver estes ataques por toda a Ucrânia, nomeadamente nas infraestruturas energéticas, é precisamente para demoralizar e impor um sofrimento adicional, para além do sofrimento, que aquilo que são as operações suicidas e os constantes lançamentos de drones e de mísseis balísticos, é precisamente fazer sofrer e testar aquilo que será o compromisso com a continuação da guerra, é tentar enfraquecer o adversário naquilo que é um inverno a temperaturas muito baixas. Até agora nós sabemos que as reações, e isto é importante, parece que Sibutkov, que há uns meses tinha uma espécie de retórica que tentava compreender ou facilitar o lado russo, neste momento, parece que nos últimos dias tem referido que os ucranianos estão a ser alvo de uma escalada inadmissível por parte dos russos. Não esquecer que temos esses ataques contra as infraestruturas energéticas, mas também houve a utilização de um míssil hipersônico com capacidades nucleares perto até da fronteira com a Polónia, que é um membro da NATO, que a missão permanente dos Estados Unidos nas Nações Unidas declarou como inadmissível e que é algo que está supostamente a criar uma grande contestação ou fúria por parte do presidente Trump, sendo certo que ele muitas vezes se refere que está desapontado e desiludido com Putin, mas nada daí advém. Mas nós sabemos que neste momento existem avanços nas negociações naquilo que seria a arquitetura defensiva de garantias de segurança numa situação de cessar-fogo ou de um acordo de cessar as hostilidades, cessação das hostilidades, e um acordo que garante não só a presença ao nível terrestre, naval e aéreo de tropas europeias, mas também a ajuda americana naquilo que seriam os sistemas de monitorização do cessar-fogo e também na ajuda dos sistemas de antidespesa e também de radares e sistemas de informação, que são muito importantes para quaisquer forças ucranianas que queiram dissuadir a Rússia de daqui a uns anos voltar a atacar. Isso são aproximações também ao nível da recuperação económica, que iria envolver empresas americanas. Então eu penso que os russos estão neste momento a ver que estamos no período de conciliação de esforços e de entendimentos entre os americanos, que têm sido um bocadinho volúveis no tipo de ajuda que pretendem dar à Ucrânia, mas neste momento tem havido uma aproximação. Também tivemos aquilo que foi a operação da Marinha americana relativamente àquele petroleiro ao pé da Islândia, em que eles conseguiram parar esse petroleiro, que estava sob uma bandeira russa. E foi algo que também aumentou a tensão entre a Rússia e os Estados Unidos, pelo que neste momento parece que estamos numa fase em que a delegação americana está mais sensível àquilo que são as necessidades da Ucrânia e talvez preparado, segundo aquilo que foi informado esta semana, Trump estaria preparado para avançar com uma legislação que tem apoio bipartidário no Senado para aprovar sanções ainda mais exigentes, nomeadamente sanções secundárias, relativamente à Rússia. Isso seria um bom passo e um passo positivo na perspectiva ucraniana.

Obrigada, Ana Cavalheiro, especialista em assuntos internacionais. O seu Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.

Muito obrigada.