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Ideias Feitas Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E achas que há alguma coisa esquisita com o ministro Luís Neves?

Parece. Sinceramente, acho que há qualquer coisa ali que não se explica muito bem. Já havia outras coisas, mas esta de que eu vou falar mais daqui a pouco é bastante esquisita, porque até agora, e isto já dura umas semanas, esta novela e ameaça durar ainda mais, havia pelo menos dois conjuntos de razões para o doutor Luís Neves já ter posto o seu lugar à disposição do primeiro-ministro, como se costuma dizer, ou simplificando as coisas, já se devia ter demitido. De alguma maneira, já não deveria estar no governo. O primeiro conjunto de razões são políticas, porque por mais que estejamos dispostos a acreditar que o doutor Neves fez tudo o que fez com a melhor das intenções e sem qualquer consciência de que estava, no mínimo, a cometer imprudências que o Estado não permite que a generalidade dos cidadãos cometam, por mais que todas as ações do homem fossem inocentes, a verdade é que o homem, como já se disse várias vezes, não ocupa nem ocupou nem o cargo atual, nem o cargo anterior dele, são lugares normalmente ocupados pelo cidadão comum e por isso não só deve estar normalmente sujeito às obrigações a que o Estado nos sujeita a todos, como deve ser especialmente, ou devia ser especialmente escrupuloso no cumprimento dessas obrigações e não foi. Isso parece mais ou menos óbvio. Houve uma promiscuidade pouco ética na relação com o famoso empreiteiro que trabalhava para a Polícia Judiciária de que o doutor Neves foi diretor. Houve decisões informais no caso do atrelado com químicos, em que se contornaram os procedimentos que pelos vistos são devidos. Eu não estou a par dos procedimentos, dos formalismos que se passam na Polícia Judiciária, evidentemente. Estou a basear-me no que leio e que li. Houve também no caso do tanque que se transformou em piscina, uma visão muito particular dos licenciamentos urbanísticos a que todos estamos sujeitos e o doutor Neves entendeu, o verbo que ele usou foi mesmo esse, entender que não estava. E houve falhas na declaração de património. Ele fez aquela declaração de interesses em que se esqueceu de incluir a empresa da mulher, ou quando fez pagamentos em dinheiro vivo ao empreiteiro de que se fala nesta história toda. E só por isto mesmo, que nada disto configura um crime e obviamente não configura um crime medonho, mas só por isto seria do mais básico bom senso que o doutor Neves já não desempenhasse as funções que ocupa, porque quem tutela a administração interna precisa de completa legitimidade para exigir à população o respeito pela lei que ele não mostrou ter. E depois há as razões jurídicas ou legais, ou hipoteticamente criminais, algumas ligadas a estes pontos anteriores, outras não, mas que são alusivas a procedimentos do doutor Neves enquanto ministro e sobretudo enquanto diretor da Judiciária. E como aqui ainda não há nada de provado, e duvido que venha a haver, mas de fato não há, eu não me vou alongar nos comentários, a não ser para dizer que é estranho e é contraproducente ver um ministro da Administração Interna andar em trapalhadas com a Justiça. Mas depois, e é aí que eu queria chegar, há também um terceiro conjunto de razões que desaconselham que o doutor Neves ocupe qualquer cargo governamental e, já agora, se calhar, qualquer cargo de alguma responsabilidade. Eu não sei como hei de chamar a essas razões, que talvez sejam da ordem emocional ou psicológica, ou talvez invoquem alguma outra palavra que poderia ser ofensiva e que por isso não vou reproduzir. O certo é que ontem, por exemplo, a propósito das alegadas infrações financeiras no tempo que dirigia a Judiciária, o doutor Neves afirmou o seguinte, eu vou citá-lo: "Eu não vou ser julgado, sou eu próprio que faço intervir o Tribunal de Contas." Faço aqui alguns segundos de pausa para que as pessoas possam digerir esta frase e até vou repetir: "Eu não vou ser julgado, sou eu próprio que faço intervir o Tribunal de Contas." E após a ministra da Justiça do governo que ele integra, este é um caso assim um bocadinho extravagante, ter terminado uma auditoria da Inspeção-Geral dos Serviços de Justiça e uma avaliação interna à liderança do doutor Neves na Polícia Judiciária, ele próprio comentou: "A ministra da Justiça ordenou e ordenou bem." Se por hipótese absurda, completamente absurda, um dia o doutor Neves fosse detido e enfiado numa cela, imagino que entraria a gritar que não foi preso, mas que decidiu livre e espontaneamente prender-se a fim de iluminar o sistema prisional ou qualquer coisa desse gênero. E já havia sinais deste tipo de deriva emocional, vamos manter as coisas assim, do doutor Neves. Havia o apelo, talvez místico, mas foi a palavra que ele usou, foi apelo que ele diz ter sentido quando aceitou ser ministro e servir o país com a sua imensa sapiência. E já tínhamos tido também na semana passada ainda, a conferência de imprensa em que ele nos brindou com o rol das suas incomparáveis proezas no tempo da Judiciária. E mais umas coisinhas pelo meio, que todas juntas sugerem fortemente uma coisa: o doutor Neves é capaz de não estar no seu melhor, vamos pôr as coisas desta maneira, ou mais exatamente, o doutor Neves é capaz de não possuir o equilíbrio necessário, pelo menos também neste momento ou nos últimos largos momentos, o equilíbrio necessário para as funções que ocupa. Se terá equilíbrio por outras funções menos exigentes, isso cabe a uma junta médica avaliar. Agora, para estas funções, acho que é mais ou menos óbvio que ele não serve. E se o doutor Montenegro não percebe isto, o doutor Montenegro não percebe grande coisa, o que também é uma possibilidade, e é uma possibilidade que um dia sairá cara ao doutor Montenegro e, por arrasto, provavelmente ao país, mas sobretudo ao doutor Montenegro ou em primeiro lugar ao doutor Montenegro. E com isto, Ricardo, um bom fim de semana e um grande abraço a todos.

Um bom fim de semana, Alberto. Um abraço. Bom fim de semana.

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