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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar pra alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast, são conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos ao nosso espaço de conversa "Isto Não é Mais um Podcast". Este é o nosso quinto episódio da nossa terceira temporada, um podcast dedicado ao financiamento da arte, cultura e criatividade. Hoje tenho comigo José Miguel Pereira, do Jazz ao Centro Clube, que nos vem falar do seu projeto TILT, que é apoiado pela iniciativa Live MX, onde são parceiros de implementação. Bem-vindo. Obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Obrigado eu. É sempre excelente poder partilhar o parco conhecimento, no meu caso, que tenho acerca dessas matérias de financiamento europeu, mas mais importante que isso é falar sobre o projeto.

Eu começaria justamente por dizer que o Live MX tem um objetivo muito específico, que tem a ver com o desenvolvimento e reforço de competências e capacidades também do setor da música, dando respostas muito específicas ao ecossistema. Como já tive a oportunidade de dizer noutros episódios, o Live MX decorre do Music Moves Europe, que é uma ação Europa Criativa, e que é implementada pelo que nós chamamos os financiamentos em cascata. Teremos certamente a oportunidade de falar um bocadinho mais sobre isso. E por isso o que eu sugeria era que fôssemos ao que interessa e que tu nos explicasses de que se trata o projeto. Só pelo nome que fica muita curiosidade, não é, TILT? Fala-me um bocadinho do projeto.

Bem, TILT é um acrônimo de Turin Is Louder Today. Então isso também já nos dá uma indicação de onde vem este projeto. Qual é a sua origem. Ele foi alvo de uma candidatura a este fundo, o Live MX, e quem submeteu a candidatura foi uma entidade italiana, precisamente a cidade de Turim. E como é que nós entramos aqui? Entramos aqui enquanto parceiros deste projeto. Há dois parceiros que servem tarefas muito específicas na implementação e na disseminação do projeto. Um parceiro português, nós, o Jazz ao Centro Clube, e depois uma entidade também não lucrativa, uma associação sediada em Madri, que se chama La Parceria. Então é um projeto interessante também nesta dimensão em que embora haja um monobeneficiário, que é a associação Espaço 211, sediada em Turim, acaba por ter uma dimensão europeia, dada por estas parcerias.

Fala-me um bocadinho das vossas responsabilidades, o que é que tiveram que fazer, o que é que estava a vosso cargo em termos de atividades e como é que chegaram ao líder, ou como é que o líder chegou à vossa entidade, que é sempre, para mim, interessante perceber essas dinâmicas.

Falavas há pouco do Music Moves Europe, que já, já vamos em 10 anos da construção de um processo de reforço do setor da música e dos seus diferentes subsetores. E é interessante que ao longo deste tempo, nós também entramos tarde nesta dinâmica das parcerias europeias, mas ao longo dos últimos anos temos participado em fóruns, feiras, showcase festivals, conference festivals, um pouco na tentativa de conhecer mais acerca do que são as soluções que outras entidades semelhantes a nós estão a implementar nos seus diferentes países para resolver problemas que são comuns, no fundo, são problemas muito similares que o setor enfrenta. E nós temos, ao longo dos últimos anos, participado nesses tais encontros. E estas sessões de networking são extraordinariamente importantes. E eu diria logo que assim, à partida, é um dos poucos conselhos que nós podemos dar.

É um conselho bom.

Participar, ou seja, ir assistir a debates, assistir a sessões onde haja partilha de boas práticas. E muitas das vezes não é nessas sessões que acontecem estes contactos, voltando ao TILT, é nos encontros que se seguem. É no café, é no jantar. E o que é interessante, neste caso concreto, para irmos ao TILT, é que conhecemos a Valentina Zanelli, que é, digamos assim, a pessoa que idealizou o projeto dentro dessa tal associação de Turim. Conhecemos a Valentina, porque ela veio a Coimbra para um fórum, para um encontro que nós coorganizamos em Coimbra, que se chama MAT, e que é um evento destinado a profissionais. E a Valentina ficou apaixonada pela dinâmica do nosso trabalho e passado dois meses convidou-nos para fazer parte do projeto. A história, a versão curta, é esta.

