Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de guerra na Rádio Observador, segunda edição do dia. A nossa convidada, especialista em assuntos internacionais, Ana Cavalieri, a quem agradeço a disponibilidade. Ana, boa tarde, bem-vinda. Começava por uma declaração do vice-presidente norte-americano, J.D. Vance considera que a Ucrânia é um parceiro, em certo sentido, com críticas aos ataques ucranianos a refinarias russas. Há uma efetiva mudança de relação da Casa Branca com a presidência ucraniana, com Kiev?
Sem dúvida, e eu penso que o calendário político, as intercalares, são um dos grandes motivos. Eu penso que Donald Trump ainda almeja ter uma espécie de breakthrough, ou seja, no fundo, um acordo de cessar-fogo ou uma proposta, um memorando de processo de paz. E ele pensa, Trump, a administração num todo, que a única parte sobre a qual podem exercer influência é a Ucrânia. E então o cálculo político de Trump, que é um cálculo que eu critico naquilo que é o meu sentido de moralidade e de conduta relativamente a parceiros e aliados, mas compreendo relativamente àquela que é a lógica a longo prazo. Eu penso que Donald Trump e a administração americana estão absolutamente convencidos de que Putin nunca, por mais homens que perca, de recursos, já cerca de 1 milhão e meio de russos podem ser considerados baixas. A economia russa está debilitada em vários sentidos, existe até escassez de combustível em alguns postos na Rússia, que é um dos maiores produtores e extratores de combustíveis. Eu penso que Donald Trump sabe que Putin nunca irá abandonar o seu esforço de guerra, por mais sacrifício, por mais sofrimento que imponha ao povo russo, sem ter o Donbass. Ou seja, não só Lugansk, e conseguir assegurar Lugansk, mas o resto de Donetsk, nomeadamente conseguir finalmente perfurar aquela linha fortificada de cinco cidades que vão de Liman até Constantinople. E isso é algo que para Zelensky, para a Ucrânia, em termos estratégicos, em termos de defesa, é absolutamente crucial não conceder, porque em termos de topologia, ou seja, são montanhas, são rios, são estradas, são essas cidades que têm, em termos urbanísticos, uma capacidade de fazer com que determinados avanços militares fiquem ali parados. Se a Ucrânia conceder essa linha fortificada de Donetsk, que os russos ainda não conseguiram conquistar, é planície até Kiev. E então existe sempre a expectativa que daqui a uns anos, depois de o exército russo voltar a se equipar, a partir do momento em que a economia possa recuperar um pouco, então aquilo que é a missão original de Putin, que é conquistar Kiev, ter a Ucrânia sob o seu domínio político e sob a sua esfera de influência, iria se concretizar. Mas aquilo que Donald Trump considera é que: "Ok, vamos parar por aí e tentar aquilo que é possível neste momento, que é dar o resto do Donbass". E no fundo, ceder essa linha fortificada em contraponto, fazendo com que os europeus se armem até os dentes, passe a expressão, no fundo, invistam na sua defesa, ao ponto de serem eles então a dissuasão necessária para Putin, para então daqui a cinco anos avançar sobre Kiev. E este é o grande dilema. Basicamente, o que Trump não acredita é que nós, europeus, tenhamos a capacidade de alimentar o esforço de guerra ucraniano até Putin morrer ou até haver uma revolução interna na Rússia que passe daquele sistema oligarca pró-expansionista russo, porque Putin pode sair e ainda pode vir um pior, sendo certo que pior que Putin é difícil. Trump não acredita que isso seja possível a médio e longo prazo, ou seja, que não abandonar a Ucrânia ou não sair da Ucrânia sem ter nada pra mostrar aos russos depois de quase 1 milhão e meio de russos mortos, sem ter aquelas províncias de Donetsk e Lugansk. Trump acredita que isso é impossível e que nós, europeus, não temos capacidade de não só repelir as forças russas, porque não vamos pôr lá soldados, como não temos capacidade de alimentar o exército ucraniano, que também tem os seus constrangimentos demográficos, para conseguir fazer isso. Então o que Trump disse é parar agora e assumir que aquelas regiões estão perdidas. O problema para Zelensky é que há muita traição aqui pelo meio. Há muito má conduta diplomática. Eu penso que neste momento o que está a acontecer é que Zelensky está a ir pra Noruega para se encontrar com Witkoff e também o fato de Jared Kushner, que é o outro negociador, ter ficado nos Estados Unidos, que supostamente está doente, vai aparecer por video link. E então eles vão conseguir fazer uma proposta que supostamente depois Witkoff vai voar da Noruega para Moscou para apresentar, para ver se Donald Trump consegue ter esta novidade diplomática, que é conseguir apresentar antes da Zelensky.
