Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos analisar algumas das nuances dos conflitos que afetam o mundo, principalmente o do Médio Oriente, é o que marca mais a atualidade. Temos esta noite a fazer conosco esta análise o senhor tenente general Marcos Ronha, seja muito bem-vindo e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado pelo convite.

Vamos começar por Donald Trump, que está a incompatibilizar-se com tudo e todos, até com o Papa. Hoje foi Giorgia Meloni que rompeu o acordo de defesa com Israel. Senhor tenente-general, Trump diz que a primeira-ministra italiana já não é a mesma. Os Estados Unidos estão cada vez mais isolados graças a estas contradições e a esta incompatibilização do presidente norte-americano?

Eu julgo que sim. Tudo indica que sim. E a culpa parece-me um pouco menos dos outros do que da própria administração, naturalmente. Isto é relativamente preocupante, porque nós já sabíamos que Donald Trump tinha este modus operandi de criar esta dinâmica comunicacional mundial. E tem essa preocupação de certo modo estar ele à frente, na crista da onda, a gerir o facto mediático diário. Já sabíamos que era assim e tem sido assim. A questão da guerra do Médio Oriente introduz aqui, e isso também já era expectável do lado da administração americana, a adoção de um mecanismo de diplomacia coerciva que Donald Trump, além de o aplicar com aqueles que são considerados pelos Estados Unidos os seus inimigos, naturalmente, neste caso o Irã, começou a estender essa diplomacia coerciva aos seus aliados europeus, nomeadamente, e a outros, mas essencialmente aos europeus, relativamente a criar um teatro mediático, no sentido de diariamente pôr as culpas nuns e noutros, e de alguma forma, cada vez num aspecto mais agressivo e menos aceitável pelos europeus. Desde a questão da NATO, desde questões mais sensíveis que têm a ver com a guerra no Líbano, e dos quais têm resultado algumas dissensões relativamente graves em termos públicos, porque é o próprio Donald Trump que de algum modo instituiu esta metodologia desta diplomacia coerciva ser feita através do post no Truth Social, ou aquelas entrevistas no avião, ou à entrada do avião, ou à saída do avião, ou à entrada da Casa Branca, sem previamente ter os mecanismos diplomáticos, que nós agora até temos alguma dúvida que estejam a funcionar, da diplomacia americana relativamente a estas questões, que têm que ser tratadas primeiro nos bastidores com os aliados, ao abrigo, nomeadamente, do acionamento do artigo 4, que é o artigo do Tratado do Atlântico Norte que permite as consultas entre aliados que não seja o artigo 5, que é quando há uma situação de ataque, que não é o caso. Portanto, e foi assim que foi com o Afeganistão, que foi com o Iraque, onde as coisas foram discutidas à porta fechada, e depois, claro, havia de se chegar a algum consenso, com mais ou menos discussão, e a questão da guerra do Iraque, eu estava na altura em Bruxelas, mereceu muitas discussões no Conselho do Atlântico Norte, naturalmente. E, portanto, esta hostilização permanente de tudo e todos, que julgo que não está tão pouco a trazer benefícios grandes, mesmo em termos internos nos Estados Unidos, porque já se começa a perceber que os Estados Unidos estão a ficar numa situação complicada sob o ponto de vista da sua imagem internacional, não só dentro dos aliados, como até dos competidores, naturalmente.

Nos Estados Unidos há quem já peça a destituição do Presidente da República através da 25ª Emenda. Este é um mecanismo que nunca foi usado, mas acredita que desta vez vimos um presidente dos Estados Unidos, que é o país a nível militar mais poderoso do mundo, que coloca fotografias na internet como se fosse Jesus Cristo. Isto é o que se espera de um líder que tem a maior capacidade militar do mundo, ou até pode denotar aqui algum perigo que nós devemos estar atentos, porque, no fundo, Donald Trump tem códigos importantes à sua disposição que podem pôr a causa a todos nós.