Sim, mas toca assim um ponto que pra mim é muito querido e que faz parte do meu lote de conselhos, que é as pessoas fazerem um esforço pra participar em fóruns, em reuniões, em gatherings, que de certa maneira reúnem profissionais pra se conhecerem, pra trocarem boas práticas. E aí, depois, certamente que nascerá qualquer coisa nos tais momentos informais que tu acabaste de explicar. Eu acho que é um ponto muito importante. Fala-me um bocadinho das vossas responsabilidades no projeto.

No âmbito do TILT, tivemos como responsabilidade disseminar uma componente muito específica do projeto, que tinha a ver com uma open call, que teve lugar com o objetivo de selecionar artistas destes países, portanto, Espanha, Itália e Portugal. E naturalmente nós tivemos responsabilidades extra no que dizia respeito à comunicação do projeto em Portugal. No total, houve cerca de 80 candidaturas para estes showcases, que vão acontecer no terminus do projeto. Os showcases, os concertos e a visita de alguns programadores para assistirem a esses showcases, acontece precisamente nos últimos meses do projeto. E nós fizemos esse papel de tentar, dentro daquilo que eram os nossos contactos em Portugal, passar a informação de que havia esta oportunidade. E teve um belíssimo resultado. Quase 20 candidaturas que foram comunicadas num curto espaço de tempo. Convém dizer, estes projetos são de pequena escala e são executados num curto período de tempo. Neste caso, o TILT demora 11 meses a executar. Desde que se assina o contrato de implementação do projeto até ao seu final, passam 11 meses. E isso é a correr, é mesmo muito rápido. Então todo o processo teve de acontecer com essa celeridade e ficámos bastante contentes com o resultado destas tais quase 20 candidaturas de projetos portugueses para irem a Turim, para esse tal showcase festival que vai fechar o TILT.

Ok. Esse também é um aspeto muito relevante, é o facto destes projetos que estão em cascata, vamos dizer assim, serem todos muito mais rápidos. São mais rápidos no processo de candidatura, são mais rápidos na decisão, são mais rápidos na implementação. E aproveito a deixa para te perguntar sobre o processo de candidatura. Não sei se estiveram envolvidos no processo de candidatura, na proposta, e o que é que sentes que foi mais difícil? Foi de facto esse processo, que apesar de ser simplificado, é sempre um processo de candidatura, ou a fase de gestão, de pôr tudo isto em marcha, de pôr tudo isto em andamento?

Estivemos envolvidos no processo de candidatura. É óbvio que havia uma responsabilidade maior daquele que era o líder do consórcio, mas efetivamente foi uma boa experiência também a esse nível. Ou seja, procurou-se que cada um dos parceiros, por menor que fosse a sua responsabilidade, no final tivesse um input, tivesse um contributo decisivo naquilo que era a candidatura a apresentar. De facto, é um procedimento simplificado em relação àquilo que acontece num projeto da Europa Criativa, um projeto de cooperação, por exemplo, neste setor. É bastante mais simples, mas também é um desafio fazer uma candidatura mais simples, que seja muito enxuta, ou seja, tem de ir direto àquilo que são os objetivos deste fundo. Ele pretende apoiar efetivamente e fazer com que o dinheiro chegue a destinatários muito específicos. Normalmente, não se privilegia o grande número, privilegia-se sim que impacto real pode ter, mesmo que sejam em poucos artistas ou em poucos profissionais do setor, que impacto real é que a medida pode ter.

Ok. Sim, faz muito sentido o que estás a dizer e partilho da tua opinião, até pela escala das candidaturas. Do ponto de vista da vossa instituição, do Jazz ao Centro Clube, e pensando nos resultados, não deste projeto em concreto, mas o que é que achas que ganharam verdadeiramente com este projeto? Nos recursos, no financiamento, na experiência, na participação em redes internacionais, o que é que sentes que foi o resultado, para além da implementação óbvia do projeto?

Eu quando dizia, há pouco, que nós entrámos relativamente tarde, a nossa associação cultural, o Jazz ao Centro Clube, tem 20 anos, duas décadas de trabalho. Efetivamente, se calhar, só na última metade, mas com especial interesse e uma lógica mais estruturada, só nos últimos cinco anos é que começámos realmente a olhar para fora. E isto quer dizer que muitas das vezes é preciso haver essa tal sustentabilidade primeira que vem da estruturação de um projeto a nível nacional, local, ou seja, dependendo da forma como a estrutura ou a organização cultural se pretende projetar. Mas para nós foi um caminho longo. Desta tal implementação muito forte a nível local. Somos de Coimbra, estamos sediados em Coimbra.

