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Bem-vindos ao último de quatro episódios dedicados aos Top Health Awards, os prêmios que reconhecem a excelência, o propósito e o impacto em saúde. Neste derradeiro episódio, vamos conhecer dois projetos premiados em edições anteriores e perceber o que mudou com a atribuição dos Top Health Awards. Temos conosco Farisa Hassan, da Unidade Local de Saúde de São José, que viu premiado o projeto CAPO, Centro de Atendimento Pré-Operatório. Bem-vinda, Farisa.

Muito obrigada.

E temos também conosco Cátia Gameiro, das Irmãs Hospitaleiras, que viu premiado o ExerCogs, ferramenta informática criada para prevenir a demência. Bem-vinda, Cátia.

Obrigada.

Vou começar por si, Cátia. O que significou receber este prêmio no Top Health Awards?

Este prêmio foi para nós um marco importante. Por um lado, trouxe-nos reconhecimento e aumentou a nossa visibilidade também na área do envelhecimento e demências, e reconheceu a nossa inovação tecnológica de uma equipa de saúde com vontade de criar, com vontade de resolver problemas e que alia a saúde à tecnologia no sentido de conceber uma ferramenta de raiz para chegar a quem mais dela precisa, neste caso, as pessoas mais velhas.

Farisa, o que significou para a Unidade Local de Saúde de São José a atribuição de um prêmio nos Top Health Awards?

Obrigada pelo convite. Para nós, no ULS São José, este prêmio teve três significados. Primeiro, foi um reconhecimento externo que a CAPO não é só uma solução organizativa, é uma mudança no paradigma do percurso do doente cirúrgico. Segundo, foi um incentivo claro do Conselho de Gestão para continuarmos a inovar, a trabalhar de forma integrada e a pensar diferente, a apostar na complementaridade, na multidisciplinaridade, a apostar no trabalho em equipa. E terceiro, foi um sinal de que a equipa, médicos, enfermeiros, administrativos, toda a equipa, de que o esforço diário que fazem pelo doente é visto, é medido e é valorizado. Portanto, mais do que o troféu, este prêmio deu-nos legitimidade para continuarmos a crescer.

Muito bem. Farisa, o CAPO veio transformar a forma como os doentes são preparados para a cirurgia. O que mudou na prática com este centro pré-operatório?

Mudou o essencial. O doente deixou de andar de serviço em serviço e passou a ser o hospital a organizar-se à volta do doente. Na prática, hoje em dia, o doente faz tudo no mesmo dia e no mesmo local, nomeadamente análises, raio-X e eletrocardiograma, consulta de anestesia, consulta de enfermagem. E isto dá-nos uma coisa que antes não tínhamos: previsibilidade. Sabemos que o doente chega à data de cirurgia preparado, com os exames certos, com as dúvidas esclarecidas e com as comorbilidades já discutidas com as especialidades do suporte. O impacto foi muito concreto. Reduzimos os cancelamentos de última hora em 67,5% nos casos em que o doente fazia exames e depois não era operado nos seis meses seguintes. E melhoramos a experiência do doente, que passa menos vezes pelo hospital e sente que há uma equipa a acompanhá-lo do princípio ao fim. E muito importante, aumentamos a eficiência usando praticamente os mesmos recursos.

Portanto, diminuiu também a imprevisibilidade.

Sem dúvida. A imprevisibilidade permitiu-nos antecipar riscos, contribuindo para a melhoria dos blocos operatórios, reforçando a articulação entre cuidados e, por último, para termos uma verdadeira política de segurança do doente e prestarmos melhores cuidados.

Cátia, como é que surgiu a ideia de criar uma ferramenta digital como o ExerCogs para prevenir a demência?

Nós, enquanto equipa de saúde, queríamos colocar o nosso conhecimento ao serviço do desenvolvimento de uma solução inovadora. E isto porque sabemos que a demência implica não só questões de saúde, mas também questões econômicas e sociais. Sabemos hoje que 45% dos casos de demência se devem a fatores de risco modificáveis, tais como a inatividade física, o isolamento e a depressão. E neste sentido, nós sabemos que são fatores nos quais podemos e devemos intervir. Assim, enquanto equipa de saúde, aliamo-nos ao Instituto Superior Técnico e concebemos esta ferramenta que permite, numa mesma atividade, estimular o funcionamento cognitivo, a atividade física, mas também a interação social, porque os jogos decorrem em grupo. Com esta componente de jogo e com a realidade aumentada, nós conseguimos proporcionar uma experiência gratificante, motivante, em que os participantes se desafiam e apoiam-se mutuamente. Isto também lhes confere laços, pertença, vínculo, relação.

