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Desfazemos ideias feitas. Alberto Gonçalves, boa tarde, bem-vindo.

Olá, boa tarde.

Ora viva, Alberto Gonçalves. Hoje ele quer falar sobre o medo que o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho inspira ao chamado sistema, ou seja, os poderes instalados. Pedro Passos Coelho mete assim tanto medo, mesmo não estando neste caso no ativo, se assim podemos dizer?

Exatamente por isso é curioso. Começo por explicar que a rede social Twitter tem, em cada página quem tiver uma página nessa rede, acesso a uma coisa que se chama trending in Portugal. Portanto, os assuntos que estão a ser mais falados no Twitter naquele dia, no respectivo país. E ontem reparei que um dos dois ou três assuntos mais falados era Pedro Passos Coelho. Pensei que ele tivesse feito uma intervenção ou que tivesse anunciado que ia fazer uma intervenção, porque no caso dele as repercussões são mais ou menos as mesmas. Mas não, pelo que eu descobri, foi apenas uma pessoa absolutamente anônima, que não faz comentário público de espécie nenhuma, a não ser no Twitter, que eu saiba. Nem sei o nome da pessoa, mas foi uma pessoa que publicou um pequeno texto, um tweet, como se diz nessa rede, a considerar que Pedro Passos Coelho foi o melhor primeiro-ministro da história da democracia. Uma opinião da pessoa em causa. Não devia ser nada de especial, nada de relevante, mas isso gerou milhares de tweets, praticamente todos de sentido contrário. Imagina-se de onde vêm, sobretudo da esquerda, talvez de algum PSD atual. Pessoas absolutamente indignadas com aquela afirmação. Pessoas que, por exemplo, apoiaram ou ainda defendem o engenheiro Sócrates, por exemplo, o doutor Costa, no caso, muitas delas, de certeza, e que acham a afirmação absolutamente inconcebível e intolerável. Aquelas hipérboles todas que Pedro Passos Coelho costuma atrair. E por que o Pedro Passos Coelho atrai essas hipérboles e essa indignação? Porque justamente os assusta. Pelos vistos, é óbvio que os assusta. Por que os assusta? Assusta por dois ou três motivos. Porque foi provavelmente o melhor primeiro-ministro da democracia portuguesa, porque foi o primeiro-ministro que menos se vinculou a este sistema que se foi apoderando, que esteve mais ou menos sempre latente, mas que hoje em dia se apoderou do regime. E porque há a hipótese de ele voltar. Por exemplo, o mesmo tipo de indignação poderia ser invocado a propósito do professor Cavaco. Só que o professor Cavaco, e realmente sempre que o professor Cavaco diz qualquer coisa ou há uma referência ao homem, também aparece uma indignação quase semelhante, mas um bocadinho inferior, porque o professor Cavaco, para todos os efeitos, está reformado. Ninguém imagina que ele vá voltar à política ativa. O Pedro Passos Coelho é uma pessoa ainda nova na carreira política e existe a expectativa de que ele possa voltar à carreira ativa. E isso parece assustar realmente muita gente. Assusta, desde logo, o PS, porque é obviamente a única pessoa que se vê neste momento à direita do PS que lhe pode fazer frente ou que pode arregimentar um número de eleitores suficiente para que as eleições não sejam favas contadas para o PS. Assusta a extrema-esquerda, não exatamente por competição eleitoral direta, mas porque a extrema-esquerda abomina tudo o que Passos Coelho simboliza. E assusta muito do PSD atual, porque o PSD atual foi tomado, pelo menos na direção, por pessoas que sempre estiveram contra o governo do Pedro Passos Coelho e que, obviamente, não fazem outra coisa senão estender um tapete vermelho à governação do PS, não fazem qualquer espécie de oposição. Se na cabeça deles, na cabeça do doutor Rio e dos seus mais diretos assessores, aquilo é oposição, ninguém percebe exatamente então o que vai na cabeça daquela gente. E Pedro Passos Coelho simboliza realmente uma possibilidade de que as coisas se alterem. E não convém a esta gente, de maneira nenhuma, que as coisas se alterem. Ora, se posso acrescentar a minha opinião, eu acho que era bom que as coisas se alterassem e, por acaso, há uns tempos dei uma pequena entrevista ao jornal Sol e perguntaram-me se não havia mais ninguém à direita, além de Pedro Passos Coelho, se não se via mais ninguém à direita ou naquilo que se convencionou chamar à direita. E eu realmente não vejo. Isto não é exatamente só um mérito do Pedro Passos Coelho, é obviamente um defeito do espaço político à direita do PS.

Ou seja, se Pedro Passos Coelho se mantiver quieto e calado, vai continuar, ainda assim, a motivar alguma especulação em torno de um eventual regresso e das consequências que podem daí advir?