Mas isso é bom.

Sim. No fundo, os parceiros, e eu acho que isto é um ponto importante, eu diria logo que a segunda coisa a seguir a estar presente, em aparecer nestes encontros, onde se discutem questões importantes, muito relevantes, e onde se conseguem encontrar pessoas com preocupações similares às nossas, porque às vezes pensamos que estamos sozinhos, não estamos.

Sim, nunca estamos sozinhos. Não, isso nunca estamos.

E há este aspecto de os parceiros potenciais vão nos procurar por aquilo que nós somos Portanto, se não houver uma base sólida de um projeto artístico, de um programa cultural que estejamos a fazer já, naturalmente não vamos despertar interesse por parte desses potenciais parceiros. Se não houver uma base sólida a nível local, ou regional, ou nacional.

Sim, trabalho feito para se ver, não é?

Claro. Dificilmente vamos conseguir passar a esse outro patamar. Nos entendemos nesta lógica, de que a dimensão europeia é um patamar que se junta àquilo que depois já acontece no nosso trabalho quotidiano, do dia a dia.

E sentes que este projeto foi um passinho à frente para poderem entrar em outro tipo de redes?

Nós já tínhamos alguma experiência. Não enquanto líderes, até agora nunca fomos líderes de um projeto europeu, mas já tínhamos a experiência no programa Erasmus+, já tínhamos experiência no programa Europa Criativa.

Cooperação?

Projetos de cooperação, sim, enquanto parceiros, diretamente beneficiários e, portanto, a executar atividades específicas, o tal festival Mate, que eu falava há pouco.

É curioso, porque normalmente o processo é inverso. Ou seja, primeiro há a tentativa de entrar num cascata e depois, a seguir, é que se dá o passo em frente para a cooperação. E no vosso caso foi um bocadinho tudo ao mesmo tempo, não é?

Sim, basicamente tudo ao mesmo tempo. E acabamos por muitas vezes, ao longo destes últimos cinco anos, como eu dizia, intensificamos. Se calhar também tem mais a ver com a atitude capaz de acolher essas propostas. Quando alguém nos diz: "Epá, vamos."

Tem a escala adequada para acolher agora.

E agora sim, já conseguimos responder positivamente a mais desafios que se calhar há uns tempos atrás não conseguiríamos fazer. E há um impacto específico. É óbvio que depois estes projetos, não em concreto este do Livemex, do Tilt, porque não tem uma grande exigência administrativa para nós. Vamos ser claros, nós somos um parceiro de implementação e de disseminação, estamos superenvolvidos na iniciativa, mas quem gere o processo a nível burocrático é o líder do consórcio. Nos outros projetos a que nos candidatamos, não é bem assim. Ou seja, nós fazemos parte de um consórcio que tem de entregar, no final do período de execução do projeto, uma série de evidências, tem de entregar resultados. E aí, isso foi um desafio efetivo. Não é que seja muito diferente do que se passa a nível nacional, nos programas de financiamento, mas tem uma camada de complexidade que importa ter em conta quando se decide começar com este tipo de parceria a nível europeu.

Sim, eu sinto que a vossa entidade já tem uma experiência relevante, na gestão destes projetos. Basta terem tido três experiências diferentes, Livemex, Erasmus+ e Europa Criativa, para vos já dar aqui uma abrangência muito diferente. Vocês têm rotinas de trabalho no que diz respeito à procura de financiamento europeu? Isto é, têm alguém que está sistematicamente a ver os avisos, têm alguém que está a fazer um screening das propostas? Como é que se organizam neste contexto?

Lá está, este último período, este último terço da nossa vida, sim, temos dedicado mais tempo. E esta é uma dificuldade enorme para entidades de caráter mais pequeno.

É por isso que eu faço a pergunta.

É uma dificuldade enorme, porque como é que se vai alocar uma pessoa, independentemente do tempo que ela passe para fazer a pesquisa e esse tal screening das oportunidades de financiamento, quando se tem uma estrutura muito pequena e se tem de correr a projetos que estão ongoing. E que são exigentes. No nosso caso, tivemos a sorte de, também ao longo dos últimos cinco anos, termos sido beneficiários de um apoio sustentado por parte da Direção-Geral das Artes. Pode parecer que estamos a falar de coisas completamente diferentes, mas não estamos.

