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Desfazemos ideias feitas. Junta-se a nós hoje, ligeiramente mais tarde, porque a atualidade assim o ditou, o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde.

Olá, boa tarde.

Olá, Alberto Gonçalves. Neste ideias feitas é um tema incontornável a resposta de António Costa ao ministro holandês.

É aparentemente incontornável. Eu gostaria só de começar por lembrar às pessoas, embora todas tenham a obrigação de saber, que na União Europeia há países que são contribuintes e há países que são beneficiários dessas contribuições. A Holanda é um país contribuinte, por exemplo, um dos maiores, e Espanha é um país beneficiário, embora não dos maiores. Um dos maiores beneficiários é Portugal, dessas contribuições dos países mais ricos. Isto é mais ou menos aquilo que acontece dentro de um país. Quer dizer, só aqui em Portugal, por exemplo, como acontece mais ou menos nos países em geral, ou em todos eles, o Estado pede dinheiro aos contribuintes, não necessariamente com bons modos, normalmente com péssimos modos, e os contribuintes não têm outro remédio senão dar uma parte dos seus rendimentos ao Estado para sustentar esse Estado. Quando esse dinheiro não chega para que o Estado faça face às suas obrigações, como é o caso de uma emergência como esta e numa situação absolutamente inesperada, até certo ponto, o nosso Estado resolve ir pedir dinheiro lá fora, aos contribuintes de lá fora. A diferença é que os contribuintes lá fora não são obrigados a dispor do seu dinheiro para nos pagar os nossos gastos. E com frequência, os eleitorados desses países não estão dispostos a abdicar dos seus salários ou de parte dos seus salários para, além de sustentarem os respetivos Estados, sustentarem outros Estados que obviamente produzem pouco e gastam muito. E os políticos desses países são eleitos por esses eleitorados, obviamente, escusado dizer, e não estão para colocar em risco os seus lugares para tomar posições absolutamente desafiadoras da vontade de quem vota neles. Dito isto, aconteceu ontem que o ministro das Finanças holandês, confrontado com a possibilidade de a União Europeia emitir dívida pública, hesitou e mostrou muito pouca vontade de alinhar nisso, aliás, acompanhado pelos seus homólogos da Alemanha e da Áustria, pelo menos. Face a esta posição do ministro das Finanças holandês, o doutor Costa, que não está muito habituado a que o contrariem, aqui em Portugal costumamos fazer-lhe a vontade, reagiu mal e disse que as palavras do ministro holandês foram repugnantes. Isto já tem o peso que tem. E logo a seguir a isto tivemos todo o comentariado afeto ao primeiro-ministro a dar-lhe muita razão pelas declarações que ele fez. E tivemos ainda, julgo que já hoje, a doutora Ana Gomes, que julgo ainda ser eurodeputada, a chamar pulha ao ministro holandês e a desejar, com ironia, que ele sobreviva ao vírus. A União Europeia não sei como é que vai ficar no final desta crise, ninguém sabe, nem as pessoas que têm responsabilidades de liderança, mas para já parece tudo muito bem encaminhado para haver consensos e para que os países se entendam com base nesses princípios muito vagos de solidariedade dos países que realmente produzem e poupam para com os países que não produzem nem poupam.

Muito bem, Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas.

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