E Zelensky é permeável a esta tentativa, tendo em conta também a questão da aparente imoralidade de se estar a beneficiar o agressor em detrimento do país que é agredido.
Exatamente. E não é só a Ucrânia que sofre. Porque nós, a grande necessidade de proteger a Ucrânia e, no fundo, proteger este princípio da não violação da integridade territorial e o princípio da soberania, é também para dissuadir futuras oportunidades de a Rússia não só continuar aquilo que fez na Ucrânia daqui a uns anos, mas também nos países bálticos e pronto. E então aí, perde-se aquela confiança de que alianças estrategicamente colocadas poderão reforçar ou defender países mais pequenos dessas tentativas de países maiores de invadirem. Ou seja, isso no fundo, perde toda a gente. Sendo certo que também pode-se considerar que perde-se mais se continuarmos esta guerra por mais anos, a Europa depois demonstra-se fraca para sustentar o esforço de guerra ucraniano e depois então a Ucrânia é conquistada à mesma, mas conquistada até Kiev e não só perdendo o Donbass. Este é o outro argumento das pessoas que ainda querem preservar, no fundo, o que essas pessoas dizem é: "Não, nós é que estamos a tentar assegurar o princípio da integridade territorial, não deixando que esta guerra prolongue-se, custando muito mais vidas e que então o território que depois a Rússia acaba por ganhar ainda seja maior". É este o argumento De J.D. Vance, por exemplo, se ele fizesse um argumento deste gênero. Agora, aquilo que Zelensky é permeável é falta de Patriots. Nós sabemos que, neste momento, a Europa que comprou vários Patriots, vários mísseis aos Estados Unidos, através de um fundo, que é uma iniciativa que é chamada Pearl. Sabemos que, neste momento, os Estados Unidos estão a proibir a transferência dos Patriots, dos estoques destinados à Europa para a Ucrânia. Sabemos também que há alegações por parte dos ucranianos que os serviços de inteligência e informação americanos não falharam por três noites naquilo que seriam os avisos precoces de mísseis balísticos a entrarem na Ucrânia, o que significa que a Ucrânia, ou melhor dizendo, significa que a Europa não consegue substituir os Estados Unidos, não só naquilo que é a tecnologia necessária para produzir mísseis eficientes de defesa antiaérea, mas também não consegue ter serviços de informação que consigam substituir aquilo que os Estados Unidos providenciam à Ucrânia relativamente às suas defesas aéreas, nomeadamente avisando as grandes cidades ucranianas quando mísseis estão a caminho. E depois, aquilo que é o Starlink, nomeadamente a componente militar do Starlink, que é o Starshield, que ajuda as frentes ucranianas a conseguir montar não só as capacidades de reconhecimento, como também de defesa na linha da frente, quando, por exemplo, os drones a mais de 160 km/h perdem a capacidade de emitir o sinal do Starshield, que é no fundo a vertente do Starlink para efeitos militares. E o problema é que Zelensky sabe que os Estados Unidos não conseguem ser substituídos pela Europa nestes três pontos fundamentais. E acima de tudo, Zelensky, eu acho que está furioso da maneira como alguém que se sente traído, e também alguém que está a lutar pela sobrevivência do seu país, naturalmente, sente uma fúria relativamente aos Estados Unidos, mas eu também acho que há uma desilusão e uma tristeza ao ver que a Europa, que já há vários anos que sabe que a Rússia tem este ímpeto expansionista, há vários anos está a adiar aquelas reformas necessárias para investir na defesa, para não estarmos dependentes e vassalos das vontades e dos interesses. Mais do que as vontades, isto são interesses. Os países movem-se pelos seus interesses. E neste momento, os interesses americanos não estão alinhados com os interesses europeus naquilo que é o sacrifício que cada um parceiro está disposto a fazer para ajudar a Ucrânia. Esse é o grande problema.
Portanto, a Ucrânia a ser obrigada a ir para a mesa das negociações por força da redução do apoio dos Estados Unidos, particularmente militar e partilha de informações. Ana, há pouco fazia-
Não é só redução. Eu peço imensa desculpa, porque eu acho que isto é fundamental. Não é só redução do apoio dos Estados Unidos, é também da incapacidade da Europa.
Da União Europeia para substituir os Estados Unidos.
