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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, boa noite.
Boa noite. Começamos pelo Médio Oriente. Donald Trump diz que aceitou regressar às negociações a pedido do Irão, mas Washington deixa claro que está pronto para responder se o Irão atacar navios ou alvos civis. Afinal, ao fim destes dias de recuos, com os Estados Unidos a dizerem que o cessar-fogo tinha chegado ao fim e com ataques também de ambos os lados, mudou alguma coisa ou as negociações continuam de pé como anteriormente, talvez algo mais frágeis?
Não é nada de novo. O que temos vindo a verificar é que este cessar-fogo, este novo recuo de descida da tensão entre as duas nações, coloca algumas questões de fundo e que podem ser realmente difíceis de resolver a longo prazo. A primeira questão é se realmente estamos a falar de um memorando de entendimento que demorou a cozinhar, a ser preparado e que teve dois mediadores, o Catar e o Paquistão, que são famosos pela sua capacidade de mediação e pela sua capacidade diplomática, e que já são famosos, principalmente o Paquistão, desde a Guerra Fria, por essa mesma capacidade, também um pouco à boleia do esforço diplomático chinês na altura, e que não foram capazes até agora de resolver esta situação. Estamos a falar de uma mediação que vem quase desde fevereiro, março. Portanto, a primeira questão de fundo é que os mediadores não têm sido capazes de levar a bom porto esta negociação e não têm sido capazes de parar aquilo que são os atos voláteis, beligerantes de ambas as partes, tanto do Irão como dos Estados Unidos. Este é o primeiro ponto. Depois, há uma segunda dimensão muito clara que é o Estreito de Ormuz continuará a ser um problema, principalmente enquanto o Irão e Omã não chegarem a um acordo relativamente à cobrança da tal taxa de serviço, que em tempos chamávamos de portagem, agora no memorando de entendimento tem o nome ligeiramente diferente, que é taxa de serviço. É preciso perceber quem é que controla aquelas águas internacionais, porque o Irão, neste momento, o que tem feito é apostar na coerção ou apostar na disrupção daquela área, a partir de lanchas ou drones, que são não só muito baratas, mas também percebe-se que a partir do momento que temos estes ataques, as seguradoras sobem os seus prêmios e então os navios optam por não passar. E enquanto os navios não passarem, Donald Trump também não vai sair da região. Por isso é que o Donald Trump reagiu assim que três petroleiros ou três navios, tanto de petróleo como de gás natural liquefeito, foram atacados por forças iranianas, o que levou a este tal fim do novo cessar-fogo. E depois temos a terceira vertente, que é se realmente temos negociações e temos essas negociações tão longas como sabemos, onde é que está a capacidade diplomática dos Estados Unidos? Onde é que está aquela capacidade da administração Trump, principalmente Kushner, de Witkoff, daquelas pessoas que são muito próximas de Donald Trump. Donald Trump personalizou muito o seu corpo diplomático, mas a verdade é que se esquece de uma parte, que é a falta de um conhecimento, falta um know-how por trás, e é muito disto que os Estados Unidos neste momento estão a padecer, estão a sofrer, que é o Irão não está preocupado necessariamente com aquilo que são as sanções norte-americanas, não está preocupado necessariamente com aquilo que são os ataques agora a Badarán Base, por exemplo. Por quê? Porque não só a Guarda Revolucionária está desdobrada no território, portanto Badarán Base não é um problema de base, como também sofre com estas sanções há 20, 25 anos. Aqui o grande problema é que enquanto continuarmos a ter esta tensão, e não vamos aqui para outros conflitos, poderíamos falar eventualmente do Líbano e até do Hamas, mas enquanto tivermos esta tensão, as cadeias logísticas estão paradas e as cadeias logísticas não podem estar paradas para sempre. E se nós agora temos a subida dos preços devido à especulação dos mercados, porque o Estreito de Ormuz está encerrado, daqui a uns anos vamos começar a sofrer, não da especulação, mas de fato, da falta de liquidez, da falta de produto, do estoque, que não passa, que não flui pelo Estreito de Ormuz.
Entretanto, a administração Trump fez saber que não quer Israel envolvido nos novos ataques ao Irão. Por quê?
