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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas no mundo. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Muito boa tarde, Bruno Cardoso Reis, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar com Ceuta, até porque há vários ministros do governo de Pedro Sánchez que vão começar a ser escutados. Hoje foi a vez da ministra da Defesa de Espanha, que diz que esta entrada de quase 80 mil migrantes em Ceuta se deveu a uma interpretação enviesada da lei. Margarita Robles foi a primeira a ser ouvida. Bruno Cardoso Reis, a minha pergunta é: que lições há a retirar de todo este processo e o que é que pode sair destas audições?

Não sei se vai sair grande coisa, porque um dos problemas em Espanha, como em geral na Europa, é que temos uma política extremamente polarizada e em que o foco é muito mais em culpar os outros polos políticos do que em chegar a compromissos que permitam resolver os problemas. E isso é, obviamente, culpa de todos os lados, pode ser mais de uns ou de outros, mas é um fenómeno que se verifica quer à esquerda, quer à direita e que está de facto muito acentuado em Espanha. Basta ver que é um país que não consegue aprovar um orçamento há vários anos, mas em que também não há condições para se criar uma alternativa de governo e haver eleições antecipadas. Essa fragmentação e ineficácia da Europa também dá margem a que países vizinhos explorem isso para procurar extrair vantagens, para fazer pressão, fazer chantagem. Portanto, esta utilização da imigração, por exemplo, ilegal, mas com a cumplicidade de Estados ou com a passividade de Estados na repressão dessa imigração ilegal, é algo que vimos em vários sítios, na Bielorrússia em relação, por exemplo, à Polónia, na Turquia em relação à Grécia e também já foi usada no passado em relação a Marrocos. Parece-me que há alguma margem para dizer, e a própria reação mais recente do governo espanhol tem mostrado isso, que certamente houve uma subestimação do nível da ameaça. Aquilo que eu leio nas entrelinhas das declarações dos ministros é que houve alguns avisos de que algo deste tipo poderia acontecer, mas no fundo, o que se pensou seria que no máximo seria qualquer coisa como em 2021, em que alguns poucos milhares de migrantes realmente tentaram atravessar a fronteira e não esta vaga de muitas dezenas de milhares, que obviamente também teria sido impossível sem a cumplicidade do Estado marroquino. Portanto, isso provavelmente é um aviso que Espanha está a ter em conta, ou seja, estar mais atenta a esses riscos e também ter uma resposta muito mais coordenada, porque esse é um problema recorrente em Espanha, seja em relação a emergências complexas, inundações, incêndios ou esta questão migratória, que é o fato de a Espanha, em muitos aspectos, ser um Estado federalizado, até muito mais descentralizado do que muitos Estados federais, leva a que depois haja uma grande dificuldade em coordenar uma resposta eficaz entre os vários níveis do Estado. É uma ameaça que, pela sua natureza, pela sua escala, não permite realmente uma resposta fragmentada e isso também parece ter confirmado aqui. Foi recentemente criado um mecanismo de resposta unificado a futuras ameaças deste tipo. Isso provavelmente é importante para coordenar todos os meios do Estado, para garantir que quando há avisos de um lado, eles não são ignorados do outro.

Isso tem pernas para andar, Bruno, e ser implementado da melhor forma?

Isso vamos ver. Há dificuldades que se mantêm, que têm a ver com esta questão de o Estado espanhol ser realmente um Estado muito centralizado e não ser possível reverter simplesmente isso. E muitas vezes os diferentes atores políticos nos diferentes níveis também usarem isso como uma espécie de passa-culpas. Quando o que devia ser fundamental, devia ser toda a gente trabalhar no sentido de encontrar uma solução e prevenir, sempre que possível. A prevenção, sabemos isso, é uma questão geral, é sempre preferível, mas em muitos casos é difícil de se fazer, porque implica mobilizar recursos, meios, pessoas, etc. E isso só se consegue politicamente quando realmente se verifica o preço a pagar por isso não acontecer. E depois temos este ato também da extrema fragmentação política, que no caso da Espanha se vem somar a esta fragmentação territorial, muitas vezes ligada também a movimentos identitários ou nacionalistas. Portanto, essas dificuldades, esses problemas mantêm-se, mas pelo menos parece haver alguma vontade do governo de alterar algumas coisas, algumas das disfunções que ajudaram que a questão se tornasse mais complicada de gerir.

Bruno, vamos avançar, falar também na Ucrânia, até porque Volodymyr Zelensky diz que chegaram mais mísseis Patriot ao país, há uma garantia do presidente ucraniano, mas não quis revelar qual é que foi o país que cedeu estes mísseis Patriot, embora diga que não chegam para as necessidades de defesa da Ucrânia. Bruno, eu não vou perguntar quem terá sido, mas pergunto por que Volodymyr Zelensky quer manter este secretismo e se pode ser um dominó para que mais países façam o mesmo e cedam mais mísseis Patriot à Ucrânia.