No fundo, o ExerCogs é um conjunto de jogos, é isso?

Exatamente. Portanto, são videojogos cognitivos que assentam na realidade aumentada e privilegiam esta componente da gamificação ao serviço da prevenção da demência.

Farisa Hassan e Cátia Gameiro, os vossos projetos foram premiados nos Top Health Awards. O que mudou desde então, Farisa?

No nosso caso, o prêmio funcionou como um acelerador. O projeto CAPO já estava a dar resultados, mas o prêmio tornou-o visível dentro da instituição e, sobretudo, mostrou que o modelo é replicável Passámos a ser chamados para explicar o percurso do doente cirúrgico, para articular com o bloco, para trabalhar com os cuidados de saúde primários e porque muitas vezes o problema não é técnico, é de recursos e é o percurso em si. Outra mudança importante foi também a mudança interna dentro da CAP. A equipa sentiu-se autorizada a propor melhorias, a olhar para o percurso. Por exemplo, o apoio alimentar depois do doente fazer análises, o doente está em jejum e portanto tem necessidade de ter algum apoio.

Já não anda à procura da comida.

Exatamente. Nós temos isso assegurado. E o doente tem ali qualquer coisa que o possa compensar depois daquele longo tempo em jejum, que ainda são três horas, ainda faz alguma diferença. E por último, a questão das sessões de enfermagem para patologias em específico. Nós estamos a fazer sessões de enfermagem, por exemplo, para doentes com cancro da mama, o que nos permite que os doentes partilhem as suas dúvidas, que aprendam uns com os outros e nós também aprendemos com eles. Novamente, o prémio foi um marco importante que nos deu o principal argumento para evoluir.

Para evoluir. Cátia, a mesma pergunta: o que mudou desde a atribuição do Top Health Award?

Este prémio dá-nos a motivação para continuarmos no caminho da inovação, que é um caminho no qual temos apostado. Também constitui um estímulo para continuarmos a validar os nossos resultados, porque queremos efetivamente gerar impacto real na população mais velha, isto é, contribuir para a sua qualidade de vida e bem-estar. E leva-nos também a pensar que efetivamente esta é uma ferramenta na qual vale a pena apostarmos. É uma ferramenta que merece ser disseminada por diferentes territórios do país e por diferentes contextos, tendo em conta o seu potencial de replicação.

No fundo, vocês querem é pôr toda a gente a jogar, não é?

Verdade. Eu não diria melhor.

Foram contactadas por instituições no sentido de adotarem as vossas iniciativas e também projetos, nomeadamente o Exercogs e o CAPO. Cátia, no caso dos Exercogs, já suscitou aí interesse?

A resposta é sim. Temos sido contactados por diferentes instituições e acolhemos esses contactos com grande entusiasmo. Isto por quê? Porque quer da parte de contextos de reabilitação, quer da parte de instituições que estão no terreno, numa intervenção comunitária, veem nos Exercogs uma oportunidade de integrarem nos seus programas de promoção do envelhecimento saudável. E isso leva-nos a crer que há uma crescente sensibilidade também para as questões da prevenção e de intervenção precoce na demência. Por outro lado, isto dá-nos a confiança necessária para expandir e validar os nossos resultados em diferentes contextos, com instituições que estão em diferentes âmbitos e que podemos unir sinergias todos num propósito de trabalhar os fatores de risco que conduzem à demência.

Farisa, no caso do CAPO, do Centro Pré-Operatório, também já suscitou interesse de outras instituições? Já vos ligaram a perguntar: "Venham cá mostrar-nos como é que vocês trabalham". Foi?

Foi. Fomos contactados por vários outros hospitais, vários colegas, grupos de estudo. Fomos inclusive convidados pela Associação Portuguesa de Economia para a Saúde. Amanhã vamos participar na conferência, através da ACES. Mas eu acho que este interesse parte muito do Top Health Awards e para mim, tem sobretudo por base duas razões. Primeiro, porque toda a gente tem este problema, todas as unidades de saúde têm este problema, que são os cancelamentos no próprio dia, porque isto significa desperdício, frustração de equipas e má experiência do utente.

