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E assim começa o "Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves, a última edição da semana. Olá, Alberto.

Olá, boa tarde.

Ora viva, Alberto Gonçalves. E neste final de semana, o Alberto quer olhar para essa declaração ao país, a propósito do 14º estado de emergência, essa declaração ao país do Presidente da República, que ontem, às 20h, pediu sensatez também neste plano de desconfinamento. Pergunto-lhe desde já se foi também uma declaração ao país sensata por parte do chefe de Estado.

Sensata não seria exatamente o adjetivo que eu utilizaria. Isto é mais uma declaração, a propósito de mais um estado de emergência, é o 14º e a 13ª declaração, porque houve uma vez que ele não fez, na quinzena anterior.

Quando fez a viagem para o Vaticano, para a Santa Sé.

Exatamente, foi viajar. Eu imagino que mais 20 ou 30 estados de emergência e 20 ou 30 declarações relativas ao estado de emergência, uma pessoa deixa de se sentir obrigada a fazer estes comentários. Mas, para já, ainda são só 14, uma pessoa ainda os faz. E gostaria de dizer duas, três coisas sobre aquilo que o professor Marcelo disse. Uma delas não é exatamente sobre o que ele disse, é sobre o próprio evento, a própria declaração e a própria declaração do estado de emergência. Obviamente, 14 estados de emergência sucessivos são uma banalização desta figura, desta possibilidade jurídica que o presidente da República pode decretar. Por definição, o estado de emergência é uma situação absolutamente excecional, que se aplica no limite e que nunca tinha sido aplicada em democracia. Ao decretar 14 estados de emergência seguidos, e parece que pelo menos mais um, ou dois, ou três, ou quatro virão aí, obviamente, tira qualquer, não digo legitimidade, mas o respeito das pessoas pela figura do estado de emergência em si. Não faz sentido nenhum que tenhamos 15 mil casos por dia de Covid ou tenhamos 250, mantém-se sempre o estado de emergência. Isto faz a ligação com uma das coisas que o professor Marcelo disse, que eu gostaria de comentar. Ele pediu muita sensatez, lá está, e muita cautela, porque as próximas duas ou três semanas vão ser decisivas. Ora, desde que começou esta história da Covid, desde março de 2020, ou seja, exatamente há um ano, que ouvimos não só o professor Marcelo, mas também o doutor António Costa, a senhora Ministra de Saúde, a senhora diretora da DGS, aqueles especialistas que são frequentemente convidados para se pronunciar sobre o assunto, dizer que as próximas duas ou três semanas são sempre decisivas. Ou seja, não há duas ou três semanas em particular, são sempre as próximas duas ou três semanas que são decisivas. São decisivas por quê? Para achatar a curva? Vamos admitir que o confinamento é a única solução, a única resposta ao vírus, admitindo de barato e esquecendo aqueles países e aquelas regiões em que o confinamento é levantado, como aconteceu em Portugal há um ano, e o número de contágios começa a descer e o número de mortes a descer. Mas mesmo descontando isso, as duas ou três semanas de que se fala vão ter um impacto nas semanas seguintes a essas. O professor Marcelo acha que duas ou três semanas vão nos permitir, aquela expressão, ganhar o verão e o outono. Como? Por quê? Se o desconfinamento, na hipótese do desconfinamento, fazer subir o número de casos, não é por nós confinarmos ou termos cautela durante duas ou três semanas, que vamos ter qualquer influência sobre o que acontece com o vírus daqui a quatro, cinco ou seis meses. É evidente, isto não faz sentido nenhum. Parece que estamos a seguir um isco que alguém pôs na ponta de uma cana e está a fazer as pessoas avançarem atrás do isco e a cana avança sempre à medida que as pessoas avançam e as pessoas nunca alcançam o isco. Não sei se as pessoas que dizem isto estão convencidas de que o que dizem faz algum sentido ou se sabem que isto é uma patranha e acham que as pessoas que ouvem isto acreditam nesta patranha. Isso não consigo ter a certeza de qual das hipóteses é a correta. Agora, desde há um ano, falarmos nas próximas duas ou três semanas como decisivas, pelo amor de Deus, acho que já era tempo de pararem com essa conversa. Por fim, e é uma coisinha um bocadinho mais séria, o professor Marcelo fez questão de lembrar, em teoria bem, as vidas que a Covid desfez e aquilo que a Covid destruiu. Ora bem, o que a Covid fez, de fato? A Covid causou alguns milhares de mortos. Vamos presumir que dos 16 mil e tal mortos por Covid em Portugal, morreram um bocadinho menos do que isso, que outras pessoas iriam morrer mais ou menos no mesmo período, por doenças que estavam associadas. Mas