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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Ana Cavalieri, especialista em assuntos internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Boa noite, muito obrigada.

E vamos começar por olhar para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Kiev emitiu hoje um alerta às companhias aéreas, avisa que o espaço aéreo russo deixou de ser seguro. Até que ponto acredita que a Ucrânia pode levar a cabo essas ameaças e pôr em risco aviões civis?

Antes de mais, a ameaça não é directa, é tentar fazer com que determinadas operações militares levem à perda de vida civil inocente dentro desse espaço aéreo. Eu penso que o ponto mais preciso será de que a quantidade de drones em determinados locais estratégicos considerados essenciais a bater naquilo que é o esforço de guerra russo, poderá interferir com aquilo que seria a passagem livre e segura de alguns aviões comerciais. Sendo certo que, naturalmente, isto está enquadrado num novo compromisso por parte da Ucrânia de tentar fazer uma disrupção, nomeadamente psicológica, a determinadas populações na Rússia que ainda não foram afectadas por esta guerra. E isso é importante porque nós sabemos que as elites moscovitas de São Petersburgo, não é propriamente os filhos dessas elites que são confrontados com a necessidade de se alistarem ou para o exército das Forças Armadas russas, porque a contrapartida financeira é uma alternativa à miséria com que vivem, ou então recrutamentos forçados em determinadas zonas rurais do país. E nós sabemos que a Ucrânia, com determinadas disrupções, não só ataques de drones contra Moscovo, São Petersburgo, outras grandes cidades russas, mas também a armazenamentos daquela empresa gigante do Wildberries, que é uma mistura da Amazon e eBay para a economia russa, é também uma maneira de levar os russos, que são muitas vezes alheios a determinadas consequências desta guerra, a terem também um peso, um desconforto e um sacrifício. Naturalmente, representa, em termos oratórios, uma escalada por parte de Zelensky, porque existe aqui também uma ameaça, mesmo que não seja directa, àquela que seria a possibilidade de perda de vida de russos que não são membros das Forças Armadas. E Putin já vai fazer uma conferência de imprensa a reagir de forma forte a essas declarações, sendo certo que eu não sei bem que tipo de mudança é que, por parte de Putin, isso irá causar, porque os russos, o exército russo, já há muito tempo que ataca civis, ataca infraestruturas que não servem propósitos militares na Ucrânia e fazem também constantes ataques a cidades como Kiev, para também causar essa dor psicológica e também física, porque há pessoas que morrem, na população civil da Ucrânia.

Vamos falar também da notícia que tem marcado, obviamente, o dia. A Alemanha acusou formalmente Moscovo de ter tentado atacar o aeroporto de Leipzig. A União Europeia já veio prometer mais ação, mais pressão sobre Moscovo. Como é que pode, de facto, fazê-lo? É através de novas sanções?