Quando diz cancelamentos no próprio dia, por parte do hospital ou por parte do paciente?

Cancelamentos no próprio dia, porque o doente não está preparado ou a sua situação clínica não foi validada.

A tal surpresa de última hora.

Exatamente. E isto foi um aspecto que se conseguiu prevenir através da CAPO, porque antes o doente fazia os seus exames nos vários sítios, a resposta era desconexa, estava fragmentada e ninguém validava a sua situação clínica. Ele apresentava-se no bloco e então era validada a sua situação clínica e não estava preparado. Isto significa que do ponto de vista de replicabilidade, é um processo simples, pode ser perfeitamente replicável e tem, sobretudo, um impacto, que é a redução do desperdício e uma eficiência dos recursos.

Como é que preveem o futuro das vossas iniciativas premiadas, Cátia, no caso da Exergogs?

Nós, enquanto equipa de saúde e novamente aliados ao Instituto Superior Técnico, vamos continuar e perspetivamos o futuro com particular otimismo. Nós contamos já com mais de 900 utilizadores, estamos presentes em mais de 20 instituições e estamos a implementar os Exergogs a nível do país na nossa rede de ginásios cerebrais. Isso dá-nos a confiança necessária para acreditar que esta ferramenta tecnológica pode fazer a diferença ao trabalhar de forma integrada os fatores de risco Que podem estar associados ao desenvolvimento de um quadro demencial e dá-nos este reforço de que precisamos de desenvolver mais jogos e estamos a fazê-lo, bem como estamos a associar uma app para facilitar o acesso a esta solução. E, por outro lado, estamos a desenvolver um estudo com grupo de controle, porque não queremos parar também na vertente científica, e é essa cientificidade que nos vai conferir depois toda a credibilidade que necessitamos para fazer este percurso de progressão, de expansão, de crescimento, porque é isto que ambicionamos.

Farisa Hassan, como é que antevê o futuro do CAPU?

No caso da CAPU, o futuro passa principalmente por dois eixos. Primeiro, aprofundar, reforçar as competências, o ensino, todo o trabalho que é desenvolvido pela equipa de enfermagem, procurar uma maior eficiência, conseguirmos reduzir ainda o tempo de estadia na CAPU, que é de uma hora e meia. Uma hora e meia para fazer análise de eletrocardiograma, raio-X, consulta de anestesia, consulta de enfermagem e ainda para validar se o doente precisa de mais algum tipo de exame antes da cirurgia. Depois, uma segunda etapa, integrar, trabalhar mais de perto com as especialidades, ir ao encontro dos doentes mais complexos, os doentes que moram longe, trabalhar, procurar em articulação com as unidades de saúde primárias que haja algumas situações que possam ser acauteladas nas unidades de saúde primárias. Obrigada.

Muito bem. E que conselho dariam a quem tem um projeto com impacto em saúde e não está a pensar concorrer aos Top Health Awards? Cátia.

Eu diria: acreditem no vosso projeto, concorram, vale a pena. Este é um prêmio que dá visibilidade, gera partilhas e inspira as equipas a inovar.

Farisa.

O meu conselho é muito direto: concorram! Posso dizer mais? Muitas equipas fazem coisas excelentes dentro dos hospitais e nunca as mostram. E depois ficamos com a sensação de que em Portugal não inovamos, quando, na verdade, inovamos todos os dias de forma silenciosa.

Muito bem. Tenho que fazer uma confissão, se for ao Prado, quero passar pelo CAPU.

Perfeito. Está de partido.

Farisa Hassan e Cátia Gameiro, agradeço às duas. Muito obrigado por terem estado aqui neste podcast, este derradeiro podcast dedicado aos Top Health Awards. Chega então ao fim esta série de quatro episódios. Se tem um projeto ou iniciativa que faz a diferença na saúde em Portugal, este é o momento de dar a conhecer. As candidaturas aos Top Health Awards decorrem até 30 de novembro em www.tophealthawards.com. Basta clicar em "Candidaturas". Obrigado a todos os ouvintes que nos escutaram ao longo das últimas quatro semanas. Até à próxima e boa sorte a todos os concorrentes.