vamos então aceitar o número dos 16 mil mortos, que é, de facto, um número bastante superior àquele que, por exemplo, a gripe comum costuma causar por ano, que são 2 mil pessoas ou 3 mil pessoas. Vamos admitir isso. Primeiro, alguns desses milhares de mortos teriam sido evitáveis através, por exemplo, da proteção e da vacinação das pessoas mais velhas. Ainda hoje, o Centro Europeu de Prevenção e Controle das Doenças, que lida sobretudo com estas doenças epidêmicas, veio notar que a vacinação das pessoas acima de 60 anos, mesmo sem vacinar ninguém abaixo de 60 anos, a vacinação só das pessoas acima de 60 anos eliminaria quase na totalidade a mortalidade pela Covid. E o que se está a passar em Portugal desde o início é uma incúria face às pessoas mais velhas. Primeiro, passou-se nos lares, onde se deixou eclodir surtos à vontade, e agora passa-se na questão da vacinação, em que já há gente a ser vacinada porque tem a profissão X ou Y, ou seja, o critério que for. Nem quero falar de outro tipo de critérios mais ligados aos partidos e à familiaridade com pessoas de partidos. Nem quero falar nisso, mas a verdade é que se tem vacinado todo o tipo de De subclasses da sociedade e até as pessoas com mais de 80 anos ainda não foram todas vacinadas, muito menos aquelas que têm mais de 60 anos. Portanto, esse tipo de prevenção e de cautela que se devia ter, não se teve e continua a não se ter. Agora, quando o professor Marcelo, e para terminar, quando o professor Marcelo fala das vidas destruídas pela Covid, são estas vidas, são alguns milhares de vidas, realmente, pessoas que morreram por causa da Covid. As pessoas morrem por causa de doenças. Existem doenças, as pessoas são mortais, as doenças afetam as pessoas e as pessoas morrem. Agora, tudo o resto que ficou destruído, e há muito mais vidas desfeitas e destruídas neste período, neste ano que passou, destruídas de forma evitável, quero eu dizer, não foram vidas destruídas por causa da Covid ou diretamente por causa da Covid, foram destruídas por causa das políticas contra a Covid, que o governo executou e que o senhor presidente da República legitimou. Ainda agora soubemos, há um ou dois dias saiu a notícia de que há 50 mil pessoas, há mais de um ano, em lista de espera para cirurgias de alguma gravidade ou de alguma urgência ou de muita urgência. Presume-se que algumas delas já não estejam cá para ser alvo dessas cirurgias. Entretanto, coitadas, terão ido à vida delas. Embora no caso não seja a vida, seja mais exatamente o seu inverso. Ou seja, aquilo que o professor Marcelo diz, faz muito bem em lembrar essas vidas desfeitas, mas essas vidas desfeitas são causadas, repito, pelas políticas que o professor Marcelo tem legitimado. Essas políticas que levam à morte evitável de muitas pessoas por causas não Covid e que levam à desgraça, nem sempre tem que ser a morte, mas levam à desgraça e à miséria de muitas e muitas mais pessoas ainda, devido às políticas, às restrições e aos condicionamentos. Que se tomam estes condicionamentos, os confinamentos e estes estados de emergência sucessivos que o professor Marcelo decreta, decreta porque é mais fácil. Porque de alguma maneira desculpa os estadistas e os governantes se as coisas correrem mal, eles dizem: "Nós decretamos isto, nós visamos aquilo, nós mandamos as pessoas ficarem em casa. Se correr mal, as pessoas é que não obedeceram, as pessoas é que se portaram mal." Mas não é assim que se gere uma questão complexa como esta. Uma questão como esta gere-se, com certeza, imagino eu, de forma mais complexa e que dá mais trabalho. E essa complexidade e esse trabalho é algo que estes senhores, incluindo o professor Marcelo, não parecem capazes ou não parecem querer ter. Isto ou é incompetência ou é preguiça. A verdade é que o governo tem agido assim e o professor Marcelo, ao decretar estes sucessivos estados de emergência, criam o cenário para que o governo faça, no fundo, o que quiser, está a legitimar isto tudo. Portanto, é preciso lembrar as pessoas que morreram e as pessoas que têm as vidas desgraçadas e mais pessoas que vão ter vidas desgraçadas em função disto, a Covid não causou isto. Quem causou isto são estas políticas.

Obrigado, Alberto Gonçalves. O João Alberto Gonçalves a olhar para essa declaração ao país do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito do 14º estado de emergência no país. O chefe de Estado que deixou um apelo à prudência e à sensatez por parte da população, em particular também neste período da Páscoa, para que não se inverta aquilo que diz ser a tendência de contenção da Covid-19 no país.

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