Eu penso que é continuar a expandir a lista de indivíduos e empresas que estão sob sanção. Isso, naturalmente, é algo que parece evidente, porque se nós queremos estrangular economicamente o adversário que está a tentar invadir o nosso território ou então, pelo menos, interferir politicamente, parece-me lógico que quanto mais sanções, melhor. O problema é que muitas vezes as sanções batem em empresas que nós, consumidores na Europa, ou porque temos a parte energética vulnerável, ou também determinados componentes que são essenciais nas nossas cadeias industriais, essas sanções muitas vezes também prejudicam os nossos setores industriais e de consumidores. Eu penso que na Europa, cada vez que nós estamos preparados a aumentar a lista de sanções, é porque também estamos a revelar que estamos dispostos, em teoria, a acolher para aquilo que será o sacrifício de economias que ainda estão um pouco interconectadas com a economia russa, por mais que nós tentemos durante estes últimos anos fazer esse decoupling, esse distanciamento. Mas existem outros meios que outros governos estão a tentar promover, nomeadamente a utilização dos ativos congelados. É algo que periodicamente é sempre discutido no Foro Europeu, porque a maior parte desses ativos estão, por exemplo, na Bélgica, num fundo que é o Euroclear, e naturalmente a Bélgica não quer entrar por esse caminho, porque fica vulnerável não só a litígio legal, jurídico, pela utilização desses ativos congelados, mas poderá haver também consequências mais sistémicas sobre a credibilidade do nosso sistema financeiro em acomodar ativos de outros países e cria desconfiança e isso poderá depois afetar os mercados financeiros. Mas nós sabemos que governos como a Espanha e a Suécia estão a pressionar para encaminhar nesse sentido, no fundo, dizendo que cada vez que a Europa sofre táticas de guerra híbrida, seja sabotagem, desde sabotagem de ferrovias ou, por exemplo, drones que não explodiram porque, graças a Deus, o mecanismo de detonação não funcionou, mas que iria explodir se tudo tivesse funcionado de acordo com o planeado da Rússia, alegadamente, iria explodir no aeroporto de Leipzig. Isso é normalmente necessário impor à Rússia custos cada vez que eles utilizam uma tática destas, ou incursões de drones em espaços aéreos da Roménia ou da Polónia ou num dos países bálticos. E o problema ou o desafio daquilo que as autoridades dos países europeus é, por um lado, retaliar de maneira a dissuadir a Rússia de prosseguir esse tipo de táticas de guerra híbrida Nomeadamente ciberataques, ataques ao nível cibernético também é algo que os russos têm feito e, portanto, nós podemos fazer medidas paralelas e também tentar fazer uma disrupção naquilo que são toda a parte de informação e de inteligência dos serviços de inteligência dos russos, ou então apressar o envio de armas à Ucrânia como retaliação. Mas é também, provavelmente, importante fazer uma resposta institucional e acionar, por exemplo, o artigo 4º da NATO. O artigo 5º é aquele artigo muito famoso, e talvez o mais importante do tratado, que é a solidarização da resposta coletiva de segurança. Se um país é atacado da NATO, todos têm a obrigação de contribuir para a resposta e a sua defesa, a retaliação e a defesa. Mas o artigo 4º é um artigo também muito importante porque abre consultas, um processo de consultas, e aquilo que seria um ataque à Alemanha passa a ser visto como, estrategicamente, em termos de reação institucional, como o ataque em que a NATO, como um todo, tem de reagir, nomeadamente promovendo medidas retaliatórias à Rússia por ter feito esse ato, que potencialmente poderia ter levado à perda de vidas no território alemão, que é um território da NATO.

Este ataque em Leipzig está longe de ser isolado. Por exemplo, no mesmo dia, um avião de carga da DHL não conseguiu aterrar neste mesmo aeroporto devido a uma colisão com um objeto no ar. Estes dois incidentes integram a longa lista de ataques, sabotagens e também outro tipo de disrupções que, desde fevereiro de 2022, os países europeus atribuem à Rússia. Uma compilação da Associated Press dá conta de mais de 200 incidentes com estas características. Este acumular de situações tem sido descrito pela União Europeia e pelos Estados-membros como uma guerra híbrida. Pergunto-lhe se acha, de facto, que estamos perante uma guerra híbrida. Isto porque têm surgido algumas opiniões algo controversas.

Total. De acordo com aquilo que eu acabei de dizer, parece que é uma estratégia abrangente e incessante que os russos têm feito e serve dois propósitos, e esses propósitos são conhecidos. O primeiro é tentar testar aquilo que é o compromisso político da NATO, ou seja, os membros da NATO sabem que naquilo que é um conflito com uma potência que tem armas nucleares no seu arsenal, como a Rússia, e que tem objetivos muito claros, expansionistas, daquilo que é o território no leste da Europa, a NATO precisa de sinalizar à Rússia que estará preparada para se sacrificar, e por sacrificar quer dizer incorrer nos custos necessários a montar uma retaliação e uma defesa do seu flanco leste. Isso, naturalmente, impõe determinados custos para as nossas sociedades. E alguns até já estamos a sentir. Um deles é, por exemplo, dissociar as nossas economias que estavam muito dependentes da energia russa, e esse processo é longo e pode também ter posto em evidência a má política energética que os líderes europeus seguiram nas últimas décadas relativamente à Rússia, mas isso impõe determinados sacrifícios que nós estamos a gerir. Outros sacrifícios é tentar pôr mais dinheiro no nosso orçamento, canalizar mais dinheiro que poderia ser normalmente dirigido àquilo que são as nossas sociedades com o Estado, com grande apoio do Estado social, poder ser dirigido à saúde, à educação a determinada altura. Temos de começar a investir mais do nosso PIB na indústria militar e nas nossas capacidades militares. E isso, paulatinamente, desde a invasão da Rússia do Donbass, sem dúvida, devia ter provavelmente sido feito desde a Crimeia em 2014, mas pronto, desde a invasão da Rússia no Donbass em 2022, também temos feito esse caminho. Isso tudo envolve sacrifícios. E então estas táticas de guerras híbridas é uma constante imposição por parte dos russos de testes àquilo que verdadeiramente, até que ponto é que nós estamos dispostos a sacrificar-nos e através das nossas respostas, para continuar a nossa ajuda à Ucrânia. E esse teste incessante, ou esses testes que são incessantes, ocorrem até ao momento em que, do nosso lado, da NATO, começamos a impor medidas que sejam tão custosas aos russos que então passem a ficar dissuadidos de continuar a fazer esses atos de sabotagem, por exemplo, nos aeroportos, isso tem sido claro. Em Leipzig foi precisamente até algo mais grave, porque havia uma possibilidade de detonação de explosivos de um avião de carga Antonov, que é utilizado pela Ucrânia, ou em direção à Ucrânia, para fazer mobilização logística militar. Mas normalmente aquilo que os russos têm feito é através de drones que fazem uma disrupção daquilo que é o espaço aéreo seguro, em que muitas vezes fecham, por algum período de horas, o tráfego aéreo num determinado aeroporto, porque não se sabe bem de onde é que estes objetos voadores estão a surgir. E isso causa disrupções naquilo que é a vida das pessoas que estão a viajar por esse aeroporto. E todos esses passos que a Rússia tem dado são testes para saber, no fundo, até que ponto é que nós, europeus, estamos preparados a conseguir retaliar de maneira que consiga dissuadi-los. E depois, paralelamente a esse teste à nossa vontade política, é também aquilo que é testar o tipo de mobilização e resposta que a NATO tem nas suas forças de mobilização rápida no flanco leste, o tipo de meios que estão a ser dispostos e coordenados naquilo que é a defesa dos Estados bálticos e também da Polónia e outros Estados que podem estar mais vulneráveis. E isso serve também para alimentar alguma discussão política em anos eleitorais importantes. Por exemplo, este ano na Alemanha é um ano eleitoral em que estas disrupções Podem também fomentar muito a polarização entre partidos, nomeadamente a AFD, que são mais pró-russos, e outros partidos que querem continuar a promover a ajuda à Ucrânia. Isso tudo tem esse propósito de acentuar essa polarização, essa tensão política dentro das sociedades de cada país europeu.