Donald Trump, neste momento e no último mês, principalmente desde que começamos a falar do memorando de entendimento e que começamos a perceber que poderíamos ter aqui uma declaração de boa fé de ambas as partes, mesmo que depois não se tenha declarado ou que tenha resultado numa declaração que não é assim de tão boa fé, mas a verdade é que Donald Trump tem tentado autonomizar os Estados Unidos de Israel, porque a intervenção foi conjunta logo inicialmente, e foi conjunta porque não é Donald Trump, foi conjunta porque é uma linha-mestra da política externa norte-americana o apoio a Israel, mesmo dos democratas, temos Hillary Clinton, temos o próprio Obama a fazer defesas de Israel, da existência de Israel e de Israel como uma grande potência do Médio Oriente. Não é um fenômeno nem sequer do Partido Republicano, nem sequer do MAGA ou do próprio Donald Trump. A única diferença é que Donald Trump, de fato, foi para o território e de forma muito incauta, diria eu. E agora, o que tem a fazer perante aquilo que é a teimosia israelita de não abandonar a sua principal vantagem líquida desse conflito, que é conseguirem ocupar uma parte, uma buffer zone, uma zona tampão do Líbano, que corresponde com a fronteira norte também de Israel e que faz com que Israel se sinta mais protegido Ocupando essa faixa na zona sul do rio Litani e que se recuse a abandonar essa faixa, mesmo contra o direito internacional, se bem que interessa muito pouco, e contra a vontade norte-americana. Donald Trump já percebeu que a manutenção de atos de guerra israelitas no Líbano e a manutenção, eventualmente, de atos de guerra de Israel contra o Irão, que no fundo é a mesma coisa, porque é o Irão que está por trás do Hezbollah, portanto quando ataca o Hezbollah está também a atacar o Irão. Donald Trump já percebeu que se não se autonomizar desta vontade de Israel, se não mostrar claramente na arena internacional que uma coisa são os Estados Unidos e a vontade norte-americana na região, outra coisa é a vontade israelita, Donald Trump não irá conseguir sair do conflito. Se Donald Trump ou a administração norte-americana quer sair do conflito, e quer sair de forma rápida, tem que acautelar aqui duas coisas. A primeira é: ou larga completamente esta ligação a Israel, correndo o risco de Israel ficar numa posição muito frágil na região, ou então abraça a causa israelita e corre o risco de ficar ad eternum na região, porque Israel vai-se continuar a expandir e a procurar expandir, principalmente se nas eleições de setembro ou outubro não ganhar Netanyahu e até ganhar uma vertente que eventualmente possa ser mais radical, aquela que vem dos partidos de Ben-Gvir e de Katz, portanto da vertente dos estudos talmúdicos. Esta é uma das decisões. E depois a outra decisão também se prende com a questão do Golfo Pérsico e o que os Estados Unidos podem fazer a essas alianças históricas no Golfo Pérsico, que de alguma forma até estiveram alinhadas durante o conflito por terem um ódio visceral ao Irão e por o Irão as ter atacado, até estiveram alinhadas muitas vezes com Israel, mas que neste momento, depois de se perceber que mesmo no plano narrativo a intenção de Netanyahu é continuar a investir do ponto de vista militar no Líbano e até criar tensões com a própria Turquia, mesmo essas monarquias do Golfo já recuaram um pouco naquilo que era algum alinhamento que tinham com Israel contra um inimigo comum, que era o Irão. Donald Trump, perante isto, está ali preso entre um conflito onde já não quer estar e um apoio a Israel que é histórico e que Donald Trump realmente é o presidente que mais apoiou a existência de Israel e até uma alegada expansão de Israel no território, e por outro lado, todos os negócios que tem com outros países do Golfo Pérsico, como é exemplo a Arábia Saudita, que tem uma rivalidade histórica precisamente com o Irão, para ver quem é o grande bloco ou a grande potência média da região.
Donald Trump revelou hoje que deixou instruções para que o Irão seja bombardeado a níveis nunca antes vistos, caso seja assassinado. Isto depois de esta semana ter saído a notícia de que Israel teria avisado os Estados Unidos sobre um plano do Irão para assassinar o presidente norte-americano. Como é que olha para estas ameaças iranianas? São para ser levadas a sério?
