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E vamos avançar nesta nossa emissão especial. Recebemos agora Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Sabemos que tem o tempo limitado e vamos tentar aproveitar ao máximo a sua participação. Miguel Baumgartner, a questão deste ataque concertado entre Estados Unidos e Israel ao Irão, leva-nos a pensar também na posição da comunidade internacional de condenação ou não deste ataque. As posições podem vir a ser surpreendentes por parte de alguns países?
Olá, bom dia e muito obrigado pelo convite. Nós, acima de tudo, temos que entender qual é a base deste ataque. Nós também temos que entender o que é o Irão e o que é o regime do Irão. Se nós formos fazer a avaliação de que o regime iraniano é o maior e o grande financiador do terrorismo internacional, não só o terrorismo no Médio Oriente, com o Hezbollah, com o Hamas, com os Houthis, mas também do que são as células internacionais terroristas espalhadas por todo o mundo, nomeadamente na Europa. E portanto, se formos pensar desse ponto de vista, se formos pensar do ponto de vista de que manter este regime é efetivamente permitir com que continue o financiamento a esses proxies iranianos, como nós lhes chamamos, então sim, se calhar, faz todo sentido derrubar este regime, porque este regime efetivamente tem essa ligação com o terrorismo. Se pensarmos que a possibilidade de um país como o Irão, que é uma autocracia, no sentido de ter capacidade ou de vir a ter capacidade de ter uma arma nuclear, tornando-se assim, por exemplo, igual a uma Coreia do Norte, então faz todo sentido este ataque, porque será efetivamente não só um perigo para a região, não só um perigo para Israel, mas também um perigo para aquilo que é a democracia como nós a conhecemos. Agora, se nós olharmos isto à luz do direito internacional e olharmos isto estritamente naquilo que é a base da lei, efetivamente que há aqui inúmeras questões. Donald Trump diz que está a fazer este ataque de uma forma preventiva para efetivamente prevenir que haja a possibilidade desses ataques, como ele disse no discurso que fez na terça-feira ao Estado da Nação, para proteger, nomeadamente a Europa, porque existe o programa dos mísseis balísticos e disse que o Irão neste momento já teria capacidade. E se nós formos fazer até uma pequena conta e virmos daquilo que já sabemos sobre esses mísseis, sabemos que o míssil disparado, por exemplo, da ponta mais ocidental do Irão poderia atingir, por exemplo, a Itália. E portanto, nesse sentido, faz sentido no sentido de ser um ataque preventivo.
Mas como é que acha que a Comissão Europeia vai reagir a isto e o Conselho Europeu?
Obviamente que o Conselho Europeu e a União Europeia vão dizer que é importante salvaguardar a população civil, que é importante a democracia prevalecer, que é importante atender a que este regime está esgotado. Vamos ver o que é que aconteceu entre janeiro e fevereiro. Nós temos a informação de cerca de 40 mil mortos, pessoas que foram assassinadas na rua por protestarem por liberdade. E portanto, parece-me a mim que aquilo que a União Europeia e o Conselho Europeu vão fazer é esperar que efetivamente isto dure pouco tempo e que isto possa levar a uma transição democrática. Vamos só fazer aqui um paralelo. Em 99, a ex-Jugoslávia de Milošević foi bombardeada durante 78 dias. Na altura era presidente americano Bill Clinton, e também por forças europeias. Portanto, foram forças da NATO conjugadas que fizeram esse ataque. E na altura quem tomou a liderança internacional foi inclusive Clinton e Tony Blair. E a ideia era que um ataque concertado da aviação, uma vez que não teve os chamados boots on the ground, portanto, não houve tropas da NATO na ex-Jugoslávia, muito menos na questão da Sérvia, de onde Milošević era. Mas durante 78 dias houve um ataque cerrado, bombardeamentos cerrados, na tentativa de fragilizar o regime para que efetivamente depois a população sérvia pudesse dar o golpe final. Se nós formos ver aquilo que foram as declarações de há poucas horas de Donald Trump, é mais ou menos, e estou a fazer este paralelo para que as pessoas possam entender, é mais ou menos a mesma coisa. Ele diz: "Nós vamos sem vosso auxílio, nós vamos criar as condições para que vocês tomem o regime". E ele diz a frase: "Esta é a vossa grande oportunidade em muitos anos de tomar o regime". Já pediram há muito tempo aos Estados Unidos e esta é a primeira vez que um presidente americano o faz. Portanto, o que Donald Trump está a fazer não é só atacar aquilo que seriam as instalações que estão hoje a produzir o urânio enriquecido no intuito de terem capacidade de produzirem uma arma nuclear, mas é efetivamente aquilo que há muito nós já sabíamos e que Donald Trump disse em janeiro, quando disse ao povo iraniano que ajuda vinha a caminho e que o povo iraniano tivesse uma certa resistência e que tivesse condições de estar preparado quando o momento chegasse. E portanto, a ideia foi sempre