Isto revela de algum modo algum desespero relativamente a alguma dificuldade em gerir as situações concretas que tem neste momento entre mãos, naturalmente. Nomeadamente a questão do Médio Oriente e a questão interna dos Estados Unidos, porque é natural que as questões que começam a opor, não só pelas desconfianças relativamente à sua saúde mental, relativamente a determinado tipo de coisas, mas também porque os próprios candidatos republicanos agora para as intercalares, nomeadamente para o Congresso, que é o que vai eleger mais gente, começam a ficar preocupados que esta dinâmica de baixa do presidente Trump se estenda Aos candidatos republicanos que vão participar agora nas eleições em novembro. E nós sabemos que nos Estados Unidos a questão dos candidatos ao Congresso e ao Senado também, mas essencialmente ao Congresso, vivem muito e muito do processo eleitoral é construído em função de apoios, e esses apoios traduzem-se em donativos, relativamente à possibilidade de exercer um mandato eleito por um determinado círculo, por um determinado estado e os candidatos republicanos estão a ver que vão partir quase numa situação de desvantagem, fruto da situação que está criada e que não se antecipa que possa ter uma boa solução sob o ponto de vista da guerra, naturalmente, e os impactos que isso tem na economia, que se sentem diretamente nos Estados Unidos, que não tenha soluções adequadas a tempo de infletir esta dinâmica de perda.

Esta tendência.

Que a administração tem e que se vai provavelmente espalhar. E já vemos alguns republicanos, alguns do grupo MAGA, com a Marjorie Taylor Greene e outros que de algum modo com esta questão da guerra ficaram meio embaraçados, porque isto não fazia parte do pacote inicial das perspectivas que esta administração tinha relativamente aos conflitos internacionais. Mas como dizia há pouco, e de facto isto é preocupante, porque um líder, uma administração metida no canto, sem possibilidade de fuga, normalmente a tendência para a escalada é grande. Já tivemos essa ameaça. Eu estava convicto disso quando foi aquela ameaça que fez ao Irão, que isso não era executável e, portanto, o que aconteceu foi com uma perspectiva de um acordo que não se sabia bem qual era o texto, rapidamente ele aproveitou essa janela e veio a terreiro com uma proposta de cessar-fogo no sentido de tentar, pela via negocial por assim dizer, impor ao Irão uma determinada coisa. E isso já vimos também que não funcionou, naturalmente.

E de acordo com a sua experiência, será que os Estados Unidos subestimaram o Irão e não souberam ler todas as nuances daquela região do globo? Isso é uma pergunta, e outra pergunta também de acordo com a sua experiência, que é se os Estados Unidos efetivamente já ganharam alguma coisa com este conflito.

