Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Que começa com as mais recentes declarações de Donald Trump, declarações aos jornalistas há pouco na Casa Branca. Nicky Cavallieri, boa tarde, bem-vinda, obrigado pela disponibilidade. O presidente dos Estados Unidos volta a dizer que o país pode vir a atacar o Irão outra vez. Diz também que os Estados Unidos estiveram a uma hora de lançar novos ataques contra o Irão. Esta retórica serve mais de ameaça ou, de facto, estamos na iminência de uma nova intervenção militar norte-americana?

Eu penso que estamos num constatar de perda de credibilidade, porque já foram várias vezes que Donald Trump ameaça escalar este conflito. Escalar, ou seja, não só renovar os ataques, mas também acertar ou ter como alvos determinadas infraestruturas elétricas e civis, ou pelo menos que são usadas tanto para meios civis como militares, e que poderia degradar em muito aquilo que é o dia a dia não só do povo iraniano, mas também aquilo que resta da economia que consegue alimentar esta guarda revolucionária, que consegue se manter no poder. Mas o problema é que se na semana passada foi o Paquistão que tinha pedido aos Estados Unidos para não atacar, porque haveria uma proposta em cima da mesa que estaria pronta para satisfazer aquilo que seriam os temas principais que são importantes para os Estados Unidos conseguirem resolver, nomeadamente o programa nuclear, os mísseis balísticos e o financiamento de proxies. Não foi o Paquistão, mas foram os aliados do Golfo, o Catar, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Isto há dois problemas. Primeiro, é aceitar que o medo da retaliação iraniana em determinados alvos energéticos destes três países é o suficiente para estes países fazerem pressão relativamente aos Estados Unidos e a Israel, para então não renovarem os ataques. Isso quer dizer que o Irão está a conseguir efetivar uma arma assimétrica que possui. Uma era o controlar o Estreito de Ormuz, que nós sabemos que isso tem impacto na economia americana e na economia global, mas a outra é, no fundo, ameaçar causar dor o suficiente naquilo que são os aliados do Golfo, para estes fazerem pressão para os Estados Unidos e Israel não renovarem os ataques. Não esquecer que os Estados Unidos têm apoio logístico importante por parte dos Emirados Árabes Unidos, da Arábia Saudita e o Catar naquilo que é uma operação que envolve sempre reabastecimento, movimentação de armamento e de aeronaves. Isto significa que há aqui uma espécie de disjunção ou interesses partidos relativamente a esta coligação de atores que querem, naturalmente, que o regime islâmico desapareça ou saia muito enfraquecido, mas que neste momento não conseguem concordar naquilo que deve ser o mecanismo de pressão para levar o regime a ceder.

Sendo que hoje também é notícia, o Parlamento iraniano recebeu um relatório sobre as negociações em curso com os Estados Unidos e é sabido que o regime iraniano mantém a exigência de levar por diante o programa nuclear para fins pacíficos. Tendo em conta esta premissa negocial por parte do Irão, como é que vamos sair deste impasse negocial?

Normalmente, obriga-se alguém a ceder, impondo, se as ameaças não funcionam e aquilo que tem sido o sufoco econômico provocado por este bloqueio naval, é no fundo, impondo mais dor. Isto é uma regra básica da guerra, que a guerra é um meio para forçar decisões políticas a uma parte relativamente a um adversário ou a uma parte que não esteja disposta a fazer por outros meios. E o problema é que o Irão continua na sua posição maximalista, vê também que consegue, através de ameaçar o Estreito de Ormuz, que são com muitos poucos meios, os iranianos têm basicamente lanchas muito pequenas com uma metralhadora à frente e essa dissuasão, essa ameaça, que é de baixo grau, é o suficiente para dissuadir petroleiros e navios de carga. E obviamente, essa dissuasão é compreensível. Eu também se fosse uma empresa de petroleiros, provavelmente não arriscaria, mas isso basta para controlar o Estreito de Ormuz. E também basta a ameaça de alguns mísseis balísticos e de drones, aquilo que é o arsenal que ainda resta ao Irão. Debate-se muito quantos mísseis balísticos é que eles ainda têm ou quantos drones ainda têm, mas essa ameaça de poder afetar as infraestruturas dos países do Golfo é o suficiente para a ala mais radical da chefia iraniana se manter confortável em tentar ter ou obter uma posição maximalista nessas negociações.

Apesar dos impactos econômicos para o próprio Irão.

Sim, os impactos econômicos eu penso que se sentem, muitas vezes são desvalorizados, mas a situação econômica está bastante degradada e deteriorada. Não esquecer que 90% daquilo que é a economia iraniana depende de exportações e importações que partem ou chegam de portos iranianos. E o bloqueio naval americano tem sido eficaz. Não quer dizer que não haja nenhum navio que passe, mas já cerca de 90 petroleiros e navios de carga não passaram. E isso para uma economia que depende muito também daquilo que é a exportação do petróleo para a China, por exemplo, isso impacta. E também a guarda revolucionária domina cerca de 40% a 50% da economia iraniana. De certeza que toda esta organização que tem o controle do poder militar, porque o exército iraniano está muito enfraquecido em termos de autonomia relativamente à guarda revolucionária, mas também todo aquele esquema de repressão doméstica que depende do financiamento que esta guarda revolucionária detém e controla, isso naturalmente deixarem de ter esses meios financeirosÉ algo que impacta a sua capacidade de manter a arquitetura de repressão doméstica e também os combatentes que são necessários, além daquelas indústrias de base do setor militar, que também foram muito abatidas e muito degradadas. O problema é que não parece ser o suficiente. Também se existe uma facção interna iraniana mais moderada, muitas vezes dizem que representada por Ghalibaf, que é o speaker do Parlamento, o presidente do Parlamento, ou Araghchi, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros, em oposição, talvez, a uma facção mais fanática, liderada pelo comandante da Guarda Revolucionária, que é o Vahid, e também o seu tenente-general, que é o Jalili. Se existe uma disputa, então a facção mais fanática está a ver a sua posição mais reforçada, porque quer dizer que as armas assimétricas que o Irão consegue utilizar estão a funcionar, porque os Estados Unidos e, por conseguinte, Israel, porque Israel agir sozinho sem o apoio americano seria difícil, não estão a dar este passo de fazer a pressão militar que é necessária. E isto, a determinada altura, parece que Donald Trump está mesmo a hesitar, por mais que a retórica que ele utilize seja de "estamos quase a atacar", "estamos quase a dar luz verde à operação militar", mas então agora os líderes dos países do Golfo disseram que, afinal, há um acordo que está pronto para satisfazer aquilo que são os requisitos americanos, mas nada em concreto aponta para esse sentido.

