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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos nos próximos minutos alguns dos conflitos que marcam a atualidade. Esta noite é nosso convidado João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, João. Obrigada.

Olá, Diana, muito boa noite.

Obrigada por estar conosco esta noite. Bem-vindo. Começamos com um tema de que não costumamos falar, com a relação de Melania Trump com Vladimir Putin. Hoje foram libertadas seis crianças, graças à primeira-dama dos Estados Unidos, diz a Rússia. Foram seis crianças entre a Ucrânia e a Rússia, sendo que cinco foram para a Ucrânia e uma foi para a Rússia. Esta proximidade de Melania com Putin ou com o Kremlin é mais um fator que joga contra a Ucrânia ou, de alguma forma, isto funciona aqui em paralelo? As linhas não se tocam relativamente àquilo que é a ação de uma primeira-dama e as negociações de um presidente, que é marido, com os outros dois actores que são os actores activos de uma guerra.

Eu acho que a primeira coisa que nós devemos fazer é, obviamente, louvar esta iniciativa e, acima de tudo, louvar o reencontro dessas crianças com as suas famílias. E essa é a primeira nota positiva, independentemente de qual seja a origem para este retorno, é sempre uma notícia positiva, porque obviamente toda esta tragédia e, sobretudo, tragédias que envolvem as crianças directamente afectam-nos sempre muito mais do ponto de vista emocional e têm um impacto muito maior. Portanto, é obviamente uma boa notícia. Depois, um alerta que é, neste momento, em relação àquilo que são os dados conhecidos, aponta-se que haja 20 mil crianças que tenham sido raptadas pela Rússia, pelo menos esses são os dados avançados pela Ucrânia, e apenas menos de 10% das crianças já foram devolvidas. Portanto, este é um trabalho contínuo. Eu recordo-me quando estava no Parlamento Europeu de ter recebido algumas associações que estavam a trabalhar precisamente nesta matéria e é de facto algo que nos toca muito profundamente e que obviamente deveria merecer uma revolução mais rápida, porque a reunificação das crianças deve ser uma prioridade. Em relação à sua pergunta, obviamente que há aqui várias peças que estão em jogo e provavelmente até poderemos falar de algumas delas mais à frente, que de certa maneira nos obrigam a pensar um pouco sobre qual é o posicionamento dos Estados Unidos e a proximidade que têm com a Rússia e esta ação directa e, sobretudo, o louvor que a Rússia faz à ação da primeira-dama americana denota, mais uma vez, esta proximidade existente entre Washington, entre a Casa Branca e o Kremlin, e que nos deve, de certa maneira, fazer reflectir sobre que consequências é que esta proximidade tem também em todos os outros pontos de confluência na resolução do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, da invasão que a Rússia provocou na Ucrânia.

E há pouco, não me esqueci, falou da sua experiência no Parlamento Europeu e eu vou aproveitá-la precisamente para a próxima pergunta que tenho para lhe fazer. A União Europeia está a avaliar um plano de cinco etapas para integrar a Ucrânia no bloco até ao próximo ano. O objectivo é que a Ucrânia possa tomar decisões e sentar-se à mesa da União como um actor político, antes mesmo de ser um Estado-membro. Que solução é esta e o que é que as duas partes ganham com isso? Porque no fundo, o que está aqui em causa é a Ucrânia pode participar em reuniões, em decisões, mas depois todo o trabalho, direitos, garantias, deveres, ainda está por realizar.

Eu diria que é de certa maneira difícil antever que este passo possa ser dado. Eu li a notícia que dava conta destes cinco passos, uma notícia do Político, e estes cinco passos eram um cenário avançado pelo próprio Político com base em diferentes fontes que foi recolhendo vários diplomatas envolvidos de diferentes Estados-membros envolvidos neste processo e de acordo com aquilo que pude ler, ouvindo não só os países membros da União Europeia, alguns destes países membros da União Europeia, mas também representantes da parte da Ucrânia. Aquilo que eu posso lhe dizer é que nós, neste momento, e isso é mais ou menos evidente, podemos contar até o final deste ano, pelo menos essa é a previsão que a presidência irlandesa tem, de até o final deste ano fechar todas as negociações, todos os diferentes capítulos de negociações com o Montenegro, que é o país que está num processo mais avançado, para que o Montenegro possa, num futuro muito próximo, entrar na União Europeia. Havendo algumas divisões, parece haver um sentido de que não se espere por outros países, para que outros países terminem o seu processo e que o Montenegro possa entrar já numa fase após a conclusão das suas negociações. Ora, a Ucrânia está muito longe de estar neste processo. Ao mesmo tempo, a notícia dava nota de uma coisa que eu acho que é muito importante e que eu defendo já há algum tempo, é que o processo de adesão não deve ser só, ou não pode ser só, um mecanismo formal de verificação de pontos de tarefas a cumprir, uma espécie de um Excel que se vai eliminando as células que estão completas, tem também de ser um processo político. E obviamente, deste ponto de vista, sobretudo num contexto em que a União Europeia tem estado sucessivamente arredada ou pelo menos distante dos centros de negociação do processo de paz entre a Rússia e a Ucrânia Este pode ser um mecanismo de grande força e de grande relevância para a União Europeia na sua inclusão no processo de negociação, que eu acho que era fundamental que acontecesse, e que devolvesse à União Europeia um papel central em todo este conflito.