Não estamos de todo. Um é financiamento europeu, outro é financiamento nacional, mas concorrem em simultâneo no sentido de robustecer as entidades. Um, com caráter estruturado, é por isso que ele serve. E outro, por uma lógica mais de acolher projetos de outra natureza internacional. Estamos completamente sintonizados.

Claro. Se não tivéssemos tido a oportunidade de, durante cinco anos consecutivos, termos uma estrutura em que as expectativas estão mais ou menos estáveis. Toda a gente do setor criativo e cultural sabe que estes apoios não são milionários, mas permitem de fato estruturar uma equipa. E não é por acaso. Esta coincidência temporal não acontece por acaso. Só numa altura em que tivemos a capacidade de ter uma equipa de trabalho consolidada, de alguma forma, é que conseguimos começar a olhar para fora e a devotar algum tempo. Lá está, algum tempo, que às vezes eu percebo quando algumas pessoas me perguntam: "Mas por que nós devemos ir àquele fórum ou àquele encontro? Temos tanta coisa para fazer." É um investimento que se faz esperando que, no futuro, essa rede de contactos possa produzir algum resultado. Sempre a partir do projeto artístico. Esse investimento tem que ser feito sempre com uma base muito sólida em relação àquilo que fazemos, voltando à conversa que estávamos a ter há pouco. Se não houver um projeto artístico de base sólido, dificilmente nesses encontros vão olhar para nós como um parceiro potencial. Essa é uma questão importante. Há poucas entidades em Portugal que se possam, de facto, lançar no universo europeu, porque o setor em Portugal é muito frágil, de uma forma geral.

Sim, e também às vezes não há a noção que estes projetos, e agora falo dos europeus, mas os nacionais também, também permitem contratar pessoas. E se tu tiveres um projeto Europa Criativa a correr e contrataste uma pessoa para trabalhar nessa candidatura ao longo de 36 meses ou a vigência do projeto, essa pessoa fica altamente capacitada para começar a pensar no que vem aí. E esta dimensão é um bocadinho perdida, parece que estamos sempre a pensar no presente e pouco a pensar no futuro. Essa abordagem para mim é muito interessante. E também corresponde a outra coisa que eu acho que faz muito sentido, a expressão é já muito utilizada, mas eu vou utilizar à mesma, que é não pôr os ovos todos no mesmo cesto. Essa diversidade de financiamento que vocês foram encontrando, fazer o DGARTES para um propósito mais longo prazo, fazer um Europa Criativa que nos transporte um bocadinho para fora. E assim sucessivamente, dá-vos uma lógica, que eu acho que é aquela que se deve seguir, que é irmos diversificando as nossas fontes de financiamento e ir encontrando em cada um dos programas a sua principal valência. É muito útil o que tu estás a dizer, acho que é muito útil para quem nos está a ouvir. Aqui no nosso podcast, o nosso objetivo é incentivar as pessoas a olhar para o financiamento europeu e perceber como é que isto funciona. Acho que temos muito esta preocupação didática, que está sempre a explicar as coisas para que não fique nenhuma ponta por atar. O que é que achas que falta fazer para melhorar a utilização destes instrumentos europeus por parte do setor cultural e criativo? Isto porque eu acho que ainda há margem de trabalho, ainda há mais coisas que nós possamos fazer para motivar as pessoas a não perder estas oportunidades.