Esta questão tem sido muito discutida desde o início da guerra, mesmo em Portugal. No fundo, o que interessa revelar? É importante revelar para mostrar apoio, para mostrar que há apoio concreto. Ao mesmo tempo, pode haver razões de segurança para evitar dar demasiados detalhes e no caso de países europeus, por exemplo, mais pequenos como é o caso de Portugal, pode haver interesse em evitar dar muita publicidade a certos apoios concretos Que poderiam suscitar algum tipo de retaliação em termos de ataques híbridos da parte da Rússia. Neste caso, aquilo que podemos dar como certo é que o país que forneceu esses mísseis terá pedido a Zelensky para não divulgar isso. Pode ser por várias razões, inclusive também esta questão de deixar o inimigo adivinhar, neste caso a Rússia, e portanto, no caso da Rússia poder ponderar algum tipo de ação mais hostil, não divulgar quais são os países que estão com as reservas mais em baixo. Essa seria a única certeza que eu teria. Outra certeza também importante é que apesar disso ser um bom sinal, realmente o próprio Zelensky diz, reconhece que não é minimamente suficiente. Ele apresentou publicamente essas contas: "Nós estamos a receber à volta de 1% do que os Estados Unidos têm, precisaríamos dá à volta de 5% como mínimo, idealmente 10%". E portanto, essas contas também apontam pra outro dado fundamental, que é por muito que alguns países europeus possam fornecer alguns destes sistemas, a questão fundamental é que este é um sistema que está dependente da produção americana, é um sistema produzido nos Estados Unidos. Trump chegou a publicamente dizer que estaria disponível a permitir à Ucrânia fabricar mísseis Patriot, mas depois recuou. E aquilo que temos como resultado também deste problema de base, que é estarmos dependentes da vontade política, da capacidade de produção dos Estados Unidos, é que surgiu uma coligação europeia ampla, 10 países, que inclui também a Ucrânia, mas países como a Espanha, a Noruega, a França, a Grã-Bretanha, para procurar criar um sistema de intercetores, portanto, criar mísseis intercetores que sejam compatíveis com vários sistemas, e que sejam mais baratos, portanto custem menos de $1 milhão e que possam ser produzidos à escala por vários países europeus, inclusive potencialmente pela própria Ucrânia. Isso realmente parece-me ser a melhor solução para resolver o mais depressa possível, embora estas coisas demorem sempre algum tempo, mas resolverem, de fato, esta dependência, que neste momento se tornou uma vulnerabilidade, até porque, como sabemos, com Donald Trump nunca se sabe muito bem com o que é que se pode contar do lado dos Estados Unidos, além de que há este problema de limitações de capacidade de produção e dos Estados Unidos potencialmente poderem estar a empenhar esses sistemas noutras regiões e, portanto, darem prioridade às suas necessidades de defesa, como é o caso agora com a questão do Irão.

E é precisamente de Donald Trump que vamos falar e da situação no Médio Oriente. O Irão pede aos Estados Unidos para regressarem ao memorando de entendimento, isto ainda no rescaldo deste dia D econômico anunciado por Donald Trump. Washington fala em medidas unilaterais contra também os países que continuem a manter relações com o Irão. Esta guerra econômica anunciada por Donald Trump foi, entretanto, já desvalorizada por Teerão. Que lições é que há a retirar deste anúncio de Donald Trump sobre a guerra econômica e também a reação do governo iraniano?