Sim, obviamente, ele não precisa sequer de falar ou de prometer falar para causar este burburinho. Quando ele ameaça falar, houve aqui há uns tempos que ele próprio cancelou uma intervenção que estava atrasada.

Estava aqui a ver, foi no final de fevereiro, tinha uma iniciativa em que ia discursar, mas acabou por cancelar para travar essas especulações para eventual regresso.

Justamente, para travar essas especulações. Mas ele nem precisa sequer disso para, pelos vistos, ser muito falado, como o Twitter. O Twitter é apenas uma rede social, mas é uma rede social onde está muita gente e tem alguma representatividade. Agora Pessoalmente, eu acho que, na falta de outras pessoas, e isto não é sebastianismo nenhum, Pedro Passos Coelho tem defeitos como todos os homens e foi um governante com lacunas. Agora, por comparação, é realmente a única possibilidade que se vê de uma alternativa viável ao sistema que estamos agora. Quem gostar do sistema em que estamos agora, quem gostar da governação do doutor Costa, verá o Pedro Passos Coelho como uma ameaça. Quem estiver absolutamente farto de tudo isto que estamos a atravessar, destas restrições, destas ameaças às liberdades e, sobretudo, da crise económica que se está a avolumar dia após dia, imagina que possa haver uma alternativa a isso, ou pelo menos sonha com isso. E essa alternativa não passa por outra pessoa, ou não parece passar. Se passa por alguém, é por alguém que ainda não veio a público dar a cara por isso, mas dos nomes que nós conhecemos, das pessoas que nós conhecemos, do currículo que têm e da competência que demonstraram quando tiveram a oportunidade de demonstrar, só se vê o Pedro Passos Coelho, de facto. E eu acho que mais do que a especulação em torno do possível regresso dele, se começa a sentir a necessidade que esse regresso um dia venha a acontecer. A política portuguesa ultimamente e o regime político português tem sido tão bizarro que uma pessoa já não consegue... É melhor não fazer grandes previsões. Mas imagino que o PSD saia arrasado das autárquicas, e faltam muito poucos meses para as autárquicas. Imagino que daí o partido sinta necessidade de voltar a ter uma liderança de facto e exercer uma oposição de facto. E essa liderança de facto e essa oposição de facto, neste momento não se perspetivam de maneira nenhuma à revelia do Pedro Passos Coelho. Lá está, pode aparecer uma pessoa a fazer a rodagem do automóvel, das segundas linhas, das terceiras linhas do partido, que de repente galvanize as massas e tome conta daquilo e entusiasme o país. Neste momento não se imagina ninguém nessa situação, a não ser realmente o Passos Coelho, cujo regresso começa a ser necessário, não é apenas um objeto de especulação, mas começa a ser uma necessidade, não para o PSD especificamente, o PSD por mim não me interessa nada, ou interessa-me muito pouco, mas em relação ao país. O país começa a precisar e já precisa desesperadamente de haver uma oposição, porque no caminho em que estamos isto vai acabar mal de uma maneira ou de outra. Agora pode ainda acabar pior e para não acabar pior, convinha que houvesse realmente uma resistência, algum atrito a esta facilidade com que o PS se estende e espalha e conquista tudo, todos os lugares do Estado e toda a influência, etc. E para existir essa resistência, para existir uma oposição, que é a palavra exata, neste momento o Pedro Passos Coelho é essencial. E como o Pedro Passos Coelho é essencial para essa oposição, é natural que assuste muita gente, quer ele fale, quer ele não fale, ou alguém por anónimo que seja, resolva fazer um simples elogio numa rede social, ele causa este zum-zum todo porque realmente as pessoas que apreciam aquilo que nós temos atualmente e que não se importam que o país caminhe para mais uma bancarrota, e desta vez talvez uma bancarrota mais grave que as anteriores, essas pessoas sentem que se há alguma coisa que possa mudar isto ou inverter este estado de coisas, alguma pessoa, não é uma coisa, será o Passos Coelho. E é por isso que ele causa este barulho todo. Eu, por mim, gostaria que ele voltasse, quanto mais não fosse, ele com certeza comete erros e irá cometer outros, mas apesar de tudo, é a única forma que se vê de o país não ir tão suavemente, como dizia o poeta, não entrar tão suavemente nessa noite escura. E nós estamos a entrar numa noite muito escura e com demasiada suavidade.

Obrigado, Alberto Gonçalves, fica esse desejo, mas também aproveito essa expressão utilizada pelo Alberto Gonçalves, resistência, para sublinhar que tem também havido uma resistência de Pedro Passos Coelho a aceitar determinados convites a propósito dessa especulação que vai surgindo sobre o eventual regresso do antigo primeiro-ministro. Alberto Gonçalves hoje a desfazer ideias feitas sobre o medo que Pedro Passos Coelho inspira ao sistema.

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