Ó João Albuquerque, mas há aqui um ponto que, a minha percepção de acordo com aquilo que vou lendo ao longo destes últimos anos, também aqui a fazer o "Gamento de Guerra" e "Guerra Traduzida", é que vai sempre haver aqui um obstáculo à adesão da Ucrânia que é a Hungria. E, portanto, como é que isso alguma vez se vai ultrapassar? Como é que isso alguma vez vai ser possível de ultrapassar?

Sem dúvida. Desse ponto de vista, eu acho que a análise que é feita é muito lúcida e acho que é aquela que está neste momento na cabeça de todos os eurocratas ou de todas as pessoas que trabalham na bolha aqui em Bruxelas, que é uma expectativa muito significativa em relação às eleições de abril, para perceber o que acontecerá a Viktor Orbán e, de certa maneira, o que acontecerá na Hungria do ponto de vista político. E, portanto, há a possibilidade, que não é de excluir, e é pela primeira vez a possibilidade mais forte e mais real de termos um vencedor que não Orbán nas eleições da Hungria. E isso, obviamente, ou pelo menos preliminarmente, há a indicação de que isso possa vir a resultar numa mudança de rumo da relação da Hungria com a União Europeia e, sobretudo, de afastamento da Hungria da Rússia. Isso, obviamente, seria muito importante. O segundo ponto, e este é um ponto que eu defendo há muito tempo, eu há muito que considero que talvez seja muito forte apontar como sendo um erro, mas talvez do ponto de vista estratégico tenha sido efetivamente errado que o caminho que a União Europeia optou em relação à Hungria, por violação dos diferentes direitos que a Hungria foi fazendo ao longo dos anos, tenha sido sempre a suspensão da ajuda financeira e dos apoios a nível de fundos europeus. Porque isso, obviamente, deu a Orbán uma capacidade de vitimização que ele sempre utilizou do ponto de vista eleitoral para reforçar a sua posição interna na Hungria. E, portanto, a possibilidade de agora se avançar para uma solução que avance para a suspensão dos direitos de voto da Hungria no Conselho e dessa forma comprometer a Hungria às decisões que são tomadas sem que ela possa delas fazer parte, pode ser um caminho que permitirá a resolução da adesão da Ucrânia e até de outros pontos que possam estar suspensos por força do veto político que a Hungria tem feito sistematicamente a algumas decisões da União Europeia mais recentemente.

Falamos também de um país que faz parte da NATO, desta vez a Noruega. As Forças Armadas acreditam que há a possibilidade de a Rússia invadir o país para proteger os ativos nucleares. Ora, sendo a Noruega um país da NATO, estes receios têm fundamento, na sua opinião?

Eu diria que seria um passo sem retorno se isso acontecesse e que, obviamente, qualquer movimentação da Rússia que colocasse em causa a soberania territorial de um país membro da NATO teria repercussões muito graves. Da mesma forma que a cautela demonstrada pelos países europeus e pelos Estados Unidos, sobretudo durante a administração Biden, de não hostilizar em demasia a Rússia e de não atacar a Rússia na defesa da Ucrânia, aconteceu pelo fato de a Rússia ter acesso a armamento nuclear e, portanto, houve sempre a cautela na avaliação que ambos os lados fizeram dos riscos e das consequências que poderia ter qualquer passo em falso de ambas as partes. E, portanto, eu estou em crer que essa ameaça não será concretizada, embora reconheça, e lendo a entrevista do chefe das Forças Armadas norueguesa, embora reconheça claramente a preocupação que ele demonstra, não só do ponto de vista de reforço da capacidade defensiva da Noruega e da Finlândia, que têm obviamente a maior fronteira terrestre com a Rússia.

Sim, a Noruega é só uma pontinha lá em cima.

