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Ideias Feitas com o comentador observador Alberto Gonçalves. Viva, Alberto.

Olá, muito boa tarde.

Viva Alberto Gonçalves. Neste final de semana, o Alberto Gonçalves definiu para tema de hoje do Ideias Feitas os médicos voluntários que o Estado estará a recusar e os polícias voluntários que o Estado estará a aceitar. Neste momento, de que polícias voluntários estamos aqui a falar, Alberto Gonçalves?

São alguns polícias que estavam em situação de pré-reforma e que foram, julgo eu, pelo que percebi do "cli", e foi no Observador, o artigo era claro, convidados a regressar a funções se quisessem, tinham essa opção. Muitos deles, algumas dezenas, pelo menos para já até a notícia de ontem, aceitaram regressar a funções para desempenhar funções de vigilância e de aconselhamento, para desempenhar o papel de polícias nesta questão da Covid e da vigilância dos cidadãos no que respeita ao cumprimento das regras da Covid. Não houve problema nenhum, os polícias foram reintegrados com os deveres e os direitos de um polícia normal, embora já estivessem em situação de pré-reforma. Ao que parece, não se passou o mesmo com uma série de médicos. As informações são um bocadinho contraditórias, porque em alguns casos fala-se em cento e poucos médicos, noutros casos fala-se em largas centenas de médicos que estavam reformados do sistema público e que se voluntariaram para ajudar, não só no combate à Covid, mas também no combate a outras doenças não Covid. Porque como se sabe, ou como se julgava saber, os hospitais estão com carência de pessoal. Pelos vistos, não é bem assim. Quem decide estas coisas em última instância é o governo ou pelo menos tem a obrigação de saber o que se passa. O governo aceita que se reintegrem polícias, pelo menos provisoriamente, que já estavam fora do serviço para vigiar as pessoas, mas não aceita médicos que podem ajudar, e gratuitamente, neste caso, pelo que eles dizem, não haveria qualquer remuneração, seria mesmo voluntariado puro. O governo, o Estado, o que se queira chamar, não aceita estes médicos. Eu ouvi aqui há uns dias a senhora ministra a ser confrontada com esta questão, a senhora ministra da Saúde, e a responder que ela não faz contratações, portanto, não era um assunto que lhe dissesse respeito, foi mais ou menos o que ela quis dizer, ou pelo menos a imagem que passou. Uma pessoa fica um bocadinho estupefacta com uma situação destas, porque andam a contar-nos uma história do colapso do Serviço Nacional de Saúde, já há 10 meses, que anda de colapso em colapso sucessivo, e parece-me um luxo estar a recusar assim o trabalho voluntário de uma série de pessoas que, pela sua experiência e conhecimento etc., poderiam ajudar muitíssimo na questão da Covid e na questão das doenças que não estão a ser tratadas por prioridade que os hospitais têm dado à Covid. No caso dos polícias já não há problema nenhum e venham eles, quanto mais melhor. Dá a ideia que não se quer combater a Covid, que o inimigo não é a Covid, e o inimigo parece que é o cidadão. Não é importante que se diminua os efeitos da Covid, é importante é ver se as pessoas cumprem as regras que os senhores governantes decretam e se portam bem. Isto vem de encontro, mais ou menos, ou parece agradar a um certo setor da sociedade portuguesa, da opinião pública portuguesa, que é aquele setor que se entretém a denunciar ou a candidatar-se a denunciar infratores das tais regras ligadas ao comportamento que se deve ter perante a Covid etc. As regras do confinamento e do estado de emergência etc. Vemos por aí que há um fervor de denúncia e de punição no cidadão comum. Basta ir às redes sociais, que hoje é uma maneira ótima de se aferir dessas coisas. Não será a ideal, mas permite fazer uma ideia de que a Covid é um contexto perfeito para exercer poder. Lá está o poder central do governo etc., mas também o poder pequenino de cada cidadão que se vê potencialmente transformado num informador, ou se quisermos usar outro tipo de jargão, num bufo ou num chibo. E parece que muitos portugueses gostam desse papel e que se sentem muito bem nesse papel e veem neste contexto uma forma excelente de desempenhar este papel. Quando têm oportunidade denunciam, quando não têm, têm pena de não denunciar, mas parecem propor castigos e punições muito severas para quem prevarica. Tivemos o exemplo de um restaurante no Bairro Alto que já tinha feito isso uma vez e ontem à noite acho que voltou a desafiar estas regras. Eu lembro que não são regras divinas, são regras que saem da cabeça do doutor Costa e que ele decreta e impõe sem grande fundamento e ao sabor do vento. E esse restaurante do Bairro Alto, o restaurante Lapo, salvo erro, ontem abriu outra vez as portas, organizou um jantar, foram pessoas jantar e o restaurante, a título de provocação ou de exemplo, que o dono do restaurante acha que outros restaurantes iam fazer o mesmo, publicou nas redes sociais imagens desse jantar. Podemos concordar ou discordar desta atitude. Agora, se lermos em geral a tendência, o tom dos comentários que seguiram esta notícia, os comentários de cidadãos perfeitamente anónimos, pelo menos para nós, pessoas que nós não conhecemos Aquilo é de uma enormidade assustadora, porque deviam ser multados. Multados era pouco, deviam ser presos, mas cadeia também era pouco. Alguns deviam ser mortos ou deviam ir para um hospital e não ter ventilador, etc.