Há definitivamente muito a fazer. Eu acho que, por exemplo, no que se refere à qualidade dos pontos de contacto nacionais, porque há aqui diferentes dimensões. Nós podemos estar muito atentos ao que acontece e procurar informação diretamente ao nível de Bruxelas, ao nível europeu, da Comissão, mas há outras fontes de conhecimento. Pessoas como tu e também instituições, entidades a nível nacional, que têm como responsabilidade passar informação. São pontos de contacto nacional precisamente por causa disso, ou seja, acabam por intermediar o que é o conhecimento acerca dos diferentes programas, nas suas diferentes lógicas. E há uma grande qualidade dos pontos de contacto nacional, quer na ANI, quer no Centro Europa Criativa. Eu diria que também, terceiro conselho, porque não optar logo por uma inscrição numa newsletter que nos vai permitir receber, por exemplo, informação que já de si tem um tratamento, ou seja, está muito bem delimitada. Não precisamos de andar à procura e de andar a fazer pesquisas infinitas até chegarmos à informação que pode ser uma informação importante. Eu diria que, por exemplo, quem estivesse interessado no programa Europa Criativa e nesse universo de outras iniciativas de financiamento europeu, por exemplo, o Centro de Informação Europa Criativa, o ponto de contacto nacional sobre a Europa Criativa, é um recurso importante e tem duas pessoas no programa Media, uma e outra mais responsável pela cultura, que são superacessíveis e que de certeza poderão responder a qualquer dúvida que surja a uma pequena entidade que está a tentar começar a trilhar este percurso. Eu diria que já há coisas importantes que já existem, não há razões para sermos tão pessimistas quando nos confrontamos com essa questão. Ok, o que fazer para obter um financiamento europeu? Há fontes de informação, de aconselhamento e, eventualmente, de algum apoio na preparação ou no pensamento acerca de uma candidatura. Eu diria que a principal dificuldade quando nós vemos a diferença que existe entre Portugal e outros países, é a fragilidade do setor a nível nacional. Ou seja, é difícil passar para o espaço europeu se não houver esta capacidade interna de ter um trabalho sólido e uma equipa consolidada. E eu acho que acabamos por referir, algumas vezes, repetidamente ao longo desta conversa, a necessidade de ter uma base sólida no trabalho que fazemos no cotidiano. É óbvio que não quer dizer que um projeto europeu não surja ou que o nosso pensamento não seja logo de raiz um pensamento de ultrapassar fronteiras. E há projetos que de facto têm essa característica, ou seja, que não ficam dentro de fronteiras concelhias, nem sequer regionais, e têm como objetivo ultrapassar as fronteiras e têm um espírito europeu logo à partida. Mas eu diria que é raro. À partida, o que acontece é que muitas das vezes as nossas práticas são interessantes para comparar com outros, até por causa dessa diferença, porque temos muitas dificuldades e conseguimos vencê-las. Interessa perceber como é que nós fazemos este milagre Português de ter um setor cultural e criativo tão frágil e ao mesmo tempo conseguir-

Com tantos resultados.

Resultados.

Sim. Eu acho que as equipes são um problema, claramente, mas também às vezes fico a pensar, um pouco de mim para mim. Se, como tu dizes, e eu concordo, que os resultados continuam a ser bons. Ou seja, continuamos a ter um setor cultural e criativo que apresenta bons resultados e boas ideias. Portanto, o problema artístico não é. Às vezes fico a pensar se também não se dedica pouco tempo a esta questão do financiamento, se não é uma prioridade. Ou seja, se estamos todos focados no projeto artístico, e bem, mas ao mesmo tempo pensamos: "Está bem, mas como é que isto vai acontecer? Quais são os recursos financeiros que, no fundo, vão suportar esta ideia?" Às vezes fico a pensar se essa parte também não devia ser uma parte forte, que à partida também temos que contemplar para garantir que as coisas acontecem. Porque hoje em dia já ninguém se esquece, por exemplo, da comunicação. Nós sabemos, a comunicação é absolutamente essencial para um projeto artístico. Mas ainda continuamos a esquecer do financiamento. Até que ponto é que quando partimos, não partimos logo com um programador, com um especialista em comunicação e com alguém que vai tratar do financiamento.

É verdade.

Fico um bocadinho com essa sensação.

Se formos a tentar fazer um zoom sobre quais são os desafios que hoje em dia as entidades artísticas têm, e quando olhamos para a agenda, altamente complexa, da transição, das diferentes transições. Transição ecológica, das acessibilidades.

Sim, isso é outro tema.

Ou seja, há a necessidade das equipes hoje terem conhecimentos que requerem muito estudo. É impossível, e sabes bem disso, entrar neste universo sem estudar, sem ter tempo para, de alguma forma, nos dedicarmos. E quando falamos deste universo e depois colocamos os outros ao lado, a necessidade de termos práticas mais sustentáveis, a necessidade de olharmos para os nossos públicos, sabermos quem é que falta dentro da sala, como é que vamos fazer, o que se está a passar, por que só chegamos àquelas pessoas do costume e não conseguimos apelar a outras. Isso também tem a ver com comunicação, é certo, mas também tem a ver com o posicionamento das organizações culturais. E os desafios são muito grandes. E eu percebo e concordo totalmente com aquilo que dizias, mas vivendo isto todos os dias, percebo perfeitamente que as escolhas são muito difíceis.