Exatamente. Nós, europeus, assumimos que os Estados Unidos têm a responsabilidade, se calhar moral ou legal, de fazerem aquilo que nós deveríamos estar a fazer há muito tempo para nos garantirmos a nós próprios. Ou seja, aquilo que é o sinal maior de soberania e de independência é a capacidade, naturalmente, de defendermos as nossas fronteiras. E nós há várias décadas fizemos o outsourcing dessa capacidade ou dessa função básica da soberania para um país que está a 5000 km de distância. Isto é absurdo, se eu pensar-
Sinto que essa premissa não foi questionada durante muitos anos. Era assim, isso não era questionável.
Exatamente. Não era questionável porque vivíamos numa situação geopolítica hegemônica por parte dos Estados Unidos. Os Estados Unidos, durante várias décadas, principalmente desde a queda da União Soviética, eram uma potência hegemônica que conseguia chegar a todo sítio a todo tempo, sem ter uma ameaça de um desafiador, de uma potência que desafiasse. Ora, a partir do momento em que os Estados Unidos veem a China e a Rússia nesta aliança que quer destruir aquilo que é a ordem liderada pelo Ocidente, os Estados Unidos, naturalmente, sabem que não podem chegar a todo sítio. Não podem garantir o teatro do Indo-Pacífico, não podem garantir o teatro do Médio Oriente, não podem garantir o teatro dos europeus, enquanto nós naturalmente estamos ajustados àquilo que é a nossa capacidade econômica, que tem perdido competitividade. Nós estamos muito presos também, e bem, porque nós gozamos dessa qualidade de vida do nosso Estado Social. Então todo o nosso dinheiro é canalizado para programas, e ainda bem, de habitação, saúde, hospitais, mas isso é à custa não termos tido a necessidade de investir na parte militar. Ora, o que acontece quando nós temos esta ameaça a leste? Sentimo-nos impotentes.
Ana, há pouco fazia referência às eleições intercalares nos Estados Unidos do próximo mês. Esta mudança de orientação da Casa Branca e de Donald Trump relativamente à Ucrânia traz ganhos eleitorais ao presidente dos Estados Unidos e ao Partido Republicano?
Eu penso que não. Eu penso que o eleitorado responde acima de tudo aos preços dos combustíveis, e Trump pode alegar, e existe capacidade de refinação russa que foi perdida e que, efetivamente, faz com que o gasóleo esteja a subir brutalmente, nomeadamente comparado com outros produtos derivados e refinados de petróleo bruto, como a gasolina. O gasóleo e a gasolina neste momento estão a ter um caminho assimétrico relativamente às subidas. Mas há muitas indústrias dos Estados Unidos e de transportes também, determinados tipos de transportes, que dependem do gasóleo, não é só a gasolina. Mas então, a partir do momento em que os americanos, o Trump pode referir ou alegar aquilo que quiser, que no fundo a culpa do gasóleo estar caro e dos combustíveis em geral estarem caros, não é da guerra do Irão, que naturalmente também é. Ou seja, a imputabilidade daquilo que têm sido estes condicionamentos e as restrições no Estreito de Ormuz foi talvez um grande momento inflacionário relativamente aos combustíveis nos Estados Unidos, e o eleitorado americano não vai dissociar aquilo que é o conflito do Irão relativamente ao impacto destes preços. Por isso eu penso que, por um lado, não adianta muito Trump alegar que a culpa é da guerra da Ucrânia ou a culpa é de Zelensky, por estar a atingir refinarias russas ou petroleiros que estão a passar pelo Mar Negro. Eu penso que isso não vai surtir resultado. Eu penso também em afirmações quando ele anuncia um cessar-fogo energético, que depois os russos não respeitam. E ele diz: "Há um cessar-fogo, porque eu digo que há um cessar-fogo", como se a afirmação ou a declaração unilateral do presidente americano fizesse com que um cessar-fogo entre dois outros países automaticamente fosse válido, independentemente depois se é cumprido ou não. O eleitorado vê essas afirmações e a dissonância é tão enorme que não ficam convencidos. E também, mesmo que haja uma novidade diplomática a tempo das eleições, se não se refletir nos preços, se não se refletir naquilo que é a vida material das pessoas e das famílias americanas, eu penso que isso não irá afetar aquilo que já é a opinião que as pessoas têm da eficiência ou da qualidade desta administração.
E de facto, há uma preocupação crescente esta terça-feira com o preço dos combustíveis, das diferentes formas de energia. O barril de Brent, por exemplo, que serve de referência para a Europa, estava há pouco a ser negociado acima da barreira dos 110 dólares, nos 111, e o gás natural na Europa supera os 90 euros, mais de 200% desde o início do ano. É seguramente uma preocupação dos dois lados do Atlântico. Obrigado, Ana Cavalieri, especialista em assuntos internacionais.
Muito obrigada.
Esteve conosco nesta segunda edição do dia de Gabinete de Guerra da Rádio Observador.