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Abrimos agora o novo Gabinete de Guerra da Rádio Observador para falarmos sobre os últimos desenvolvimentos do conflito entre Rússia e Ucrânia e hoje fazemo-lo com a ajuda do Major-General Isidoro Morais Pereira. Muito bom dia e obrigada por se juntar a nós.
Bom dia.
Bom dia. E também de Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE da Academia Militar e que faz também parte dos programas Café Europa e Cinco Continentes da Rádio Observador. Bruno, bom dia, boa semana.
Bom dia, obrigado.
Depois dos ataques a Zaporíjia no fim de semana, hoje foi Kiev que voltou a acordar ao som de sirenes. A capital ucraniana foi atingida por ataques com drones. Para já, não há informação sobre vítimas. A Rússia passou a semana a bombardear a Ucrânia como não se via desde o início da guerra, mas, na verdade, não estamos a assistir a grandes avanços no terreno. Putin já disse que não precisava de fazer ataques massivos, apenas manter a pressão e esperar pelo inverno. Major-General Isidoro Morais Pereira, vai ser possível a Ucrânia aguentar um inverno assim, uma vez que os russos estão a destruir infraestruturas, sobretudo as de energia?
O que é um facto é que, julgo que há contas feitas e apenas nestes últimos três dias, a Rússia levou a cabo 130 ataques com mísseis e drones kamikaze. Portanto, isto é uma verdade. Mesmo assim, em termos de estabilidade energética, podemos dizer que a Ucrânia tem conseguido, face à capacidade dos seus técnicos de manutenção, e temos visto em várias imagens, manter uma relativa estabilidade energética, ou seja, tem conseguido fornecer energia elétrica à grande maioria dos lares da Ucrânia. Relativamente a esta questão, é natural, porque a época das chuvas já começou. Em muitas zonas já há aquele fenômeno dos lamaçais, que em russo se designa por rasputitsa, que obrigam a que a maioria das viaturas blindadas e as viaturas de combate se remetam fundamentalmente aos itinerários pavimentados, o que torna de facto difícil as unidades abrirem para formações de combate e combaterem no terreno com eficácia. Isto remete-nos, naturalmente, para um outro tipo de guerra, que é a guerra pelo fogo, e é um bocado a isso que vamos assistir. De qualquer forma, até determinada altura, nós tínhamos a noção que a Rússia poderia estar a ficar algo limitada naquilo que diz respeito ao seu estoque de mísseis. E é uma verdade. Porém, também sabemos, e isto são informações que foram veiculadas ontem pelo Washington Post, que diz muito simplesmente que a Rússia poderá estar em negociações com o Irão para o fornecimento de mais dois tipos de mísseis. Um míssil tático, que é o Fateh, que é um míssil com cerca de 300 km de alcance, um míssil balístico, e um outro míssil, o Zolfaghar, que já é um míssil que poderemos designar por um míssil de teatro, porquanto este míssil já tem um alcance eficaz, prático de 700 km. Portanto, a Rússia, face ao facto de estar com os níveis dos seus mísseis de precisão já algo afetados, está a tratar de comprar, de adquirir mísseis ao Irão. Para além disso, também está em processo, segundo a mesma fonte, de aquisição, para além dos drones Shahed 136, que têm sido os drones que foram utilizados ainda esta noite, também estará a adquirir um drone com maior alcance, que dá pelo nome de Arash-2. Este drone é um drone que, segundo fontes iranianas, tem capacidade para atingir as cidades como Tel Aviv e Jerusalém. Portanto, são drones com um alcance ainda maior que os Shahed. De facto, esta noite foi uma noite especialmente violenta em termos de fogo e nós sabemos que só no sul as forças ucranianas foram capazes de interceptar 26 drones kamikaze Shahed 136. Portanto, foram destruídos 26 drones. O que é um facto é que em Kiev houve alguns drones que foram capazes de furar as defesas, digamos assim, de iludir as defesas aéreas instaladas na zona da capital e conseguiram atingir alguns objetivos e provocar alguns danos consideráveis que ainda não temos um apanhado sobre a gravidade dos mesmos.