Subestimar o Irão, talvez não tenham subestimado. Sob o ponto de vista da análise que devia ser feita às capacidades do Irão e aquilo que eram os objetivos políticos da guerra, houve aqui uma dessincronia relativamente à estratégia que foi pensada, mas que eu atribuo mais à decisão política do que propriamente à estratégia sob o ponto de vista da montagem da operação militar. E isto por quê? Porque isto revela, aliás, como muitas das coisas que nós vemos da parte da administração, uma falta de cultura estratégica e política relativamente à situação do Irão e à história do Irão nos últimos 50 anos, desde que é uma república islâmica teocrática. Esta questão do Irão ir utilizar uma estratégia assimétrica, que não foi inventada agora, que é uma estratégia que tem 20 ou 25 anos. Aliás, há quem diga que foi mesmo logo a seguir à guerra Irão-Iraque, que o Irão assentou a sua defesa num conjunto de pilares e de vetores estratégicos, que nomeadamente num confronto com uma potência mais forte, que seria o caso dos Estados Unidos ou eventualmente até de Israel, mas essencialmente os Estados Unidos, que não ia admitir um combate de natureza frontal, como nós vemos na Ucrânia, entre a Ucrânia e a Rússia, porque não tem capacidade para isso e, portanto, apostou numa estratégia assimétrica, baseada num conjunto de ações e de tomadas de posição, que algumas delas parece que apanharam os Estados Unidos sem perceber que isto ia ser utilizado, nomeadamente a questão do Estreito de Ormuz, que não é novidade que isso poderia acontecer. E a questão da expansão aí podem ter sido apanhados desprevenidos, mas havia indícios disso, que o Irão ia escalar horizontalmente a guerra aos países do Golfo, no sentido de criar um clima que o levasse mais rapidamente ao fim da guerra. E portanto há aqui um conjunto, já havia a questão dos mísseis, havia a questão nuclear e portanto parece que foram apanhados desprevenidos relativamente a esta questão e alguma incapacidade para controlar, essencialmente no espaço mediático internacional, a liderança que o Irão está a intentar até ao início do cessar-fogo. Ou seja, parece que o que os Estados Unidos estavam a fazer é reagir àquilo que o Irão fazia. Se o Irão atirava mais uns mísseis para o Qatar ou para aqui ou para ali, o Donald Trump vinha dizer que ameaçava isto e aquilo. Essa é uma realidade. Agora, não vale a pena estarmos também a pôr paninhos quentes nisto, porque o Irão foi seriamente degradado num conjunto de capacidades militares das quais vai demorar anos a recuperar, sobre isso não há dúvida. Não só a Marinha, como a sua Força Aérea. Agora, essa estratégia assimétrica permite-lhe com pequenos recursos, induzir um grau de impacto estratégico que tem efeitos internacionais grandes, nomeadamente Ormuz. E os países do Golfo, quer dizer, nós sabemos que os países do Golfo neste momento, nos últimos anos, enfim, têm sido um dos pontos, já nem falo só do turismo, dos grandes eventos Enfim, de um conjunto de praças financeiras, centros financeiros, onde estão os principais fundos sediados, onde está muito do dinheiro, e que de algum modo o Irão, com meia dúzia de mísseis por dia e mais uns drones, que são difíceis para as forças aéreas que estão instaladas, mais convencionais, fazerem face, por esses países, numa situação catastrófica em termos da sua economia e da sua capacidade de recuperação. O Irão não avançou até esta fase para coisas mais desagradáveis, como atingir as centrais dessalinizadoras ou mesmo as infraestruturas petrolíferas. E amealham fazê-lo se o fizessem a ele. Embora tenha tido um grau de destruição relativamente grande, do qual volta a recuperar. O problema é que os Estados Unidos, julgo eu, criaram um pacote de objetivos políticos que seria impossível atingir a curto prazo ou no prazo que Donald Trump estimou, que seria as tais cinco a seis semanas. Eu já nem falo da mudança de regime, que é uma coisa que é de outra natureza. Mesmo a incapacitação dos sistemas de mísseis, da destruição da capacidade nuclear, que aqui viemos a perceber que a mentira tem a perna curta. E aquela vitória estrondosa de junho do ano passado já se sabia antecipadamente. Aliás, a própria CIA disse isso e depois Donald Trump quase demitiu o diretor da CIA quando veio a terreiro dizer que as capacidades do Irão sob o ponto de vista do enriquecimento de urânio não estavam completamente destruídas, como aliás já percebemos. Estas dificuldades e o apregoar de objetivos políticos que são robustos, conquistados a curto prazo, isto não seria possível. O Irão não pode continuar eternamente a guerra. Isso será uma degradação da sua capacidade.

Mas como é que o Irão consegue negociar com um país que muda de estratégia todos os dias? Como é que consegue chegar a um acordo?

Donald Trump já deu a entender o que é que é o nó central para ele, que é o seu centro de gravidade estratégica: é a questão nuclear. E julgo que não vai fugir disso.

Mas Donald Trump também já diz que destruiu a capacidade nuclear do Irão, portanto, acaba por ser aqui um pouco um contrassenso.