Eu francamente acho que a reação mais importante é a da China, que veio dizer: "Não pensem que nos podem pressionar e se houver sanções secundárias". Aquilo que os Estados Unidos parecem estar a dizer é: "Vamos reforçar muito". Anunciaram uma série de sanções até direcionadas a certos atores ligados ao Irão, que estão identificados, mas uma intenção genérica de sancionar, por exemplo, excluindo do sistema de relações financeiras com os Estados Unidos, empresas, bancos, que possam de alguma forma fazer negócios com o Irão, facilitar a vida econômica do regime iraniano. Ora, sabemos que aí a China é que tem um papel crucial, nomeadamente à volta de 80% do petróleo iraniano, antes da guerra, estava a ser exportado pra China. E obviamente, a China já mostrou que é a única grande potência desde a Segunda Guerra Mundial, que tem capacidade de retaliar economicamente contra os Estados Unidos com eficácia. Já mostrou isso nesta guerra comercial que Donald Trump tentou iniciar e em que foi forçado a recuar de forma humilhante depois das ameaças em relação à questão do fornecimento de terras raras, que são matérias-primas indispensáveis, inclusive pra indústria de defesa norte-americana. Acho que essa é a reação mais importante. Agora, temos de fato sinais contraditórios também muitas vezes do Irão, ou seja, o que quer dizer voltar ao memorando de entendimento? O memorando de entendimento tinha problemas de base e isso levou a uma interpretação, por exemplo, completamente diferente sobre a questão crucial do Estreito de Ormuz. Não se percebe muito bem o que isso quer dizer. É um recuo iraniano, é simplesmente o Irão a dizer: "Os Estados Unidos devem seguir a interpretação que o Irão sempre fez, que é devíamos poder cobrar taxas e policiar o estreito". A interpretação que eles fizeram do memorando é isso e portanto, na prática, não é nenhum recuo. Ou é realmente uma manifestação destes setores mais pragmáticos, nomeadamente do presidente eleito, Pezeshkian, ou do presidente do Parlamento, que estão mais preocupados com a economia e com os riscos de uma ainda maior impopularidade do regime face à ala dura. Mas aqui toda a questão central em relação a este ponto é que toda a aposta dos Estados Unidos nesta questão das sanções é que desta vez elas vão funcionar e vão funcionar muito rapidamente. Ora, historicamente, o padrão De facto, não vai nesse sentido. Mesmo quando funcionam em relação a países como a África do Sul, etc., demoraram muito tempo ou tiveram uma função, mas não foram decisivas, como por exemplo, na Segunda Guerra Mundial. Enfim, as coisas podem mudar, mas a partir do padrão histórico não justifica aqui muito otimismo em relação a que funcionem muito rapidamente como Trump e Scott Pearson parecem acreditar. E depois a outra questão é que parecem estar confiantes em que o resto do mundo vai colaborar nestas sanções ou vai ser forçado a colaborar. Ora, os sinais não vão todo nesse sentido. A Rússia está muito mais próxima do Irão do que alguma vez esteve. O Irão ajudou muito na questão dos drones, por exemplo. A China a mesma coisa, também muito mais disposta a desafiar os Estados Unidos, inclusive publicamente. E por fim, também implicaria que, de facto, os Estados Unidos e Donald Trump confiam que estes setores mais moderados e mais pragmáticos do regime iraniano vão prevalecer. E, portanto, eu acho que é também uma aposta bastante arriscada, mas teremos de ver. Portanto, acho que ninguém pode ter certezas em relação a isso. Eu, com base no padrão histórico, o que digo é que não estou muito otimista sobre as possibilidades de um sucesso rápido, mas é verdade que a situação econômica no Irão é claramente péssima e há setores dentro do regime, aqueles setores, como eu dizia, um pouco mais pragmáticos, acho que moderados provavelmente é a palavra errada, mas mais pragmáticos, que estão também claramente preocupados com essa situação. Portanto, vamos ver se eles conseguem aqui oferecer algum tipo de vitória a Donald Trump.

Bruno, temos ainda dois minutos e meio neste gabinete de guerra para olhar e falar sobre uma notícia de que os Estados Unidos estão a oferecer até 10 milhões de dólares a quem tiver informações sobre os líderes da Guarda Revolucionária Islâmica. Há 14 líderes da organização visados nessa lista dos Estados Unidos. Isto é estratégia dos Estados Unidos ou falta de planos? Temos dois minutos até o final do programa.

Eu acho que ilustra bem exatamente a questão da falta de um planejamento estratégico e de uma comunicação estratégica também clara. Enfim, há pessoas que acham que isso é genial e o próprio Donald Trump parece ter essa interpretação. "Eu vou aqui, muitas vezes tenho gabado, ninguém sabe o que eu vou fazer e, portanto, isso dá-me aqui imenso poder, imensa capacidade negocial". Os resultados não têm sido excelentes, pelo menos no caso do Irão, isso parece ter sido contraproducente, porque realmente como já referi, um acordo com os Estados Unidos significaria que a ala mais pragmática do regime conseguiria prevalecer sobre a linha mais dura. Ora, esta constante oscilação nas posições dá argumentos à linha mais dura que diz que não é possível um bom compromisso com os Estados Unidos e qualquer compromisso vale muito pouco, porque com Donald Trump as coisas podem mudar de um dia para o outro, mesmo depois de um compromisso assinado com determinadas condições, ele pode mudar de ideias e fazer outra coisa completamente diferente. E, portanto, no fundo, Donald Trump tem dito: "Agora vamos apostar na arma econômica e isto vai forçar o Irão a negociar". No fundo, uma espécie de recuo àquilo que era a situação antes do início deste conflito há seis meses atrás. Agora, ao mesmo tempo, temos notícia de que afinal há uma espécie de hit list, uma lista de alvos, que inclui não apenas esta linha mais dura, isso até poderia fazer um certo sentido nesta ideia de que vamos favorecer os moderados, os tais pragmáticos, e vamos visar a linha mais dura, mas inclui também o próprio guia supremo, o próprio Mostafa Khamenei, que será sempre quem poderá, em última análise, decidir sim ou não a um compromisso com os Estados Unidos.

É o ás de espadas, como havia naquele baralho de cartas.

Do Iraque, exatamente. E, portanto, desse ponto de vista, de facto, não me parece que revele aqui uma grande estratégia ou uma estratégia muito eficaz e muito clara da parte dos Estados Unidos e portanto parece-me que se arrisca a ser também contraproducente.

Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis. Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra. Hoje contou com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a quem agradeço de novo a disponibilidade. O Gabinete de Guerra fica como sempre também disponível em podcast. Bruno Cardoso Reis, um grande abraço.

Obrigado.