Exatamente, é só uma pontinha, mas que obviamente tem relevância, sobretudo pelo acesso que dá depois ao Ártico. Mas portanto, dizia, entendo perfeitamente esta necessidade de reforço da capacidade defensiva destes países, de participação em ações de defesa conjunta e acima de tudo de preparação para aquilo que é identificado também pelo chefe das Forças Armadas norueguesas, de resposta imediata da Noruega e dos restantes parceiros da NATO às ameaças híbridas. Portanto, aquelas ameaças que não são diretamente e ostensivamente contra a integridade territorial, mas que põem em causa o funcionamento normal das capacidades de defesa e de segurança dos países, como foi, por exemplo, interferências com os aeroportos e com os voos ou com interferência nas comunicações, interferência com cabos submarinos e portanto todo esse tipo de ameaças indiretas que podem não constituir diretamente uma ameaça para ativar o artigo quinto da carta da NATO, mas que obviamente devem merecer uma resposta dos Estados que estão mais diretamente implicados nestes ataques híbridos que a Rússia vai desenvolvendo.

Estamos muito em torno da Rússia, porque há muitas notícias que têm saído. Há ainda outra, um memorando interno russo a que a Bloomberg teve acesso e que mostra uma intenção do Kremlin de voltar a colaborar de forma económica com os Estados Unidos, que inclui regressar ao sistema internacional do dólar. Tem vários pontos este documento que foi divulgado. Contratos de aviação de longo prazo para modernizar a frota de aviões da Rússia, empreendimentos conjuntos de petróleo e gás natural, cooperação em energia nuclear, cooperação em matérias-primas como o lítio, o cobre, o níquel e a platina. É a altura ideal para um acordo desta natureza entre Estados Unidos e Rússia?

Eu vejo aqui duas questões diametralmente opostas ou pelo menos, talvez pondo de outra forma, vejo uma grande oportunidade e um grande risco para a Rússia nesta movimentação, se ela efetivamente tiver um fundo de verdade ou pelo menos mais do que ter um fundo de verdade, se ela efetivamente vier a ser posta em prática. A grande oportunidade que eu vejo é obviamente este estreitamento de relações com os Estados Unidos, atendendo àquilo que é a inversão de atuação dos Estados Unidos na arena internacional, nesta nova lógica meramente transnacional, não quer dizer que os Estados Unidos no passado não tivessem também este modus operandi, mas que ela agora é obviamente muito mais aberta, muito mais direta e acima de tudo muito mais desconsiderando os princípios básicos da ordem internacional e do direito internacional. E portanto, esta oportunidade que constitui de retorno ao dólar como sistema base de transação entre a Rússia e os Estados Unidos, e portanto, da atuação da Rússia no plano financeiro internacional, é obviamente uma oportunidade para o país. Isto obviamente também enquadra-se num outro quadro de pensamento ideológico, que é a proximidade que os dois líderes têm em relação à visão que têm sobre as alterações climáticas, sobre a questão da energia, sobre a utilização de matérias-primas fósseis e combustíveis fósseis para fornecimento de energia e em que os dois líderes se alinham totalmente e desconsiderando por completo todos os mecanismos de transição energética. Qual é o risco que eu também vejo? Por um lado, a permeabilidade que isto confere à Rússia de que as sanções possam voltar a ter mais força, porque obviamente uma reintegração da Rússia no sistema do dólar torna-a mais permeável a que as sanções tenham consequências económicas mais graves no caso de uma aplicação direta de sanções por parte dos Estados Unidos no futuro, caso isso venha a acontecer. E por outro lado, de certa maneira, aquilo que a Rússia estava a fazer, que era reforçar as relações económicas com a China e com a Índia e desta forma reforçar também as moedas destes dois países, colocar em perigo aquilo que foi essencial do ponto de vista da sobrevivência militar da Rússia, dois dos seus principais apoiantes. E portanto, esta proximidade com os Estados Unidos pode ter como consequência colateral uma reação da parte da China e da Índia de afastamento da Rússia, que seria no meu entender, muito perigosa do ponto de vista do apoio militar que ainda resta à Rússia e que provém, apesar de ela não ser admitida abertamente, mas majoritariamente da China e da Índia por via indireta, sobretudo por via económica e do apoio que a Índia tem conseguido conceder à sustentabilidade financeira que a Rússia ainda vai tendo ao fim destes quatro anos.

João Albuquerque, muito obrigada por ter estado conosco nesta Cabine de Guerra.

Diana, foi um gosto. Muito obrigado e uma boa noite.

Boa noite. Obrigada.