Claro.

E depois as condições com que contratamos estes profissionais. Como é que é possível uma estrutura, de repente, ter alguém responsável por lidar com o público, por saber quais são estratégias específicas para chamar mais público às salas ou para ter uma maior diversidade de pessoas a assistir aos espetáculos. E há custos efetivos, evidentes. Não é só o conhecimento. Demos um exemplo muito simples: como é possível tornar espetáculos mais acessíveis do ponto de vista da linguagem gestual portuguesa. Nem estou a falar das acessibilidades físicas, que é uma questão, se calhar, aparentemente mais fácil de resolver, ou seja, resolve-se com engenharia.

Com infraestruturas.

Com infraestrutura. Há outras que são mais difíceis, tal como o financiamento. E é óbvio que, se calhar, nenhuma destas se vai resolver se nós não tivermos como prioridade o financiamento. Dificilmente. Uma estrutura não terá a capacidade de responder a estes desafios se não tiver projetos a decorrer, devidamente financiados, que permitam atrair profissionais qualificados. Ou seja, alguém que trate da questão da acessibilidade, precisa dedicar tempo, precisa perceber. Que é a questão dos artistas, como é que também temos mais artistas com incapacidades, com deficiência, a poderem aceder.

A aceder, a participar, a pensar.

Quer do lado do público. Portanto, é impossível, basicamente, contratar um profissional destes, ter uma profissional que possa estar dedicada a tratar essas questões dentro da nossa estrutura, se não tivermos acesso a financiamento. E, portanto, as duas coisas andam a pari passo. E essa prioridade que tu referes tem mesmo de ser estabelecida dentro das organizações culturais.

Sim, é um passo para o sucesso. Olha, foi uma conversa fantástica. Muita coisa que tu disseste eu também concordo e defendo. Portanto, foram certamente mensagens muito relevantes para quem nos está a ouvir. Adorei uma coisa que tu disseste, que foi ter atenção a quem falta dentro da sala. Isto é uma referência incrível. É mesmo isto que nós temos que fazer. Já deste alguns conselhos, mas eu gostava de terminar com um último conselho, perguntando: com base na tua experiência, que já é alguma, o que é que dirias a alguém ou uma organização que vai entrar nestas andanças dos fundos europeus, de modo a incentivá-la a participar?

Há uma coisa que é repetida muitas vezes, e eu acho que tem que ser repetida até à exaustão. E por isso é que eu também-

Vais voltar a repetir.

Vou voltar a repetir. Qualidade das parcerias. É fundamental. Do que conseguimos perceber até agora, às vezes não é o projeto artístico em si, ou o projeto que está em causa quando se cria o consórcio São as relações, a gestão das expectativas entre os diferentes parceiros, percebermos realmente que vale a pena construir o consórcio antecipadamente e entrar numa candidatura que pode ser muito apetecível. E nós, confesso que também já o fizemos, de: "Ok, vamos entrar numa candidatura que já está quase preparada. Entramos porque é necessário um parceiro." Nesse ponto de vista, é algo instrumental, mas porque também nos revemos no projeto. Mas é extraordinariamente arriscado, porque conhecer os parceiros e haver uma relação de confiança e de partilha de valores é fundamental, senão as coisas podem correr mal. Isto foi a modo de brincadeira, estes conselhos dados.

Sim, não, são sérios.

Mas têm aqui um grau de seriedade, porque são completamente baseados na experiência. Acho que muita gente concorda, e há evidências de que isto acontece mesmo assim, mas sim, na nossa experiência é isso. Quando correu menos bem, nesta curta experiência que temos, a razão pela qual correu menos bem é porque nós não nos conhecíamos, na realidade. Partilhávamos um projeto artístico que achamos que era muito interessante, mas depois a gestão do projeto torna-se difícil quando realmente não temos essa proximidade com as pessoas e com aquilo que as move.

É um ótimo conselho. Olha, muito obrigado, foi um gosto ter-te aqui. Acho que deste conselhos super valiosos para todos nós e até breve. Obrigado.

Muito obrigado.

Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da formação e desenvolvimento. Estamos juntos, no mesmo palco.