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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves na Rádio Observador e hoje queres falar do que chamas a excelência do jornalismo de Mário Crespo.
Chamo, sim senhor. Olá, Ricardo, boa tarde. Eu sei que tenho falado já a pé e torço "Ideias Feitas" sobre o caso Trump BBC. Espero que, não digo que seja o último, mas que pelo menos por uns dias que não tenha que voltar ao assunto, mas infelizmente o assunto vem ter comigo. Apareceu-me, mandaram-me, já não me lembro, o comentário do Mário Crespo ontem na CNN de Portugal e ele disse algumas coisas que eu acho que de registo. E uma das coisas que ele disse foi: "O que a BBC emitiu..." Acho que não vale a pena estar a lembrar o caso. Acho que as pessoas sabem do que estamos a falar, como dizia o outro. "O que a BBC emitiu", disse Mário Crespo, "foi aquilo que Trump disse." E depois Mário Crespo acrescentou: "Foi em 2020 ou 2021, naquele célebre ajuntamento de gente junto ao Capitólio." E depois disse ainda: "A BBC usou esse discurso, esse discurso foi longo, num noticiário ou mesmo num documentário de televisão, não se transmite um discurso inteiro." E, por fim, o Mário Crespo disse: "O que a BBC fez foi, e aqui eu dou um aval técnico, a BBC não alterou em nada o conteúdo da declaração de Trump." Ora bem ou ora mal, ora muito mal, porque desde logo é estranho que Mário Crespo invoque o direito de, como é que ele diz, avalizar tecnicamente a ação da BBC e nem sequer saiba em que ano aconteceu o discurso de Trump junto ao Capitólio. Seria mais ou menos o mesmo que uma sumidade em astronomia não se recordar do ano exato em que a Apollo 11 chegou à Lua. Foi assim por volta de 1968 ou 1969 ou qualquer coisa do gênero. Mas pelo menos numa coisa o Mário Crespo tem razão, porque o que a BBC emitiu foi aquilo que Trump disse. Só que não o disse por aquela ordem, não o disse no mesmo tempo, no mesmo momento do discurso, não o disse de maneira que aquelas frases aparecessem juntas ou seguidas. A certa altura do discurso, o que Trump disse foi: "Eu sei que todos aqui em breve marcharão para o prédio do Capitólio para pacificamente e patrioticamente fazerem suas vozes serem ouvidas." E 50 minutos depois, realmente o discurso foi longo, o Trump disse: "E se não lutarem como danados, fight like hell, vocês deixarão de ter um país." A BBC, de facto, não transmitiu o discurso inteiro, colou ambos os trechos citados e retirou-lhes com alguma habilidade a palavra pacificamente, para assim dar a entender que Trump apelava a uma invasão nada pacífica do Capitólio. Trata-se, acho eu, de forma mais ou menos clara, de manipulação, de fraude e na melhor das hipóteses, ou na hipótese mais ingênua e um bocadinho, se calhar, a hipótese mais ridícula, trata-se de um erro gravíssimo. Uma hipótese que, aliás, a própria BBC admite, reconhece e que está na base mais ou menos da cartilha que até agora todos os críticos de Trump adotaram. É a teoria do erro. A BBC cometeu um erro, um erro grave, um erro grosseiro, mas é um erro. Até ao comentário do Mário Crespo eu ainda não tinha visto ninguém negar a própria existência do erro. Agora, o Mário Crespo, do alto da sua incomensurável competência, contraria a própria confissão da BBC. Está bem que a confissão também só surgiu depois do Telegraph revelar um relatório interno e divulgar a tramoia, a tramoia ter acabado em escândalo, mas isso é outra questão. Mas dizia eu, o Mário Crespo discorda da própria BBC. Mário Crespo nem sequer com a BBC a admitir o erro, ele o admite. É o que se chama aquela expressão popular normal, corriqueira, ser-se mais papista que o Papa. Ou é mais precisamente o que se chama ser-se mais uma vítima terminal daquele Trump Derangement Syndrome, que é o flagelo do nosso tempo, ao que parece, aquela doença que abaria tantas cabecinhas sempre que o assunto é Donald Trump e que põe essas cabecinhas a dizer as coisas mais extraordinárias e muitas vezes com prejuízo das próprias evidências. Porque nada seria mais natural e democrático, com certeza, do que levar às televisões comentadores que discordam das políticas de Donald Trump, se discordam de todas ou discordam de algumas, isso é tão normal que até custa dizer. Agora, é mais questionável levar às televisões comentadores que discordam de forma tão nítida da realidade e sobretudo quando a realidade está à vista de todos. Não é preciso gostar de Trump ou ter uma admiração particular por Trump para ver essa realidade. Eu sinceramente custa-me a acreditar. Nunca tive má impressão do Mário Crespo, em particular. Nunca foi pessoa em quem eu pensasse muito, mas nunca tive má impressão dele e sinceramente custa-me acreditar que ele se encontra tão transtornado com o Trump que não consiga ver a realidade. Também não o tenho por tonto. Mas ao mesmo tempo também me custa imaginar que sendo uma pessoa que me pareceu séria e inteligente, pelo menos normalmente inteligente, que o Mário Crespo esteja a distorcer deliberadamente a realidade para ver se engana os muito distraídos. A verdade é que qualquer destas possibilidades, ou falta de seriedade, ou falta de discernimento, qualquer das possibilidades é muito triste. É muito triste em relação ao Mário Crespo, com certeza.
Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves aqui a desfazer ideias feitas ao final da tarde na Rádio Observador. Até amanhã, Alberto. Um abraço.
Até amanhã, Ricardo. Um abraço.
O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite Talismã