Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos agora a porta do Gabinete Guerra da Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais tensões geopolíticas do mundo. Eu sou Beatriz Félix. Hoje contamos com a análise da especialista em assuntos internacionais, Ana Cavalieri, aqui conosco em estúdio. Boa tarde, seja muito bem-vinda. Obrigada por ter aceitado este nosso convite.

Muito obrigada, boa tarde.

E se calhar vamos começar com o presidente iraniano, que defendeu que chegou o momento de terminar com a guerra nos Estados Unidos. Diz que Teerão se encontra numa posição de força perante Washington e promete também uma resposta devastadora a quaisquer novas ameaças norte-americanas. Isto depois de Washington ter anunciado a intenção de impor sanções financeiras, as mais duras da história, para pressionar a liderança iraniana. Há também o presidente do Parlamento do Irão que diz que o país tem de preparar para estas sanções cruéis impostas pelos Estados Unidos. Fala-se em preparação tanto na terra como no mar e pergunto: o que é que podemos esperar desta postura mais defensiva do Irão?

Isso é interessante porque, naturalmente, se nós observarmos aquilo que tem sido a postura nos últimos meses, a postura iraniana tem sido escalada e ofensiva. No fundo, aquilo que o presidente Pezeshkian está a referir é que terminaria a guerra, mas naturalmente em condições que os Estados Unidos não poderiam aceitar, nomeadamente retirando não só as tropas e supostamente relaxando a estrutura de segurança coletiva da CENTCOM, que é, no fundo, o braço das Forças Armadas americanas que lidera uma coligação da sua presença no Médio Oriente, mas também juntamente com os outros países do Golfo. Ou seja, haveria uma retirada, não só toda a logística que tem estado neste momento a conduzir as operações, mas a própria presença em bases americanas. Isso naturalmente seria impossível os americanos de aceitar e também seria reparações, levantamento de sanções e aquilo que seria o reconhecimento formal do controle do Estreito de Hormuz por parte do Irão. Isto seria inaceitável. Ao mesmo tempo, Pezeshkian diz que está numa posição de força, mas existe já aquilo que tem sido uma preparação extensiva da sociedade iraniana às consequências destas sanções. Estas sanções, este pacote que foi introduzido é interessante, é uma nova fase económica, sendo certo que naturalmente sanções contra o Irão já foram aprovadas várias vezes. Mas a especificidade das sanções é que aprovar, tirar as sanções no papel, é fácil. O grande problema é a execução, é o enforcement das sanções, é saber quais as empresas fantasmas que têm contas em bancos, nomeadamente nos Emirados Árabes Unidos, que é um grande parceiro americano e um dos grandes passos que Scott Pace na sua operação Economic Fury, que é o braço económico da operação Epic Fury, que é o nome da operação contra o Irão. Um dos grandes passos que Scott Pace fez foi promover com as autoridades dos Emirados Árabes Unidos determinados espaços de transparência para ter acesso a potenciais contas em bancos no Dubai que possam estar envolvidos nesta shadow banking network, esta rede financeira de sombras que o Irão tem conseguido utilizar para continuar a ter acesso a divisas estrangeiras. E isto é sempre conjugado, ou seja, esta parte de saber como controlar o sistema financeiro que o Irão consegue para conseguir não sofrer tanto com as sanções, para, no fundo, conseguir desviar-se das sanções, é acompanhado com o bloqueio naval, que é uma parte importante do estrangulamento económico contra o Irão, que é, no fundo, o bloqueio naval que tenta fisicamente impedir que o petróleo consiga escoar pelo Estreito de Hormuz. Há aqui dois passos. Primeiro, sabemos que 90% da economia iraniana depende daquilo que chega e sai dos portos da sua costa. Então esse bloqueio degrada aquilo que são as necessidades para manter o funcionamento económico do Irão. Mas também sabemos que a CENTCOM está a conseguir ter um corredor no lado de Omã do Estreito de Hormuz, que está a conseguir escoar durante a noite, porque aí há menos visibilidade para drones ou mísseis iranianos poderem ameaçar, cerca de 20 milhões de barris de petróleo, que equivale a metade do fluxo pré-guerra. E esta combinação, tentar injetar o mercado de petróleo, evitar que o Irão consiga exportar através da sua frota fantasma para a China. E estas sanções, nomeadamente também a componente de sanções secundárias contra a China, a Índia, Turquia, Iraque, Afeganistão, que são os grandes parceiros do Irão, é interessante propor. Agora, conseguir executar, nomeadamente saber se os americanos têm capacidade de sofrer as consequências que sanções secundárias contra a China ou contra a Índia ou contra a Turquia iriam promover num ano eleitoral onde há eleições em novembro, acho difícil.