E ataques que foram feitos precisamente com drones kamikaze fabricados no Irão?
Foram feitos com drones kamikaze fabricados no Irão, vindos da Bielorrússia e ajudados por peritos vindos do Irão.
Já vamos falar também sobre a Bielorrússia. Queria só passar a palavra ao Bruno Cardoso Reis, porque é precisamente este uso de drones iranianos por parte da Rússia que vai ser hoje discutido pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia. Em cima da mesa pode estar um novo pacote de sanções para tentar impedir esta transferência de drones para Moscovo. Bruno, como é que através de sanções se pode impedir esta transferência de drones, sabendo-se que o Kremlin também tem muitos aliados?
De facto, no limite, não se pode, até porque o Irão, no fundo, recusa que esteja a transferir drones para a Rússia. Aliás, até na imprensa internacional foi citada precisamente uma conversa telefónica entre o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, em que ele disse que de facto não estava a fornecer drones e que não confirma isso. Obviamente, nós sabemos que não é verdade, porque são encontrados os vestígios dessa Dessa utilização. Isto mostra como é complicado lidar diplomaticamente com esse tipo de fornecimento de material bélico. Aquilo que o Irã diz é que se alimenta a guerra com o fornecimento de material militar e nós achamos que isso está mal. No fundo, utiliza estes ataques para, por sua vez, criticar os países ocidentais. Pode-se dizer que aumenta um pouco a pressão, mas por outro lado, ainda temos outra questão, que é o Irão já é um país altamente sancionado, dos países mais sancionados do mundo e o regime claramente está disposto a assumir esse custo da sua política externa bastante agressiva, do apoio a vários grupos armados. Já é mais duvidoso que a população iraniana esteja assim tão de acordo com isso. Como vemos com estas manifestações massivas, em que esta também é uma questão que aparece sempre. Um dos slogans que os iranianos e que as iranianas, sobretudo, gritam nestas manifestações que já duram há mais de um mês é: "O inimigo está cá dentro. Não andem preocupados com os inimigos fora, os problemas estão cá". Mas de fato, temos esse problema de base e ainda um outro que é a Ucrânia, por exemplo, ao contrário da oposição síria, tem alguns sistemas de defesa antiaérea, vai ter mais, está a ter um reforço com novos meios fornecidos pelos países ocidentais, os Estados Unidos, a Alemanha, nomeadamente, estes sistemas NASAM e IRIS-T. Mas a verdade é que os drones são um desafio novo ou pelo menos relativamente novo, que têm dificuldades específicas. À partida, têm cargas explosivas mais pequenas, também depende do tipo, estes que estão a ser utilizados, os Shahed 2, mas sobretudo são bastante difíceis também de detetar e portanto os sistemas antiaéreos têm que ser adaptados a isso e são um desafio que vem complicar um pouco as coisas. Agora, tudo isto confirma uma outra questão que é a Rússia parece claramente estar a apostar numa estratégia de destruir as infraestruturas, nomeadamente energéticas ucranianas, tornar a vida o mais difícil possível à população civil. Não consegue fazer aquelas destruições massivas que fez na Síria, porque não tem o completo domínio aéreo e porque a Ucrânia tem outra capacidade de resposta, mas quer tornar a vida o mais complicada possível. E na medida em que não tem mísseis em quantidade, pelos vistos vai procurar compensar isso com drones, e quando não os tem de fabrico russo, seja mísseis, seja drones, vai procurar outros países para se abastecer. Há poucas possibilidades a esse nível, mas aparentemente uma delas realmente é o Irão.
Isidro Morais Pereira, ainda esta noite Zelensky admitiu, depois dos ataques de Moscovo, que o consumo de energia vai ser limitado. Ele fala que é uma medida necessária, não só para manter a estabilidade do sistema de fornecimento elétrico, mas também é mais um passo que o povo ucraniano tem de derrotar os planos da Rússia. A questão que se põe é a mesma, passados estes meses de guerra, sem uma escalada de conflito, sem uma intervenção direta com a ajuda dos países da NATO, é mesmo possível a Ucrânia vencer a Rússia?
