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Abrimos agora a porta do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Sou Beatriz Félix e hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, boa tarde, Beatriz.

Obrigada por aceitares este nosso convite. Queria começar este Gabinete de Guerra pelo Médio Oriente. Há aqui várias coisas a falar, mas começo já por uma delas, porque hoje Donald Trump publicou na Truth Social uma imagem que mostra o Estreito de Ormuz como novo território dos Estados Unidos, uma publicação sem legendas, dias depois de Trump ter dito que em breve vai poder declarar esta via marítima como território norte-americano. O Irão reagiu. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do país diz que esta ilusão sobre Ormuz vai ser corrigida. Teerão diz também que o estreito vai continuar fechado até que os Estados Unidos cumpram os compromissos estipulados no acordo assinado em junho. Mas pergunto-lhe: com uma atitude dessas por parte de Donald Trump, fica claro que os Estados Unidos não querem fazer a sua parte?

Eu acho que com uma atitude dessas nada fica claro. Ou se quisermos, só fica claro que Donald Trump é um presidente sem precedentes, mas também sem limites e sem nenhuma credibilidade. Declarar um novo território a que título? Desde logo, isto legalmente não tem nenhuma validade, em termos de lei internacional, porque não é por um Estado declarar unilateralmente uma coisa que isso passa a ser reconhecido. Para mais, nós sabemos, por exemplo, Portugal está a tratar disso há anos e anos, para reclamar algum tipo de jurisdição sobre áreas marítimas, tem de haver um correspondente território terrestre que justifique e que seja o ponto de partida dessa reclamação. Os Estados Unidos não têm nenhum território terrestre nesta zona. Quem tem é o Irão e Omã. Mesmo em termos de legalidade interna dos Estados Unidos, isto também não tem nenhuma legalidade interna. O presidente não pode unilateralmente declarar algo território americano. Teria sempre de haver um envolvimento do Congresso, do Parlamento dos Estados Unidos. Portanto, isto não faz realmente nenhum sentido e depois também não se percebe quais são os ganhos em termos deste contexto específico do conflito. A reação previsível do Irão é ver isto como uma provocação, denunciar isto como não sendo credível e anunciar que vai provar que isto não é verdade. No fundo, o único efeito que isto pode ter, se tiver algum prático, é eventualmente levar o Irão a fazer mais ataques, a reforçar a ameaça sobre o Estreito de Ormuz para mostrar que isto não é verdade. Isso é exatamente o contrário daquilo que seria lógico e racional que Donald Trump quisesse, porque ao contrário também do que ele diz nas declarações que tem feito, inclusive agora nas últimas horas, o estreito realmente não está seguro, não está aberto à navegação civil e as provas estão nos factos. Temos ataques a navios ou ameaças disso e temos uma redução drástica da navegação. O estreito nunca esteve completamente fechado, porque há alguns navios que arriscam, inclusive navios iranianos, essa passagem, mas passámos de uma média de 120 a 150 navios por dia para, nas últimas semanas, qualquer coisa como oito e 12 navios. Isso mostra bem que estamos longe de estar numa situação de segurança, de normalidade no Estreito de Ormuz.

E apesar de ontem Trump ter dito que estava a falar com as autoridades iranianas e que o Irão devia hastear esta bandeira branca, o Irão veio depois desmentir, esclarecer que não houve conversas de bastidores. Hoje, Trump muda de posição e diz que não há realmente conversas com o Irão, nem em curso, nem planeadas. Garante-se, ainda assim, que o Estreito de Ormuz estava aberto, em operação e que todas as minas foram retiradas ou detonadas. E há também uma outra declaração, a de António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, que deixa um apelo tanto a Washington como a Teerão para que sejam retomadas estas negociações e defende que a solução para este conflito não é militar. Concorda com esta posição de António Guterres? Qual é que deve ser o caminho a traçar em direção à paz? Não uma paz podre, mas sim uma paz realmente duradoura.

Ao contrário do que as pessoas dizem, por vezes a solução para certos problemas são ações militares. E não há outra solução a não ser algum tipo de ação militar. A Segunda Guerra Mundial é um exemplo clássico disso. Acho que ninguém com o mínimo de credibilidade acredita que fosse possível travar alguém como Adolf Hitler se não fosse pela via militar. Ou mesmo, por exemplo, a intervenção dos Estados Unidos contra a Al-Qaeda no Afeganistão. Realmente, os talibãs tinham recusado entregar a Al-Qaeda e a Al-Qaeda tinha claramente uma intenção agressiva contra os Estados Unidos e provavelmente esses ataques foram muito importantes para evitar que houvesse depois ataques terroristas de grande escala, como também contra o Estado Islâmico, mais recentemente, contra alvos ocidentais. A guerra pode ser, de facto, um mal necessário. Agora, neste caso, aquilo que me parece que é o grande problema é que não se vislumbra uma solução fácil do ponto de vista militar ou diplomático. Do ponto de vista militar Os Estados Unidos estão com limitações em termos das suas capacidades. Ouvimos nos últimos dias notícias sobre este porta-aviões, o USS Abraham Lincoln, o tipo de navio mais poderoso da esquadra americana, que tem os seus marinheiros no limite das suas capacidades porque está quase há 300 dias seguidos em missão. Isso não é possível em termos de manutenção e da própria saúde e eficácia dos soldados. A questão dos arsenais, das limitações no tipo de armas que os Estados Unidos têm disponível, e até em termos de tipo de alvos. Os Estados Unidos já fizeram ataques massivos sobre o Irão a dezenas de milhares de alvos e isso não alterou a postura do regime, que é um regime que tem uma enorme capacidade de resistência, de encaixe e também de sacrificar o bem-estar, a segurança da sua população para se manter no poder e atingir os seus objetivos. Tem mostrado isso desde 1979. Por outro lado, em termos diplomáticos, também não se vê soluções fáceis, porque inclusive o que estamos a assistir, acabámos de falar disso, é uma espécie de constante guerra verbal dos dois lados, com insultos, com ameaças dos dois lados. Tivemos o Irão a anunciar recompensas de, penso que era $25 mil por cada soldado americano morto ou capturado nos últimos dias, e a completa ausência de confiança entre as partes. Neste momento, Donald Trump ameaçou até militarmente um país que é um aliado histórico dos Estados Unidos e que tem sido um mediador também histórico nestas negociações com o Irão, que é Omã, que é o outro Estado crucial para o controle do estreito. Tudo o que vemos torna difícil acreditar que haja aqui o mínimo de clima favorável a que haja algum tipo de negociação credível e com possibilidade de chegar a um acordo. O drama realmente é que, digamos, ao contrário do que diz António Terres, sendo verdade que a solução militar parece muito difícil, não é de todo evidente que a solução diplomática seja a mais viável.