Mas depois tem lá a questão dos 400 quilos de urânio enriquecido. E não só. E aquilo que toda a gente diz, e que muitas das pessoas que estiveram ligadas à discussão e à implementação daquele acordo que foi negociado em 2015, e alguns técnicos da Agência Internacional de Energia Atómica, que há uma coisa que não é obliterável, utilizando aqui as palavras de Donald Trump, que é o know-how técnico que os técnicos e as universidades hoje têm sobre a questão nuclear, que é uma cultura científica que foi desenvolvida no Irão ao longo dos anos. Mesmo matando alguns dos cientistas, como foi feito, e alguns dos responsáveis, isso não tira o know-how técnico que eles têm sobre o enriquecimento de urânio e sobre um determinado conjunto de condições que em qualquer altura, quando tiverem mais tempo, vão reativar. A questão aqui é essencialmente política e dar alguma confiança ao Irão, porque eu também sou partidário que o Irão, com este regime teocrático, não pode ter armas nucleares. Meio mundo está de acordo, ou o mundo todo está de acordo com isso. Agora, para se fazer isso sob o ponto de vista militar, das duas uma: ou havia uma intervenção militar terrestre que levasse à queda do regime e modificasse isso sob o ponto de vista da estrutura política do regime e ter, de algum modo, um regime mais benigno que abdicasse disso automaticamente através de uma derrota militar, mas isso é uma operação que iria demorar meses ou mesmo mais que um ano para ser conseguida, naturalmente. É um terreno difícil, como sabemos, é um país grande, com 90 milhões de habitantes, e ia de algum modo fazer aquilo que muita gente teme que aconteça, que ainda não está a acontecer, mas pode acontecer, que é a própria oposição, que era o elemento motivador e mobilizador para eventualmente fazer a mudança de um regime, se juntar, porque os iranianos são bastante nacionalistas, não só os islâmicos, os xiitas, também de um modo geral são pessoas que prezam muito o Irão como civilização e como país, que essa gente se una à volta do regime e o regime não caia por aí. Nesse sentido, tem que ser através da diplomacia. Mas a gente vai supor-se do lado do Irão. Que é esta diplomacia coerciva e mal-educada, que é chamar nomes às pessoas e às civilizações e dizer que destrói, que é uma coisa que a gente sabe que isso depois não vai acontecer. O aspeto diplomático não é só agora. Já percebemos que ainda por cima Donald Trump manda a Islamabade uma equipa que não sabe negociar mais do que nesta forma transacional de trocar isto por dinheiro ou por aquilo.

São equipas sem experiência diplomática em tipicidade.

Não têm diplomacia. E até sob o ponto de vista técnico, chegaram lá, venderam um determinado caderno de encargos, o Irão apresentou outro e tiveram a discutir 20 e tal horas sobre a mesma coisa. E claro, não poderia nunca dar acordo. Isto tem que ser objeto de uma negociação política. O Irão vai ter, com certeza, de abdicar. E no fim, eu julgo que sim, vai abdicar da questão nuclear. Não quer dizer que daqui para 10 anos não volte outra vez a isso. Sabemos que é isso. Agora, eu julgo que a negociação vai ter que correr à volta disso.

Para concluirmos.

Os Estados Unidos só vão conseguir, de facto, a questão nuclear. Não vão conseguir, de facto, nem vale a pena estar a pensar na mudança de regime. E o Irão, o seu centro de gravidade estratégica é a sobrevivência do regime. E daí não pode passar muito, porque se exagerar no timing da guerra, prolongar esta discussão e estas operações militares muito, está sujeito a que a escalada vertical com a utilização de outros sistemas que os Estados Unidos possam resolver, maiores bombardeamentos, bombardear infraestruturas energéticas e que são fundamentais para o mínimo de qualidade de vida dos iranianos. E eu julgo que isto vai passar, por um lado, a vitória do Irão, entre aspas, será a sobrevivência do regime, a vitória dos Estados Unidos será o Irão aceitar que não vai produzir armas nucleares no futuro.

Tenente-general Marco Serronha, muito obrigada por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra. O Gabinete de Guerra regressa-

Obrigado, foi um gosto.

Amanhã. O gosto foi nosso. Até amanhã.