Vamos olhar também muito rapidamente para o conflito no Médio Oriente. Quase 20 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas depois de um ataque norte-americano ao Irã ontem à noite. Um dos ataques atingiu um local onde decorria um casamento. O Irã já veio dizer que estamos perante um crime de guerra. Teerão tem razão nesta queixa?

Não sei, tem de haver uma investigação. Eu, por norma, não acredito naquilo que as fontes oficiais de propaganda do regime iraniano vinculam, até porque também é um caso em que toda aquela arquitetura militar muitas vezes está misturada, está infiltrada em setores civis de cidades. É muito difícil, num contexto do tipo de guerra, nós vemos, por exemplo, em outros conflitos, como por exemplo Israel, na Faixa de Gaza contra o Hamas ou no Hezbollah, sul do Líbano, e todas estas organizações militares que utilizam os seus civis, e nós sabemos que se há regime que matou os seus próprios civis, é o regime da Guarda Revolucionária, que só em janeiro matou mais de 40 mil. Isto tudo para dizer que não me parece que salvaguardar a vida de civis seja uma prioridade do regime iraniano, da Guarda Revolucionária e o regime iraniano. Pelo que qualquer choque ou acusação de que um casamento ou uma celebração foi explicitamente atacada para efetivamente matar esses civis que estavam a celebrar esse casamento por parte das Forças Armadas americanas, eu penso que isso é muito duvidoso. Eu penso que aquilo que tem sido as rules of engagement dos americanos tem efetivamente privilegiado exclusivamente alvos militares, o que não quer dizer que muitas vezes, como no caso da escola daquelas meninas, um alvo que já não era militar, mas que há alguns anos eram instalações que faziam parte do compound da Guarda Revolucionária naquela zona, não tenha havido um engano sério e grosseiro e que deve ser investigado e responsabilidades averiguadas pelo engano ou pela negligência, não devam ser investigadas. Mas eu penso que a Guarda Revolucionária, que acabou de matar mais de 40 mil civis em protestos, está neste momento muito preocupada em fazer valer a prioridade da proteção de vidas civis no seu território. Eu penso que é apenas uma manobra de propaganda política e não propriamente uma emoção genuína de choque pela perda de vida civil, se ocorreu. E se ocorreu, eu creio que daquilo que são as rules of engagement das Forças Armadas americanas, não foi deliberado, não havia um propósito de atingir militarmente aquele casamento. O que não quer dizer que não tenha acontecido, mas não nos termos em que a Guarda Revolucionária tem retratado.

Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Ana Cavalheiri, especialista em assuntos internacionais. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigada.

Boa noite. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.