aquilo que eu afirmei várias vezes aqui no "Observador", que Donald Trump e Israel, porque atenção, Donald Trump é secundado por Israel, que neste ponto, não só Israel, mas como as monarquias do Golfo, vocês estavam a falar há pouco do Bahrein, Dubai, da Arábia Saudita, todas elas, até por uma questão religiosa, cabe lembrar que eles são sunitas e no Irão são xiitas e existe uma rivalidade religiosa tremenda. Portanto, toda a gente tem o interesse que o Irão se torne uma democracia naquele espaço Geográfico e que efetivamente pare de financiar o terrorismo que nós sabemos bem, temos o Hezbollah ao norte do Irão e temos o Hamas em Gaza. Parece-me que a posição europeia vai ser uma posição de alguma prudência, de pedir a paz, de pedir que efetivamente isto permita uma transição para a paz. Eu sei que por vezes é complicado de dizer, mas eu lembro aqui uma frase do chanceler alemão que ele falou o ano passado quando Israel fez o ataque maciço na Faixa de Gaza contra o Hamas. E que o chanceler alemão eu acredito que ele pensou e não queria dizer, mas acabou por dizer, que efetivamente Israel naquele momento fazia o trabalho sujo que toda a gente queria que fosse feito, mas não tinha coragem de fazer. Parece-me a mim que há muito que o Irão é uma ameaça ao mundo ocidental, mundo ocidental que eles odeiam e condenam, contra a democracia e portanto é difícil só condenar por condenar este ataque. Agora, uma coisa é extremamente importante e este é sempre o problema destas situações, é que infelizmente a população civil será sempre atingida por este tipo de ataques.
Já com vários alertas um pouco por toda a região do Medio Oriente para que permaneçam em casa.
Sim, e depois é o seguinte, o que aconteceu? O Irão tinha dito, e eu disse várias vezes, e vocês falaram aqui várias vezes nos vários programas, é que o Irão não é a Venezuela. Enquanto a Venezuela houve até uma negociação e houve o acordo com a própria vice-presidente e Maduro acabou por ser traído pelos seus. E mesmo que não o fosse, a Venezuela não tinha capacidade militar para uma retaliação. O Irão tem imensa capacidade militar, o Irão tem cerca de 170 mil membros da guarda revolucionária e espalhados pelas variadíssimas províncias do Irão. O que vai acontecer, e este é sempre o grande problema, no norte do Irão temos os curdos, e os curdos não vão aceitar serem novamente postos de parte e os curdos estão armados. E o que nós poderemos ver, e este foi sempre o meu medo, meu e de muitos outros estudiosos destas matérias, é que isto possa desencadear uma guerra civil. E então sim, nós estamos perante uma situação que vai escalar e vai ser efetivamente muito complicado de parar, porque depois temos uma guerra civil entre várias fações e efetivamente o Irão tem variadíssimas fações e vamos ter aqui uma guerra civil entre os jovens que querem um país democrático, cosmopolita, aberto ao mundo, como já foi. Até 1979, o Irão era um país super cosmopolita, aberto ao mundo. É verdade que vivia também sob uma ditadura, era a ditadura do Chá, que tinha inclusive uma polícia política extremamente repressiva, curiosamente na altura apoiada pelos Estados Unidos e por Israel. E o Irão, na altura, era o país que dentro do Médio Oriente mais apoiava a ideia da existência de um Estado de Israel. A história é sempre muito forte em alterações e às vezes em parcerias um bocado ortodoxas, mas neste momento o que nós estamos a ver era aquilo que nós já esperávamos, que era os Estados Unidos intervirem no sentido de tentarem destruir aquilo que poderá ainda existir do programa nuclear, apesar de no verão Donald Trump nos ter dito que este programa tinha sido completamente destruído, não é o caso. E no segundo ponto, é criar as condições para que o povo iraniano consiga derrubar o regime e fazer, quando possível, uma transição para a democracia, sabendo que foi escolhido pelos Estados Unidos. Nós podemos estar aqui tendo um problema muito próximo do que aconteceu no Afeganistão, quando trouxeram uma pessoa da diáspora para ser o presidente do Afeganistão ou mesmo do que aconteceu na Líbia. O problema das primaveras árabes. Mas já foi escolhido o filho do xá do Irão, que abandonou o país, saiu do país ainda criança em 1979 ou jovem, e que seria esta uma referência para poder ser, durante o período da transição para a democracia, uma figura para fazer essa transição. Mas estamos muito longe disso ainda. Estamos muito longe porque este regime tem condições políticas e militares para resistir e nós vamos ter aqui um conflito que eu acredito será longo.
Miguel Baumgartner, muito obrigado pela sua análise. Continuação de bom fim de semana.
Muito obrigado.
Obrigado. Colocou aqui em perspectiva também a questão da Venezuela, que é uma questão que é excelente para pormos também em perspectiva, Vanessa Cruz, com o nosso próximo convidado, Victor Angelo, antigo secretário-geral adjunto das Nações Unidas. Muito obrigada por se juntar também, Victor Angelo, a esta emissão