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É o espaço de opinião do Alberto Gonçalves, Ideias Feitas, na Rádio Observador. Alberto, boa tarde. Ninguém escapa ao tema: queres falar da saída de Cristiano Ronaldo da seleção.
Olá, Miguel. Mais ou menos. Eu vou despachar já a parte futebolística deste Ideias Feitas. A minha opinião sobre o Cristiano Ronaldo: obviamente, é ou foi um grande jogador, agora está em fim de carreira ou assim parece. Não acho que seja o melhor jogador de todos os tempo, mas tem uma carreira extraordinária que não precisa de mim para a enaltecer. Sobre o treinador Jorge Jesus, ele já não tem uma carreira comparável. Acho que é um senhor que andou em campeonatos de segunda, terceira e quarta linha. Descobri que ele tinha um recorde, fui pesquisar, já desconfiava disso. Ele tem o recorde: é o treinador que a treinar um dos três clubes grandes portugueses, mais campeonatos não ganhou. Há sete campeonatos que o Jorge Jesus não ganhou a treinar um grande português, como eles dizem. Mas agora parece que zangaram, o Ronaldo saiu da seleção, toda a gente sabe disso. Sinceramente, essa virra entre eles não me interessa absolutamente nada. Interessava-me, por exemplo, ontem muito mais a história do voo que quase foi desviado para o chão, o voo entre Dubai e Telavive, que acho que num mundo normal deveria ter aberto e dominado os jornais de ontem, e que talvez tenha sido um alívio para muita gente nas redações das televisões não terem de falar numa óbvia tentativa de atentado terrorista, para mais quando o terrorista em questão é muçulmano e as suas potenciais vítimas eram quase todas israelitas, e ainda por cima quando os israelitas foram os claríssimos heróis daquela história. As televisões varreram num instante para debaixo do tapete o caso do avião, para falar do caso do abandono do Cristiano Ronaldo do estágio da seleção de futebol. E até houve comentadores especializados em aeronáutica, isso eu li, cuja participação na emissão foi cancelada. Iam lá falar sobre o caso do avião, foram dispensados para que outros falassem do caso Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. E de repente, as televisões encheram-se de emissões especiais que se prolongaram durante horas e horas para se debater o tal assunto, que no fundo é zanga entre um futebolista e um treinador. Os painéis de algumas das emissões foram preenchidos com habituais comentadores de futebol, o que até se entende, nada de especial nisso. Já se entende um pouquinho menos que outros dos painéis estivessem repletos daquele estirpe de comentadores televisivos que comentam tudo o que lhes aparece à frente, seja a guerra da Ucrânia, seja os preços dos alugueres, seja as declarações de Trump, sejam as conferências de imprensa do treinador Jorge Jesus ou de outro treinador qualquer, se viesse a propósito ou despropósito. Mas mais deprimente ainda é perceber que o país inteiro discute isto, e discute isto com uma paixão que não dedica a mais nenhum tema. Se o país discutisse com um terço do empenho com que discute a saída de Ronaldo, as causas do custo das habitações ou o peso dos impostos no preço dos combustíveis, ou a atitude que Portugal deve ter nas guerras demográficas e culturais em curso na Europa. Se o país perdesse um pedacinho, uma fraccionzinha do seu tempo a discutir estas matérias, se as pessoas se preocupassem realmente com estas matérias, não é só largarem uns desabafos, talvez o país não estivesse na estagnação econômica e mental, o que é pior ainda, em que está. Infelizmente, os portugueses querem futebol, ou pior que isso, os portugueses querem é tricas a pretexto do futebol. E por isso o dia de ontem foi um maná, e os próximos dias, porque há ainda uns jogos, e está-se à espera que o Cristiano Ronaldo reaja ou que se explique melhor. Os próximos dias ameaçam que o maná continue, ameaçam ser um maná idêntico. E a questão é que nem se pode dizer que os portugueses não seguem os exemplos vindos de cima, pelo menos de cima na hierarquia formal, porque o próprio primeiro-ministro, que praticamente não é costume dizer nada de particularmente consequente sobre assunto nenhum, parece que ele telefonou ao treinador Jorge Jesus, telefonou ao jogador Cristiano Ronaldo e telefonou a um senhor que preside à Federação de Futebol, não sei que provência. Não vou preocupar em decorar a totalidade do nome do indivíduo. E segundo lhe consta, que o doutor Montenegro está muito preocupado que esta virra, este imbróglio, possa dar uma imagem negativa da seleção, do futebol português e do próprio país. Por acaso, o que daria uma péssima imagem de Portugal no mundo, se o mundo reparasse particularmente na nossa existência, é que Portugal tenha um primeiro-ministro que telefona à rapaziada da bola para se inteirar dos arrufos no interior de uma equipe. Do chefe do governo ao mais irrelevante português, ao português mais apagado, mais discreto, somos ótimos a envolver-nos emocionalmente no que não nos diz respeito e que no fundo não tem qualquer interesse. E somos fabulosos a ignorar aquilo que nos devia importar. E se nós ignorarmos a realidade, se nós ignorarmos aquilo que importa, é natural que a realidade e que aquilo que importa também nos ignora a nós. E por isso as coisas têm corrido mal, é isso que tem acontecido. Não há aqui grandes surpresas. Agora vamos ver o resultado de logo, que é decisivo para o futuro, não sei de quem.
Obrigado, Alberto.
Um abraço, Miguel.
Um abraço.