Não me parece que sejam para ser levadas a sério, até porque não acredito honestamente que haja ameaças diretas do Irão para assassinar Donald Trump, principalmente no momento em que as discussões ainda estão de pé. Portanto, mesmo que agora tenhamos tido alguma volatilidade e se tenha revelado frágil este memorando de entendimento, ainda há espaço para negociações e para que essas negociações continuem, apesar de podermos ter estes ataques de forma esporádica. Agora, o que é importante percebermos aqui é: provavelmente este ataque a Donald Trump, ou esta tentativa ou este plano para matar Donald Trump, não passa de uma espécie de jogo de sombras, de ludibriar da arena internacional, para mostrar que realmente o Irão é um regime repressivo, um regime perverso, que não joga pelas regras do jogo do direito internacional. Mas não nos podemos esquecer aqui que se realmente acontecer alguma coisa à liderança norte-americana, o que fica de Donald Trump vai se perpetuar no tempo, seja através de J.D. Vance ou de alguém da sua confiança, porque morrendo o presidente dos Estados Unidos, quem ficaria seria o vice-presidente. Mas não acreditando nesta possibilidade, olhar para um ataque dos Estados Unidos ou um escalar do ataque dos Estados Unidos ao Irão nesta fase, quase que nos deixa sem credibilidade, no sentido em que já ouvimos tantas vezes Donald Trump a dizer que iria atacar em força, que iria destruir a civilização persa, que o Irão nunca mais seria o mesmo, que continuasse a atacar as bases norte-americanas nos países do Golfo e que os Estados Unidos irromperiam com toda a força. A verdade é que já vão em meses de conflito e os Estados Unidos conseguem atacar, portanto, há uma vitória aqui, se quisermos, do ponto de vista militar, porque o Irão não tem força para combater estas investidas norte-americanas da mesma forma. Só que uma vitória militar nos dias de hoje não nos diz nada, não garante nada na arena internacional, porque uma vitória militar só faz sentido se vier acompanhada de uma vitória estratégica e política. Uma vitória militar sem uma vitória estratégica e política é só imprudência. E é isso que estamos a ver no caso da invasão ou da intervenção dos Estados Unidos no Irão. Por quê? Porque uma invasão com "boots on the ground", que seria para resolver a questão e de fato apoiar aquela população insurreta que saía à rua iraniana em janeiro e fevereiro contra o regime musculado teocrático, isso está fora de questão, porque Donald Trump sabe que qualquer perda de vida norte-americana e de soldados americanos em território iraniano, principalmente por não ser neste momento considerada uma questão existencial para a soberania norte-americana, será extremamente impopular junto do seu eleitorado. E depois, o que resta são estes ataques que vemos, que são principalmente ataques nas zonas portuárias onde estão estacionadas frotas da Marinha da Guarda Revolucionária Iraniana. Mas depois o Irão também tem outro problema, que é o Irão tem dois exércitos, funciona com dois exércitos, um exército convencional e o exército da Guarda Revolucionária Iraniana. Portanto, esses exércitos foram treinados principalmente desde 1979, para isto, para contrariar o imperialismo norte-americano. E por isso é que mesmo que haja uma vitória militar, que é o que estamos a assistir, acho que não há grandes dúvidas relativamente àquilo que é a diferença, a assimetria da capacidade militar dos Estados Unidos quando comparada com a capacidade militar iraniana, a verdade é que isso depois não leva de facto a nenhum dividendo, seja político, seja econômico, que Donald Trump consiga tirar da região. E por isso, isto é uma ação falhada dos Estados Unidos, quer se queira, quer não, porque magoa não só o próprio papel hegemônico dos Estados Unidos na arena internacional, como também o próprio papel de Donald Trump como o líder dessa potência hegemônica e que eventualmente terá consequências a longo prazo, caso Donald Trump ou o Partido Republicano não vença agora nas intercalares. E mesmo no futuro, poderíamos ter aqui até uma mudança estrutural para termos uma presidência norte-americana mais beligerante daqui para frente, ou seja, mesmo depois de Donald Trump, quem viesse a seguir, como falava há pouco, mas há uma possibilidade de haver um recuo, pelo contrário, e de serem os democratas a ganhar espaço, precisamente porque a insatisfação da população norte-americana em relação a este conflito só vai crescendo.
Nosso tempo hoje é mais curto, já chegou ao fim. Muito obrigada pela sua análise, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Obrigada.
Obrigado, boa noite.
O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.