E a China diz também que a pressão económica não é a solução, pode ser de facto eficaz e falou também nas eleições intercalares que estão marcadas para o início de novembro deste ano. Acha que o facto dessas eleições intercalares existirem pode vir a condicionar a ação de Trump a partir daqui?

Totalmente. O Trump tem sido condicionado por três fatores. Limitações logísticas, ou seja, não existem interceptores suficientes nos sistemas de defesa antiaéreos, que são os Patriots e o Estado, que consigam proteger as centrais de dessalinação e as centrais elétricas, que uma retaliação de desespero iraniano contra os países do Golfo, nomeadamente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar. Se houvesse essa retaliação de desespero, um last hurrah, uma última tentativa de sobrevivência e o Irão atacasse as centrais de dessalinação, e eles precisam d'água para viver naquela zona do mundo, porque é escassa, os americanos, o cálculo é que não têm interceptores suficientes para conseguir proteger todas essas infraestruturas. Essa é a razão que impede os Estados Unidos de fazerem aquilo que normalmente se faz para acabar com o regime e degradá-lo a um ponto de não retorno, que é passar para uma segunda fase de guerra e atacar os chamados alvos e instalações duplo uso, centrais elétricas, pontes e fazer uma devastação total do país. Foi, por exemplo, o que Clinton fez contra a ex-Jugoslávia e contra a Sérvia para conseguir derrubar o Milošević O Trump, nesta nova forma moderna de fazer guerra, tem essas limitações e esses constrangimentos logísticos. Tem os constrangimentos económicos, porque naturalmente o mercado de petróleo global e o preço do petróleo fica afetado com aquilo que são as limitações do Estreito de Ormuz, e tem os condicionamentos políticos, porque sabe que é um ano de eleições intercalares e nas últimas 41 eleições intercalares, o partido do presidente perdeu. De 39 vezes, perdeu. Ou seja, é contra a história o Partido Republicano conseguir ganhar. Tudo está contra Trump em termos daquilo que é o calendário eleitoral. Qual era que tinha sido a primeira pergunta agora, porque eu comecei com as eleições intercalares, mas sobre a China e a questão económica. A pressão económica está associada àquilo que foi a devastação durante as primeiras sete semanas do conflito, daquilo que é a base industrial militar do Irão e alguns pontos estratégicos que fazem com que as sanções económicas em tempo de paz, ou seja, que não sejam em paralelo ou num passo a seguir a uma devastação primária, perante ou mediante uma ofensiva militar, sejam diferentes. Ou seja, nós sabemos que durante quase mais de uma década tem havido sanções contra o Irão e naturalmente isso dificulta o regime opressivo de Teerão, mas não o impede de não só conseguir estar no poder, como de forma perniciosa, até alimenta aquilo que é o controle que a Guarda Revolucionária tem sobre as pessoas, porque a determinada altura, quando a economia está em colapso e os grandes setores económicos, nomeadamente o petróleo e outros setores industriais, nomeadamente ligado à metalurgia, estão sob o controle da Guarda Revolucionária, a Guarda Revolucionária consegue, através de um sistema de incentivos financeiros, de subsídios e de patronagem, comprar centenas de milhares de combatentes, a vontade de se juntar a eles, porque sabem que é a única garantia de terem algum financiamento, porque não conseguem recebê-lo numa economia que esteja em condições normais. Esse é um primeiro ponto. O problema é que os grandes setores que a Guarda Revolucionária, mesmo em tempos de sanções normais, conseguia ainda beneficiar financeiramente, neste momento estão degradados por uma operação ofensiva prévia a esta suposta nova fase de guerra económica. Aquilo que o argumento americano e o argumento que Scott Pace irá utilizar é que estas sanções são feitas num contexto já de uma degradação profunda de vários períodos de sanções que levaram, por exemplo, milhões de pessoas à rua e que levou o regime a matar 40 mil. Ou seja, a inflação e as condições económicas subjacentes já estavam num nível de deterioração intenso. Depois, seguir-se-ia uma campanha cinética ofensiva militar, que derrubou os grandes pilares industriais do Irão e agora, asfixiando a capacidade de exportar petróleo e asfixiando o sistema financeiro que alimenta a Guarda Revolucionária, seria então aquilo que mais poderia prejudicar o regime. Isso será a aposta americana.

E chegamos assim ao final do nosso tempo. Hoje um gabinete de guerra um pouco mais curto. Resta-me agradecer-lhe a Siena Cavalieri, especialista em assuntos internacionais, que esteve conosco aqui em estúdio a analisar os focos de tensão geopolítica no mundo. Muito obrigada.

Muito obrigada.

O Gabinete de Guerra fica por aqui. Está de regresso na próxima semana, mas fica disponível, como sempre, em podcast.