E o impasse mantém-se. Tema também deste "Gabinete de Guerra", a visita que Vladimir Putin inicia hoje a Pequim, à China, vai encontrar-se com o presidente chinês Xi Jinping, poucos dias depois de Xi Jinping ter recebido, em Pequim, também Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. Há algum sinal relativamente a esta proximidade das duas visitas ou é uma mera casualidade?

Não é casualidade, mas também é a confirmação de algo que é evidente, que em termos geopolíticos, a Rússia e a China têm relações muito intensas, muito estreitas e fazem aquilo que é um eixo de bipolaridade entre os Estados Unidos, potência hegemônica até agora, que está agora neste momento a ser desafiada pela aliança China e Rússia. A China recebe muito petróleo e gás natural a baixo preço da Rússia. Isto é interessante, porque esta visita são dois dias depois de Donald Trump alegar que Xi Jinping diz que é possível ou muito provável que Vladimir Putin ainda se arrependa da invasão da Ucrânia. Isto são declarações que Trump diz que Xi Jinping lhe disse, o que para aquilo que é uma aliança ou dois homens que são muito próximos politicamente e em termos pessoais, Xi Jinping e Putin, cria uma dinâmica interessante, mas também é numa altura em que Putin está extremamente vulnerável naquilo que é a fase que está a viver nesta guerra com a Ucrânia. Nós tivemos ataques que foram visualmente muito impactantes a Moscovo e a determinadas infraestruturas energéticas na Rússia, o que significa que a Ucrânia, com a sua inovação tecnológica, a sua capacidade de produção doméstica de mísseis de cruzeiro e também de drones com baixo custo, mas muito eficazes, estão a impor uma ameaça e um dano à normalidade da vida da população russa que muda um pouco aquilo que tem sido o esquema de análise deste conflito desde 2022. Porque nós sabemos que há muitos soldados russos a morrerem e muitas baixas russas por mês, cerca de 30 mil, já mais de 1 milhão e meio de russos ou morreram ou ficaram feridos, e isso por pouco terreno ganho. Mas agora ver estas imagens que impactam de Moscovo a ser atingida e a população civil a sentir um pouco, de forma mais premente, as consequências deste conflito, é um desenvolvimento interessante. Nós estamos numa fase da guerra em que Putin parece de maior vulnerabilidade, Zelensky e a posição ucraniana estão reforçadas, nomeadamente pelos 90 bilhões de dólares que foram transferidos da União Europeia para a Ucrânia. Isso tem sido fundamental para também sustentar esta escalada. E eu penso que esta visita de Putin a Xi Jinping é para tentar, naturalmente, reforçar este apoio que a China tem sido fundamental.

Apoio a que nível?

Peço perdão?

Apoio a que nível?

A dois níveis. Antes de mais, de continuar a financiar a máquina de guerra através das importações, sendo certo que a China está numa situação abusiva relativamente à Rússia, porque naturalmente tanto o petróleo como o gás natural estão sob sanções, então a China consegue impor, como comprador, com uma grande posição negocial, baixíssimos preços. Não esquecer que a China é o maior financiador e o grande apoio tanto da Rússia como do Irão, pelo que a China, por mais que as fotografias demonstrem uma grande amizade entre Donald Trump e Putin, Donald Trump e a sua administração, e também, espero eu, os líderes europeus sabem que a China é o seu grande adversário político. Mas a segunda grande forma de apoio que a China terá é através de todos os componentes que são necessários para alavancar uma produção militar na Rússia, nomeadamente de mísseis balísticos de longo alcance, e também tudo aquilo que tem sido a falta de armamento de qualidade, de tanques, de transporte, que muitos daquilo que são os componentes, alguns componentes, terão de vir da China. E isso também será importante reiterar ou pelo menos ver se na parte de Putin consegue mais concessões, consegue mais ajuda daquilo que é o seu grande parceiro.

Será seguramente um tema que vai dominar as próximas horas, sendo que nesta altura o presidente russo Vladimir Putin chegou a Pequim. Foi precisamente agora que aterrou o avião que transporta o presidente russo. Ana Cavalieri, obrigado pela presença nesta edição de "Gabinete de Guerra", especialista em assuntos internacionais, com estes dois temas no topo da agenda, o impasse em torno das negociações entre Estados Unidos e Irão, com novas ameaças de Donald Trump e uma intervenção militar em território iraniano, e também este encontro, esta visita oficial de Vladimir Putin a Pequim, poucos dias depois de Xi Jinping ter recebido o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.