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Bem-vindos à terceira de quatro conversas Impacto em Saúde, série em torno dos Top Health Awards, prêmios que reconhecem projetos e talentos que contribuem para criar mais valor e resultados em saúde. Hoje vamos conversar sobre literacia em saúde. É convidado o Óscar Gaspar, membro do júri e presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. Bem-vindo, Óscar.

Muito boa tarde.

O Óscar é júri dos Top Health Awards. Uma das categorias é literacia em saúde. Há um problema de literacia em Portugal?

Há claramente um problema de literacia e podemos vê-lo no dia a dia, na forma como as pessoas acedem aos cuidados de saúde e da forma como elas se relacionam com as instituições de saúde. Mas se quiser, até em termos mais concretos, no Questionário Europeu de Literacia em Saúde, constatou-se que em Portugal 61% das pessoas tinham nível de literacia inadequado ou problemático. Isso é bastante preocupante, porque a questão da literacia é muito relevante, desde logo para os próprios, para os cidadãos, mas também para as instituições de saúde e para o sistema. Para o próprio, porque literacia em saúde é um bocadinho como a forma de nós nos orientarmos no sistema. Dizendo de uma outra forma: nós, portugueses, sabemos que foi com o sextante, com a bússola, que descobrimos a Índia e o Brasil. Ora, a forma como nós percebemos onde é que estamos, pra onde é que podemos ir, que opções é que temos, que tratamentos, que possibilidades é que temos, isso é dado pela literacia em saúde. Portanto, quando constatamos que em Portugal há esse problema, as pessoas sofrem com isso e não têm tratamentos adequados. Também o fato de haver um nível de literacia abaixo daquilo que era devido prejudica os prestadores, porque nós não estamos totalmente preparados para aquilo que é a procura, e a procura nem sempre é adequada pra oferta que existe. Por outro lado, se houver mais literacia em saúde, o próprio sistema acaba por ser mais eficiente, ou seja, mais literacia permite à pessoa maior nível de satisfação quando acede aos cuidados de saúde, permite um diagnóstico mais precoce, atempado, permite uma terapêutica também mais adequada e permite eficiência. É por isso que às vezes a literacia é um palavrão, mas é tão importante. É, voltando ao início, a pessoa saber onde é que está no sistema e que vias, que opções é que tem à sua frente.

No fundo, acabam-se com os desperdícios, não é?

É isso mesmo. Por um lado, acabam-se com os desperdícios e, por outro lado, para o cidadão ou para o doente, se quiser, é sentir que está dentro do sistema, que o sistema o acompanha e que tem a resposta de que necessita. Porque muitas vezes não é só a pessoa ter a resposta, é sentir que tem a resposta que necessita. E a literacia dá isso. A literacia não é ser inundado de informação, de dados. Antes pelo contrário, muitas vezes essa amálgama de dados até prejudica. A literacia é exatamente perceber, dentro de todos os dados que existem, quais é que são relevantes pra sua situação de saúde ou de doença.

Muito bem. A falta de literacia em saúde, na sua opinião, deve-se a quê?

Nós temos falta de literacia em Portugal a diversos níveis. No caso da saúde, eu penso também é justo dizer que estamos numa área bastante complexa e cada vez mais complexa. Hoje temos muitas instituições, temos muitas especialidades. É uma área em que muitas vezes o próprio diagnóstico é a parte mais complicada. Depois do diagnóstico, é mais fácil de perceber quais são as possíveis terapêuticas e, portanto, a área em si é complicada. Por outro lado, eu penso que o excesso de informação prejudica. Com franqueza, como às vezes se diz, a questão da facilidade do doutor Google, da pessoa pensar que pelo fato de fazer uma pesquisa na internet, ter a informação adequada, não ajuda. Antes pelo contrário, muitas vezes complica, porque nós não temos a informação necessária pra decodificar aquilo que lá está. Nesse aspecto é que me parece que a componente importante da literacia, e é por isso que os Top Health Awards também permeiam esta categoria, é empoderar as pessoas, como se diz. É dar-lhes a capacidade de terem a percepção da sua situação de saúde, terem a percepção de quais são as possibilidades e poder participar na gestão da sua saúde e na sua doença.

Falou dos Top Health Awards, é o que nos junta aqui hoje nesta conversa. O que é que se permeia nesta categoria, literacia em saúde?

Nesta categoria, permeiam-se todas aquelas iniciativas, todos aqueles projetos que visam capacitar as pessoas, os cidadãos, os doentes também, as associações de doentes, no sentido de terem as tais competências pra poder participar no seu percurso de saúde e de doença. Esta questão da participação é relativamente nova na saúde, nomeadamente em Portugal, mas isto tem que ficar muito claro: a saúde não é uma questão dos hospitais, nem dos médicos, nem dos enfermeiros, nem dos farmacêuticos, nem de quem quer que seja. A saúde é uma questão de cada pessoa, desde logo. Portanto, a sua capacidade de poder dizer quais é que são as suas queixas, o que é que necessita para manter a sua condição de saúde ou o que é que necessita para recuperar a sua saúde é essencial. A pessoa até pode não saber, em termos científicos, descrever aquilo que sente ou qual é o problema Cada pessoa é uma pessoa, cada problema é um problema. E, portanto, a literacia dá essa capacidade à pessoa ou às associações de doentes de participar. E o Top Health Awards, nesta categoria, pretende premiar iniciativas individuais, de associações da área pública, da área privada, da área social, que tenham em vista esta capacitação dos cidadãos e das associações de doentes.

Dando assim alguns exemplos, ou hipoteticamente, que projetos ou iniciativas é que podem candidatar-se e quem sabe ser premiados nesta categoria, Óscar Gaspar?

Eu tive o privilégio já no ano passado ser júri do Top Health Awards. Deixe-me dizer-lhe que o nível de projetos que temos em Portugal é muito bom. Nesse aspecto, temos uma sociedade civil bastante ativa. E eu penso que é justo dizer que a saúde é uma preocupação dos portugueses. Nós temos, por exemplo, muitas associações de doentes, muitas vezes de acordo com algumas doenças. Muitas vezes as próprias associações de doentes têm dificuldade de congregar informação entre os doentes e depois terem condições de transformar essas preocupações numa proposta, por exemplo, para um Ministério da Saúde, para uma Direção-Geral de Saúde, para o Infarmed, o que quer que seja, para resolver o seu problema.

No sentido de fazer a ponte entre o doente e a autoridade pública.

Exatamente. Nós temos, por exemplo, em Portugal, muita falta de registros, de informação objetiva. E, portanto, quer ao nível da academia, de projetos científicos, como em termos mais concretos, de pôr as pessoas a falar, de as juntar, de capacitar as associações de doentes para não apenas serem um repositório de queixas e de problemas, mas não, de dar o salto em frente e perceber onde é que podem resolver. Esses são projetos, de facto, muito interessantes.

Muito bem. Disse há pouco que podem candidatar-se cidadãos e instituições.

Cidadãos, instituições, entidades da área científica, académica, públicos, privados, sociais. É um projeto bastante aberto e de facto temos recebido candidaturas das diversas áreas.

Muito bem. Óscar Gaspar, muito obrigado.

Foi um gosto.

Top Health Awards, os prémios que reconhecem projetos e talentos que contribuam para criar mais valor e resultados em saúde. Concorra até o dia 30 de novembro através do site tophealthawards.com. Até para a semana.