E agora do Médio Oriente, viajamos para a Europa para falar de outro conflito, vamos para o conflito armado na Ucrânia. Falamos da embaixada da Rússia em Londres, que avisou que o Reino Unido vai ter de responder pela colaboração militar com a Ucrânia, isto depois de ter sido divulgada uma informação de que drones britânicos terão sido utilizados por Kiev para ataques no território russo. A Rússia diz que o Reino Unido se torna assim cúmplice e também coautor destes ataques e que optou deliberadamente pela escalada do conflito. Uma ameaça que já teve resposta. O primeiro-ministro britânico diz que o Reino Unido vai continuar a apoiar a Ucrânia a 100% contra aquela que diz ser uma guerra ilegal liderada por Vladimir Putin. Esta ameaça do presidente russo, de que Londres poderá ter de sofrer as consequências, pode ser um alerta não só para o Reino Unido, mas também para toda a Europa?

A mim parece-me que o dado que há que sublinhar é: a Rússia começou a atacar a Europa e inclusive a Grã-Bretanha, desde o tempo em que eu vivia na Grã-Bretanha, no início deste século. Houve, por exemplo, um caso famoso do envenenamento de um dissidente russo, do Litvinenko, com um veneno, com uma arma química, em pleno centro de Londres. Houve vários episódios desse, o caso Skripal em 2018, também alguns anos antes da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022. Isto não é propriamente algo novo e não é simplesmente o resultado do apoio dos países ocidentais à Ucrânia. Depois, os países ocidentais sempre disseram e sempre avisaram a Rússia de que isto ia acontecer, de que se houvesse uma agressão em grande escala armada, militar, ilegal e como está reconhecida pela esmagadora maioria dos Estados das Nações Unidas, da Rússia contra a Ucrânia, os países europeus, os países ocidentais, as democracias europeias iriam ajudar a Ucrânia a defender-se. A Rússia não terá acreditado nisso ou acreditou que isso não seria eficaz, mas esse aviso foi feito para tentar evitar aquilo que foi realmente uma escalada, que é esta invasão em grande escala da Ucrânia, o facto de a Rússia ser a primeira grande potência desde 1945 a entrar abertamente numa guerra de conquista na Europa, ter tornado a Europa o continente, pela primeira vez também desde a Segunda Guerra Mundial, com mais mortes em combate nos últimos dois anos. Tudo isso é resultado das ações e da escalada militar russa. Aquilo que os países europeus estão a fazer é algo que a lei internacional permite e, em certo sentido, até não só legitima, mas quase que obriga, que é ajudar um país a defender-se de uma agressão armada ilegal de outro. E foi também algo que se fez múltiplas vezes desde a Segunda Guerra Mundial. A própria União Soviética e a própria Rússia têm muitas vezes armado potências, grupos hostis a potências ocidentais. Há, por exemplo, um caso famoso logo nos anos 50, na Guerra da Coreia, que sabemos, e logo na altura também se sabia, que a Força Aérea da Coreia do Norte, na Guerra da Coreia, basicamente eram aviões russos com pilotos russos pintados com as cores da Coreia do Norte. Isso não levou à Terceira Guerra Mundial, nem levou a um conflito direto entre a Rússia comunista, a União Soviética e os Estados Unidos. Estas ameaças da Rússia não fazem nenhum sentido, não têm nenhum amparo legal, são mais uma tentativa de chantagear a Europa e de dissuadir a Europa de fazer aquilo que deve fazer, quer em termos dos seus interesses, quer dos seus valores, que é apoiar a Ucrânia. Agora, isso não quer dizer que não haja realmente o risco de continuação deste tipo de ações híbridas da Rússia em relação à Europa, ações de sabotagem, de assassinato, ciberataques. Isso intensificou-se em escala e provavelmente vai continuar e até se poderá intensificar no caso de haver algum tipo de pausa no conflito na Ucrânia, porque a Rússia fica com mais disponibilidade para fazer isso e eu não acredito que a hostilidade da Rússia em relação à Europa livre diminua se eventualmente conseguir algum tipo de cessar-fogo na Ucrânia.

E chegamos assim ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Mais uma vez, obrigado por se ter juntado a nós nesta tarde.

Obrigado, boa tarde.