Aquilo que se espera, e o Bruno falou e muito bem, é que existe um conjunto de sistemas de defesa antiaérea que têm estado em cima da mesa e que há muito tempo as autoridades da Ucrânia vinham solicitando ao Ocidente para que fossem fornecidos. E o que nós estamos a assistir é a oferta de vários sistemas. Daquilo que sabemos, ainda só uma bateria IRIS-T SLAM que se encontra operacional e a funcionar no teatro de operações da Ucrânia. No entanto, mais três sabemos que serão fornecidas brevemente. Sabemos que quatro baterias NASAMS, que são sistemas mais ou menos equivalentes, que ainda são interoperáveis. Ambos utilizam mísseis AMRAAM, que estão a ser fornecidos também pela Inglaterra, e Sidewinder 2. Depois temos a França também a fornecer o sistema Crotale. Temos a Espanha a fornecer um sistema antigo, mas que ainda funciona razoavelmente bem, porque foi modernizado, que é o Hawk, o sistema Hawk. E temos em cima da mesa a possibilidade de fornecimento de um dos sistemas mais evoluídos, também de médio alcance, que dá pelo nome de Arrow 2, que é uma reprodução entre Israel e os Estados Unidos. Que utiliza um dos radares multinível mais avançados do mundo, que é um C4 Isthar, é o radar Aeda. O problema é que estes sistemas já deveriam ter sido fornecidos. Se esses sistemas tivessem sido fornecidos, mesmo inclusivamente este tipo de drones que voam a baixa altitude poderiam ser detectados e poderiam ser destruídos com muito mais eficácia, embora muitos deles estejam a ser destruídos, como eu já referi. E há aqui, depois, outro problema que se vai colocar, que é coordenar todos estes sistemas. Também sabemos que está já em desenvolvimento um sistema onde estão a participar os Estados Unidos e fundamentalmente a Suécia, para criarem um sistema que seja capaz de distribuir alvos, identificar alvos e seja capaz de coordenar toda esta panóplia de sistemas de defesa antiaérea. E esta capacidade é fundamental para que a Ucrânia consiga aguentar. Quando digo a Ucrânia, nem digo as suas forças militares, digo fundamentalmente as suas populações, consigam aguentar a fúria dos bombardeamentos russos. E sabemos que a Rússia está curta em termos de mísseis de produção russa, mas está a adquiri-los ao Irão, claramente, quer dizer, mísseis que têm praticamente o mesmo efeito E é preciso proteger de alguma forma as populações ucranianas e as infraestruturas, fundamentalmente as estações de transformação hidroelétrica, as barragens, as centrais de produção de energia, porque, por exemplo, nós sabemos que Zaporíjia e a Energatom foi a última linha que ainda estava conectada, foi destruída durante esta noite através de bombardeamentos russos. Portanto, energia vinda de Zaporíjia é para esquecer, não vale a pena pensar nisso. O que estamos a perder? É que, de facto, ou estes sistemas de defesa antiaérea funcionam e serão devidamente coordenados e chegam ao teatro e a Ucrânia vai ser capaz de se defender, pelo menos durante o período do inverno, e quando a primavera começar para o ano, em finais de fevereiro, assistiremos novamente à guerra do movimento e não tanto à guerra do fogo. É uma questão crucial que todos estes sistemas comecem a funcionar de uma vez por todas de forma devidamente coordenada. Nós até sabemos que a Rússia, é incrível, a Rússia que até agora não tinha utilizado MIG-29, tinha utilizado aviões mais modernos, sabemos que a Rússia está a ativar os antigos MIG-29 das suas bases de armazenamento, nomeadamente já os transportou para o aeródromo de Millerovo. Isto são informações credíveis, porque também a Rússia em termos de aviação, que possui os MIG-35 e outros aviões já mais evoluídos, face ao elevado número de aviões que têm sido abatidos, também já está a pôr novamente em funcionamento os MIG-29, assim como está a tentar pôr novamente no campo de batalha os T-62, os velhinhos T-62, face naturalmente às sanções que têm sido objeto e porque não está a ser fácil obter os microchips necessários para pôr a funcionar armas mais modernas. Este é um bocado o estado da arte em termos do que se está a passar no teatro de operações da Ucrânia.