O Comando Metropolitano de Lisboa da PSP deu conta esta sexta-feira de que acabou por identificar e levantar 13 autos de contraordenação a várias das pessoas que ali se encontravam, em violação desse dever geral de recolhimento obrigatório.

Exatamente. E era perante essa sanção que foi aplicada. As pessoas que estavam para lá a vociferar na internet tinham noção dessa sanção e muitas ficaram muito contentes com a sanção. Aí não foi preciso denúncia porque o próprio restaurante que se denunciou. Mas os mais moderados, apesar de todos estarem contentes com a sanção aplicada, outros exigiam muito mais, que devia ser tudo preso e devia acabar tudo às portas de um ventilador, mas sem ter acesso a ele para morrerem devidamente e merecerem o castigo absoluto. Esse ódio é muito bonito. De bonito não tem nada, é absolutamente assustador e mostra que há uma corrente na sociedade portuguesa que por si simplesmente mete medo. Agora não vejo essa corrente de fúria e de indignação perante, por exemplo, o que soubemos. Hoje também foi notícia que ontem, salvo erro, num centro médico da Damaia, dois ministros, dois secretários de Estado e uma comitiva imensa foram fazer a açãozinha de propaganda do costume numa sessão de vacinação de alguns bombeiros. Salvo erro, foi de alguns bombeiros. E foram sem respeitar o distanciamento social, sem respeitar coisíssima nenhuma daquilo que eles próprios decretam. E isso nas notícias, nos comentários que seguia essa notícia, via-se uma pessoa ou outra vagamente indignada com o assunto, mas isso não despertou um milésimo da indignação que despertou, por exemplo, este restaurante. Não conheço a situação do proprietário do restaurante em particular, mas lembro que em princípio, os proprietários dos restaurantes, se os abrem ou se gostariam de os abrir, é porque precisam de trabalhar e precisam de ganhar o seu rendimento, que não estão a conseguir porque estão obrigados a estar fechados. Os senhores ministros e secretários de Estado e restantes comitivas, não precisam para viver de se deslocarem em ações de propaganda para coisa nenhuma. Eles recebem o salário deles na mesma. Portanto, aquela ação é uma inutilidade absoluta. Não era necessário eles estarem lá. No entanto, isso não ofende as pessoas, estes justiceiros populares que nós temos por aí, pelos vistos, em abundância. O que lhes faz impressão e para eles é uma afronta, é que simplesmente um pequeníssimo empresário da área da restauração abra o seu negócio e queira ganhar algum. Isso é inadmissível. E só para terminar, continuo a ver as pessoas todas a ficar em casa e a exigir que se fique em casa, mas vejo pouquíssimas dessas pessoas a sugerir partilhar o seu salário com essas pessoas que eles querem obrigar a ficar em casa sem trabalhar. E aí é que me parece uma injustiça sem limites.

E fica esta sugestão do Alberto Gonçalves neste final de semana. Obrigado, Alberto. Até para a semana, o João Alberto Gonçalves a definir para este tema do Ideias Feitas, os médicos voluntários que o Estado recusa e os polícias voluntários que o Estado aceita, mas também esses desenvolvimentos que dizem respeito, por exemplo, a esse restaurante que insiste em manter-se aberto e também a propósito dessa presença de vários membros do governo no Centro de Saúde na Damaia.

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