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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto. Bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje queres falar de um tema que, apesar de tudo, parece ter passado um pouco despercebido neste dia em que António José Seguro tomou posse: queres falar do Festival da Canção. Ninguém está a falar disso, não é?
Eu sei. E por isso peço desculpa. Eu ia falar sobre o discurso de tomada de posse do Dr. Seguro, novo Presidente da República, mas não encontrei ali absolutamente substância nenhuma. Não havia grande sumo, digamos. Vamos esperar. O senhor vai ser presidente por cinco a 10 anos, portanto há outras oportunidades. E festivais como este deste ano só há um.
E há a polêmica toda com Israel, não é?
Pois é, a polêmica é essa. Eu não vi este festival, não vejo o festival desde 1980 ou 81. Mas mesmo assim não me lembro ter havido polêmica em volta da canção vencedora ou do artista vencedor, ou das circunstâncias da vitória. Normalmente a RTP organiza aquilo, cada vez há menos pessoas a prestar atenção àquilo e alguém acaba a ganhar e vai cantar a Eurovisão e depois nunca mais ninguém repara no assunto. Este ano, que eu saiba pela primeira vez, se estiver enganado corrijam-me, por favor, houve polêmica, e houve polêmica porque dos 16 concorrentes, fui investigar, 13 haviam prometido que não iriam à Eurovisão para boicotar a participação israelita. Ou seja, a Eurovisão não impediu Israel de participar nesse festival, um festival internacional. A RTP também não tomou posição a respeito e por isso a quase totalidade dos participantes do nosso festival anunciou previamente que caso ganhassem não aceitariam representar a televisão portuguesa lá fora, como se diz. Por azar ou por decisão da votação do público, parece que o júri não escolheu a mesma canção, mas o público decidiu a votação final, quem ganhou o Festival RTP foi um dos 13 únicos artistas que recusou aderir ao boicote. Foi no caso os Bandidos do Cante, acho que se chama assim, é um grupo vocal que pratica essa modalidade de canto alentejano. E quem tenha andado pelas redes sociais desde sábado pode encontrar sem dificuldade a quantidade de insultos que os desgraçados dos vencedores têm recebido. Eu devo dizer que a maioria não são insultos particularmente originais e consistem em chamar os rapazes de fascistas. Pelos vistos, hoje em dia fascista descreve uma pessoa que não padece de antissemitismo. E já agora também não me venham com aquela distinção postiça entre antissemitismo e antissionismo. Antes disso vão perceber o que antissionismo significa e depois falamos. Mas há outros que tentam aprofundar os insultos e sem se rirem explicam que o canto alentejano nasceu como forma de resistência política ao Estado Novo. E aqui há dois pormenores que convém notar. O primeiro é o de que o canto alentejano não tem origens claras, não se consegue determinar uma fonte específica, mas existe há séculos, portanto é um bocadinho mais antigo que o Estado Novo e um bocadinho mais antigo que a influência do PCP entre os trabalhadores do Alentejo. O segundo pormenor é achar-se que resistir a um regime ditatorial implicaria agora estar do lado do Hamas contra Israel, quando é óbvio que se trata do exato oposto. E é natural que com tanta informação, tanta desinformação e puras mentiras, as coisas já tenham dado um nó na cabeça de muita gente e esteja tudo ao contrário. Mas se removermos as distorções, o fato é que Israel é uma democracia que tem resistido ao regime ditatorial e criminoso que tem mandado em Gaza. Se quiserem, o regime de Gaza é que é fascista, se insistirem muito no termo. E por acaso é praticante de um grau de barbárie imensamente superior ao do Estado Novo, felizmente para nós. Não vale a pena esticar a realidade para ver se a realidade se adequa aos nossos gostos. Não sei se as pessoas fazem isto por ignorância, se fazem por convicção. Agora, prometer boicotar a Eurovisão por causa de Israel é um ato de antissemitismo, e criticar os rapazes que agora ganharam o Festival RTP da Canção é um ato de antissemitismo, e criticar a RTP por não se ter excluído da Eurovisão é um ato de antissemitismo. E o maior ato de antissemitismo está na circunstância dos que hoje condenam o que aconteceu no Festival RTP da Canção a não terem condenado, acredito eu, o que aconteceu no outro festival de música, o Nova Music, quando a 7 de outubro de 2023, como as pessoas sabem ou deviam saber, centenas de pessoas foram massacradas no local ou sequestradas para serem torturadas e mortas depois. Esse festival, transformado numa ação, essa sim, de genocídio, ao contrário do que se tenta imputar a Israel, essa ação eu acredito que não tenha levantado grandes objeções entre os que vêm agora criticar os tais Bandidos do Cante. Pelos vistos, os únicos festivais de que essa gente gosta são aqueles em que os judeus são proibidos de entrar ou são mortos. Isto não tem nada de mal, é apenas antissionismo, como se sabe. Convém não esquecer. E o antissionismo não tem nada de antissemitismo. Nada, absolutamente nada.
Alberto, um abraço. Até amanhã.
Um abraço, Ricardo. Até amanhã.