Não está fácil. Bruno, vamos falar ainda só rapidamente que eu gostava também da estratégia da Segurança Nacional dos Estados Unidos, foi conhecida esta semana. As prioridades é conter a ascensão da China e também as ameaças da Rússia. Ora, a narrativa do lado contrário é a mesma, ou seja, do lado da China, do Irão, da Rússia, é conter o domínio que os americanos querem ter do mundo. Até o Irão os acusa destes protestos que agora acontecem também por lá. Como podem os americanos conter, na verdade, esta arrogância de Putin e o poder global da China?
De facto, é um documento interessante que eu convido os ouvintes a ver, está disponível no site da Casa Branca. É interessante a distinção entre as duas ameaças. A China é apontada como uma ameaça mais estruturada, multidimensional, o único país que claramente pode rivalizar com os Estados Unidos e que segundo a estratégia pode ameaçar, de facto, a ordem global vigente desde 1945 em todas as áreas, mas com a qual ainda assim é possível algum diálogo e cooperação nalgumas áreas. A Rússia é apontada como um país mais fraco e, portanto, com menos capacidade de desafiar os interesses norte-americanos, mas ao mesmo tempo bastante mais agressivo, bastante mais apostado na utilização de meios militares e em particular como uma ameaça imediata e presente, sobretudo à ordem de segurança europeia. Em relação aos aspetos mais concretos, os Estados Unidos apostam nesta ideia em relação à China, por exemplo, de um reforço da sua capacidade de inovação tecnológica, insistem muito na necessidade de tirar o máximo partido destas tecnologias emergentes também na sua dimensão militar e fazer isso em cooperação com os países aliados também para manterem a capacidade de as alianças funcionarem com, como eles dizem, mantendo esta vantagem tradicional ao nível da tecnologia, que realmente é algo que caracteriza o chamado modo ocidental de fazer a guerra, mas também dar resposta, por exemplo, ao nível económico, ao nível ambiental, inclusive às preocupações de muitos países de uma forma mais cooperativa. Em relação à questão da Rússia, realmente há algumas referências à questão da invasão, que é um desafio que é incontornável. É deixado claro que aí a resposta, obviamente, é dito no texto, terá de também se adaptar àquilo que forem as dinâmicas do próprio combate no terreno. Obviamente, isto é uma estratégia à partida com horizonte de médio prazo e não propriamente uma estratégia de resposta a este conflito especificamente e não certamente de forma detalhada. Aliás, haverá depois uma estratégia militar também mais detalhada. Mas o que eu acho aqui interessante destacar em relação à questão da Rússia e da Ucrânia é, por um lado, eles assinalarem que em termos estratégicos, esta guerra deve ser uma derrota estratégica para a Rússia e que os Estados Unidos estão convencidos que estão a conseguir esse objetivo, que está a reduzir o prestígio, até o estatuto e a influência da Rússia em várias regiões, nas relações com outras potências, como por exemplo, a China. E por fim, eles dizem, no fundo, acho que este é o último ponto a destacar, que não irão permitir que a Rússia atinja os seus objetivos através da utilização de armas nucleares. Portanto, isto é, de facto, uma linha vermelha bastante clara e que está aqui consagrada no principal documento estratégico dos Estados Unidos e que corresponde àquilo que nós também temos ouvido de forma mais ad hoc e mais informal, mas eu acho que é de facto importante e é fundamental que os Estados Unidos realmente garantam que é assim, porque senão seria de facto o descrédito para os Estados Unidos. Mas é aqui um sinal muito forte de que se a Rússia pensar em utilizar armas nucleares táticas, os Estados Unidos vão garantir que isso não resultará em avanços no terreno e tomarão as medidas militares que forem necessárias para que isso não aconteça.
Bruno Cardoso Reis, Major-General Isidro Morais Pereira, muito obrigada por terem estado conosco em mais um "Gabinete de Guerra". Um bom dia para os dois.
Bom dia.
Bom dia, muito obrigada.